Por uma abordagem objetiva, aberta e contraditória da Revolução Russa

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Apelo-petição em vésperas do 100º aniversário da Revolução de Outubro

– Nem óculos “Brancos” sobre Outubro de 1917 nem a repetição de “Livros Negros” anticomunistas!

por Annie Lacroix-Riz, Georges Gastaud e Jean Salem

Na abordagem do 100º aniversário do 7 de novembro de 1917, tudo se passa como se se tratasse – sobretudo para certos meios político-mediáticos, caucionados por certos universitários – de apresentar uma versão grosseiramente maniqueísta, tingida de encarniçamento anticomunisto, anti-bolchevique e anti-soviético.
Não apenas Outubro não teria sido senão um “golpe” bolchevique interrompendo um amável curso democrático iniciado pela revolução russa de fevereiro. Não apenas os bolcheviques não teriam tido nenhum papel importante em fevereiro de 1917, não apenas o imenso levantamento proletário e camponês que a preparou, marcou e deu seguimento em 7 de novembro de 1917, não teria tido um caráter autenticamente democrático, popular e socialista, não apenas as suas consequências se teriam revelado unicamente catastróficas para a Rússia e para a humanidade, mas todo este processo se teria desenrolado – bem como a ulterior construção da URSS – num contexto puramente russo e quimicamente puro, praticamente livre de furiosas intervenções imperialistas, da defesa sangrenta e exacerbada dos privilégios pelas classes privilegiadas, do esmagamento brutal da revolução operária na Alemanha, seguido da ascensão do fascismo, nazismo, franquismo e dos militarismos, do Japão imperial à Europa Ocidental (Hungria, Itália, Espanha…)

Os signatários do presente texto ficam horrorizados ao ver profissionais do campo da História misturarem-se no ar viciado deste nosso tempo anticomunista, “pós-moderno” e anti-progressista, abordando, sem excessivos escrúpulos metodológicos, o tema hiperbolicamente qualificado de Outubro russo.

Os mesmos que evocam com comiseração a demasiado “ingénua” historiografia dos tempos recentes e que denunciam os “preconceitos” da conjuntura política que se seguiu a Estalinegrado, o 8 de maio de 1945 e o surgimento de um poderoso partido comunista em França, não se interrogam um segundo sequer sobre a atual configuração política na qual eles desenvolvem a sua reflexão “histórica” qualificada de crítica: ofensiva neoliberal; anexação para a esfera euro-atlântica dos antigos países socialistas; domínio de Berlim sobre a “construção europeia”; subida do Front National e viragem para a direita da sociedade francesa; destruição das conquistas sociais do Conselho Nacional da Resistência ligadas à ação dos ministros comunistas em 1945-47; ressurgimento dos impérios capitalistas disputando a hegemonia mundial, arremetida europeia, leia-se global, de diversas variedades de extremismo de direita e fundamentalismo religioso; degradação da relação de forças entre Trabalho e Capital e a nível mundial; diabolização da Federação Russa, que a NATO pressiona nas suas fronteiras de Vilnius a Kiev; multiplicação de guerras neocoloniais travestidas de “direito de ingerência humanitária” (África, Médio Oriente); criminalização das atividades comunistas em antigos países socialistas (Polônia, República Checa, Bulgária,…); negacionismo histórico caracterizado pelas autoridades japonesas sobre os genocídios cometidos na Coreia e na China; investida de grupos neonazis que proliferam na esteira dos poderes fascizantes, apoiados pela UE e a NATO (Ucrânia Hungria, as antigas repúblicas soviéticas do Báltico)…

Esta tentativa pseudo-histórica de “varrer” Outubro de 1917 da memória coletiva tem objetivamente lugar numa paisagem historiográfica dominada pela reação:

Acrescida complacência com a colonização francesa (por ex. os “aspectos positivos da colonização” (sic) que círculos sarkosistas pretendem inscrever nos programas escolares),
Difamação da Revolução francesa, nomeadamente a sua fase jacobina e de Robespierre,
Tendência para reabilitar Vichy e depreciar a resistência patriótica (particularmente negando o papel proeminente que desempenharam os comunistas),
Relatos desonestos da História nacional que tanto desvalorizam séculos de construção do estado-nação em benefício da historiografia euro-politicamente correta, como pretendem ressuscitar um “romance nacional” expurgado dos confrontos de classes e da contribuição dos comunistas para a Frente Popular, a Resistência, as reformas progressistas da Libertação, a recusa das guerras coloniais, a defesa da liberdade, da paz, da soberania nacional, da igualdade entre homens e mulheres e do progresso social,
Odiosa amálgama entre o Terceiro Reich e a pátria de Estalinegrado, perpetrada nos programas e manuais escolares, sob o nome de “ascensão do totalitarismo”,
Em suma, tudo se passa como se determinados círculos que monopolizam a edição, os media e boa parte da Universidade, estivessem menos preocupados em esclarecer sob um ângulo dialético, dinâmico, e eventualmente contraditório, os Dez Dias que abalaram o mundo do que retrospectivamente dar uma lição aos povos, especialmente à juventude, para os afastar para sempre das lutas da classe operária e revolucionárias…

Como se fosse possível um simples “putsch” bolchevique ter podido mobilizar milhões de proletários e camponeses, varrer os exércitos brancos apoiados por dezoito corpos expedicionários estrangeiros, suscitar um extraordinário florescimento cultural, levantar o entusiasmo do movimento operário e dos povos dominados, derrotar a “invencível” Wehrmacht e, durante mais de sete décadas, pôr no cerne do problema geopolítico global a contradição socialismo/capitalismo, a descolonização e a igualdade entre homens e mulheres.

Difamando a seu bel prazer Outubro de 1917, suas causas, seu progresso e suas sequelas, procura-se também dar tons cor de rosa ou branquear ao máximo o terrível resultado da restauração global do capitalismo que sob o nome de “globalização liberal” resultou na liquidação da experiência multifacetada da Revolução bolchevique.

No entanto, os inquéritos de opinião atestam que feita sucessivamente a experiência de dois de sistemas sociais antagónicos, os povos do antigo campo socialista e mais fortemente ainda os da ex-URSS, continuam a honrar Lenine e todos os que permitiram a construção de uma sociedade alternativa em termos de ganhos sociais, paz civil, direito ao trabalho, acesso a cuidados de saúde e educação, respeito pelas minorias, desenvolvimento das culturas nacionais e das línguas, desenvolvimento científico, etc.

Não deverão os verdadeiros democratas escutar a palavra dos povos ao invés de esmagá-los sob o termo pejorativo de “Ostalgia”? Será assim tão constrangedor que povos que sucessivamente testaram os dois sistemas sociais, e que não esqueceram por essa razão os bloqueios do “socialismo real” nos anos 70/80, afirmem apesar disso, depois de ter experimentado a restauração capitalista, a “Integração europeia” supranacional e neoliberal, a desestabilização sangrenta de países inteiros (Jugoslávia, Ucrânia…), a ascensão de extremistas de direita, a pressão militar exercida pela NATO nas fronteiras da Rússia, que o socialismo era sem dúvida melhor, incluindo os seus defeitos, que a explosão de máfias e das desigualdade que lhe sucederam sob a altamente discutível designação de “democracia liberal”?

