Como funciona a máquina de propaganda do ocidente por Nikolai Starikov – ou a ilusão contra a verdade

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1. O seu princípio fundamental é a fragmentação. Isto pode parecer estranho, mas a fragmentação é o fundamento supremo da lavagem ao cérebro ocidental.

Não é segredo que o sistema de ensino nas “democracias avançadas” está concebido de forma a criar artificialmente uma visão muito estreita do mundo. Em contrapartida, o sistema escolar soviético tenta criar uma visão abrangente do mundo, mesmo entre os alunos mais preguiçosos, enchendo-lhes a cabeça com alta matemática, física, química e astronomia, por mais improvável que seja eles virem a usar todos esses conhecimentos. A compreensão da forma como o mundo está interligado, a causa e o efeito, e a capacidade de juntar tudo e analisar diversos factos, chama-se “pensamento analítico”. É o primeiro passo para a criatividade.

Todas estas coisas desapareceram do sistema de ensino ocidental. O nosso país tentou adotar este sistema, numa “reforma do ensino”, que tem um objetivo claro: a fragmentação da sociedade, não apenas em classes, mas em castas. A casta dirigente recebe um ensino clássico em escolas privilegiadas, as Cambridges e Eatons, em que se ensina uma visão abrangente do mundo e em que são forjados os futuros líderes e as elites do mundo ocidental. Todos os restantes recebem um “sistema de ensino avançado” que, na prática, aboliu os trabalhos de casa, e os estudantes acabam por quase nem saber ler. Quem quer que tenha frequentado a escola na URSS e conheça as escolas ocidentais poderá dizer como o programa na União Soviética era muito mais sólido. Os nossos estudantes do liceu resolviam problemas que os ocidentais estudavam na faculdade.

A ênfase neste sistema de ensino no Ocidente não acontece por acaso.

A fragmentação da consciência e a falta de uma visão abrangente do mundo são características da perceção da realidade de uma criança. Afinal, as crianças vivem no seu mundo, um mundo de jogos, de contos de fadas e de sonhos. Acabam por desenvolver uma visão adulta do mundo, com base na experiência, observando o que os rodeia segundo o que é a realidade.

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2. O objetivo do sistema de ensino ocidental é criar crianças. Crianças crescidas. Os únicos adultos no sistema são os formados nas universidades de elite que recebem um ensino a sério. Daí, a ingenuidade espantosa dos ocidentais que caem facilmente em todo o tipo de absurdos, se lhos repetirem na TV. Por exemplo, a ideia de que os EUA são um farol de liberdade e democracia para todo o mundo, que, em vez de defenderem os seus interesses, apenas procuram disseminar uma “liberdade” bastante nebulosa.

Uma criança é fácil de convencer – o segredo é repetir-lhe uma história com convicção e energia. A máquina da informação ocidental é convincente porque regurgita o mesmo ponto de vista por toda a parte: não se apresenta outro ponto de vista. Ocorre o mesmo efeito, quando uma criança faz a mesma pergunta, primeiro à mãe, depois ao pai e, finalmente à avó. Perante a mesma resposta, convence-se que assim deve ser.

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3. As crianças adoram brincar e divertir-se e a civilização ocidental moderna amplia a brincadeira e o divertimento eternamente. Há milhares de jogos e centenas de aplicações para jogos. Há filmes, livros, redes e locais especiais para jogar. Faz-se tudo para garantir que os adultos brinquem tanto quanto queiram. Será importante para a sociedade e para a humanidade, no seu todo, que as pessoas brinquem assim tanto? Qual é o objetivo da brincadeira para a espécie humana? Não se prevê qualquer benefício. Mas é conveniente poder governar indivíduos que só querem divertir-se, como crianças. Esta tendência leva à imaturidade. As pessoas não querem ter filhos – não admira, já que as crianças não constituem família nem procriam. É-lhes desnecessário. Ter uma família e criar filhos nossos geralmente deixa pouco tempo livre para os jogos e para o “divertimento”.

Estas três características da civilização ocidental estão por trás da estratégia usada para manipular o Zé Povinho.

Colocam-se com êxito, na cabeça dele, pensamentos coloridos e fragmentados. Este Zé Povinho, homem-criança, o ocidental médio, não tem uma compreensão real do que acontece e está plenamente disposto a acreditar numa história, se ela for bastante colorida e repetida bastantes vezes.

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Então, como distinguir uma manipulação de uma apresentação honesta dos factos?
1. Os manipuladores vão apelar às nossas emoções, usando os sentimentos – e uma quantidade mínima de factos – para criar uma impressão falsa.
2. Os manipuladores vão apresentar os factos na sequência errada, violando a lógica, invertendo a causa e efeito. Vão mostrar, invariavelmente, um fragmento do que está a acontecer, mas nunca o quadro completo.

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Reparem como as campanhas dos meios de comunicação ocidentais, assim como as dos nossos liberais pró-ocidentais, que estão ligados ao Ocidente por um cordão umbilical invisível, são sempre fragmentadas e emotivas.

Em agosto de 2008, “eram todos georgianos”. Noutra altura, estavam a lutar contra a “tirania de Saddam Hussein”. Uns anos depois, “reinava grande liberdade na Ucrânia”, quando queimaram e apedrejaram a força policial desarmada “Berkut”. Depois, de repente, estão cheios de preocupações quanto ao destino de Alepo, embora ainda ontem, não se preocupassem minimamente com o destino de Donetsk ou de Damasco e de Homs. A seguir, metem os pés pelas mãos quanto a “Putin a envenenar Litvinenko com polónio”, e ninguém se preocupa em saber se isto foi verdade – um método assim certamente já teria envenenado mais de uma pessoa, possivelmente toda a cidade de Londres.

