Oliver Stone, Sócrates e Putin – por John Wight e RT

 

Stone’s ‘Putin Interviews’ offend a US establishment drunk on its own exceptionalism

John Wight

 

John Wight has written for newspapers and websites across the world, including the Independent, Morning Star, Huffington Post, Counterpunch, London Progressive Journal, and Foreign Policy Journal. He is also a regular commentator on RT and BBC Radio. John is currently working on a book exploring the role of the West in the Arab Spring. You can follow him on Twitter @JohnWight1

Indeed, surely such an insight is absolutely necessary, what with Russia being the biggest country in Europe, a major nuclear power, and with the deepening tensions arising from Russia’s geostrategic differences and rivalry with Washington in recent years.

Yet for the Western liberal commentariat, condemnation rather than understanding is the order of the day, evidenced in the barrage of criticism with which Stone’s documentary series on the Russian leader has been received in the Western mainstream.

The interview the filmmaker did with liberal US talk show host Stephen Colbert on his project is a prime example.

 

 

Colbert’s line of questioning amounted to a regurgitation of the very caricature that Stone had set out to move beyond in over 20 hours of interviews on an abundance of topics with Putin – his upbringing, family history, career, thoughts on leadership, the challenges Russia faced during the dark days of the 1990s, his relations with various US presidents, NATO, and so on.

Yet for the likes of Mr. Colbert it’s much easier to go with the official narrative, contained in his first question of the interview: “What do you say to people who say that yours [Oliver Stone’s] is a fawning interview of a brutal dictator?” Not only the question, but also the casual and insouciant way in which it was delivered, confirmed the dumbing-down of news information, analysis and commentary that has been underway in the United States over decades.

The result is a culture so intellectually shallow it is frightening to behold, one in which ignorance is celebrated rather than scorned, in which national exceptionalism and arrogance is exalted rather than rejected. And woe betide anyone, such as Oliver Stone, who dares try to penetrate this fog of ignorance and sense of exceptionalism that has so corroded US cultural values.

Listening to Colbert’s studio audience laugh at Stone in response to his statement that Putin had been unfairly treated and abused by the US media, I was minded of the treatment meted out to the ancient Greek philosopher Socrates. Such a comparison is not as outlandish as some may think on first impressions.

Think about it: for daring to question the prevailing orthodoxy, received truths, and dominant ideas the philosopher was lampooned, ridiculed and ultimately condemned to death by the powers that be in Athens, considered at the time to be the home of democracy and liberty, just as Washington is – or to be more accurate claims that it is – in our time.

Interestingly, the clamor to condemn Socrates took place when tensions between Athens and its Greek city-state rival and adversary, Sparta, were still high just a few years after the end of the Peloponnesian War (431-404 BC).

As everybody knows, in times of war – whether cold or hot – a nation’s tolerance for dissent, for daring to swim against the cultural tide, evaporates, even though it is precisely at such times when dissent is most necessary. After all, in the case of the rising tensions that we have witnessed between Russia and the US recently, it is not people like Stephen Colbert who will be sent into combat should those tensions spill over into direct military conflict.

With this in mind, perhaps it would have been more to the talk show host’s benefit to have listened carefully to a man, in Oliver Stone, who has experienced combat, and who does have first-hand experience of a devastating war unleashed in the cause of the very national exceptionalism previously described.

As a filmmaker, Oliver Stone’s body of work, reaching all the way back to the 1980s, is a testament to his integrity both as an artist and as a human being. From ‘Salvador’ in 1986, an unflinching expose of covert US support for right-wing death squads in El Salvador, all the way up to his latest movie ‘Snowden’ in 2016, which tells the story of US intelligence whistleblower Edward Snowden, this is a filmmaker with a fierce passion for truth. As such, it is a fair bet that in generations to come his works will still command respect and serious analysis. Could we say the same about Stephen Colbert’s body of work?

To ask the question is to answer it.

