O Absurdo Acordo Ortográfico

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A questão do chamado ‘acordo ortográfico’ consiste, essencialmente, no facto de ele ser uma completa inutilidade, que desfigura desnecessariamente o português escrito, em nome de um suposto objectivo cujo ponto de partida não passa do erro gerado por um entendimento absurdo do que faz divergir os diferentes usos da língua. […] O que foi feito […]

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Sotaque Brasileiro num Telejornal (da SIC) em Portugal

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A cadeia de televisão portuguesa SIC acabou de transmitir no telejornal nocturno do seu canal principal uma reportagem sobre uma hospedaria (Hostel em português) que recebeu um prémio internacional. Nada de estranho até aqui. A surpresa, para quem ainda tem um til de orgulho em ser português e respeito por Portugal, e não tema ser apelidado de racista, nacionalista, fascista, reaccionário, conservador, anti-globalista, anti-mundialista, anti-cosmopolita, anti-multiculturalista ou anti-interculturalista, estava reservada para o sotaque brasileiro do jornalista! Sotaque brasileiro num profissional a transmitir em directo (ou que fosse em indirecto) numa cadeia nacional de televisão?! Nada contra o Brasil, tudo por Portugal, que são os portugueses, o seu território e a sua cultura. Mas há que nos indignar. É uma afronta à identidade nacional, à sua cultura, à sua língua, a um dos bens mais preciosos da nação. É caso para dizer: se a SIC é portuguesa e quem não se indigna é português – eu quero ser espanhol, que tem mais orgulho e dignidade do que os nativos deste recanto da Europa.

Nótula Sobre o Absurdo do Acordo Ortográfico


Já ouvi diversos, mas todos absurdos, argumentos em defesa do Acordo Ortográfico. 
A simplificação da escrita tornará mais acessível a língua aos estrangeiros e, sobretudo, facilitará a aprendizagem da mesma às crianças. É preciso, todavia, dizer, que o castelhano tem uma ortografia das mais simples, em comparação com o inglês, com o francês, com o alemão, para já não falar das línguas não alfabéticas mas ideográficas, que não têm vinte e poucos caracteres mas centenas ou mesmo milhares. Ora, prova-se, com dados estatísticos, que a taxa de alfabetização dos países falantes dessas línguas tem a ver, não com a sua complexidade mas com a qualidade do seu sistema de ensino e com o seu poder económico e político. O inglês é a língua mais estudada no mundo.
O Acordo Ortográfico criou uma escrita mais natural, aproximada à fala. Esta tese é ainda mais descabelada. Toda a gente sabe – menos o Malaca Casteleiro – que os caracteres das línguas alfabéticas são totalmente convencionais, isto é, não há relação motivada entre um caracter escrito e um fonema. Escrevia-se ‘farmácia’ com ‘ph’, mas a sua substituição por ‘f’ não aproximou um cagalhésimo (apetece-me exprimir-me assim, nesta circunstância) do som articulado que constitui um elemento da fala. Aliás, os ingleses e os franceses, que, como sabemos, possuem idiomas primitivos, mantêm o ‘ph’.


Então porquê esta questiúncula em torno do Acordo Ortográfico, se tanto faz escrever duma maneira ou de outra? É que este Acordo faz surgir dois problemas sistemáticos. 
O primeiro problema reside no aparecimento da inconsistência na forma de indicação de palavras com a mesma raiz. Por exemplo a modificação do nome ‘Egito’ no seu adjectivo ‘egípcio’ faz reaparecer a letra ‘p’, quando, em coerência, deveria passar a escrever-se ‘egício’. 
O segundo problema consiste na perca de sinais gráficos indicadores (não importa se convencionais, porque todos o são) de regras de pronúncia, tornando mais difícil a aprendizagem e a conservação da dicção correcta (passaremos a escrever ‘dição’?). É o caso de ‘expectativa’, que passa a ‘expetativa’. Além de que é sabido que muita gente diz ‘expectável’ e ‘expectaste’ pronunciando a letra ‘c’, quando no Acordo Ortográfico ela não deve aparecer. O mesmo acontece com a substituição de ‘espectador’ por ‘espetador’. A consoante muda ‘c’ não é exactamente muda mas tem uma função fonética evidente. Mais escandaloso ainda é a supressão do acento agudo em ‘para’ do verbo ‘parar’, o eliminar do acento circunflexo de ‘pêlo’, ficando ‘pelo’, o que tem apenas a vantagem de poupar na tinta e a desvantagem de criar equívocos. Isto mostra como o Acordo Ortográfico não nos aproxima a escrita da fala.