Colocam um pequeno fragmento de informações na boca do Zé Povinho ocidental, um homem-criança, e embrulham-no numa bela imagem televisiva. A imagem mostra camiões queimados, mas uma total ausência de crateras de bombas. Todos os que veem acreditam que a imagem mostra o resultado de um ataque da força aérea russa a uma coluna humanitária. Ninguém denuncia o facto de que, se a coluna tivesse sido realmente atingida por bombas aéreas, os camiões não se tinham incendiado, teriam sido pulverizados. Mas a imagem é a cores vivas e tão convincente!

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Quem é o culpado pelo dilúvio de refugiados na Europa? Obviamente, os dirigentes europeus que abriram as comportas do continente a milhões de refugiados, principalmente do Afeganistão e de outros países do Médio Oriente. Mas o que é que diz a máquina de propaganda ocidental? A inundação de refugiados é culpa da Rússia, porque esta dificulta o derrube de Assad. Se a Rússia não tivesse interferido, a guerra já estaria acabada e ninguém teria que fugir para a Europa. A mentira não é apenas uma mentira óbvia, é uma dupla mentira: Se anseiam pela paz na Síria, não apoiem quem a violou – ou seja, a “oposição”. Há seis anos, não havia refugiados sírios rumo à Europa, embora Bashar al-Assad estivesse vivo e saudável como seu dirigente. As ações da Rússia destinam-se a repor esse status quo anterior à guerra. Mas a Rússia está a ser acusada pelo derramamento de sangue e pela destruição da Síria e também pelo facto de uns 100 mil refugiados terem ido parar à Alemanha.

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Quando o Pentágono ou o Departamento de Estado, muito a sério, referenciam “provas do Facebook”, não estão a gozar nem a ser desonestos. Também eles foram educados PARA ISSO. É por isso que alguns deles acreditam genuinamente que essas informações são verdadeiras. Evidentemente, os adultos, a mamã e o papá nunca mentiriam ao seu filhinho, não é? Portanto, a criança acredita genuinamente que, se se recusar a comer a sopa, aparecerá um papão assustador, zangado com a sua falta de apetite – com todas as consequências. A criança nem sequer concebe a ideia de que não existe nenhum papão e que a mãe o inventou, para atingir o seu objetivo prático (alimentar a criança relutante). Um ocidental não pode acreditar que o filme sobre “ataques russos a uma coluna humanitária” possa ter sido fabricado, ou que o MI-6 possa ter envenenado Litvinenko com sais de tálio, ou que os meios de comunicação ocidentais desçam tão baixo como a mostrar “motins em Moscovo” com palmeiras ao fundo (porque, na realidade, a cena passa-se com motins em Atenas). Têm a certeza que um “país civilizado” nunca entraria numa falsificação destas?

Assim, agora o Ocidente e a Quinta Coluna na Rússia “são residentes de Alepo” (“Je suis Aleppo!”), apesar de nenhum deles se importar com a Síria em geral e com Alepo em particular. Só que, agora, os projetores do circo de informações ocidentais estão virados para aquele lado. Portanto, toda a gente olha obedientemente naquela direção, observando apenas o que lhe mostram.

Mas não se preocupem, daqui a nada vão esquecer tudo sobre Alepo. Vão mostrar-lhes e contar-lhes um conto assustador, novinho em folha, e o infantil Zé Povinho vai acreditar nisso. Vão começar a preocupar-se com alguém ou com qualquer coisa… até que a máquina de propaganda ponha em destaque outros factos, noutro país, deixando de noticiar a tragédia de Donbas ou das diversas cidades da Síria, ou do Iémen, ou de centenas de outros locais do planeta, cujas tragédias diárias recebem dos meios de comunicação ocidentais apenas um frio encolher de ombros.

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15/outubro/2016
O original encontra-se no blogue de Nikolai Starikov e a versão em inglês em
russia-insider.com/en/politics/how-western-propaganda-machine-works/ri17016
Tradução de Margarida Ferreira.

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Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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O Liberalismo Semi-Fascista das Escolas Portuguesas

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Basta esta comparação para nos pôr a pensar:
– Os factos observam-se, explicam-se e experimentam-se (é o domínio e a actividade das ciências particulares);
– as ideias compreendem-se, debatem-se e praticam-se (é o domínio e a actividade da Filosofia).
Por conseguinte, a Filosofia e as ciências não se podem equiparar em termos didácticos.
Galileu escrevia que a Filosofia não deveria servir para formar “doutores” em memória. Kant afirmava que o ensino da Filosofia deveria servir para ensinar a pensar. Juntando as duas ideias, podemos encontrar o caminho correcto para a didáctica da Filosofia.
A imagem que vou apresentar de seguida não respeita a uma escola determinada mas a muitas das escolas deste país e reflecte o que tenho ouvido dizer acerca do que se passa nelas. Fica assim ressalvada a identificação oportunista e malévola com qualquer estabelecimento de ensino em concreto.
É evidente que não se ensina Filosofia obrigando os professores a seguir métodos semelhantes, a usar matrizes de testes iguais e a um teste de aferição (necessariamente igual na matriz e nas perguntas, no final do ano lectivo) para todas as turmas. Como se não se desse o caso de haver filosofias mas a Filosofia e como se não se desse o caso de haver alunos mas o Aluno. Não se normaliza a Filosofia como se uniformizam os parafusos.
Também não se ensina Filosofia incentivando a delação, a denúncia por parte dos alunos à direcção da escola quando um professor se desvia, mesmo que só um pouco, do modelo de ensino imposto, impelido pela urgência da sua própria personalidade.

Ainda que certas escolas a que me refiro, como aliás quase todas as outras (sem identificar nenhuma em particular), sigam a ideologia dominante que incentivam – a do liberalismo, concepção burguesa do mundo -, o método que usam para a promover entre os alunos é de estilo fascista: à semelhança deste regime político, realizam-se cerimoniais (actividades) de endoutrinação político-ideológica, que são incentivados de cima, pela direcção e pelo conselho pedagógico, sendo muito mal vistas quaisquer críticas a essas cerimónias e quaisquer outras actividades díspares da ideologia dominante; à semelhança do fascismo, vê-se com bons olhos a existência de informadores.

