A gente da cultura: Trump e Obama.

A intelligentsia norte-americana está em guerra aberta com Trump. Na Europa, alguns classificam essa intelligentsia, escritores, artistas das artes visuais, teatro e cinema, músicos, como de esquerda, sabendo bem de mais que a grande maioria são liberais com muito pouco de esquerda. Fazem bem em invectivarem Trump um reacionário proto-fascista, com tiques de caudilho […]

via A Intelligentsia nos seus labirintos — Praça do Bocage

Mário Dionísio No Centenário do seu Nascimento

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Urgente a reedição de A Paleta e o Mundo, uma das obras maiores da Teoria da Arte, não só em Portugal mas no mundo. Excelente contista e poeta, a sua contribuição para uma teoria marxista das artes, e não para um uso propagandístico das mesmas (tal só cabe à vontade do artista, quando quer involuntariamente dar cabo da propaganda das ideias que defende), mau pintor (o seu abstraccionismo é sem originalidade, estático, justaposto, caricatural, sem profundidade de sentidos), é superior, pelo seu antidogmatismo, e mais marxista (e científica, objectiva), do que a de muitos outros pensadores da arte que, sendo eles próprios caricaturas, se acreditam marxistas. É que mostrar, e exprimir sem teorizar, as contradições objectivas da realidade, e o seus efeitos subjectivos retroactivos, eventualmente junto com o processo de formação das ideias e das acções a partir delas, respeitando a complexidade do mundo, é, além do resto, mais verdadeiro, do que evidentemente fazer o disparate de (para usar um conjunto de expressões que se podem dirigir a um certo grupo de indivíduos cuja nobre militância, sobretudo política, pelo progresso é prejudicada pelo seu entendimento pouco dialéctico) esquematizar, simplificar, idealizar pessoas e práticas, esconder as próprias contradições das lutas sociais e os escolhos ou labirintos do futuro. A bem dizer, esta pobreza é mais teórica do que criativa, é mais uma forma de propaganda do que uma demonstração artística, apesar de terem existido artistas, medíocres, que seguiram os seus princípios e ditames. Entre os escritores, nem Alves Redol nem Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, José Saramago, etc. (o caso dos artistas plásticos é também uma questão de talento e de mediocridade, não de falta de jeito mas de pensamento numa certa forma de juízo de gosto), podem ser tidos por escrevinhadores de ideias feitas, que meteram a realidade no leito de Procustes e a distorceram para a transfigurar numa representação trágica da dialéctica de forças materiais idealizadas em movimentos homogéneos e personificadas em heróis e vilões. Isso fica, ironicamente, para a literatura anticomunista e para a banda-desenhada americana, sobretudo a da Marvel.

 

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O MAAT e a Obra-de-Arte “Utopia e Distopia”

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A obra de arte inaugural do MAAT (edifício interessante, inacabado e a precisar que se olhe para alguns defeitos visíveis e desagradáveis nos acabamentos) é uma obra mestra dos nossos tempos: a representação indirecta e algo enigmática ou metafórica e alegórica de uma situação paradoxal ou até crítica através de objectos abstraídos do quotidiano, anódinos e circunspectos ou então de todo disfuncionais. Alguns mostram-se distanciados e lacónicos, por não haver neles uma relação evidente de semelhança ou de analogia lógica entre os mesmos e o sentido ou a realidade representada. A obra como se afasta e afasta o espectador que, ou se sente ultrajado ou, para ficar de bem com a sua vaidade, a admira pela sua capacidade de fugir a qualquer definição, como compete a qualquer expressão simbólica da liberdade verdadeiramente livre e de um estatuto social e intelectual superior. Outros objectos, como é o caso desta exposição, são construídos para serem meio de festa na qual os espectadores deixam de o ser e passam ao papel de participantes, de elementos vivos da obra-de-arte. Nada de novo na moda artística e nada de mal na forma e na ideia geral. Há décadas que tal é realizado. Há um jardim infantil que é visto de cima e que pode ser usado pelas crianças, estando separado do meio exterior como se fosse uma jaula gigante. A ideia é pôr os espectadores exteriores a contemplar seres humanos, que todavia nos são estranhos e estão isolados de nós, como eles do mundo que nos pertence e que não estão habilitados a frequentar. A imagem remete em simultâneo, numa multissignificância interligada, para a arbitrariedade das fronteiras políticas, para o problema dos refugiados e para o absurdo da categorização fragmentadora da Humanidade, para o contrário do universalismo. O cosmopolitismo e a mundialização, assim como o capitalismo – realizações e metas da mais alta humanidade -, estão subentendidos como valores positivos sem sombras ocultas. A palavra da moda, distopia, significa, em oposição à utopia, mas como verso preconceituosamente verdadeiro dela, uma sociedade opressiva, de desespero e privação dos valores que caracterizam uma existência realizada (regime comunista, por suposto, e ainda ameaçador para o dito modo de vida ocidental, de que as forças armadas americanas são as guardiãs).

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O problema artístico começa agora. Mas não é um problema real: trata-se antes de pôr em prática uma distensão propositada. É tudo, para aquele que vem de um mundo já morto, demasiado agradável e recreativo. A festa e o divertimento tomam conta do espaço e do ânimo, as cores e o movimento são o de uma festa de anos de crianças, na qual os pais participam. Não há sinal de qualquer tipo de perturbação moral. Todos de lá saem satisfeitos e até se interrogam se aquilo é uma obra de arte ou um jardim infantil. A obra-de-arte garante a sua elevação pelo tema sério que aborda, cujo fito é o de contribuir para um episódio ritualizado e farisaico de boa consciência, e de se integrar no sistema de comércio institucional de arte ao também, neste caso, diluir qualquer eventual exaltação crítica ou meditação concentrada, mesmo que hipócrita, consistente com o tema, no aspecto lúdico do evento.

É boa uma arte assim.

Rui Chafes – (Excerto) Discurso (Notável) de Cerimónia de Recepção do Prémio Pessoa: “O que move o mundo são as forças, não são as formas nem os objetos” – Expresso (27-04-2016)

 

 

“Não sei se mereço este Prémio, provavelmente nunca o saberei. Provavelmente, nunca ninguém o saberá. Olhando para a lista de personalidades premiadas (criadores, investigadores, pensadores das várias áreas das Ciências e Humanidades que já tanto deram ao País e ao Mundo) e olhando para a notável lista de pessoas que constituem o Júri do Prémio Pessoa, não tenho a certeza de estar à altura da importância dos nomes que me antecedem nem das expectativas que o meu trabalho continuará a criar mas, obviamente, só me posso sentir feliz, extremamente honrado e até emocionado. 
O Prémio Pessoa é um gesto de uma enorme grandeza e generosidade da parte do Grupo Impresa / Expresso e da parte da Caixa Geral de Depósitos, que o patrocina, e tem sido e será sempre uma iniciativa de referência no nosso País pela seriedade e imparcialidade que norteia o seu percurso e método. Por tudo isso, não tenho dúvidas que todos estamos profundamente agradecidos. A sua regularidade que, felizmente, tem sido possível manter financeiramente, pontua a nossa vida cultural a um ritmo anual que, inegavelmente, nos vai dando referências e orientando na esperança de um mundo onde não existam apenas pessoas transformadas em peças de máquinas, regidas pelas regras pragmáticas e destruidoras da economia e dos números. O Prémio Pessoa constitui um alerta para que não desistamos do mundo espiritual, do conhecimento, da criatividade, do pensamento: um apelo para que recusemos a possibilidade de uma sociedade apenas material, sem cultura e sem memória.
 