É por isto que os signatários deste texto, ainda que não tenham necessariamente todos os mesmos pontos de vista sobre a história russo-soviética, fazem ponto de honra em dizer com força que a Revolução de Outubro de 1917 deve deixar de ser lida apenas com o óculos “brancos”, “termidorianos”, contrarrevolucionários, ou mesmo claramente fascizantes daquelas e daqueles que em lugar de estudarem o movimento comunista, as lutas das classes dominadas e as revoluções populares – incluindo frequentemente a Revolução francesa e a Comuna de Paris – as combatem sem sequer ter a honestidade intelectual de evidenciar a sua orientação partidária.

Não se trata para nós de exigir uma hagiografia da Revolução russa, mas de permitir às gerações jovens abordar o estudo do passado dialeticamente, avaliar a sua complexidade a partir das dinâmicas das classes e das relações de forças internacionais da época, tendo em conta todos os seus aspectos; e acima de tudo, realizar este estudo sem palas anticomunistas nos olhos, sem preconceitos antissoviéticos e, finalmente, sem posições políticas contrarrevolucionárias.

Contra aqueles que tentam já apropriar-se da próxima comemoração de Outubro de 1917 na base de evidentes preconceitos antibolcheviques, reabramos o debate contraditório, voltemos aos factos e proceda-se à sua recontextualização. Numa palavra, evite-se fazer do 100º aniversário de Outubro uma forma de vingança póstuma para os “Brancos” e todos aqueles que, na nossa época, sonham com um mundo definitivamente adquirido para o capitalismo, a integração euro-atlântica, a regressão social, as guerras imperialistas e a fascisação política.
Primeiros signatários:
Marie-Claude Berge , professeur d’histoire; Gwenaël Bidault , syndicaliste CGT (Sécurité sociale, 22) ; Jean-Pierre Bilski , professeur d’histoire (34) ; Pierre Boismenu , psychanalyste et philosophe : Danièle Bleitrach , sociologue (13) ; Christiane Combe , professeur de SVT retraité (19) ; Jean-Pierre Combe , ingénieur polytechnicien (19) ; René Coucke , psychanalyste (59) ; Jean-François Dejours , professeur de philosophie, syndicaliste (59) ; Jean-Marc del Percio , docteur en sciences politiques, ancien chargé d’enseignement à l’IEP de Lyon ; Aurélien Djament , mathématicien au CNRS, syndicaliste (44) ; Bruno Drweski , maître de Conférences HDR, Membre de l’ARAC ; Henriette Dubois , « Nelly » dans la Résistance, ancien agent de liaison des FTP de la zone Sud, chevalier de la Légion d’honneur ; Marianne Dunlop , professeur agrégé de russe ; Jean-Michel Faure , professeur émérite de sociologie, titulaire d’un doctorat 3ème cycle à l’EHSS sur l’Agriculture Russe ; Vincent Flament , militant de la solidarité internationale, 59 ; Joëlle Fontaine , professeur d’histoire retraitée ; Benoît Foucambert , professeur d’histoire, syndicaliste (81) ; Marc-Olivier Gavois , professeur d’histoire ; Jean-Christophe Grellety , professeur de philosophie (33) ; Jean-Pierre Guelfucci , militant syndical, fils de Résistant ; Gilda Guibert , professeur agrégé d’histoire (78) ; Jean-Pierre Hemmen , directeur de la revue théorique Etincelles, fils de Jean Hemmen, Fusillé de la Résistance, ancien militant de l’Internationale communiste et des Brigades internationales d’Espagne (80) ; Gisèle Jamet , professeur d’histoire ; Edmond Janssen , éditeur (75) ; Jean-Pierre Kahane , mathématicien ; François Kaldor , avocat honoraire ; Fadi Kassem , diplômé de Sciences po. Paris, professeur agrégé d’histoire (78) ; Jacques Kmieciak , journaliste (62) ; Léon Landini, ancien officier FTP-MOI, grand Mutilé de Guerre, Officier de la Légion d’honneur, Médaille de la Résistance, décoré par l’Union soviétique (92) ; Guy Laval , psychiatre (75) ; Ivan Lavallée , universitaire et chercheur en informatique ; Yves Letourneur , poète, philosophe ; Thérèse Lévené , enseignante-chercheure en sciences de l’éducation, université de Lille 1, vice-présidente du CNU 70, syndiquée au Snesup ; Olivier Long , universitaire et peintre ; Antoine Manessis , fils de Résistants, historien ; Annette Mateu-Casado , anc. documentaliste, fille de combattants antifascistes espagnols ; Aymeric Monville , éditeur de livres de philosophie et d’histoire (92) ; Dominique Mutel , agrégé d’anglais (62) ; Jean-Michel Pascal , ingénieur d’études (75) ; Anna Persichini, syndicaliste CGT (Métallurgie – 06) ; Guy Poussy , conseiller honoraire du Val-de-Marne ; Pierre Pranchère , ancien maquisard FTPF de Corrèze (dite la « Petite Russie »), ancien député ; Christophe Pouzat , neurobiologiste (94), Benoît Quennedey , historien (75) ; Marie-Noël Rio, écrivain (Allemagne) ; Hervé Sczepaniak , professeur de lettres ; Jean-Pierre Sienkiewicz, agrégé de physique, syndicaliste (24) ; Stéphane Sirot , historien du syndicalisme (59) ; Romain Telliez , historien. Université de Paris-Sorbonne ; André Tosel , professeur émérite de philosophie à l’Université de Nice ; Yves Vargas , philosophe, fils de Résistant ; Maxime Vivas , écrivain et journaliste.

Associam-se a este apelo-petição internacional:
Barbara Flamand , écrivain, Bruxelles; Domenico Losurdo , philosophe et historien, professeur émérite à l’Université d’Urbino (Italie) ; Anita Prestes , professeur à l’Université Fédérale de Rio de Janeiro; Miguel Urbano Rodrigues , anc. député portugais au Conseil de l’Europe, anc. militant antifasciste et anticolonialiste, historien du mouvement communiste.

Para assinar clique aqui .

O original encontra-se em http://www.initiative-communiste.fr/…

Este documento encontra-se em http://resistir.info/ .

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Famine and Socialism — STALIN’S MOUSTACHE

One of the great myths concerning socialist collectivisation of agriculture is that it produced ‘man-made’ famines, since it is supposedly less ‘efficient’. This story is perpetrated by friend and foe alike. Example 1: The famine of 1932-33 in the Soviet Union, which is supposed to have been ‘man-made’. Let me set the context. During the […]

via Famine and Socialism — STALIN’S MOUSTACHE

The “Holodomor” and the Film “Bitter Harvest” are Fascist Lies

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http://www.counterpunch.orghttp://www.counterpunch.org

Posted By Grover Furr On March 3, 2017 @ 12:18 am In articles 2015 | Comments Disabled
(Author’s note: In this article I rely heavily on the evidence cited in the research of Mark Tauger of West Virginia University. Tauger has spent his professional life studying Russian and Soviet famines and agriculture. He is a world authority on these subjects, and is cordially disliked by Ukrainian nationalists and anticommunists generally because his research explodes their falsehoods. )

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Judeus: os bodes expiatórios

 

The Ukrainian nationalist film “Bitter Harvest” propagates lies invented by Ukrainian nationalists. In his review Louis Proyect propagates these lies.