É a continuação do poder oculto da sombra negra do ensino em Portugal, da senhora Maria de Lurdes Rodrigues. Ela não é a Ministra encartada (creio que é ainda a presidente da Fundação Luso-Americana) mas a sua influência manifesta-se na resistência activa das direcções (e não só) das escolas à mudança de pedagogia que o actual Ministro tem, pelo menos, como programa.

O Fim das Humanidades – Gabriel Ferreira

 

O Fim das Humanidades


  • Gabriel Ferreira
  • [06/05/2016]
  • [00h01]
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“Em setembro de 2015, o ministro da educação japonês, Hakubun Shimomura, notificou as universidades do país pedindo que elas tomassem providências para abolir os seus departamentos de humanidades – que compreendem áreas como a Filosofia, Sociologia, Antropologia, Letras entre outras – a fim de convertê-los em organismos que “sirvam melhor as necessidades da sociedade”. O ministro japonês não estava fazendo nada mais do que ecoar uma onda que tem nas universidades dos EUA o seu precedente. Já há dois anos antes, o ARC, órgão australiano de fomento à pesquisa, havia apontado o projeto de um renomado especialista em filosofia alemã como o tipo de pesquisa que consistiria em um “desperdício de dinheiro”. E temos então formado o actualíssimo tema da crise das humanidades mundo afora.
O valor do estudo da literatura não é enriquecer o vocabulário, embora tal “efeito colateral” seja desejável

 

O tipo mais comum de reacção na literatura atual pode ser sumarizado na posição da professora americana Martha Nussbaum no seu livro Sem fins lucrativos: Por que a democracia precisa das humanidades (ed. WMF, 2010). Segundo ela, as humanidades são essenciais porque delas emergem habilidades e características fundamentais para a manutenção da democracia (ou do pensamento crítico ou, ainda, da civilização ocidental). Assim, o seu ensino deve ser preservado porque fomentam capacidades e repertório indispensáveis para tal ou tal fim. E esse é um bom exemplo de como boas verdades podem constituir um mau argumento.
O problema central desse tipo de argumentação é que, por colocar o valor das humanidades na sua função ou serventia para um fim, este sim, mais desejável – a democracia, a aceitação das diferenças ou a manutenção da cultura ocidental –, o que todos os defensores estão dizendo no fundo é que, gostem ou não, as humanidades não têm um valor em si mesmas. Basta que aqueles fins não sejam mais desejáveis – e é historicamente patente que a democracia ou a boa convivência com as diferenças nem sempre gozaram do prestígio atual –, para que o “valor das humanidades” vá igualmente por água abaixo. Nem mesmo do ponto de vista pragmático, de convencer o burocrata interessado na manutenção da democracia ou da cultura ocidental, este tipo de raciocínio é cogente.
O valor do estudo da literatura não é enriquecer o vocabulário, embora tal “efeito colateral” seja desejável. Do mesmo modo, o objectivo do estudo da História não pode ser tão somente “não repetir os erros do passado”, assim como o valor da Filosofia não deve residir no desenvolvimento do famigerado “pensamento crítico”. Há uma diferença crucial entre adquirir formação ou informação e buscar conhecimento simplesmente porque, ao contrário dos saberes necessários para bem chegar a um determinado fim, à busca por alargar o conhecimento da realidade não se pode conceder um termo que lhe seja prévio e em relação ao qual possamos medir o seu progresso. Da mesma forma, a universidade deve ser o lugar no qual a ideia norteadora fundamental é que o conhecimento não pode ser sempre identificado com a formação para uma profissão ou para um outro fim que não, como diria Aristóteles, “fugir da ignorância” porque isso é bom em si mesmo. É esse o sentido de “Educação Superior”, expressão desgastada e quase esvaziada de sentido. Se as humanidades são essenciais para algo, o são para afirmar precisamente o valor intrínseco de certa parcela da existência humana que sabemos irredutível porque tem o seu fim em si mesma”.
Gabriel Ferreira é doutor em Filosofia e professor na Tunisinos.
 
(Texto modificado em certos detalhes linguísticos)

Marxistas – Onde Estais? Ou Desnorte nos Valores Culturais da "Esquerda" no Ensino da Língua no Brasil

É o que acontece quando a “esquerda”, em qualquer lado, perde o norte, isto é, o marxismo, o de Marx, bem entendido. Não é que me incomode com a supressão no Brasil dos clássicos da língua portuguesa. O Brasil, onde já se propôs romper os laços da língua adoptando o brasileiro, tem todo o direito à sua autodeterminação, a promover os seus escritores,  que decerto dizem mais ao seu povo, e a escolher a narrativa da História que mais lhe interessa. De resto, até os europeus se estão nas patavinas para a sua própria História, sua cultura, sua diversidade,  suas identidades diversas. Já somos mais tudo e nada ao mesmo tempo. A única coisa que me faz ficar perplexo, se alguma coisa ainda me surpreende, é a promoção pelo próprio governo brasileiro da bandalheira linguística, como se o rigor, a harmonia, a sistemática fossem valores imperialistas, opressivos, reaccionários, neocolonialistas. Há-de haver um dia em que será revolucionário o regresso ao canibalismo.
Literatura portuguesa deixa de ser obrigatória no Brasil