Este é também um prémio a toda a comunidade artística pois distingue, dignifica e dá voz a uma parte da nossa sociedade que vive sempre no fio da navalha, na maior incerteza e insegurança, pagando com a alma o preço da sua liberdade. Se, por um lado, há actividades artísticas que podem criar um mercado com bens transacionáveis (tal como as artes plásticas) existem outras que, pela sua natureza intrínseca não lucrativa (como o teatro, o cinema, a música ou a dança, por exemplo), têm uma capacidade de sobrevivência extremamente frágil e precária e precisam absolutamente de apoio financeiro para sobreviverem. Por essa razão, e no contexto do período que atravessamos em que quase todos os sectores da economia se encontram bastante fragilizados, uma iniciativa como esta do Grupo Impresa / Expresso e da Caixa Geral de Depósitos é absolutamente louvável e deveria servir de exemplo a outras entidades privadas e públicas, no sentido de fortalecer as políticas culturais e dessa forma garantir a sobrevivência daquilo que um povo tem de mais precioso: a sua cultura, a sua memória e a sua capacidade de criar futuro a partir do seu sedimento mais íntimo e único. No fundo, a sua identidade.
Este prémio, sem dúvida, chama a atenção para a existência da arte no mundo, dos artistas, do seu trabalho, da vida estranha e arriscada que levam em nome da capacidade de fazer perguntas (e não dar respostas). Os artistas trazem ao Mundo a luz e a sombra, a perfeição, o conhecimento, a memória, a beleza, o silêncio, a inquietação e a dúvida, fazendo coisas absolutamente inúteis mas que nos fazem pensar e questionar a nossa condição e o nosso destino, aproximando-nos daquilo a que chamamos “vida” e “existir”. Ao colocar questões sobre o que é essencial, os artistas mostram-nos que o valor imaterial das coisas realmente importantes é muito superior ao seu valor material: em todas as acções humanas o mais importante é o imaterial, não é nunca o material. Pessoalmente, tive a sorte de ter sido educado a não dar demasiada importância aos bens materiais, a vida é muito mais do que isso, é outra coisa mais elevada e maior. O que move o mundo são as forças, não são as formas nem os objectos.
O meu percurso tem-me mostrado que sou uma pessoa de sorte. Na verdade, é uma enorme sorte poder realizar o trabalho que mais amamos, ao longo de tantos anos, construindo o único sonho que conseguimos sonhar, e ele ter algum tipo de significado e suscitar o interesse e o reconhecimento de uma comunidade. Receber este prémio fez-me, mais uma vez, meditar sobre o papel dos artistas na sociedade: acredito que o artista exprime o instinto espiritual da humanidade, traduz a tensão do homem em relação ao eterno ou a uma qualquer forma de transcendência. A arte transporta em si uma nostalgia do ideal e exprime sempre a sua procura. O artista, no seu movimento para o Ideal, perturba a estabilidade de uma sociedade. A sociedade aspira à estabilidade, o artista aspira ao infinito. É esta a responsabilidade do artista e o sacrifício espiritual que lhe é exigido: com a sua consciência e a sua rigorosa demanda da momentânea verdade absoluta, ele vê as coisas antes dos outros e oferece-as ao Mundo mesmo se, por vezes, possam parecer apenas feridas abertas e vulneráveis. A arte coloca dúvidas, instaura perturbações. Ela é a consciência da memória e da estrutura emocional de um espaço. Nesta posição de imensa responsabilidade, o artista tem obrigatoriamente de possuir uma extrema e escrupulosa ética no seu trabalho.
Este Prémio coloca sempre, também, um nome no “espaço público”. Quanto a essa situação delicada, devo dizer que sempre preferi o anonimato. Admiro os artistas geniais que esculpiram as catedrais Góticas, sem que conheçamos nada deles a não ser aquelas mudas presenças, rastos deixados pela sua passagem na Terra. Gosto do anonimato, de ser um cidadão comum, discreto, um cidadão que ninguém conhece e que é tratado como todos os outros, com o respeito e dignidade que todos nós merecemos, independentemente da nossa maior ou menor notoriedade. Talvez o meu sonho esteja próximo de Fernando Pessoa quando diz que se deve atravessar a vida como um pássaro atravessa o céu, sem deixar rasto.
 