Proyect cites Jeff Coplon’s 1988 Village Voice article “In Search of a Soviet Holocaust: A 55-Year-Old Famine Feeds the Right.” In it Coplon shows that the leading “mainstream” anticommunist Western experts on Soviet history rejected any notion of a deliberate famine aimed at Ukrainians. They still reject it. Proyect fails to mention this fact.

There was a very serious famine in the USSR, including (but not limited to) the Ukrainian SSR, in 1932-33. But there has never been any evidence of a “Holodomor” or “deliberate famine,” and there is none today.

The “Holodomor” fiction was invented in by Ukrainian Nazi collaborators who found havens in Western Europe, Canada, and the USA after the war. An early account is Yurij Chumatskij, Why Is One Holocaust Worth More Than Others? published in Australia in 1986 by “Veterans of the Ukrainian Insurgent Army” this work is an extended attack on “Jews” for being too pro-communist.

Proyect’s review perpetuates the following falsehoods about the Soviet collectivization of agriculture and the famine of 1932-33:

* That in the main the peasants resisted collectivization because it was a “second serfdom.”

* That the famine was caused by forced collectivization. In reality the famine had environmental causes.

* That “Stalin” – the Soviet leadership – deliberately created the famine.

* That it was aimed at destroying Ukrainian nationalism.

* That “Stalin” (the Soviet government) “stopped the policy of “Ukrainization,” the promotion of a policy to encourage Ukrainian language and culture.

None of these claims are true. None are supported by evidence. They are simply asserted by Ukrainian nationalist sources for the purpose of ideological justification of their alliance with the Nazis and participation in the Jewish Holocaust, the genocide of Ukrainian Poles (the Volhynian massacres of 1943-44) and the murder of Jews, communists, and many Ukrainian peasants after the war.

Their ultimate purpose is to equate communism with Nazism (communism is outlawed in today’s “democratic Ukraine”); the USSR with Nazi Germany; and Stalin with Hitler.

Collectivization of Agriculture – The Reality

Russia and Ukraine had suffered serious famines every few years for more than a millennium. A famine accompanied the 1917 revolution, growing more serious in 1918-1920. Another serious famine, misnamed the “Volga famine,” struck from 1920-21. There were famines in 1924 and again in 1928-29, this last especially severe in the Ukrainian SSR. All these famines had environmental causes. The medieval strip-farming method of peasant agriculture made efficient agriculture impossible and famines inevitable.

Soviet leaders, Stalin among them, decided that the only solution was to reorganize agriculture on the basis of large factory-type farms like some in the American Midwest, which were deliberately adopted as models. When sovkhozy or “Soviet farms” appeared to work well the Soviet leadership made the decision to collectivize agriculture.

Contrary to anticommunist propaganda, most peasants accepted collectivization. Resistance was modest; acts of outright rebellion rare. By 1932 Soviet agriculture, including in the Ukrainian SSR, was largely collectivized.

In 1932 Soviet agriculture was hit with a combination of environmental catastrophes: drought in some areas; too much rain in others; attacks of rust and smut (fungal diseases); and infestations of insects and mice. Weeding was neglected as peasants grew weaker, further reducing production.

The reaction of the Soviet government changed as the scope of the crop failure became clearer during the Fall and Winter of 1932. Believing at first that mismanagement and sabotage were leading causes of a poor harvest, the government removed many Party and collective farm leaders (there is no evidence that any were “executed” like Mykola in the film.) In early February 1933 the Soviet government began to provide massive grain aid to famine areas.

The Soviet government also organized raids on peasant farms to confiscate excess grain in order to feed the cities, which did not produce their own food. Also, to curb profiteering; in a famine grain could be resold for inflated prices. Under famine conditions a free market in grain could not be permitted unless the poor were to be left to starve, as had been the practice under the Tsars.

The Soviet government organized political departments (politotdely) to help peasants in agricultural work. Tauger concludes: “The fact that the 1933 harvest was so much larger than those of 1931-1932 means that the politotdely around the country similarly helped farms work better.” (Modernization, 100)

The good harvest of 1933 was brought in by a considerably smaller population, since many had died during the famine, others were sick or weakened, and still others had fled to other regions or to the cities. This reflects the fact that the famine was caused not by collectivization, government interference, or peasant resistance but by environmental causes no longer present in 1933.

Collectivization of agriculture was a true reform, a breakthrough in revolutionizing Soviet agriculture. There were still years of poor harvests — the climate of the USSR did not change. But, thanks to collectivization, there was only one more devastating famine in the USSR, that of 1946-1947. The most recent student of this famine, Stephen Wheatcroft, concludes that this famine was caused by environmental conditions and by the disruptions of the war.

Proyect’s False Claims

Proyect uncritically repeats the self-serving Ukrainian fascist version of history without qualification.

* There was no “Stalinist killing machine.”

* Committed Party officials were not “purged and executed.”

* “Millions of Ukrainians” were not “forced into state farms and collectives.” Tauger concludes that most peasants accepted the collective farms and worked well in them.

* Proyect accepts the Ukrainian nationalist claim of “3-5 million premature deaths.” This is false.

Some Ukrainian nationalists cite figures of 7-10 million, in order to equal or surpass the six million of the Jewish Holocaust (cf. Chumatskij’s title “Why Is One Holocaust Worth More Than Others?”). The term “Holodomor” itself (“holod” = “hunger”, “mor” from Polish “mord” = “murder,” Ukrainian “morduvati” = “to murder) was deliberately coined to sound similar to “Holocaust.”

The latest scholarly study of famine deaths is 2.6 million (Jacques Vallin, France Meslé, Serguei Adamets, and Serhii Pirozhkov, “A New Estimate of Ukrainian Population Losses during the Crises of the 1930s and 1940s,” Population Studies 56, 3 (2002): 249–64).

* Jeff Coplon is not a “Canadian trade unionist” but a New-York based journalist and writer, The late Douglas Tottle’s book Fraud, Famine and Fascism, a reasonable response to Robert Conquest’s fraudulent Harvest of Sorrow, was written (as was Conquest’s book) before the flood of primary sources from former Soviet archives released since the end of the USSR in 1991 and so is seriously out of date.

* Walter Duranty’s statement about “omelets” and “eggs” was not said “in defense of Stalin” as Proyect claims but in criticism of Soviet government policy:

But — to put it brutally — you can’t make an omelette without breaking eggs, and the Bolshevist leaders are just as indifferent to the casualties that may be involved in their drive toward socialization as any General during the World War who ordered a costly attack in order to show his superiors that he and his division possessed the proper soldierly spirit. In fact, the Bolsheviki are more indifferent because they are animated by fanatical conviction. (The New York Times March 31, 1933)

Evidently Proyect simply copied this canard from some Ukrainian nationalist source. Garbage In, Garbage Out.