E, já agora, por que os ingleses e os franceses não se querem livrar de letras inúteis, mesmo do ponto-de-vista da codificação fonética? Só pode haver um único motivo, se não for a preguiça. Eles sabem que a escrita não tem apenas uma função pragmática; ela tem um estética própria, diferenciada das outras, que dá uma certa roupagem à língua e define o estilo visual da mesma. Além disso, e este é um outro motivo de que agora me lembrei, sabem, e Malaca Casteleiro não, que a grafia está associada à génese de cada palavra, no nosso caso sobretudo ao latim.

Acordo Ortográfico – "Jornal de Angola" (Editorial)

 

 
 
Reproduzo aqui excertos de um belo editorial do Jornal de Angola:
 
“Escrevemos à nossa maneira, falamos com o nosso sotaque, desintegramos as regras à medida das nossas vivências, introduzimos no discurso as palavras que bebemos no leite das nossas Línguas Nacionais”, escreve o editorial, lembrando que “do ‘português tabeliónico’ aos nossos dias, milhões de seres humanos moldaram a língua em África, na Ásia, nas Américas”.
“Ninguém mais do que os jornalistas gostava que a Língua Portuguesa não tivesse acentos ou consoantes mudas. O nosso trabalho ficava muito facilitado se pudéssemos construir a mensagem informativa com base no português falado ou pronunciado. Mas se alguma vez isso acontecer, estamos a destruir essa preciosidade que herdámos inteira e sem mácula. Nestas coisas não pode haver facilidades e muito menos negócios. E também não podemos demagogicamente descer ao nível dos que não dominam correctamente o português”, escreve o jornal, sem papas na língua nem sem consoantes mudas, insistindo para que os mais sábios ensinem os que menos sabem. Para o “Jornal de Angola”, o português falado neste país, como nos outros que o falam, tem características específicas, “uma beleza única e uma riqueza inestimável”, que devem ser mantidas e acarinhadas, assim como tem o português do Alentejo ou o português da Bahia, que contribuem com a sua diversidade para o enriquecimento da língua através das suas variantes, no respeito pela matriz gramatical construída e aperfeiçoada por cada povo ao longo de séculos. “Todos devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP.” “Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras.”
 

 

Aliás, como nos podemos entender com o Acordo Ortográfico quando: Diz a al. c) do n.º 1 da Base IV do AO que o c, com valor de oclusiva velar [interrompidas momentaneamente pelo contacto da língua com o palato mole], das sequências interiores cc (segundo c com valor de sibilante), cç e ct, e o p das sequências interiores pc (c com valor de sibilante), pç e pt, se conservam ou eliminam “facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor; ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção.”? É que, numa pronúncia culta, tem sido até agora correcto pronunciar-se “sector” e “setor”, “ceptro” e “cetro”, “concepção” e “conceção”. Teremos então de adoptar doravante, não a ordem de eliminar tais consoantes mas de aceitar uma dupla ortografia. É o problema de se subordinar a grafia à fonética.
 
Para terminar, insto a que se informem, a fim de compreenderem melhor a origem deste Acordo inconsistente e incompetente, o conflito havido na Faculdade de Letras entre uns dos promotores do Acordo, Malaca Casteleiro, que tirou o doutoramento a ferros, e os já falecidos professores notáveis da mesma instituição, como Lindley Cintra, autor, com o brasileiro Celso Cunha, da gramática de referência para a língua portuguesa, e Lúcia Lepecki, brasileira também esta, sábios da língua portuguesa.