Relativamente à questão da pessoa do artista e da sua relação com a sua obra, gostaria de deixar claro que nunca me interessou a self-expression, não tenho nada de pessoal a dizer ou a exprimir no meu trabalho, nenhuma mensagem a transmitir: é uma arte para nada. Também não me interessa a arte “autobiográfica”, desconfio muito e sou bastante alérgico a obras de arte que falam dos problemas pessoais do artista e da sua vida, não considero a arte uma expressão pessoal. Fernando Pessoa levou uma vida discreta e quase modesta e a sua biografia não se revela na sua obra. A sua vida pública era mínima, queria ser como qualquer outro e “ir até ao rio, fitar o rio, como qualquer outro”. Alberto Caeiro diz que só quer saber de si próprio reflectido nos olhos dos outros. A sua vida foi dedicada a criar uma imensa obra, sem princípio nem fim, das mais complexas que Portugal já possuiu. Há pessoas que nascem assim, que transportam um mundo gigantesco dentro de si e que dedicam a sua vida a revelá-lo. Essa obra é a sua única biografia, a única que interessa.
Os poetas inventam máscaras pelas quais nos podem falar e nos contar melhor a mentira da arte (como queria Oscar Wilde) ou “fingir melhor a dor que deveras sentem”. Sempre acreditei na necessidade dessa distância entre a pessoa e a persona, entre o indivíduo e o artista. Sempre separei a arte da vida, o universal do particular: arte é arte, tudo o resto é tudo o resto. A educação que tive a felicidade de ter recebido ensinou-me a não concentrar demasiada atenção em mim próprio mas sim no mundo em redor, numa coisa muito maior e mais universal do que apenas a minha pessoa; por isso, no meu trabalho, procuro sempre falar de valores maiores do que a minha pobre individualidade. Os artistas que me interessam falam sempre de uma voz muito mais ampla no tempo e no espaço, uma voz que vem de muito longe. Falam do medo, da morte, do mundo, mas não é o “seu” medo, nem a “sua” morte.
Interessa-me uma arte que resista à interpretação e ao simbolismo, uma arte que nunca deixe de ser uma proposição poética. Não é só o que se vê, é sobretudo o que não se vê. Está lá tudo, atrás e dentro de nós, o visível e o invisível… e o Vazio, que é tudo o que temos. Uma obra de arte está sempre incompleta, estará sempre à nossa espera: são os nossos olhos que a completam, são os nossos olhos que formam e moldam as imagens. As obras realizam-se nos olhos de quem as vê, não apenas nas mãos de quem as faz. Ver uma obra de arte dá trabalho (ao contrário da passividade de ver televisão). Somos nós que construímos uma obra de arte, que lhe damos sentido e forma. Para além do trabalho do artista, é o nosso trabalho e esforço que constrói uma obra de arte. Ver e receber uma obra também é um trabalho.
Percorro um caminho entre a sombra e a luz onde tento que as formas e as palavras se revelem em toda a sua força poética, onde as sombras se construam em ferro e vento, procurando o assombro no meio da serenidade, do silêncio, da solidão (sempre boa companheira), do mistério de cada revelação, de uma certa forma de beleza. A beleza poderá estar em qualquer lado e nós, às vezes, reconhecemo-la quando a vemos (mas só quando estamos preparados para a receber e reconhecer). O problema é vivermos num tempo de distração e de multiplicação de velocidades, um tempo de impaciência e de busca do imediato, um tempo onde não há tempo para ter revelações; na verdade, um tempo sem tempo para o tempo. Por isso me aproximo de um trabalho lento, de uma linguagem da lentidão, procuro parar o tempo e ouvir o silêncio do mundo. Só assim poderei avançar e só assim poderei estar preparado para ter as revelações que me irão mostrar o caminho e o próximo passo a dar. Será sempre um passo em direcção à morte, mas a morte é a continuação da vida, assim como a vida é a continuação da morte. A morte é a fonte da vida, quer queiramos quer não. Nas obras de arte, a morte converte-se em vida e é por isso que elas sobrevivem ao seu criador.
Como não acredito numa arte fácil, escorregadia e apressada, não me interessa pertencer a este tempo onde se valorizam brilhantes e coloridos despojos de uma irreparável perda e confusão. Não quero que o meu trabalho faça parte desta vertigem de ignorância e consumismo, desta dessacralização do mundo e do milagre da vida. Não se trata de alheamento do tempo presente: é por estar bastante informado sobre este tempo que me coube viver que não quero ser refém dele. Acredito, como os Antigos, que deve haver um significado único e superior por detrás de cada erva, flor, nuvem que passa ou criança que nasce. Não há dúvida que é necessário recriar e renovar essa nostalgia, tornando-a contemporânea, sob risco de perdermos para sempre todos os valores que nos trouxeram a este mundo e o tornam carregado de significado. Para mim, a arte deve ser o espelho dessa íntima relação, desse encantamento, dessa magia. Estou farto da lógica horizontal que nos impõe um olhar conformado sobre a banalização do mundo. Caberá aos artistas (e aos poetas, escritores, pensadores etc.) resistir à ignorância e criar torres compactas de conhecimento, poesia e grandeza espiritual. A arte não pode ser um lugar para onde fugir mas, sim, um lugar onde entrar em contacto connosco mesmos. Não é um espaço estéril nem puro, é um espaço carregado de emoções, que lhe dão todo o sentido, e é um espaço onde podemos confrontar-nos com o nosso próprio vazio.
A arte será sempre uma linguagem do Vazio. O Vazio pode ser, ao mesmo tempo, o inferno mais estéril ou o único campo possível onde poderemos depositar uma forma, uma cor, uma palavra, um som, pouco mais. Esse vazio só poderá ser preenchido com a verdade e a beleza. Ou com o inevitável desespero dos textos de Samuel Beckett, que passou uma vida inteira a escrever “textos para nada”.
Não podemos esquecer que o caminho da arte passa também pela lógica irracional do mito e, sem dúvida, pelo sentimento religioso que sempre esteve por detrás do fenómeno artístico, desde sempre, em todos os lugares ao longo da História da Arte, desde as pinturas e esculturas rupestres, às danças rituais ou às catedrais góticas. Vejo a arte como uma construção sem fim e acredito nela como uma questão de fé, não estritamente no sentido místico ou religioso, mas como crença no valor das imagens enquanto chaves de conhecimento, milagre e revelação no espectador. Falo da fé no poder da arte como salvação em tempos de catástrofe, como contraponto espiritual para a salvação do homem. Acredito no poder redentor da arte mas, por vezes, nem a arte nem Deus têm esse poder para salvar o homem.
Existe uma imagem reveladora, no “Andrej Rubliov” de Tarkowsky, que nunca me abandona e que me tem ajudado a criar o sentido que preciso para continuar a caminhar e a acreditar: trata-se da realização de um sino por um rapaz, órfão de um sineiro, que diz ser, também ele, possuidor do segredo da sua construção. Ele está sozinho e, na verdade, o seu Pai nunca o ensinou, mas isso ele não pode confessar. Vai avançando com medo e coragem, pânico e confiança. No final, quando contra todas as probabilidades, o sino toca, está exausto e desmancha-se a chorar: só ele sabe que a construção do sino foi toda uma aventura no desconhecido e na incógnita, tendo como companheiros todos os que nele acreditaram e alguma sorte. E é nesse momento que Andrej Rublev quebra o seu voto de silêncio e o convida a trabalhar com ele, encontrou o artista: juntos serão capazes de construir Catedrais.
Tal como este rapaz do filme, o artista é o mestre ignorante, diz que é possuidor de um segredo mas não o sabe nominar nem ensinar. Será um iluminado? Será uma fraude, um vigarista? Afirma a todos e contra todos que sabe fazer uma coisa, envolve todos os meios, desesperadamente, mas só ele sabe que ninguém lhe passou esse segredo, é ele que o está a descobrir sozinho. Não conheço metáfora mais bela da arte e do artista.
Com este prémio se premeiam em mim, então, todos aqueles que, como eu, perseguem a poesia, o vazio e a beleza impossível.
Quero, por fim, agradecer a todas as pessoas que me têm ajudado, ao longo destes anos, a pensar e a construir uma obra, pois sem o seu trabalho e o seu contributo, nada disto seria possível. Agradeço a todos os meus colegas artistas (VIVOS E MORTOS) que tanto me ensinaram e me abriram portas com o seu trabalho, a sua obra, o seu pensamento, o seu exemplo e a sua coragem; agradeço aos galeristas, colecionadores, curadores, Directores de Museus e Instituições, pois todos eles me têm permitido viver e continuar a trabalhar neste meu sonho; agradeço especialmente a todas as pessoas que têm trabalhado directamente comigo, todas as equipas técnicas e industriais, aqui representadas pelo Sr. Carlos Venâncio, pois sem eles e sem o seu conhecimento, competência e dedicação, nada disto seria possível existir; agradeço a todos os fotógrafos, sobretudo ao meu amigo Alcino Gonçalves, aqui presente, que têm contribuído, com todo o seu saber e paciência para criar uma imagem daquilo que é impossível fotografar; agradeço a todos os editores, gráficos e livreiros, especialmente ao Manuel Rosa, também aqui presente, pois são eles quem, com o seu amor e o seu trabalho, continuam a transportar e a preservar a chama dos livros que não podemos deixar desaparecer; agradeço a todos os que têm pensado, falado e escrito sobre o meu trabalho (sejam críticos, jornalistas, poetas ou ensaístas) pois, dessa forma, para além de honrarem a minha obra, me têm ajudado a crescer e a questionar-me sobre mim próprio e o que tento fazer porque, na verdade, não existe arte sem pensamento; agradeço aos meus Amigos que me ajudam a caminhar perto dos abismos e à minha Família que sempre me apoiou e incentivou e me enche os dias de Beleza. Agradecerei sempre aos meus Pais por me terem criado todas as condições espirituais e materiais para eu trabalhar e, dessa maneira, me terem ajudado a ser livre e a seguir o caminho do meu sonho com coragem e determinação.
Como se conclui, não vivemos sós, existimos porque os outros existem”.