* Andrea Graziosi, whom Proyect quotes, is not a scholar of Soviet agriculture or the 1932-33 famine but an ideological anticommunist who assents to any and all anti-Soviet falsehoods. The article Proyect quotes is from Harvard Ukrainian Studies, a journal devoid of objective research, financed and edited by Ukrainian nationalists.

* Proyect refers to “two secret decrees” of December 1932 by the Soviet Politburo that he has clearly not read. These stopped “Ukrainization” outside the Ukrainian SSR. Within the Ukrainian SSR “Ukrainization” continued unabated. It did not “come to an end” as Proyect claims.

* Proyect cites no evidence of a Soviet “policy of physically destroying the Ukrainian nation, especially its intelligentsia” because there was no such policy.

A Triumph of Socialism

The Soviet collectivization of agriculture is one of the greatest feats of social reform of the 20th century, if not the greatest of all, ranking with the “Green Revolution,” “miracle rice,” and the water-control undertakings in China and the USA. If Nobel Prizes were awarded for communist achievements, Soviet collectivization would be a top contender.

The historical truth about the Soviet Union is unpalatable not only to Nazi collaborators but to anticommunists of all stripes. Many who consider themselves to be on the Left, such as Social-Democrats and Trotskyists, repeat the lies of the overt fascists and the openly pro-capitalist writers. Objective scholars of Soviet history like Tauger, determined to tell the truth even when that truth is unpopular, are far too rare and often drowned out by the chorus of anticommunist falsifiers.

Sources: Mark Tauger’s research, especially “Modernization in Soviet Agriculture” (2006); “Stalin, Soviet Agriculture, and Collectivization” (2006); and “Soviet Peasants and Collectivization, 1930-39: Resistance and Adaptation.” (2005), all available on the Internet. More of Tauger’s articles are available at this page: https://www.newcoldwar.org/archive-of-writings-of-professor-mark-tauger-on-the-famine-scourges-of-the-early-years-of-the-soviet-union/

See also Chapter I of my book Blood Lies; The Evidence that Every Accusation against Joseph Stalin and the Soviet Union in Timothy Snyder’s Bloodlands Is False (New York: Red Star Press, 2013), at http://msuweb.montclair.edu/~furrg/research/furr_bloodliesch1.pdf

On the 1946-47 famine see Stephen G. Wheatcroft, “The Soviet Famine of 1946–1947, the Weather and Human Agency in Historical Perspective.” Europe-Asia Studies, 64:6, 987-1005.

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Distorção de História

Article printed from http://www.counterpunch.org: http://www.counterpunch.org

URL to article:

http://www.counterpunch.org/2017/03/03/the-holodomor-and-the-film-bitter-harvest-are-fascist-lies/

Apocalipse: RTP ou Apocalipse Estaline – António Santos

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odiario.org

Recentemente, explodiu nas televisões americanas um novo tipo de «documentário» a que chamam docufiction. Ficção apresentada como se abordasse uma realidade factual. É o caso da série da RTP dedicada a Stáline. Uma fraude documental com um objectivo ideológico preciso, no ano em que se celebra o centenário da Revolução de Outubro. A RTP, paga por todos nós, dá tempo de antena a propaganda que os nazis não desdenhariam.

Acabo de assistir a «O Demónio», o primeiro episódio da mini-série «Apocalipse: Estaline». Durante uma hora, Isabelle Clarke dedica o seu «documentário» a convencer-nos de que Estaline foi o que o título diz: um demónio. Veja-se: «Lénine e um punhado de homens lançaram a Rússia no caos. (…) Como os cavaleiros do Apocalipse, os bolcheviques semeiam morte e destruição para se manterem no poder. Continuarão durante 20 anos, até os alemães chegarem às portas de Moscovo». Estaline surge como um «louco», «sexualmente insaciável» e com uma «mentalidade próxima dos tiranos do Médio Oriente» [sic] que só Hitler pode parar. Num frenesim anacrónico, o espectador é levado de «facto» em «facto» sem direito a perguntas nem a explicações. Para trás e para a frente, dos anos quarenta para o final do século XIX, de 10 milhões de mortos na guerra civil russa para 5 milhões de mortos no «holodomor: a fome organizada por Estaline», o puzzle está feito para ser impossível de montar. Ao narrador basta descrever o que, a julgar pelas imagens de arquivo, é aparentemente indesmentível: «os camponeses ucranianos, vítimas das fomes estalinistas abençoam os invasores alemães. Mais tarde serão enforcados pelos estalinistas. A conjugação das imagens de arquivo colorizadas é tão brutal e convincente que somos tentados a concordar com as palavras do narrador: «Estaline declarou guerra ao seu próprio povo». São os «factos alternativos» de Trump aplicados à História.

Só há dois problemas. Primeiro: Isabelle Clarke, a autora, admite que «Apocalipse: Estaline» não é História nem tem pretensões de querer sê-lo. Vou repetir, a autora admite que aquilo que fez não tem nada a ver com História. Podia terminar aqui. Mas, em segundo lugar, será que a RTP, canal público pago por todos nós para cumprir a missão de educar e informar, sabia que estava a comprar ficção em vez de História?

Claramente a História, enquanto ciência social, passe a inelutável normatividade a que estamos presos, é incompatível com a calúnia e a propaganda ou, numa palavra, a demonização. «Apocalipse: Estaline – O Demónio» não disfarça a demonização, disfarça a ficção.

Então, o que é «Apocalipse, Estaline»? Recentemente, explodiu nas televisões americanas um novo tipo de «documentário» a que chamam docufiction. Exemplos recentes são «Sereias: o cadáver encontrado» ou «Megalodon, o tubarão monstro vive». Em ambos, o documentário da Discovery Channel dá a palavra a cientistas, investigadores, professores e biólogos que explicam a descoberta científica de sereias, no primeiro caso e de um tubarão jurássico, no segundo. Durante uma hora, o espectador assiste a filmagens convincentes dos míticos criptídos e ouve especialistas, identificados como tal, debater as possíveis explicações para as descobertas serôdias. No final, em letra de efeitos secundários de bula de medicamento, admite-se, para quem ainda estiver a ver, que era tudo a fingir: os especialistas eram actores, as imagens eram fabricadas. «Apocalipse, Estaline» faz algo parecido: no final ficamos a saber a que «historiadores» foi beber inspiração: a romancista Svetlana Alexievitch, uma versão actualizada de Alexander Soljenitsyne; Robert Service, o mais proselitista e criticado dos historiadores-pop contemporâneos ou Pierre Rigoulot, um ex-trotskista transformado em neocon apoiante de Bush e fã confesso da guerra do Iraque. Trata-se contudo de menções honrosas e agradecimentos. Mas de onde vêm as citações? Onde foi buscar os números? Quais são as fontes? Raquel Varela coraria de vergonha alheia.

Não se trata de admirar ou condenar Estaline, trata-se de não sermos tomados por parvos. «Apocalipse: Estaline» não é ficção nem História: é uma falsificação estupidificante e tóxica para o público. Como os novos «documentários» sobre sereias e tubarões jurássicos, que confundem ciência com ficção, a RTP acabou de confundir História com propaganda nazi.