“O Ministério da Educação do Brasil (MEC) eliminou a obrigatoriedade do estudo da literatura portuguesa na nova Base Nacional Curricular Comum (BNCC) que está até março em discussão e deve ser posta em prática em junho. A decisão é considerada por grupos de educadores brasileiros como “política” e “populista”, faz parte de uma série de propostas, que inclui mudanças nos currículos de Língua Portuguesa e de História e está a ser alvo de intenso debate no país.
Autores como Luís Vaz de Camões, Gil Vicente, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett ou José Saramago deixam de ser obrigatórios. Numa prova do ano passado de acesso à Universidade de São Paulo, a mais bem colocada do país nos rankings internacionais, era exigida a leitura de clássicos como Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, e A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós.
“A proposta beira o absurdo (…) como se pode apagar Portugal e a Europa de nossas origens? Tirando do mapa? Será que mais uma vez a seleção de conteúdos foi contaminada por um viés político e ideológico anacrónico? (…) Já que Portugal teria sido uma metrópole colonialista europeia que explorou as riquezas de suas colónias e escravizou populações negras e indígenas na América e em África, agora seria a vez de dar voz à cultura dos oprimidos, em detrimento da Europa elitista e opressora?”, perguntaram-se em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo dois professores universitários brasileiros, Flora Bender Garcia e José Ruy Lozano, indignados com a decisão.
O Ministério da Educação do Brasil, solicitado pelo DN a dar uma explicação, esperou uma semana para responder através do gabinete de comunicação que não teve tempo para elaborar uma resposta. Sublinhou, no entanto, que a BNCC não é definitiva e que está em processo de discussão.
José Ruy Lozano critica esse processo de discussão por ser possível apenas através de comentários no site do MEC e não via um fórum mais formal e abrangente (ver entrevista ao lado) e sublinha a “importância da literatura portuguesa na memória e na vivência dos brasileiros”. Refere o professor universitário que não se pode estudar traços essenciais da cultura e da literatura do país sul-americano sem entender primeiro as raízes europeia, ibérica e portuguesa dessa mesma literatura.

 

© Fornecido por Diário de Notícias

 

 

História e gramática
A BNCC foi criada no ano passado, na gestão do ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, entretanto substituído por Aloizio Mercadante, para estabelecer um grupo de conhecimentos e habilidades de que todos os estudantes brasileiros devem dispor na educação básica. Logo que foi conhecida do público gerou controvérsias: inicialmente, não tanto por causa da literatura portuguesa mas sim por questões ligadas à história e à gramática.
As críticas surgiram em virtude da pouca relevância dada à história mundial, ignorando pontos considerados por educadores como de conhecimento básico, para dar ênfase às histórias indígena e africana. Outra área que mereceu reparos foi a da ausência da gramática no ensino geral de linguística.
O Ministério da Educação, porém, decidiu incluir nos últimos dias algumas das sugestões nestas áreas – história e linguística – e rever os pontos mais controversos da Base Nacional Curricular Comum, após receber mais de dez milhões de contribuições no site construído para o efeito.
“Para os componentes de história e geografia, o processo de revisão tem sido no sentido de mostrar as formas de integração entre o Brasil e os processos históricos globais”, recuou o Ministério da Educação.
No mesmo documento lê-se ainda que serão introduzidos tópicos de análise linguística em todas as etapas de escolarização – mas não há referência à reintrodução, ou não, da obrigatoriedade da literatura portuguesa.
Populismo e ideologia
O governo do Partido dos Trabalhadores, de centro-esquerda, é acusado de populismo e de agir de forma ideológica, ao querer privilegiar a cultura indígena e ao ser mais permissivo em relação a questões gramaticais já desde 2011, quando causou choque na classe educadora que num manual escolar distribuído pelo MEC fosse considerada “inadequada e passível de preconceito” mas não errada” a expressão, sem concordância, “nós pega o peixe”.
O colunista de O Globo Ricardo Noblat defendeu na ocasião que era o mesmo que dizer que “dois mais dois são cinco”, enquanto o jornalista da Folha de S. Paulo Clóvis Rossi sublinhava que “a questão é exclusivamente linguística, alguns esquerdistas de botequim tentam politizá-la com o argumento de que a língua é um instrumento de dominação. Se fosse, deveríamos voltar a falar tupi-guarani”.

Matrix, o Filme: Mistificação à Hollywood

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O irracionalismo (a mitologia contemporânea) redobram-se:
a) a mistificação da Nova Ordem Mundial na forma duma teoria de conspiração pelo poder maçónico-judaico dos Illuminati (sociedade secreta de mações que comanda os movimentos e agentes políticos mais importantes manobrando para impor uma Nova Ordem Mundial) como maneira de desviar a atenção dos indignados e ofendidos para a luta contra forças políticas e económicas fantasiosas, contra moinhos-de-vento;
b) a confusão entre clima e ambiente mediatizada pelo oportunista Al Gore, que enriqueceu com plantações de tabaco e outras matérias-primas energéticas, e usada para dar alento aos negócios dos créditos de carbono, à energias ditas renováveis, à energia atómica e para atacar o desenvolvimento dos países em vias de tal, fazendo esquecer que os Estados Unidos poluem ‘per capita’ duas vezes mais do que a Europa, quatro vezes mais do que a China e oito vezes mais do que a Índia;
c) as ficções de massas catastrofistas e de alienação como o celebrado filme Matrix, subliminarmente associado ao pânico da Nova Ordem Mundial, e mais expressamente ao dualismo maniqueísta mente-corpo, ao complexo messiânico do ‘cowboy’, temperado com lutas de ‘kung-fu’ e consumo bioenergético-humano pelos computadores, e a uma ideia abstracta e sublimada de alienação, que nada tem a ver com a alienação real.