Efeitos Climáticos e a Evaporação da Língua Portuguesa

 

Num comentário a uma notícia de hoje sobre a seca em Portugal e a responsabilidade do “aquecimento global”, isto é, das “alterações climáticas” (por que lhe mudaram o nome?), um comentador, com cujas ideias ambientalistas até concordo, escreveu esta pérola digna de ter sido dita por um dos personagens cosmopolitas e vernaculares de O Nome da Rosa de Umberto Eco, que, pelos vistos, voltaram a estar na moda, agora que, por um processo inverso ao da Idade Média, que originou as línguas nacionais, as línguas nacionais são, para grande parte das pessoas, empecilhos ao avanço do inglês como novo latim do mundo:
“Basta ler os assessments do IPCC para saber que essas previsões a posteriori não passam de revisionismo estalinista.” Esta frase não faz sentido, é uma algaraviada. Como é possível misturar línguas diferentes sem necessidade a não ser por provincianismo? 
O que tem Estaline a ver com a confusão entre climatologia e ambiente, a não ser mostrar serviço de anticomunismo, e mesmo assim de maneira coxa? Estaline está vivo, não morreu, estava convencido de que havia aquecimento global antropogénico, estava preocupado com o seu efeito nos campos do Gulag
O que tem a ver o revisionismo político (de Estaline?!) com a manipulação de dados climatológicos? Olhe, se quer ser levado a sério, escreva de forma séria.
Isto, aliás, só tem graça por ser um caso pequenino. Mas o que dizer desta notícia? ”História da Ciência na Universidade de Coimbra“: BERNARDETTE BENSAUDE-VICENT |Université Paris – X 15 de Fevereiro | 17H00 “The New Identity of Chemistry as Nanoscience” Conferência em inglês sem tradução.
Onde estão os gauleses? Asterix morreu definitivamente? Os romanos já se foram. Mas estão cá os yankies!

"Aumente Meu Pênis" – Publicidade Contra-Natura ou Novo Produto?

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Não é apenas o caso de ter de pagar para o fazer mas de ter de pagar para saber como fazer. Ou de conseguir fazer-se pagar por uma necessidade que se tem? De se repartir para se ser? Ou de se transformar a necessidade própria, que não a alheia, num negócio, quando o que o capitalismo faz é o contrário? É bem verdade que já não estamos na fase do capitalismo “pós-industrial”, mas também já não estamos na fase de capitalismo “de consumo”. Já nem sequer estamos no capitalismo: estamos numa sociedade na qual as necessidades são, como deveriam ser, pagas só pelo facto de elas existirem. Pois que, sem elas, como poderia haver felicidade? Ou tormento, para os teólogos.

PS: Afinal a língua brasileira também tem pronomes reflexivos e oblíquos e os brasileiros também sabem usar pronomes reflexivos e oblíquos. Não é falta de inteligência. Muitos é que são preguiçosos. Além do mais, por que tem esse “meu” assento circunflexo? Não é para haver acordo ortográfico?

"Mídia" – A Volta ao Mundo de uma Palavra ou do Brasileirismo

 

 
 
“Mídia”: é um brasileirismo (a pecha dos amigos do outro lado do mar que se baseiam mais na oralidade do que na gramática e na etimologia, ou seja, na erudição) que ortografou a pronúncia anglo-americana de “media”, palavra usada e assim pronunciada em português mas que é uma palavra do latim, raiz da língua portuguesa e que, portanto, em alternativa ao anglicismo brasileiro, deve manter a sua grafia original (ou aportuguesada para “média”). A palavra deu a volta ao mundo, foi corrompida e nós passamos a acreditar que tem origem anglo-americana. Falará pouco, como tanto faltou ao erro de Colombo, para que em Roma se escreva também “mídia”, em homenagem ao grande descobridor? Se a pisa é americana! Se o inglês é o latim dos nossos dias! Se o segredo de Colombo é um ovo! Confuso? Como sempre que há muita informação e pouco conhecimento.