Este texto encontra-se em:

http://manifesto74.blogspot.pt/2017/01/apocalipse-rtp.html#more

Convido-os a comparar este documentário com estudos sérios como, por exemplo, de Dominico Losurdo, Estaline Uma Lenda Negra ou de Jean Elenstein, História da União Soviética.

Os povos da Ex-URSS – Miguel Urbano Rodrigues (O Diário. Info)

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“O desaparecimento da União Soviética foi uma tragédia para a Humanidade. Foi acelerada pela traição de Gorbatchov e pela guerra não declarada do imperialismo norte-americano, mas numerosos outros factores contribuíram para ela. Para a tentarmos entender, e também a para tentarmos entender a Rússia contemporânea é imprescindível, nomeadamente, um conhecimento mínimo da história dos povos que habitam o seu gigantesco território.

Não há precedente histórico para o Estado multinacional que foi criado na União Soviética após a Revolução Russa de Outubro de 1917.

Finda a guerra civil, povos de 126 nacionalidades conviveram durante muitas décadas, quase sempre pacificamente, no vastíssimo espaço euroasiático soviético. Esses povos falavam 180 idiomas diferentes, de quatro famílias linguísticas.

Como foi possível?

As tentativas de explicação desse desafio à logica da História são muitas e contraditórias.

O gigantismo do país foi o desfecho de circunstâncias históricas que não eram previsíveis quando em Kiev, na Ucrânia, surgiu no seculo IX o principado de Rus, berço do futuro estado, criado – segundo a maioria dos historiadores – pelos varegos, escandinavos que ali chegaram descendo grandes rios.

A Rússia medieval teve como referência cultural e religiosa Bizâncio, a Roma do Oriente. Mas permaneceu um país atrasado no qual pequenos principados raramente se uniam para enfrentar os invasores estrangeiros. Estes vinham do oriente, nómadas asiáticos, e do ocidente, sobretudo a avançada para leste de povos germânicos.

No seculo XIII, os mongóis de Batu Khan destruíram a s principais cidades, de Moscovo a Kiev, numa orgia de barbárie. Esse povo de nómadas chegou para ficar.

Durante quase três seculos, os Kanatos dos príncipes gengiskanidas dominaram grande parte da Rússia, impondo pesados tributos às populações.

Não se fundiram com os russos. Na Ásia os mongóis e turcos da conquista diluíram-se, descaracterizaram-se no contacto com grandes civilizações. Na China sinizaram-se; na Pérsia tornaram-se muçulmanos. Na Rússia atrasada, a cultura e a religião ortodoxa não os atraíram; abraçaram o Islão.

Foi somente no seculo XVI que o czar Ivan IV, ao tomar Kazan, pôs fim ao senhorio da Horda de Ouro mongol.

Mas a herança genética dos invasores asiáticos foi profunda. Milhões de russos descendem de um prolongado processo de mestiçagem. Os avós paternos do próprio Lenin eram calmucos, um povo turco mongol.

Sem acesso ao Báltico e ao Mar Negro, acossada a Ocidente pela Ordem Teutónica, por polacos e lituanos, e mais tarde pelos suecos, a sul pela Turquia, a Rússia iniciou a sua expansão para leste.

A imensidão siberiana era um território praticamente despovoado. Na época em que os russos avançaram para além dos Urales, o total de habitantes da Sibéria, segundo os demógrafos, rondaria os 300 000. A maioria, de origem turca, nomadizava. Eram tribos remanescentes das grandes invasões que na Alta Idade Média tinham avançado para a Europa, sobretudo a partir do Altai.

Os pioneiros russos, deslocando-se a pé, a cavalo, de barco ou de trenó consoante a estação, atingiram rapidamente o Ártico e em 1640 fundavam Irkutsk, e uma década depois a galopada conquistadora desembocava no Pacifico.

Mas o imperialismo russo somente assumiu contornos de politica de estado um século depois, com Pedro I, cognominado o Grande. É no reinado desse czar que a Rússia expulsa os suecos de Riga e do golfo da Finlândia, onde funda São Petersburgo. As guerras com a Turquia abrem-lhe simultaneamente o acesso ao Mar de Azov e ao Mar Negro. A Ucrânia, que estava quase toda sob ocupação polaca, é incorporada na Rússia.

A partir de meados do seculo XVIII, na época da czarina Catarina, a politica imperial altera- se profundamente.

As conquistas no Cáucaso, apos guerras contra a Turquia e a Pérsia, e posteriormente a ocupação do Cazaquistão em regime de protetorado, e a conquista dos emirados da Asia Central, densamente povoados por turcos e iranianos, motivaram atitudes diferenciadas. Na Arménia e na Geórgia, nações cristãs, os russos foram recebidos como libertadores.

Outra foi a atitude das populações no Azerbaijão, em pequenos estados do Cáucaso e nos emirados do Turquestão onde o Islão estava enraizado há mais de um milénio.

A administração russa adotou aí políticas de recorte colonial típico. Os colonos russos não se misturaram com os autóctones; instalaram-se em bairros diferentes. Os governadores imperiais permitiram que as autoridades locais permanecessem em funções e para os muçulmanos foram mantidas as leis islâmicas. Os emirados mantiveram uma autonomia fictícia até à Revolução de Outubro, que depôs os príncipes gengiskanidas.

Na brutalidade da repressão o colonialismo russo na Ásia Central apresentou semelhanças com o dos ingleses, franceses e portugueses na Africa subsaariana. A continuidade geográfica dos territórios anexados imprimiu-lhe porem características peculiares, diferentes do europeu, marcado pelo afastamento das colónias da metrópole europeia. Na Asia Central não se registou, porem, até ao final da II Guerra, uma política de russificação.

A queda da autocracia czarista levantou uma vaga de esperança nas populações não russas do império. Mas, apos a Revolução de Fevereiro, as mudanças foram mínimas com poucas exceções. Na Europa as áreas ocidentais estavam aliás parcialmente ocupadas pelos alemães.

O quadro somente mudou com a Revolução de Outubro.

O Decreto sobre a Paz, de 26 de Outubro de 17, condenou todas as anexões realizadas pelas grandes potências europeias. E dias depois, a 2 de novembro, o Decreto sobre as nacionalidades definiu os princípios que a jovem república pretendia impor nas relações com as populações não russas. Incluíam o direito à autodeterminação dos povos que optassem pela independencia. Contrariando influentes membros do Comité Central, Lenin não se opôs à independência da Finlândia e à restauração da Polónia como estados soberanos.

Lenin via a URSS como uma união de republicas iguais na qual a Rússia teria os mesmos direitos que as outras. A sua preocupação com a questão nacional era tão grande que nos anos do exilio incumbiu Stalin de escrever um trabalho sobre o tema que foi posteriormente editado em livro*. Lenin elogiou o ensaio de Stalin, mas as ideias de ambos sobre a questão nacional não coincidiam.