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A Alegoria da Caverna, que Matrix pretende actualizar, como se fosse preciso, é suficientemente simbólica para representar toda e qualquer ilusão efectiva, como Platão o fez quanto à política e à educação no contexto em que inseriu a alegoria. A ilusão da Alegoria da Caverna não é uma instância ontológica ou um efeito de uma realidade acima da nossa – é uma alegoria, uma espécie de metáfora – mas uma alienação da realidade concreta da vida que temos, produzida pelas circunstâncias da nossa existência real e não por máquinas de características mitológicas e antropomórficas que tomaram conta de nós. O «génio maligno» de Descartes não é um personagem real, ou uma máquina mítica, que se entretém a fazer-nos partidas mas a personificação irónica das nossas fragilidades cognitivas.
Há quem também veja no Matrix uma alegoria mas essa interpretação não colhe: não há nele nem humor nem ironia, não há um distanciamento entre a narrativa e a realidade sobre a qual se relacionaria à maneira de uma metáfora. O que há é apenas a representação de uma crença na possibilidade dos computadores puderem autonomizar-se e tiranizar os homens, dando vazão à sua vontade de poder. É a exploração do medo irracional da tecnologia ser capaz de se tornar humana e escravizar o seu criador, caricaturando e compreendendo de maneira errada a rábula do aprendiz de feiticeiro. Não é uma ficção que se deve tomar por tal e usar-se como uma metáfora da alienação do homem por si próprio, entendendo-se esta como efeito de auto-ilusão no seu processo real de vida, feito de contradições económicas, tecnológicas, psicofisiológicas, psicológicas, axiológicas e ideológicas.
Matrix, no seu enredo rebuscado e mistificado, limita-se ao que fizeram tantos filmes de Hollywood, a inventar um papão impossível mas credenciado pelo arcaísmo dos fantasmas antropomórficos que desviam os homens dos seus verdadeiros problemas, em suma, a meter medo, pelo menos enquanto se está na sala de cinema. Matrix é, assim, ao invés da Alegoria da Caverna de Platão, um novo instrumento de mistificação, uma tela projectada na Caverna, que não é onde nos puseram mas que criámos na forma de um reflexo imaginário da realidade – sala escura onde entretemos muito felizes os nossos fantasmas: aqueles de que cuidamos para, de vez em quando, fazerem de tela, num processo psicanalítico de transferência, e nos afastarem daquelas preocupações demasiado verdadeiras e reais.
E há livros e artigos de filósofos intitulados, assim como aulas, que encontram valor num veículo de pseudo-filosofia pronta-a-usar!

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“Matrix” revisitado: por que Jean Baudrillard não gostou do filme?
quinta-feira, agosto 30, 2012 Wilson Roberto Vieira Ferreira 3 comments

“’Matrix’ é certamente o tipo de filme sobre a matriz que a matriz teria sido capaz de produzir”, afirmou de forma mordaz o pensador francês Jean Baudrillard em uma das raras entrevistas sobre o filme dos irmãos Wachowski. Além dos irmãos terem se inspirado no livro “Simulacros e Simulações” do francês para o argumento de “Matrix”, convidaram-no para assessorar a continuação da trilogia. Baudrillard prontamente declinou do convite passando a raramente opinar sobre a relação do filme com seus conceitos filosóficos. Em uma das poucas entrevistas sobre o filme concedida ao “Le Nouvel Observateur” em 2003, Baudrillard criticou a ausência de ironia em “Matrix” e de ter tomado os princípios de “simulacro” e “simulação” a partir das categorias da realidade.

Certamente o filme “Matrix” tornou-se um clássico, não tanto pelas suas virtudes cinematográficas (na verdade, um típico blockbuster com todas as convenções do gênero), mas por ter se tornado uma síntese dos temas explorados em filmes como “Show de Truman”, “O Décimo Terceiro Andar”, “Ed TV” etc.: as crises decorrentes do apagamento das fronteiras entre o real e o virtual. Embora o filme faça uma alusão ao pensador francês Baudrillard, nas poucas entrevistas concedidas sobre “Matrix” ele demonstrou a estranheza de ver um conceito filosófico transposto para a realidade com muitos efeitos especiais. Para ele, o filme foi equivocado em aproximar o tema da noção do Mito da Caverna de Platão, além de conceber a simulação da matriz a partir das categorias da realidade.

Na entrevista que transcrevemos abaixo concedida ao Le Nouvel Observateur, Baudrillard afirma que o equívoco de Matrix foi retirar a ambiguidade do choque entre o virtual e o real e conceber a Matriz como uma tecnologia de onde é retirado o perigo e o negativo. Uma narrativa esquemática onde o deserto do real (sujo, decadente e perigoso) é substituído por uma tecnologia maquiavelicamente precisa, onde até as anomalias e revoltas já estariam previstas nas equações. Em outras palavras, sob a aparente crítica “Matrix” representaria um sintoma do fascínio cultural pelas tecnologias computacionais.

A HIPÓTESE DO SIMULACRO MERECIA MUITO MAIS DO QUE TORNAR-SE REAL
Aude Lancelin – 25/06/2003

Le Nouvel Observateur: Suas reflexões sobre a realidade e o virtual são algumas das principais referências usadas pelos criadores de “Matrix”. O primeiro episódio explicitamente faz alusão a você quando o espectador claramente vê a capa de seu livro “Simulacros e Simulações”. Você ficou surpreso com isso?

Os irmãos Wachowski
Jean Baudrillard:Certamente houve erros de interpretação, o que seja por isso que tenho sido hesitante até agora para falar sobre o filme “Matrix”. A equipe dos irmãos Wachowski contatou-me em vários momentos após o lançamento do primeiro episódio, a fim de me envolver com os seguintes, mas isso realmente não era concebível (risos). Basicamente, um mal-entendido semelhante ocorreu em 1980, quando um grupo de artistas de Nova York chamado “Simulacionistas”[1] me contatou. Eles tomaram a hipótese do virtual como um fato irrefutável e transformouo-a em um fantasma visível. Mas é precisamente isso, o fato de não podermos utilizar categorias do real a fim de discutir as características do virtual.

Nouvel Observateur: A conexão entre o filme e a sua visão desenvolvida, por exemplo, no livro “O Crime Perfeito”, é, no entanto, bastante impressionante. Ao evocar um deserto do real, esses humanos totalmente virtualizados e espectrais não são mais do que a reserva energética de objetos de pensamento ….