Matrix, o Filme: Mitologia Contemporânea e Mistificação Ontológica



O irracionalismo (a mitologia contemporânea) redobram-se:
a) a mistificação da Nova Ordem Mundial na forma duma teoria de conspiração pelo poder maçónico-judaico dos Illuminati (
sociedade secreta de mações que comanda os movimentos e agentes políticos mais importantes manobrando para impor uma Nova Ordem Mundial) como maneira de desviar a atenção dos indignados e ofendidos para a luta contra forças políticas e económicas fantasiosas, contra moinhos-de-vento;
b) a confusão entre clima e ambiente mediatizada pelo oportunista Al Gore, que enriqueceu com plantações de tabaco e outras matérias-primas energéticas, e usada para dar alento aos negócios dos créditos de carbono, à energias ditas renováveis, à energia atómica e para atacar o desenvolvimento dos países em vias de tal, fazendo esquecer que os Estados Unidos poluem ‘per capita’ duas vezes mais do que a Europa, quatro vezes mais do que a China e oito vezes mais do que a Índia;
c) as ficções de massas catastrofistas e de alienação como o celebrado filme Matrix, subliminarmente associado ao pânico da Nova Ordem Mundial, e mais expressamente ao dualismo maniqueísta mente-corpo, ao complexo messiânico do ‘cowboy’, temperado com lutas de ‘kung-fu’ e consumo bioenergético-humano pelos computadores, e a uma ideia abstracta e sublimada de alienação, que nada tem a ver com a alienação real.
A Alegoria da Caverna, que Matrix pretende actualizar, como se fosse preciso, é suficientemente simbólica para representar toda e qualquer ilusão efectiva, como Platão o fez quanto à política e à educação no contexto em que inseriu a alegoria. A ilusão  da Alegoria da Caverna não é uma instância ontológica ou um efeito de uma realidade acima da nossa – é uma alegoria, uma espécie de metáfora – mas uma alienação da realidade concreta da vida que temos, produzida pelas circunstâncias da nossa existência real e não por máquinas de características mitológicas e antropomórficas que tomaram conta de nós. O «génio maligno» de Descartes não é um personagem real, ou uma máquina mítica, que se entretém a fazer-nos partidas mas a personificação irónica das nossas fragilidades cognitivas.
Há quem também veja no Matrix uma alegoria mas essa interpretação não colhe: não há nele nem humor nem ironia, não há um distanciamento entre a narrativa e a realidade sobre a qual se relacionaria à maneira de uma metáfora. O que há é apenas a representação de uma crença na possibilidade dos computadores puderem autonomizar-se e tiranizar os homens, dando vazão à sua vontade de poder. É a exploração do medo irracional da tecnologia ser capaz de se tornar humana e escravizar o seu criador, caricaturando e compreendendo de maneira errada a rábula do aprendiz de feiticeiro. A história de filme não é para ser entendida como uma ficção que se deve tomar por tal, como uma metáfora da alienação do homem por si próprio, alienação que é o efeito de auto-ilusão no seu processo real de vida, feito de contradições económicas e de classe, tecnológicas, psicofisiológicas, psicológicas,  axiológicas e ideológicas.   

Matrix, no seu enredo rebuscado e mistificado, limita-se ao que fizeram tantos filmes de Hollywood, a inventar um papão impossível mas credenciado pelo arcaísmo dos fantasmas antropomórficos que desviam os homens dos seus verdadeiros problemas, em suma, a meter medo, pelo menos enquanto se está na sala de cinema. E não só é uma expressão da visão individualista do herói solitário redentor, de um messias enunciado por um profeta, iluminado por um ser que transcende as capacidades ficcionais do sistema e que é portador de um poder especial, pelo qual devemos esperar, como também insinua a ideia de que quem luta contra o sistema é parte dele, elemento do algoritmo que produz as suas próprias anomalias, como um esquema de antecipação de erros que guia o seu auto-aperfeiçoamento e replica o efeito de ilusão, produz a fantasia de que o sistema é revolucionável, mas que logo é reintegrado.     
Matrix é, assim, ao invés da Alegoria da Caverna de Platão, um novo instrumento de mistificação, uma tela projectada na Caverna, que não é onde nos puseram mas que criámos na forma de um reflexo imaginário da realidade – sala escura onde entretemos muito felizes os nossos fantasmas, aqueles de que cuidamos para, de vez em quando, numa tela projectada por nós, num processo algo psicanalítico de transferência, nos afastarem das preocupações reais e da procura das soluções efectivas para as mesmas.

E há livros e artigos de filósofos intitulados, assim como aulas, que encontram valor num veículo de pseudo-filosofia pronta-a-usar! 
 
 

“Matrix” revisitado: por que Jean Baudrillard não gostou do filme?

“’Matrix’ é certamente o tipo de filme sobre a matriz que a matriz teria sido capaz de produzir”, afirmou de forma mordaz o pensador francês Jean Baudrillard em uma das raras entrevistas sobre o filme dos irmãos Wachowski. Além dos irmãos terem se inspirado no livro “Simulacros e Simulações” do francês para o argumento de “Matrix”, convidaram-no para assessorar a continuação da trilogia. Baudrillard prontamente declinou do convite passando a raramente opinar sobre a relação do filme com seus conceitos filosóficos. Em uma das poucas entrevistas sobre o filme concedida ao “Le Nouvel Observateur” em 2003, Baudrillard criticou a ausência de ironia em “Matrix” e de ter tomado os princípios de “simulacro” e “simulação” a partir das categorias da realidade.
Certamente o filme “Matrix” tornou-se um clássico, não tanto pelas suas virtudes cinematográficas (na verdade, um típico blockbuster com todas as convenções do gênero), mas por ter se tornado uma síntese dos temas explorados em filmes como “Show de Truman”, “O Décimo Terceiro Andar”, “Ed TV” etc.: as crises decorrentes do apagamento das fronteiras entre o real e o virtual. Embora o filme faça uma alusão ao pensador francês Baudrillard, nas poucas entrevistas concedidas sobre “Matrix” ele demonstrou a estranheza de ver um conceito filosófico transposto para a realidade com muitos efeitos especiais. Para ele, o filme foi equivocado em aproximar o tema da noção do Mito da Caverna de Platão, além de conceber a simulação da matriz a partir das categorias da realidade.
Na entrevista que transcrevemos abaixo concedida ao Le Nouvel Observateur, Baudrillard afirma que o equívoco de Matrix foi retirar a ambiguidade do choque entre o virtual e o real e conceber a Matriz como uma tecnologia de onde é retirado o perigo e o negativo. Uma narrativa esquemática onde o deserto do real (sujo, decadente e perigoso) é substituído por uma tecnologia maquiavelicamente precisa, onde até as anomalias e revoltas já estariam previstas nas equações. Em outras palavras, sob a aparente crítica “Matrix” representaria um sintoma do fascínio cultural pelas tecnologias computacionais.

 
A HIPÓTESE DO SIMULACRO MERECIA MUITO MAIS DO QUE TORNAR-SE REAL
Aude Lancelin – 25/06/2003
 
Le Nouvel Observateur: Suas reflexões sobre a realidade e o virtual são algumas das principais referências usadas pelos criadores de “Matrix”. O primeiro episódio explicitamente faz alusão a você quando o espectador claramente vê a capa de seu livro “Simulacros e Simulações”. Você ficou surpreso com isso?
 
Os irmãos Wachowski















Jean Baudrillard:Certamente houve erros de interpretação, o que seja por isso que tenho sido hesitante até agora para falar sobre o filme “Matrix”. A equipe dos irmãos Wachowski contatou-me em vários momentos após o lançamento do primeiro episódio, a fim de me envolver com os seguintes, mas isso realmente não era concebível (risos). Basicamente, um mal-entendido semelhante ocorreu em 1980, quando um grupo de artistas de Nova York chamado “Simulacionistas”[1] me contatou. Eles tomaram a hipótese do virtual como um fato irrefutável e transformouo-a em um fantasma visível. Mas é precisamente isso, o fato de não podermos utilizar categorias do real a fim de discutir as características do virtual.
 