Nos países bálticos a situação era muito complexa. Surgiram três tendências antagónicas. A maioritária pronunciou-se pela independência. Uma minoria revolucionária bateu-se pela integração na União Soviética, e um sector da burguesia agrária pela ligação à Alemanha. A intervenção da esquadra britânica contribuiu decisivamente para a vitória dos partidários da independência. Nos três países, dois seculos de administração russa não tinham abalado as superestruturas culturais. A Estónia, fino- ugria, e a Letónia e a Lituânia, indo-europeias, mantinham os seus idiomas e o alfabeto latino.

No Cáucaso e na Asia Central a integração na Rússia revolucionária não foi imediata.

No Daguestão, na Chechénia, na Inguchia, terras muçulmanas, imperou o caos durante anos.

Em 1918, apos a derrota da Turquia, tropas britânicas ocuparam o Azerbaijão, a Geórgia e a Arménia e reprimiram as forças revolucionárias favoráveis à Revolução de Outubro. Sob a proteção das baionetas inglesas, os países da Transcaucásia proclamaram a independência. Mas, quando os britânicos se retiraram, os comunistas tomaram o poder no Azerbaijão e em 1920 o país optou pela integração na Rússia soviética. Na Geórgia a situação permaneceu tensa durante o breve governo social-democrata que ali se instalou. Foi a intervenção do exército vermelho em 1921 que precedeu a adesão à República Russa.

Na Arménia, onde o sentimento nacional era muito forte, reforçado pelo genocídio dos arménios na Turquia, foi também a intervenção do exército vermelho em 1921 que permitiu a criação de uma república soviética, pondo termo a uma prolongada guerra civil.

Mas Lenin tornou público o seu desacordo da repressão no Cáucaso, criticando com severidade os métodos ali aplicados por Stalin.

Na Ásia Central as populações muçulmanas festejaram a queda da autocracia czarista, mas em l918 a república socialista soviética do Turquestão teve uma existência breve, tal como as repúblicas de Bukhara e do Korassão.

A guerra civil foi ali prolongada e o almirante Koltchak, líder da contrarrevolução, chegou a controlar parte da Ásia Central.

Durante quase quatro anos imperou o caos na Região.

Somente quando a União Soviética foi criada em Dezembro de 1922, as populações do antigo Turquestão voltaram a viver em paz.

O processo de integração da Ucrânia na Rússia soviética foi talvez o mais traumático. Os nacionalistas de Petliura defenderam a criação de um Estado independente contra a opinião da minoria russófona do leste do país.Com a ocupação alemã a confusão aumentou. A Ucrânia foi um dos principais cenários da guerra civil entre os brancos e as forças revolucionárias, mas os bolcheviques venceram.

O RENASCIMENTO DOS NACIONALISMOS

Sucessivos governos da União Soviética afirmaram após 1945 que a questão nacional tinha sido definitivamente resolvida.

Simulavam ignorar a realidade.

Durante a guerra, os alemães foram bem recebidos por uma parcela importante das populações bálticas. O mesmo ocorreu inicialmente na Ucrânia. Mais de 100 000 ucranianos lutaram contra a URSS, muitos nas SS nazis. E os guardas de muitos campos de concentração alemães eram ucranianos colaboracionistas.

É um fato que na Europa e na Ásia foi pacífico durante décadas o convívio da maioria russa com as minorias nacionais. Mas a conceção de Lenin, incorporada na Constituição da URSS, sobre a igualdade de direitos dos povos da União nunca foi respeitada. O que prevaleceu foi, na prática, a conceção do federalismo internacionalista de Stalin, hegemonizado pela Rússia.

O homo soviéticus que deveria ser uma criação do socialismo não passou de aspiração.

No final da II guerra mundial, as feridas abertas por decisões de Stalin, incompatíveis com os princípios que regulamentavam a questão nacional, não estavam cicatrizadas.

A expulsão para a Ásia Central dos Tártaros da Crimeia, dos alemães do Volga e de alguns povos de origem turca, e a deportação para a Sibéria de milhares de bálticos deixou sequelas profundas nas minorias atingidas por essas medidas repressivas.

O renascimento do nacionalismo separatista no espaço soviético ficou transparente desde o início da perestroika. Contribuiu decisivamente para a desagregação da URSS.

Foi obviamente incentivado, e com frequência financiado pelos EUA no âmbito de uma estratégia cuja meta era a destruição da União Soviética e a transformação da Rússia numa sociedade capitalista.

Mas o êxito dessa política foi muito facilitado pela atmosfera anti russa que persistia, adormecida, nas populações de muitas repúblicas.

Os países bálticos, onde havia fortes minorias russas, foram os primeiros a romper, optando pela independência. Em visita à Lituânia e Letónia no verão de 1989 chocou-me a vaga de anticomunismo. Funcionários dos Partidos locais elogiavam como «heróis» os dirigentes de direita da Republica anterior à II Guerra Mundial. Em Vilnius, Alguis Tchecuolis, um lituano que havia dirigido a Agencia Novosti em Lisboa, disse-me sem rodeios que era «anti leninista». À porta das igrejas, jovens colavam nas paredes cartazes antissoviéticos.

Tive a oportunidade de registar um grande mal-estar no Cáucaso e no Cazaquistão em 1987 e 1989, quando o fracasso da perestroika já era identificável por visitantes comunistas como eu. Em Alma Ata,no Cazaquistão, onde meses antes manifestações anti russas tinham sido reprimidas pelas armas, um secretário do Partido minimizou em conversa comigo o significado dos protestos populares, atribuindo-os a hooligans, a marginais.

Em visitas ao Uzbequistão, impressionou-me a tenaz sobrevivência da cultura islâmica naquela república. E surpreendeu-me a ignorância de camaradas do Partido da história dos povos iranianos e turcos que ali tinham criado grandes civilizações cuja herança é identificável nas deslumbrantes mesquitas e medersas de Samarcanda, Khiva e Bukhara, património da humanidade. Alguns manuais de história soviéticos ignoravam mesmo o chamado renascimento timurida, o fascinante período de esplendor cultural na literatura, nas artes, na astronomia e na arquitetura, tornado possível pelos descendentes do conquistador turco Tamerlão.

Em jornadas inesquecíveis pelas províncias do Norte do Afeganistão e pelo Sul do Uzbequistão tive a oportunidade de verificar que a fronteira que ali separa dois estados iluminava uma realidade que me transportou a diferentes idades da Humanidade.

De ambos os lados daquela fronteira artificial, traçada no final do seculo XIX pelo Imperio Britânico e pelo Imperio Russo, vivem ainda povos irmãos que falam línguas turcas e iranianas. Mas enquanto no Uzbequistão me senti no Seculo XX, nos povoados misérrimos da Báctria e no Bandaquistao afegãos movimentei-me por vezes entre gentes que me transportavam pela imaginação ao seculo X.

Na outra margem do Amu Daria, não obstante as políticas discriminatórias de Stalin na Ásia Central, a revolução soviética ergueu grandes cidades, indústrias modernas, universidades de prestígio, e com a água dos grandes rios que descem do Pamir irrigou desertos, criando neles uma agricultura florescente.

Mas bastava atravessar a ponte que separa a Termez uzbeque da Hairaton afegã para contemplar uma sociedade onde uma mulher valia menos do que um camelo.