Jean Baudrillard: Sim, mas já houve outros filmes que tratam a indistinção crescente entre o real e o virtual: “Show de Truman”, “Minority Report”, ou mesmo “Mulholland Drive”, a obra-prima de David Lynch. O valor de “Matrix” é, principalmente, o de ser uma síntese de tudo isso. Mas a narrativa é muito crua e não verdadeiramente evoca o problema. Os personagens ou estão na matriz, isto é, no sistema digitalizado de coisas, ou estão radicalmente fora dele, tal como em Sião, a cidade da resistência. Mas seria interessante mostrar o que acontece quando esses dois mundos colidem. A parte mais constrangedora do filme é que o novo problema colocado pela simulação é confundido com o tratamento clássico platônico. Esta é uma falha grave. A ilusão radical do mundo é um problema enfrentado por todas as grandes culturas e que é resolvido através da arte e simbolização. O que nós inventamos a fim de dar conta desse mal estar é um real simulado, que doravante suplantará o real como a sua solução final, um universo virtual do qual tudo o que é perigoso e negativo foi expulso. E “Matrix” é, inegavelmente, parte disso. Tudo que pertence à ordem do sonho, utopia e ilusão é dada uma forma concreta, é realizado.” Estamos na transparência sem cortes. “Matrix” é certamente o tipo de filme sobre a matriz que a matriz teria sido capaz de produzir.

Nouvel Observateur: É também um filme que pretende denunciar alienação tecnicista e, ao mesmo tempo, demonstra inteiramente o fascínio exercido pelo universo digital e das imagens geradas por computador.

Para Baudrillard é notável a ausência de ironia
que permita aos espectadores irem
para além dos efeitos especiais
Jean Baudrillard: O que é notável sobre “Matrix Reloaded” é a ausência de um lampejo de ironia que permita aos telespectadores transformar este gigantesco efeito especial em sua cabeça. Não há uma seqüência que seja o “punctum”, sobre qual Roland Barthes escreveu, esta marca impressionante que lhe traz cara-a-cara com uma imagem verdadeira. Além disso, isso é o que torna o filme um sintoma revelador do fetiche real em torno deste universo de tecnologias de tela no qual não há mais distinção entre o real e o imaginário. Podemos considerar “Matrix” um objeto extravagante, ao mesmo tempo sincero e perverso, onde não há nem um aqui nem lá. O pseudo-Freud que fala na conclusão do filme coloca muito bem: em um determinado momento nós reprogramamos a matriz a fim de integrar anomalias na equação. E você e as resistências seria uma parte delas. Dessa maneira estamos, ao que parece, dentro de um circuito virtual total sem um exterior. Aqui, novamente estou em desacordo teórico (risos). “Matrix” pinta a imagem de uma superpotência monopolista, como vemos hoje, e então colabora em sua refração. Basicamente, a sua difusão em escala mundial é conivente com o próprio filme. Sobre este ponto, vale a pena lembrar Marshall McLuhan: o meio é a mensagem. A mensagem de “Matrix” é a sua própria difusão por meio de uma contaminação incontrolável.

Nouvel Observateur: É um pouco chocante ver que, doravante, todos os sucessos de marketing norte-americanos, de “Matrix” ao novo álbum de Madonna, são apresentados como críticas ao sistema que maciçamente os promove.

Jean Baudrillard: Isso é exatamente o que faz com que nosso tempo seja tão opressivo. O sistema produz uma negatividade em trompe-l’oeil, que é integrado em produtos do espetáculo, assim como a obsolescência é construído em produtos industriais. É a forma mais eficiente de incorporação de todas as alternativas genuínas. Não há um ponto Omega mais externo ou meios disponíveis antagônicos para analisar o mundo. Não há nada mais do que uma adesão fascinada. Deve-se entender, no entanto, que quanto mais se aproxima de um sistema de perfeição mais nos aproximamos do acidente total. É uma forma de ironia objetivo estipulando que nada aconteceu. O 11 de setembro foi um exemplo disso. O terrorismo não é um poder alternativo, não é nada, exceto a metáfora deste retorno quase suicida do poder ocidental sobre si mesmo. Isso foi o que eu disse na época e foi amplamente criticado. Não se trata de ser niilista ou pessimista em face de tudo isso. O sistema, o virtual, a matriz – tudo isso talvez retorne à lata de lixo da História. Enquanto a reversibilidade, desafio e sedução são indestrutíveis.
Comentário

De Hollywood ao meios intelectuais e
acadêmicos, as ideias de Baudrillard foram
interpretadas por leituras esquemáticas a
partir da noção ideológica de “falsa consciência”

A estranheza de Baudrillard em ver seus conceitos de simulacro e simulação traduzidos por meio de efeitos especiais em uma típica narrativa maniqueísta de luta entre o bem e o mal, a realidade e o virtual, não se refere apenas uma interpretação equivocada de Hollywood e dos irmãos Wachowski. Os próprios círculos intelectuais e acadêmicos também acabaram fazendo uma leitura sobre Baudrillard semelhante ao partir da tradicional crítica da ideologia como falsa consciência.

É como se tudo fosse uma estória narrada com a seguinte sinopse: era uma vez o virtuoso real que, de repente, foi corrompido pela ambição humana traduzida por uma sofisticada tecnologia que criou uma representação ideológica do mundo que subjuga os homens bons sedentos pela Verdade e Realidade.

Essa leitura esquemática de Baudrillard não compreende o ponto crucial no pensamento do francês expresso na entrevista acima: a realidade, desde o seu início, já foi seduzida pela ilusão através da ironia, reversibilidade e sedução. Como vimos em postagem anterior (veja links abaixo) é o postulado gnóstico de que o mundo físico é corrompido desde sua criação, seduzido pelo Mal tomado aqui em um sentido mais ontológico do que moral.