Carthago delenda est’ – Carthage must be destroyed. These words of Cato the Elder, which the Roman statesman and orator is said to have repeated at the conclusion of every one of his speeches, is the sentiment behind the campaign of demonization against Vladimir Putin that is a feature of Western cultural life.

It has become so pervasive and obsessive you would think that it was the Russian leader who had the destruction of entire countries on his record and conscience – i.e. Afghanistan, Yugoslavia, Iraq and Libya – and that it was his foreign policy that had killed more people and sown more chaos than at any time since World War II.

Oliver Stone is to be commended for trying to wake America up to the damage it does and has done around the world over many decades. Those who would attack and laugh at him for doing so merely confirm the degeneration of a culture built on foundations not of wisdom, but of crass ignorance”.

The statements, views and opinions expressed in this column are solely those of the author and do not necessarily represent those of RT.

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Porquê o Socialismo? – Albert Einstein

Porquê o Socialismo?

por Albert Einstein

Será aconselhável para quem não é especialista em assuntos económicos e sociais exprimir opiniões sobre a questão do socialismo? Eu penso que sim, por uma série de razões.

Consideremos antes de mais a questão sob o ponto de vista do conhecimento científico. Poderá parecer que não há diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas em ambos os campos tentam descobrir leis de aceitação geral para um grupo circunscrito de fenómenos de forma a tornar a interligação destes fenómenos tão claramente compreensível quanto possível. Mas, na realidade, estas diferenças metodológicas existem. A descoberta de leis gerais no campo da economia torna-se difícil pela circunstância de que os fenómenos económicos observados são frequentemente afectados por muitos factores que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência acumulada desde o início do chamado período civilizado da história humana tem sido – como é bem conhecido – largamente influenciada e limitada por causas que não são, de forma alguma, exclusivamente económicas por natureza. Por exemplo, a maior parte dos principais estados da história ficou a dever a sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Monopolizaram as terras e nomearam um clero de entre as suas próprias fileiras. Os sacerdotes, que controlavam a educação, tornaram a divisão de classes da sociedade numa instituição permanente e criaram um sistema de valores segundo o qual as pessoas se têm guiado desde então, até grande medida de forma inconsciente, no seu comportamento social.

Mas a tradição histórica é, por assim dizer, coisa do passado; em lado nenhum ultrapassámos de facto o que Thorstein Veblen chamou de “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os factos económicos observáveis pertencem a essa fase e mesmo as leis que podemos deduzir a partir deles não são aplicáveis a outras fases. Uma vez que o verdadeiro objectivo do socialismo é precisamente ultrapassar e ir além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência económica no seu actual estado não consegue dar grandes esclarecimentos sobre a sociedade socialista do futuro.

Segundo, o socialismo é dirigido para um fim sócio-ético. A ciência, contudo, não pode criar fins e, muito menos, incuti-los nos seres humanos; quando muito, a ciência pode fornecer os meios para atingir determinados fins. Mas os próprios fins são concebidos por personalidades com ideais éticos elevados e – se estes ideais não nascerem já votados ao insucesso, mas forem vitais e vigorosos – adoptados e transportados por aqueles muitos seres humanos que, semi-inconscientemente, determinam a evolução lenta da sociedade.

Por estas razões, devemos precaver-nos para não sobrestimarmos a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos assumir que os peritos são os únicos que têm o direito a expressarem-se sobre questões que afectam a organização da sociedade.

Inúmeras vozes afirmam desde há algum tempo que a sociedade humana está a passar por uma crise, que a sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico desta situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo hostis em relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o meu pensamento, permitam-me que exponha aqui uma experiência pessoal. Falei recentemente com um homem inteligente e cordial sobre a ameaça de outra guerra, que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e comentei que só uma organização supra-nacional ofereceria protecção contra esse perigo. Imediatamente o meu visitante, muito calma e friamente, disse-me: “Porque se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”

Tenho a certeza de que há tão pouco tempo como um século atrás ninguém teria feito uma afirmação deste tipo de forma tão leve. É a afirmação de um homem que tentou em vão atingir um equilíbrio interior e que perdeu mais ou menos a esperança de ser bem sucedido. É a expressão de uma solidão e isolamento dolorosos de que sofre tanta gente hoje em dia. Qual é a causa? Haverá uma saída?