Não houve, insisto, política permanente de russificação na Ásia Central soviética. Era uma impossibilidade. Mas, apesar da fidelidade à cultura e às tradições muçulmanas, as Republicas da Ásia Central foram as ultimas a proclamar a independência. A rutura não foi aliás conflituosa, ao contrário das bálticas.

Nesses países, os dirigentes do Estado e do Partido exerciam o poder de uma forma autocrática, com punho de ferro, e temiam a transição para formas de governo de modelo ocidental. Muitos aliás sobreviveram à transição para o capitalismo, nomeadamente no Cazaquistão (Nursultan Nezarbayev continuou a governar o país) e no Turquemenistão.

UMA DERROTA DA HUMANIDADE

Refletindo hoje sobre os acontecimentos da Ucrânia e a torrente de disparates venenosos que os media ocidentais divulgam sobre o que ali está a passar-se e os discursos anti russos de Obama e dos principais estadistas da União Europeia, sou levado à conclusão de que uma profunda ignorância da historia da Rússia e da URSS contribui para a aceitação pela maioria dos europeus e americanos das teses da propaganda anticomunista. Com poucas exceções, os sovietólogos ocidentais das grandes universidades continuam a apresentar a União Soviética como um estado monstruoso e o comunismo como uma aberração. Insistem em ver em Stalin um ditador sanguinário e em estabelecer paralelos com Hitler. Mas Lenin também é exorcizado.

A maioria dos Partidos Comunistas reagiu mal à desagregação da URSS e à instalação do capitalismo na Rússia. Traumatizados pela derrota do «modelo» que haviam defendido durante décadas, não demonstraram capacidade para dar uma resposta ideológica adequada à ofensiva dos inimigos da véspera. Muitos dirigentes dos PCs europeus e americanos (o dos EUA é hoje uma organização social-democrata) participaram inclusive das campanhas de descrédito da URSS. Afirmam ainda lutar pelo socialismo, mas não convencem. Retomam velhas teses de Kautsky, Bauer e Bernstein. Adotando um conceito perverso de democracia, vulgarizado pelos sacerdotes do capital, chegam à aberração de admitir que um dia a humanidade chegará ao socialismo pela via parlamentar, através de reformas realizadas no âmbito das instituições criadas pela burguesia para lhe servirem os objetivos.
Como comunista, não duvido de que a Revolução de Outubro foi um dos maiores acontecimentos da História, na continuidade da Revolução Francesa de 1789, assinalando o caminhar do nosso Planeta para um mundo que responda a aspirações eternas do homem.

Creio também que os historiadores do futuro, superado o frenesi irracional do antisovietismo, refletirão com serenidade sobre a intervenção de Stalin na História do seculo XX. A sua personalidade nunca me atraiu. Mas esse distanciamento do homem não me impede de qualificar de deturpadoras da História as posições antagónicas daqueles que o condenam sem apelo como inimigo da Humanidade e dos que, numa perspetiva oposta, veem nele o genial estadista da Revolução que mudou o mundo.

Os crimes e erros de Stalin foram enormes e a URSS pagou por eles um preço altíssimo. Mas sendo inquestionável que lhe cabem pesadíssimas responsabilidades pelo rumo tomado pelo PCUS, e portanto pela derrota ali do socialismo, é também para mim evidente que Stalin foi um revolucionário que desempenhou um papel decisivo no esmagamento do III Reich nazi.

Para finalizar, reafirmo a convicção de que o desaparecimento da União Soviética foi uma tragédia para a Humanidade – acelerada pela traição de Gorbatchov e pela guerra não declarada do imperialismo norte-americano – e que, para tentarmos entender a Rússia contemporânea, é imprescindível um conhecimento mínimo da história dos povos que habitam o seu gigantesco território”.

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Vila Nova de Gaia e Serpa, março de 2014 e dezembro de 2016

*JVStalin, Obras, II Tomo, paginas 278 a 348, Editorial Vitória, Rio de Janeiro,1952. O Ensaio de Stalin, intitulado «O Marxismo e a Questão Nacional», analisa sobretudo o tema a partir de opiniões dos austro marxistas Springer e Otto Bauer, de teses do Bund judaico, e dos problemas das nacionalidades do Cáucaso. É confuso e mal estruturado.

Os que olham e não vêem: Cuba e o “capitalismo de Estado” por Nelson P Valdés – Ou a Ignorância e o Caos no Pensamento de Mais um Anti-Socialista Dissimulado

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Os que olham e não vêem: Cuba e o “capitalismo de Estado”

Nelson P Valdés 24.Nov.16 Outros autores
“Os que apelam à introdução de medidas capitalistas em Cuba e sonham com o mercado estão fora da realidade. Esses elementos existem já, mas essa não é toda a realidade. É tudo mais complexo e complicado. Existe um sector capitalista de Estado. Distingue-se do capitalismo de Estado existente em países capitalistas pela forma como distribui o que produz ou gera de produtos e rendimentos”.

Já não é a primeira vez que odiario.info dá apalavra a estes “amigos do socialismo” cubanos. É preciso defender a diversidade de opiniões, o que não significa dar a palavra a intenções dissimuladas e a argumentos falaciosos sem que se veja réplica, ou, pelo menos, demarcação, de quem os publica.

Para não me estender muito, porque o meu tempo é escasso e precioso, embora seja um assunto de gravidade extrema, que deverá ser denunciado mais detalhadamente por quem concentra a sua investigação nas questões políticas, limitar-me-ei a dizer – no dia do falecimento de um dos maiores dirigentes progressistas da História, Fidel Castro Ruz – que este senhor (cubano, suponho) parece ignorar, ou confundir deliberadamente, o que é ética e politicamente pior, ou ainda dissimular, identificando-as – menos num certo “pormenor”, todavia essencial -, a diferença entre emulação ou competição socialista e competição ou concorrência capitalista. Esta consiste na luta pelo mercado entre as empresas dos bens por elas criados, procurando, segundo a lei da livre concorrência e eventualmente sob a vigilância das regras anti-monopólio, que acabam por ser regras de repartição do mercado entre grandes empresas, sobretudo de sectores estratégicos, à volta das quais gira uma pléiade de outras mais pequenas, ocupar o máximo que pode desse mesmo mercado e no princípio segundo o qual de uma certa quantidade de capital líquido criado (a mais-valia) uma parte será o lucro do patrão e dos accionistas. O lucro líquido será mais privado do que socializado. Ora, o “pormenor” pelo qual Nelson P Valdés distingue um elemento essencial do modo de produção capitalista do socialista, é precisamente o princípio de que neste o lucro é mais socializado, redistribuído para satisfazer as necessidades do povo em geral, e de que no capitalismo o lucro, tirados os impostos (acerca dos quais haveria muito a dizer), é privado. Para surpresa, Valdés comete a mais estranha das falácias: fora este “pormenor”, insignificante, afinal socialismo (de Estado) e capitalismo (de Estado), isto é, sob a regulação das leis do Estado, são muito parecidos – como se a forma da redistribuição das riquezas fosse um detalhe despiciendo e como se o Estado não fosse igualmente o poder institucional de uma classe. A conclusão sub-reptícia de Valdés é a de que mal por mal, ou bem por bem, mais vale um capitalismo “às claras” do que andar a brincar com a palavra socialismo. Mas é ele quem brinca com ela.