O que Baudrillard qualificava como “estratégia fatal” era o fato de a realidade ser irônica e desafiar todos os propósitos humanos de controle, assepsia e transparência. Chamava essa estratégia irônica de “reversibiliade”: o destino de cada ação no sentido do Bem (progresso, transparência, desenvolvimento, funcionalidade, racionalidade etc.) resulta em uma espécie de efeito entrópico: dissolução, regressão, opacidade. A tecnologia que de tão sofisticada e complexa converte-se em gadgets inúteis; a assepsia e o ideal de brancura total produz a infecção hospitalar; o sistema econômico que de tanta racionalidade resulta em um gigantesco potlach. Dessa forma, para cada ato bom produz-se um efeito perverso: a produção reverte-se em destruição, a paz produz a guerra, a realidade a ilusão, e assim por diante.

Por isso, como diz Baudrillard na entrevista, todas as culturas se defrontaram com a suspeita da ilusão radical do mundo e tentaram elaborá-la por meio das artes e simbologia. A cultura tecnológica, ao contrário, procurar dar conta desse mal com a simulação do real, criar uma ilusão que supere outra ilusão por meio da tentativa de eliminar a negatividade e o mal através da precisão, racionalidade e assepsia.

Por isso, Baudrillard criticava a falta de ambiguidade e ironia à trilogia “Matrix”: a matriz é perfeita demais e o real é excessivamente desértico. Tudo preto/branco, binário, tal qual a lógica do sistema contra a qual a narrativa tenta rebelar-se.

[1] Foi talvez Peter Halley, mais do que qualquer outro pintor americano “Simulacionista”, que triunfou a conceituação de Baudrillard de hiper-realidade na arte. E, como ele observa com ironia, Baudrillard acabou com as esperanças de Halley ao afastar-se dele com críticas. Mas não foi apenas os pintores “Simulacionistas” que mereceram a crítica. Como Paul Hegarty disse em uma recente entrevista com Baudrillard (Abril de 2003, em seu livro Jean Baudrillard: Live Theory, London: Continuum, 2004): “os últimos foram os ‘artistas simbióticos’. Eles continuaram insistindo, dizendo: ‘mas você deve amar o que estamos fazendo’. Baudrillard disse: ‘espera aí, isso não é aceitável”.

Antes de Nuno Crato ser Ministro – Escola Nova: Equívocos Saudosistas e Progressistas Para uma Mudança no Ensino, Agora que se Perspectiva um Governo Menos à Direita