Nouvel Observateur: A conexão entre o filme e a sua visão desenvolvida, por exemplo, no livro “O Crime Perfeito”, é, no entanto, bastante impressionante. Ao evocar um deserto do real, esses humanos totalmente virtualizados e espectrais não são mais do que a reserva energética de objetos de pensamento ….
 
Jean Baudrillard: Sim, mas já houve outros filmes que tratam a indistinção crescente entre o real e o virtual: “Show de Truman”, “Minority Report”, ou mesmo “Mulholland Drive”, a obra-prima de David Lynch. O valor de “Matrix” é, principalmente, o de ser uma síntese de tudo isso. Mas a narrativa é muito crua e não verdadeiramente evoca o problema. Os personagens ou estão na matriz, isto é, no sistema digitalizado de coisas, ou estão radicalmente fora dele, tal como em Sião, a cidade da resistência. Mas seria interessante mostrar o que acontece quando esses dois mundos colidem. A parte mais constrangedora do filme é que o novo problema colocado pela simulação é confundido com o tratamento clássico platônico. Esta é uma falha grave. A ilusão radical do mundo é um problema enfrentado por todas as grandes culturas e que é resolvido através da arte e simbolização. O que nós inventamos a fim de dar conta desse mal estar é um real simulado, que doravante suplantará o real como a sua solução final, um universo virtual do qual tudo o que é perigoso e negativo foi expulso. E “Matrix” é, inegavelmente, parte disso. Tudo que pertence à ordem do sonho, utopia e ilusão é dada uma forma concreta, é realizado.” Estamos na transparência sem cortes. “Matrix” é certamente o tipo de filme sobre a matriz que a matriz teria sido capaz de produzir.
 
Nouvel Observateur: É também um filme que pretende denunciar alienação tecnicista e, ao mesmo tempo, demonstra inteiramente o fascínio exercido pelo universo digital e das imagens geradas por computador.
 
Para Baudrillard é notável a ausência de ironia
que permita aos espectadores irem
para além dos efeitos especiais
Jean Baudrillard: O que é notável sobre “Matrix Reloaded” é a ausência de um lampejo de ironia que permita aos telespectadores transformar este gigantesco efeito especial em sua cabeça. Não há uma seqüência que seja o “punctum”, sobre qual Roland Barthes escreveu, esta marca impressionante que lhe traz cara-a-cara com uma imagem verdadeira. Além disso, isso é o que torna o filme um sintoma revelador do fetiche real em torno deste universo de tecnologias de tela no qual não há mais distinção entre o real e o imaginário. Podemos considerar “Matrix” um objeto extravagante, ao mesmo tempo sincero e perverso, onde não há nem um aqui nem lá. O pseudo-Freud que fala na conclusão do filme coloca muito bem: em um determinado momento nós reprogramamos a matriz a fim de integrar anomalias na equação. E você e as resistências seria uma parte delas. Dessa maneira estamos, ao que parece, dentro de um circuito virtual total sem um exterior. Aqui, novamente estou em desacordo teórico (risos). “Matrix” pinta a imagem de uma superpotência monopolista, como vemos hoje, e então colabora em sua refração. Basicamente, a sua difusão em escala mundial é conivente com o próprio filme. Sobre este ponto, vale a pena lembrar Marshall McLuhan: o meio é a mensagem. A mensagem de “Matrix” é a sua própria difusão por meio de uma contaminação incontrolável.
 
Nouvel Observateur: É um pouco chocante ver que, doravante, todos os sucessos de marketing norte-americanos, de “Matrix” ao novo álbum de Madonna, são apresentados como críticas ao sistema que maciçamente os promove.
 
Jean Baudrillard: Isso é exatamente o que faz com que nosso tempo seja tão opressivo. O sistema produz uma negatividade em trompe-l’oeil, que é integrado em produtos do espetáculo, assim como a obsolescência é construído em produtos industriais. É a forma mais eficiente de incorporação de todas as alternativas genuínas. Não há um ponto Omega mais externo ou meios disponíveis antagônicos para analisar o mundo. Não há nada mais do que uma adesão fascinada. Deve-se entender, no entanto, que quanto mais se aproxima de um sistema de perfeição mais nos aproximamos do acidente total. É uma forma de ironia objetivo estipulando que nada aconteceu. O 11 de setembro foi um exemplo disso. O terrorismo não é um poder alternativo, não é nada, exceto a metáfora deste retorno quase suicida do poder ocidental sobre si mesmo. Isso foi o que eu disse na época e foi amplamente criticado. Não se trata de ser niilista ou pessimista em face de tudo isso. O sistema, o virtual, a matriz – tudo isso talvez retorne à lata de lixo da História. Enquanto a reversibilidade, desafio e sedução são indestrutíveis.

Comentário

De Hollywood ao meios intelectuais e 

acadêmicos, as ideias de Baudrillard foram 

interpretadas por leituras esquemáticas a 
partir da noção ideológica de “falsa consciência”
 
A estranheza de Baudrillard em ver seus conceitos de simulacro e simulação traduzidos por meio de efeitos especiais em uma típica narrativa maniqueísta de luta entre o bem e o mal, a realidade e o virtual, não se refere apenas uma interpretação equivocada de Hollywood e dos irmãos Wachowski. Os próprios círculos intelectuais e acadêmicos também acabaram fazendo uma leitura sobre Baudrillard semelhante ao partir da tradicional crítica da ideologia como falsa consciência.
 
É como se tudo fosse uma estória narrada com a seguinte sinopse: era uma vez o virtuoso real que, de repente, foi corrompido pela ambição humana traduzida por uma sofisticada tecnologia que criou uma representação ideológica do mundo que subjuga os homens bons sedentos pela Verdade e Realidade.
Essa leitura esquemática de Baudrillard não compreende o ponto crucial no pensamento do francês expresso na entrevista acima: a realidade, desde o seu início, já foi seduzida pela ilusão através da ironia, reversibilidade e sedução. Como vimos em postagem anterior (veja links abaixo) é o postulado gnóstico de que o mundo físico é corrompido desde sua criação, seduzido pelo Mal tomado aqui em um sentido mais ontológico do que moral.
O que Baudrillard qualificava como “estratégia fatal” era o fato de a realidade ser irônica e desafiar todos os propósitos humanos de controle, assepsia e transparência. Chamava essa estratégia irônica de “reversibiliade”: o destino de cada ação no sentido do Bem (progresso, transparência, desenvolvimento, funcionalidade, racionalidade etc.) resulta em uma espécie de efeito entrópico: dissolução, regressão, opacidade. A tecnologia que de tão sofisticada e complexa converte-se em gadgets inúteis; a assepsia e o ideal de brancura total produz a infecção hospitalar; o sistema econômico que de tanta racionalidade resulta em um gigantesco potlach. Dessa forma, para cada ato bom produz-se um efeito perverso: a produção reverte-se em destruição, a paz produz a guerra, a realidade a ilusão, e assim por diante.
Por isso, como diz Baudrillard na entrevista, todas as culturas se defrontaram com a suspeita da ilusão radical do mundo e tentaram elaborá-la por meio das artes e simbologia. A cultura tecnológica, ao contrário, procurar dar conta desse mal com a simulação do real, criar uma ilusão que supere outra ilusão por meio da tentativa de eliminar a negatividade e o mal através da precisão, racionalidade e assepsia.
Por isso, Baudrillard criticava a falta de ambiguidade e ironia à trilogia “Matrix”: a matriz é perfeita demais e o real é excessivamente desértico. Tudo preto/branco, binário, tal qual a lógica do sistema contra a qual a narrativa tenta rebelar-se.