Major-General Carlos Branco: “Liderança do partido bósnio defendia a instauração de um Estado islâmico”

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DN, 25 Novembro 2016

O major-general Carlos Branco fala da experiência na antiga Jugoslávia que serve de base ao livro “A Guerra nos Balcãs”

O major-general Carlos Branco exerceu funções na NATO e na ONU e esteve também no Afeganistão, mas é a sua experiência na antiga Jugoslávia que serve de base ao livro A Guerra nos Balcãs – Jihadismo, Geopolítica e Desinformação, lançado quinta-feira às 18.00 na Comissão Portuguesa de História Militar

No seu livro sobre as guerras nos Balcãs fala várias vezes de casais mistos, por exemplo um sérvio e uma croata. Foram estes os jugoslavos que mais sofreram?

É difícil dizer quem sofreu mais com a guerra. Certamente que os casais mistos sofreram, mas não necessariamente mais do que os outros. Sofreram de outra maneira. Sofreram a perda da sua identidade, da identidade jugoslava, tendo agora de fazer escolhas dilacerantes. É impossível estabelecer uma métrica para o sofrimento. O sofrimento não está diretamente relacionado com etnicidade ou com o género. Eventualmente uns terão sofrido mais do que outros. A explicação prende-se mais com as especificidades locais dos sítios onde se encontravam. A intensidade da guerra variou de local para local e ao longo do tempo.

Conta o caso da alemã que recusou ser vista como nazi e até acabou agredida. A memória das alianças locais na Segunda Guerra Mundial estava bem presente nas guerras balcânicas de 1991-1995?

A memória dessas alianças estava bem presente, sobretudo para os sérvios da Krajina. Era frequente encontrar pessoas, sobretudo as mais idosas, com familiares próximos mortos pelas forças croatas Ustaše durante a Segunda Guerra Mundial. As feridas da Segunda Guerra Mundial tinham sido insuficientemente saradas. A subida de Tudjman ao poder e a narrativa fascizante e antissemita do novo regime croata vieram avivar essas memórias. As purgas e as perseguições feitas aos sérvios da Croácia, a não consagração na nova Constituição croata do estatuto de nação, passando a ser considerados cidadãos de segunda classe, a recuperação de símbolos do Estado fascista croata como a bandeira e a moeda fizeram o resto. Os intelectuais também deram o seu contributo. A disputa sobre o número de mortos no campo de concentração de Jasenovac e as tentativas revisionistas da história ajudaram ao desenlace fatal. Estava instalado o medo. Isso explica o levantamento sérvio na Croácia.

Considera que os sérvios foram diabolizados num conflito com vários culpados?

O major-general Carlos Branco foi observador da ONU na antiga Jugoslávia
Preferia utilizar a expressão responsabilidade em vez de culpa. Todos os grupos étnicos, ou antes, as elites, sobretudo as políticas, têm a sua quota-parte de responsabilidade no desenrolar dos acontecimentos. Naquele conflito, como em quase todos os conflitos desta natureza, não há santos de um lado e pecadores do outro. Em última análise, cada grupo via o oponente como uma ameaça à sua sobrevivência. A diabolização do oponente faz parte da guerra. Contudo, o que aconteceu nos Balcãs foi mais do que isso e envolveu a participação direta das grandes potências. A tarefa estava facilitada porque os interesses de certos grupos coincidiam com os interesses das grandes potências. Por isso, tanto os croatas como os muçulmanos da Bósnia tiveram empresas de relações públicas a trabalhar para si, pagas pelos seus mentores. O tratamento desigual dado aos diferentes grupos foi a consequência do discurso imposto pelos mais fortes na defesa dos seus patrocinados e, por conseguinte, dos próprios interesses. É nesta lógica que se deve entender a diabolização dos sérvios. A pouca clarividência das lideranças sérvias da Croácia e da Bósnia também ajudou.

Com a religião a definir nacionalidades era inevitável que os bósnios muçulmanos pedissem ajuda a extremistas estrangeiros?

Não necessariamente. Muçulmano não é sinónimo de extremismo. O problema é que a liderança do partido bósnio era extremista e defendia a instauração de um Estado islâmico teocrático. A esmagadora maioria dos elementos seculares foram expulsos do partido logo em 1992. É neste contexto e não noutro que se explica o recurso ao apoio da Al-Qaeda e dos países que defendiam o proselitismo religioso radical. É absolutamente indesculpável a complacência ou, se quisermos, a distração tida com o facto de a Bósnia se ter tornado durante a guerra uma frente da jihad global promovida pela Al-Qaeda.

Como classifica então a ação da comunidade internacional na ex-Jugoslávia?

É difícil falar da comunidade internacional como uma entidade homogénea. Poderia associar comunidade internacional com as Nações Unidas ou com o Conselho de Segurança. Fazê-lo seria, no entanto, redutor. Diferentes atores, nomeadamente as grandes potências, apoiaram os seus patrocinados. Os países islâmicos, por exemplo, apoiaram um dos grupos em presença. Na realidade, o que estava em jogo tinha implicações de natureza geopolítica traduzida no controlo dos Balcãs. Foi com base nesta premissa que se comportaram e atuaram os grandes atores da cena internacional.

As tropas portuguesas tiveram uma missão eficaz e pacificadora?

Enquanto estive na Jugoslávia não havia contingentes militares nacionais nas forças da ONU. Esse tipo de participação ocorre após a assinatura do acordo de Dayton e no âmbito da operação da NATO. As forças nacionais participaram num esforço coletivo que envolveu muitos países. Revelaram ser um poderoso instrumento de política externa do Estado português; dos mais importantes, talvez mesmo o mais importante, no pós-guerra fria. Os militares portugueses prestigiaram o país, e foram considerados e estimados pelos seus pares.

Qual a memória mais forte de um episódio vivido na ex-Jugoslávia?

É difícil isolar um episódio e dizer que foi o mais marcante. Pelo menos três serão difíceis de esquecer: as patrulhas que fiz na Krajina a seguir à operação militar do Exército croata, em agosto de 1995. O cenário dantesco de corpos de civis mortos nas bermas das estradas, das habitações ainda a arder e a evidência da partida apressada ficará gravada na memória para sempre; o acionamento de uma mina na zona de confrontação, na Krajina Sul; e o “desconforto” de estar na zona de morte de uma barragem de artilharia, na região de Bihac, felizmente sem consequências físicas.

Porquê escrever este livro?

São vários os motivos que me levaram a escrever este livro. Com base naquilo que vivenciei percebi que havia outras leituras possíveis dos acontecimentos, nalguns casos dissonantes daquelas consideradas oficialmente. Julguei importante partilhá-las e desse modo contribuir para a sua melhor compreensão. O conflito na Bósnia é talvez um dos conflitos dos tempos modernos mais mal explicados. Por exemplo, poucos analistas ocidentais consideraram a Bósnia uma frente da jihad global promovida pela Al-Qaeda. Este livro é, de certo modo, um ajuste de contas com a minha consciência e com a verdade.