 
Recordo-me ainda de quando Nuno Crato participou num encontro do PSD acerca da educação lá pelo ano de 2009. O grande paladino contra o eduquês – que parte da ideia, subscrita igualmente pelo filósofo analítico Desidério Murcho, e que é, diga-se desde já, uma grande verdade, de que aprender a aprender não faz qualquer sentido porque só se aprende através da aquisição formal, metódica, de conteúdos – terá talvez descoberto, ou posto a descoberto, a sua família política, liberal em economia mas conservadora nos costumes e desconfiada de qualquer esforço para potenciar o pensamento autónomo que não vise o desenvolvimento de capacidades para um certo e estrito empreendedorismo, qualquer que seja o seu objecto particular, desde que reprodutor de capital, frenado apenas pelas lutas democráticas que vão forçando ao reconhecimento e implemento dos direitos humanos. Ironicamente se não tivesse sido a Segunda Guerra Mundial, a pressão dos partidos de esquerda, dos sindicatos e dos países de Leste, não teriam entrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 (a de 1795 contemplava apenas os direitos individuais – à vida, à expressão e ao voto – e patrimoniais – à propriedade) os direitos sociais (em especial ao trabalho, à educação, ao lazer e à saúde).
Embora, ao fim e ao cabo, se tenha de reconhecer que tudo vai lá dar, tal a capacidade apropriadora da organização capitalista. E em grande parte por os seus agentes, dependentes moral e economicamente dela, não acreditarem em nada – sobretudo para os outros – que não seja na ideia de que tudo serve, de que tudo vale – da espiritualidade à pornografia, do ensino ao embrutecimento de muitas séries televisivas, da saúde à guerra -, desde que se faça dinheiro com isso.
Já dizia o Pessoa engenheiro – façamos esta analogia moral – a propósito da entrada de Marinetti na Academia: «Lá chegam todos, lá chegam todos…/Qualquer dia, salvo venda, chego eu também…»
Mas acontece que muitas verdades se colocam ao serviço da falsidade, da distorção de um movimento, de um processo social, educativo, político, ético, filosófico. É o caso, por exemplo – permita-se-nos uma perífrase -, da confusão maliciosa parcial, entre as grandes teses filosóficas, económicas e socialistas de Marx e o Gulag Estalinista, a que, de maneira nenhuma, se reduz o governo de Estaline (será preciso investigar, com a seriedade que até agora não houve, as relações, não directas, não automáticas, entre a teoria e a prática referidas, entre as possibilidades e as necessidades do movimento comunista no contexto político, económico e militar da época). 
Tal como sucede com todos os grandes Filósofos (Platão, Aristóteles, Galileu, Descartes, KantHegelFrege, etc.), também de Marx muito está datado e falseado mas nele um núcleo de teses, elementos de metodologia, atitudes éticas, direcções frutuosas ou infaustasde questionamento (o fazer, o conhecer e o valer é constituído por tudo isso), mantêm-no actual, junto com os outros e mais do que quaisquer outros, nas polémicas presentes de toda a ordem e na procura do sentido geral do homem.
Ora, a verdade é que se pode aprender a aprender, a começar pelo facto de que, no processo de descoberta do ser e do fazer, executado sempre e necessariamente sobre conteúdos, se pode descobrir que se está a aprender e que tal implica e desenvolve uma atitude e um método geral: por um lado, a curiosidade, o esforço de concentração mental e de labor físico; por outro, a consciência de que é preciso um tempo e uma ordem de etapas articuladas, adequados à matéria em causa, aos fins que não podem ser imediatos. Atitude, valor e metodologia são momentos existenciais e cognitivos que germinam em simultâneo na criança e no adolescente.
O problema da chamada Escola Nova (apelido errado, tanto ela é vária nas correntes doutrinais, embora coincidam na defesa do papel activo, subjectivo e propriamente escolar do aluno na construção dos seus conhecimentos e competências inventivas e físicas) consistiu, numa vaga versão oficiosa posterior, e também em recepções distorcidas, por um lado, em hipostasiar a ideia de aprender a aprender numa forma despida em si mesma de conteúdo cognitivo – ou cujo conteúdo, caso não fosse técnico, tenderia, e tenderá ainda, a tornar-se mais instrumental do que formativo -, e por outro, como causa ideológica desse formalismo pedagógico, o já referido pragmatismo burguês, para o qual o saber não tem valor a não ser que seja útil, isto é, eficaz para um fim técnico qualquer destinado a satisfazer uma qualquer necessidade ou capricho – dentro do respeito formal burguês pela pessoa em cada um (Kant)   -, na medida em que seja um meio de capitalizar.
Será por isso um meio em que se investe independentemente de qualquer reflexão séria, para ser levada à prática, acerca do valor que tem isso em termos de sentido – imanente ou transcendente – da vida, isto é, da sua relevância para a formação moral, afectiva, estética, científica, filosófica, física, e não para a utilização da humanidade por mecanismos alienantes, ou que se alienaram do próprio homem que os criou, transformando o objecto da criação em sujeito criador.
Por outras palavras, referimo-nos aos mecanismos que fazem da humanidade precisamente um meio para eles, na medida em que se alienaram da mesma humanidade por se terem autonomizado em leis económicas exteriores que escapam ao poder do homem de decidir do seu destino.
É este o significado da liberdade para o utilitarismo burguês e também para o o mais rigorosamente formal transcendentalismo crítico, que separava o natural do moral no homem. 
Por isso, tal como William James dizia não se importar saber se a religião é verdadeira ou falsa mas se é útil – e se é útil, nomeadamente para a felicidade ignorante das massas e para a sua formação moral num certo sentido, tal que seja também útil para quem a promove e para quem ganha com a sua promoção, então deve ser ensinada -, podemos então igualmente dizer que o que motiva a adopção oficial das pedagogias implementadas pelo menos nos Estados Ocidentais não é tanto o conteúdo para as necessidades humanas do que se aprende (embora, insuprimível, deva ser criteriosamente escolhido em termos económicos e ideológicos, apesar de neste caso a própria alienação social o faça esquecer) quanto a forma de produzir, o método de investigar e a utilidade para as necessidades de autenticação ou de auto-ilusão humanas. Estas necessidades, constituindo o seu material, encontram-se cativadas pela lógica da exploração, pela lógica da concorrência e da reprodução alargada do capital. Este tornou-se independente da vontade do indivíduo, que se encontra agora sob o poder daquele mecanismo na actividade produtiva e nas suas representações da sociedade e do homem.
O ser humano, tal como Sísifo, é ao mesmo tempo um meio de produção e de consumo para abrir espaço a nova produção, que terá de consumir. O desenvolvimento da suas capacidades está sempre determinado – a não ser na arte, que também nunca foi muito autónoma – pela urgência de criar novas necessidades, que se forçam umas às outras: trabalhar mais rapidamente, fazer negócios com celeridade, viajar em transportes mais velozes, alimentar-se de comida rápida, descansar a mente com séries televisivas sem valor formativo, libertar a tensão acumulada no dia-a-dia com jogos de computador, comprar um automóvel último modelo como extensão da nossa personalidade, um telemóvel com música para ir entretendo o tédio, uma casa nova para começar de novo o que se fez sempre, em vez de remodelar a que se tem, etc., etc.,  porque é preciso aumentar a riqueza e manter os empregos. Nomeadamente, que seria de muita dessa riqueza e de muito desse emprego se as pessoas não fossem induzidas a consumir uma enorme quantidade de divertimentos empobrecedores e de utilidades que depressa se revelam inúteis e frustrantes, sendo que a frustração é uma das mais importantes forças económicas? Que interessa o conteúdo se o mas importante é produzir? Por isso, o que motiva a ”Escola Nova” institucionalizada é o saber-fazer, a forma de se fazer.
O formalismo tendencial de alguma influente nova pedagogia não estava na intenção inicial dos seus criadores, por seu lado algo confusos e frágeis na teoria, girando na órbita de Rousseau e conferindo um sentido místico ao seu ensino (Pestalozzi, significativamente nome de um prémio instituído pelo ME português, Fröebel, Montessori, etc.), ou outros de tendência mais social (Feinet, Makarenko e Paulo Freire). Além disso, as instituições educativas estatais adoptaram, pelo contrário, nas últimas décadas, num confronto interessante com o conceptualismo de Ausubel, o condutismo da sugestivamente chamada pedagogia por objectivos de Bloom com a sua taxonomia, e depois os seus avatares.
O que tem motivado desde há muito os sistemas educativos oficiais é bem mais a capacidade de se aprender, desde que se aprenda a inventar novos artefactos que reproduzam capital – sejam, deve reconhecer-se, coisas boas, como painéis solares, livros, independentemente do conteúdo que tiverem posto que vendam, e produtos para o conforto e o desabrochar das potencialidades humanas, sejam armas de guerra e bugigangas desnecessárias, poluidoras e alienantes – e novas maneiras financeiras de fazer dinheiro, como a usura, agora denominada de crédito, que mostra a enormemente complexa utilidade de muita coisa no mecanismo económico, utilidade quer necessária quer inútil para o desenvolvimento humano, pois o que força o seu comércio é acima de tudo a lógica do lucro, indiferente ao conteúdo – sempre em conflito com as forças sociais e políticas que lhe resistem, não com as que vivem dele – e, mais do que nunca, criar a dependência global do capital financeiro.

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