 

[1] Foi talvez Peter Halley, mais do que qualquer outro pintor americano “Simulacionista”, que triunfou a conceituação de Baudrillard de hiper-realidade na arte. E, como ele observa com ironia, Baudrillard acabou com as esperanças de Halley ao afastar-se dele com críticas. Mas não foi apenas os pintores “Simulacionistas” que mereceram a crítica. Como Paul Hegarty disse em uma recente entrevista com Baudrillard (Abril de 2003, em seu livro Jean Baudrillard: Live Theory, London: Continuum, 2004): “os últimos foram os ‘artistas simbióticos’. Eles continuaram insistindo, dizendo: ‘mas você deve amar o que estamos fazendo’. Baudrillard disse: ‘espera aí, isso não é aceitável”.

Matrix, o Filme: Mistificação à Hollywood

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O irracionalismo (a mitologia contemporânea) redobram-se:
a) a mistificação da Nova Ordem Mundial na forma duma teoria de conspiração pelo poder maçónico-judaico dos Illuminati (sociedade secreta de mações que comanda os movimentos e agentes políticos mais importantes manobrando para impor uma Nova Ordem Mundial) como maneira de desviar a atenção dos indignados e ofendidos para a luta contra forças políticas e económicas fantasiosas, contra moinhos-de-vento;
b) a confusão entre clima e ambiente mediatizada pelo oportunista Al Gore, que enriqueceu com plantações de tabaco e outras matérias-primas energéticas, e usada para dar alento aos negócios dos créditos de carbono, à energias ditas renováveis, à energia atómica e para atacar o desenvolvimento dos países em vias de tal, fazendo esquecer que os Estados Unidos poluem ‘per capita’ duas vezes mais do que a Europa, quatro vezes mais do que a China e oito vezes mais do que a Índia;
c) as ficções de massas catastrofistas e de alienação como o celebrado filme Matrix, subliminarmente associado ao pânico da Nova Ordem Mundial, e mais expressamente ao dualismo maniqueísta mente-corpo, ao complexo messiânico do ‘cowboy’, temperado com lutas de ‘kung-fu’ e consumo bioenergético-humano pelos computadores, e a uma ideia abstracta e sublimada de alienação, que nada tem a ver com a alienação real.

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A Alegoria da Caverna, que Matrix pretende actualizar, como se fosse preciso, é suficientemente simbólica para representar toda e qualquer ilusão efectiva, como Platão o fez quanto à política e à educação no contexto em que inseriu a alegoria. A ilusão da Alegoria da Caverna não é uma instância ontológica ou um efeito de uma realidade acima da nossa – é uma alegoria, uma espécie de metáfora – mas uma alienação da realidade concreta da vida que temos, produzida pelas circunstâncias da nossa existência real e não por máquinas de características mitológicas e antropomórficas que tomaram conta de nós. O «génio maligno» de Descartes não é um personagem real, ou uma máquina mítica, que se entretém a fazer-nos partidas mas a personificação irónica das nossas fragilidades cognitivas.
Há quem também veja no Matrix uma alegoria mas essa interpretação não colhe: não há nele nem humor nem ironia, não há um distanciamento entre a narrativa e a realidade sobre a qual se relacionaria à maneira de uma metáfora. O que há é apenas a representação de uma crença na possibilidade dos computadores puderem autonomizar-se e tiranizar os homens, dando vazão à sua vontade de poder. É a exploração do medo irracional da tecnologia ser capaz de se tornar humana e escravizar o seu criador, caricaturando e compreendendo de maneira errada a rábula do aprendiz de feiticeiro. Não é uma ficção que se deve tomar por tal e usar-se como uma metáfora da alienação do homem por si próprio, entendendo-se esta como efeito de auto-ilusão no seu processo real de vida, feito de contradições económicas, tecnológicas, psicofisiológicas, psicológicas, axiológicas e ideológicas.
Matrix, no seu enredo rebuscado e mistificado, limita-se ao que fizeram tantos filmes de Hollywood, a inventar um papão impossível mas credenciado pelo arcaísmo dos fantasmas antropomórficos que desviam os homens dos seus verdadeiros problemas, em suma, a meter medo, pelo menos enquanto se está na sala de cinema. Matrix é, assim, ao invés da Alegoria da Caverna de Platão, um novo instrumento de mistificação, uma tela projectada na Caverna, que não é onde nos puseram mas que criámos na forma de um reflexo imaginário da realidade – sala escura onde entretemos muito felizes os nossos fantasmas: aqueles de que cuidamos para, de vez em quando, fazerem de tela, num processo psicanalítico de transferência, e nos afastarem daquelas preocupações demasiado verdadeiras e reais.
E há livros e artigos de filósofos intitulados, assim como aulas, que encontram valor num veículo de pseudo-filosofia pronta-a-usar!

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“Matrix” revisitado: por que Jean Baudrillard não gostou do filme?
quinta-feira, agosto 30, 2012 Wilson Roberto Vieira Ferreira 3 comments

“’Matrix’ é certamente o tipo de filme sobre a matriz que a matriz teria sido capaz de produzir”, afirmou de forma mordaz o pensador francês Jean Baudrillard em uma das raras entrevistas sobre o filme dos irmãos Wachowski. Além dos irmãos terem se inspirado no livro “Simulacros e Simulações” do francês para o argumento de “Matrix”, convidaram-no para assessorar a continuação da trilogia. Baudrillard prontamente declinou do convite passando a raramente opinar sobre a relação do filme com seus conceitos filosóficos. Em uma das poucas entrevistas sobre o filme concedida ao “Le Nouvel Observateur” em 2003, Baudrillard criticou a ausência de ironia em “Matrix” e de ter tomado os princípios de “simulacro” e “simulação” a partir das categorias da realidade.

Certamente o filme “Matrix” tornou-se um clássico, não tanto pelas suas virtudes cinematográficas (na verdade, um típico blockbuster com todas as convenções do gênero), mas por ter se tornado uma síntese dos temas explorados em filmes como “Show de Truman”, “O Décimo Terceiro Andar”, “Ed TV” etc.: as crises decorrentes do apagamento das fronteiras entre o real e o virtual. Embora o filme faça uma alusão ao pensador francês Baudrillard, nas poucas entrevistas concedidas sobre “Matrix” ele demonstrou a estranheza de ver um conceito filosófico transposto para a realidade com muitos efeitos especiais. Para ele, o filme foi equivocado em aproximar o tema da noção do Mito da Caverna de Platão, além de conceber a simulação da matriz a partir das categorias da realidade.

Na entrevista que transcrevemos abaixo concedida ao Le Nouvel Observateur, Baudrillard afirma que o equívoco de Matrix foi retirar a ambiguidade do choque entre o virtual e o real e conceber a Matriz como uma tecnologia de onde é retirado o perigo e o negativo. Uma narrativa esquemática onde o deserto do real (sujo, decadente e perigoso) é substituído por uma tecnologia maquiavelicamente precisa, onde até as anomalias e revoltas já estariam previstas nas equações. Em outras palavras, sob a aparente crítica “Matrix” representaria um sintoma do fascínio cultural pelas tecnologias computacionais.

A HIPÓTESE DO SIMULACRO MERECIA MUITO MAIS DO QUE TORNAR-SE REAL
Aude Lancelin – 25/06/2003

Le Nouvel Observateur: Suas reflexões sobre a realidade e o virtual são algumas das principais referências usadas pelos criadores de “Matrix”. O primeiro episódio explicitamente faz alusão a você quando o espectador claramente vê a capa de seu livro “Simulacros e Simulações”. Você ficou surpreso com isso?

Os irmãos Wachowski
Jean Baudrillard:Certamente houve erros de interpretação, o que seja por isso que tenho sido hesitante até agora para falar sobre o filme “Matrix”. A equipe dos irmãos Wachowski contatou-me em vários momentos após o lançamento do primeiro episódio, a fim de me envolver com os seguintes, mas isso realmente não era concebível (risos). Basicamente, um mal-entendido semelhante ocorreu em 1980, quando um grupo de artistas de Nova York chamado “Simulacionistas”[1] me contatou. Eles tomaram a hipótese do virtual como um fato irrefutável e transformouo-a em um fantasma visível. Mas é precisamente isso, o fato de não podermos utilizar categorias do real a fim de discutir as características do virtual.

Nouvel Observateur: A conexão entre o filme e a sua visão desenvolvida, por exemplo, no livro “O Crime Perfeito”, é, no entanto, bastante impressionante. Ao evocar um deserto do real, esses humanos totalmente virtualizados e espectrais não são mais do que a reserva energética de objetos de pensamento ….

Jean Baudrillard: Sim, mas já houve outros filmes que tratam a indistinção crescente entre o real e o virtual: “Show de Truman”, “Minority Report”, ou mesmo “Mulholland Drive”, a obra-prima de David Lynch. O valor de “Matrix” é, principalmente, o de ser uma síntese de tudo isso. Mas a narrativa é muito crua e não verdadeiramente evoca o problema. Os personagens ou estão na matriz, isto é, no sistema digitalizado de coisas, ou estão radicalmente fora dele, tal como em Sião, a cidade da resistência. Mas seria interessante mostrar o que acontece quando esses dois mundos colidem. A parte mais constrangedora do filme é que o novo problema colocado pela simulação é confundido com o tratamento clássico platônico. Esta é uma falha grave. A ilusão radical do mundo é um problema enfrentado por todas as grandes culturas e que é resolvido através da arte e simbolização. O que nós inventamos a fim de dar conta desse mal estar é um real simulado, que doravante suplantará o real como a sua solução final, um universo virtual do qual tudo o que é perigoso e negativo foi expulso. E “Matrix” é, inegavelmente, parte disso. Tudo que pertence à ordem do sonho, utopia e ilusão é dada uma forma concreta, é realizado.” Estamos na transparência sem cortes. “Matrix” é certamente o tipo de filme sobre a matriz que a matriz teria sido capaz de produzir.

Nouvel Observateur: É também um filme que pretende denunciar alienação tecnicista e, ao mesmo tempo, demonstra inteiramente o fascínio exercido pelo universo digital e das imagens geradas por computador.

Para Baudrillard é notável a ausência de ironia
que permita aos espectadores irem
para além dos efeitos especiais
Jean Baudrillard: O que é notável sobre “Matrix Reloaded” é a ausência de um lampejo de ironia que permita aos telespectadores transformar este gigantesco efeito especial em sua cabeça. Não há uma seqüência que seja o “punctum”, sobre qual Roland Barthes escreveu, esta marca impressionante que lhe traz cara-a-cara com uma imagem verdadeira. Além disso, isso é o que torna o filme um sintoma revelador do fetiche real em torno deste universo de tecnologias de tela no qual não há mais distinção entre o real e o imaginário. Podemos considerar “Matrix” um objeto extravagante, ao mesmo tempo sincero e perverso, onde não há nem um aqui nem lá. O pseudo-Freud que fala na conclusão do filme coloca muito bem: em um determinado momento nós reprogramamos a matriz a fim de integrar anomalias na equação. E você e as resistências seria uma parte delas. Dessa maneira estamos, ao que parece, dentro de um circuito virtual total sem um exterior. Aqui, novamente estou em desacordo teórico (risos). “Matrix” pinta a imagem de uma superpotência monopolista, como vemos hoje, e então colabora em sua refração. Basicamente, a sua difusão em escala mundial é conivente com o próprio filme. Sobre este ponto, vale a pena lembrar Marshall McLuhan: o meio é a mensagem. A mensagem de “Matrix” é a sua própria difusão por meio de uma contaminação incontrolável.

Nouvel Observateur: É um pouco chocante ver que, doravante, todos os sucessos de marketing norte-americanos, de “Matrix” ao novo álbum de Madonna, são apresentados como críticas ao sistema que maciçamente os promove.

Jean Baudrillard: Isso é exatamente o que faz com que nosso tempo seja tão opressivo. O sistema produz uma negatividade em trompe-l’oeil, que é integrado em produtos do espetáculo, assim como a obsolescência é construído em produtos industriais. É a forma mais eficiente de incorporação de todas as alternativas genuínas. Não há um ponto Omega mais externo ou meios disponíveis antagônicos para analisar o mundo. Não há nada mais do que uma adesão fascinada. Deve-se entender, no entanto, que quanto mais se aproxima de um sistema de perfeição mais nos aproximamos do acidente total. É uma forma de ironia objetivo estipulando que nada aconteceu. O 11 de setembro foi um exemplo disso. O terrorismo não é um poder alternativo, não é nada, exceto a metáfora deste retorno quase suicida do poder ocidental sobre si mesmo. Isso foi o que eu disse na época e foi amplamente criticado. Não se trata de ser niilista ou pessimista em face de tudo isso. O sistema, o virtual, a matriz – tudo isso talvez retorne à lata de lixo da História. Enquanto a reversibilidade, desafio e sedução são indestrutíveis.
Comentário

De Hollywood ao meios intelectuais e
acadêmicos, as ideias de Baudrillard foram
interpretadas por leituras esquemáticas a
partir da noção ideológica de “falsa consciência”

A estranheza de Baudrillard em ver seus conceitos de simulacro e simulação traduzidos por meio de efeitos especiais em uma típica narrativa maniqueísta de luta entre o bem e o mal, a realidade e o virtual, não se refere apenas uma interpretação equivocada de Hollywood e dos irmãos Wachowski. Os próprios círculos intelectuais e acadêmicos também acabaram fazendo uma leitura sobre Baudrillard semelhante ao partir da tradicional crítica da ideologia como falsa consciência.

É como se tudo fosse uma estória narrada com a seguinte sinopse: era uma vez o virtuoso real que, de repente, foi corrompido pela ambição humana traduzida por uma sofisticada tecnologia que criou uma representação ideológica do mundo que subjuga os homens bons sedentos pela Verdade e Realidade.

Essa leitura esquemática de Baudrillard não compreende o ponto crucial no pensamento do francês expresso na entrevista acima: a realidade, desde o seu início, já foi seduzida pela ilusão através da ironia, reversibilidade e sedução. Como vimos em postagem anterior (veja links abaixo) é o postulado gnóstico de que o mundo físico é corrompido desde sua criação, seduzido pelo Mal tomado aqui em um sentido mais ontológico do que moral.

O que Baudrillard qualificava como “estratégia fatal” era o fato de a realidade ser irônica e desafiar todos os propósitos humanos de controle, assepsia e transparência. Chamava essa estratégia irônica de “reversibiliade”: o destino de cada ação no sentido do Bem (progresso, transparência, desenvolvimento, funcionalidade, racionalidade etc.) resulta em uma espécie de efeito entrópico: dissolução, regressão, opacidade. A tecnologia que de tão sofisticada e complexa converte-se em gadgets inúteis; a assepsia e o ideal de brancura total produz a infecção hospitalar; o sistema econômico que de tanta racionalidade resulta em um gigantesco potlach. Dessa forma, para cada ato bom produz-se um efeito perverso: a produção reverte-se em destruição, a paz produz a guerra, a realidade a ilusão, e assim por diante.

Por isso, como diz Baudrillard na entrevista, todas as culturas se defrontaram com a suspeita da ilusão radical do mundo e tentaram elaborá-la por meio das artes e simbologia. A cultura tecnológica, ao contrário, procurar dar conta desse mal com a simulação do real, criar uma ilusão que supere outra ilusão por meio da tentativa de eliminar a negatividade e o mal através da precisão, racionalidade e assepsia.

Por isso, Baudrillard criticava a falta de ambiguidade e ironia à trilogia “Matrix”: a matriz é perfeita demais e o real é excessivamente desértico. Tudo preto/branco, binário, tal qual a lógica do sistema contra a qual a narrativa tenta rebelar-se.

[1] Foi talvez Peter Halley, mais do que qualquer outro pintor americano “Simulacionista”, que triunfou a conceituação de Baudrillard de hiper-realidade na arte. E, como ele observa com ironia, Baudrillard acabou com as esperanças de Halley ao afastar-se dele com críticas. Mas não foi apenas os pintores “Simulacionistas” que mereceram a crítica. Como Paul Hegarty disse em uma recente entrevista com Baudrillard (Abril de 2003, em seu livro Jean Baudrillard: Live Theory, London: Continuum, 2004): “os últimos foram os ‘artistas simbióticos’. Eles continuaram insistindo, dizendo: ‘mas você deve amar o que estamos fazendo’. Baudrillard disse: ‘espera aí, isso não é aceitável”.

Um canção de Glinka por Nina Dorléac e Sviastoslav Richter

Música para um dia de Inverno luminoso

 

“Sviastoslav Richter, quando ainda era um desconhecido no ocidente, começou a acompanhar a soprano Nina Dorliac. Casaram e quando Richter morreu, Nina só lhe sobreviveu uns meses. Os recitais protagonizados pelos dois foram inúmeros. Poucos ficaram registados discograficamnte e são praticamente impossíveis de encontrar, havendo um com canções de Debussy que é notável. A razão da falta de registos discográficos também se deve a muitos desses recitais terem sido realizados sobretudo por toda a União Soviética, de Moscovo a Vladivostok, com Richter a tocar em pianos improváveis, com nomes saborosos como Outubro Vermelho, mas de qualidade duvidosa, o que nunca o fez recusar um concerto. Este genial pianista, com Benedetti e Lipati, atrevo-me a classificá-los como [entre] os mais marcantes dos últimos séculos desde que o piano começou a ocupar um lugar central na música, com interpretações que serão dificilmente superáveis, não tinha nenhum dos tiques de vedetismo que muitos outros pianistas também notáveis, exibiam exuberantemente. Se repararem nos videos que estão no You Tube, em Richter não há gestos teatrais, piscadelas cénicas. ausência de pautas para exibição desnecessária de memória. Richter repudiava esses exibicionismos. afirmava que eram sequelas do romantismo que punham a tónica nessa espectacularidade em vez de se concentrarem no rigor pela música escrita.. E todo o mundo musical conhecia que ele quando ouvia outro instrumentista não precisava de pautas para apontar notas falhadas ou truncadas. Quem assistiu aos seus recitais a solo, como os que fez numa digressão em Portugal já com uma idade assinalável mas senhor de todos os seus imensos recursos, não pode deixar de notar que a sua preocupação era com a música. Uma luz a incidir sobre a pauta, o pianista quase na obscuridade. As luzes só se acendiam quando agradecia os aplausos sem excessos. No entanto, poucos como ele olhavam para a floresta da pauta para que todas as árvores fossem presentes, para que a unidade e o esplendor da floresta ficasse sublinhado. Outra das características é que são poucas, quase nenhumas, as suas gravações em estúdio, refira-se as 5 sonatas para cello e piano de Beethoven que gravou com Rostropovitch, porque considerava que era o calor humano de tocar em público, o risco que qualquer actor corre quando esté em palco. que valorizava as interpretações e não o andar a apagar e colar notas para corrigir falhas, como outros seus pares faziam. Clausulava mesmo nos contratos que fez com várias editoras, nunca foi artista exclusivo de nenhuma nem realizou nenhuma integral das composições para piano de algum compositor, [visto] que se no futuro gravasse essa música com uma interpretação que considerasse muitíssimo melhor a [sua] gravação existente sairia do mercado. A sua genialidade e rigor eram de tal ordem que uma vez quando lhe perguntaram porque não tocava uma certa obra de Debussy, disse que não o fazia nem faria porque nunca a conseguiria tocar melhor que Benedetti. Humildade raríssima num universo povoado de super vedetas. Só comparável com Emil Gillels, outro enorme pianista, o primeiro pianista soviético a tocar no ocidente e a tocar de tal maneira que ganhou um concurso em que o segundo classificado foi o já referido Arturo Benedetti Michelangeli, o que deixou meio mundo boquiaberto porque pensavam que a grande escola musical russa tinha sido destruída pelo poder soviético. O assombro foi tal que os críticos musicais inquiriram Gillels sobre o que consideravam um fenómeno, uma raridade, um caso único. Ficaram ainda mais espantados quando Gillels, também com enorme humildade lhes disse que se achavam que ele era um pianista excepcional esperassem até ouvir Richter. No mundo actual invadido pela fabricação [de] constelações de estrelas em todas as profissões dos cozinheiros, perdão chefs, aos costureiros, desculpem fashion directors, essa turbamulta de famosos que invadem o quotidiano e o alimentam de mundanidades ocas, é bom recordar estes génios que desprezavam o “Star-System”, uma das rodas dentadas essenciais do mercado neo liberal, do pós-modernismo do capitalismo terminal.
Ouçam Nina Dorléac e Sviastoslav Richter, descubram esta soprano quase desconhecida”.
[Nota: Os cozinheiros de grande qualidade e inventivos e os costureiros do mesmo jaez, assim como os artistas populares, têm todo o direito e a sociedade tem todo o dever de divulgar as suas criações mas, estando de acordo com o espírito da escrita de MAA, digo que a sua imagem não se deve sobrepor nos meios de comunicação, por motivo algum, à dos grandes artistas, arquitectos, urbanistas, cientistas, médicos e engenheiros com contribuições de relevo para a inovação, nomeadamente nos domínios do aprofundamento dos conhecimentos da Natureza, do Homem e da Sociedade, nos cuidados de saúde e na invenção tecnológica com benefícios para a Humanidade. Os diversos domínios da excelência, ao contrário do que sustenta uma tese central do pós-modernismo como elemento do liberalismo da época da consagração do mercado de consumo, onde tudo o que vende vale, não se equivalem no valor humano, só por força da fama implementada pelos media, embora cada um desses domínios tenha muito valor humano, e, muito menos, se devem inverter. Contudo, não devemos cair num certo elitismo que alguns comunistas parecem acolher em reacção contra a sobrevalorização do gosto fácil e superficial. Nunca os homens poderão situar-se no mesmo nível de cultura, gosto e exigência. Apenas deveremos criar as condições sociais para a elevação do saber e do gosto. Mas haverá sempre graus distintos na apropriação das criações humanas. De resto, as paixões mais simples, como a riqueza dos paladares na gastronomia, as melodias fáceis e festivas e a diversidade imaginativa no vestuário, devem, em nome da felicidade e da alegria de viver, ocupar sempre o seu posto na alma de cada um.]