É fácil levantar estas questões, mas é difícil responder-lhes com um certo grau de segurança. No entanto, devo tentar o melhor que posso, embora esteja consciente do facto de que os nossos sentimentos e esforços são muitas vezes contraditórios e obscuros e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.

O homem é, simultaneamente, um ser solitário e um ser social. Enquanto ser solitário, tenta proteger a sua própria existência e a daqueles que lhe são próximos, satisfazer os seus desejos pessoais, e desenvolver as suas capacidades inatas. Enquanto ser social, procura ganhar o reconhecimento e afeição dos seus semelhantess, partilhar os seus prazeres, confortá-los nas suas tristezas e melhorar as suas condições de vida. Apenas a existência destes esforços diversos e frequentemente conflituosos respondem pelo carácter especial de um ser humano, e a sua combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode atingir um equilíbrio interior e pode contribuir para o bem-estar da sociedade. É perfeitamente possível que a força relativa destes dois impulsos seja, no essencial, fixada por herança. Mas a personalidae que finalmente emerge é largamente formada pelo ambinte em que um indivíduo acaba por se descobrir a si próprio durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela tradição dessa sociedade, e pelo apreço por determinados tipos de comportamento. O conceito abstracto de “sociedade” significa para o ser humano individual o conjunto das suas relações directas e indirectas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas de gerações anteriores. O indíviduo é capaz de pensar, sentir, lutar e trabalhar sozinho, mas depende tanto da sociedade – na sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora da estrutura da sociedade. É a “sociedade” que lhe fornece comida, roupa, casa, instrumentos de trabalho, língua, formas de pensamento, e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida foi tornada possível através do trabalho e da concretização dos muitos milhões passados e presentes que estão todos escondidos atrás da pequena palavra “sociedade”.

É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um facto da natureza que não pode ser abolido – tal como no caso das formigas e das abelhas. No entanto, enquanto todo o processo de vida das formigas e abelhas é reduzido ao mais pequeno pormenor por instintos hereditários rígidos, o padrão social e as interrelações dos seres humanos são muito variáveis e susceptíveis de mudança. A memória, a capacidade de fazer novas combinações, o dom da comunicação oral tornaram possíveis os desenvolvimentos entre os seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Estes desenvolvimentos manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas obras científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica a forma como, num determinado sentido, o homem pode influenciar a sua vida através da sua própria conduta, e como neste processo o pensamento e a vontade conscientes podem desempenhar um papel.

O homem adquire à nascença, através da hereditariedade, uma constituição biológica que devemos considerar fixa ou inalterável, incluindo os desejos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, durante a sua vida, adquire uma constituição cultural que adopta da sociedade através da comunicação e através de muitos outros tipos de influências. É esta constituição cultural que, com a passagem do tempo, está sujeita à mudança e que determina, em larga medida, a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna ensina-nos, através da investigação comparativa das chamadas culturas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode divergir grandemente, dependendo dos padrões culturais dominantes e dos tipos de organização que predominam na sociedade. É nisto que aqueles que lutam por melhorar a sorte do homem podem fundamentar as suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, devido à sua constituição biológica, a exterminarem-se uns aos outros ou a ficarem à mercê de um destino cruel e auto-infligido.

Se nos interrogarmos sobre como deveria mudar a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem para tornar a vida humana o mais satisfatória possível, devemos estar permanentemente conscientes do facto de que há determinadas condições que não podemos alterar. Como mencionado anteriormente, a natureza biológica do homem, para todos os objectivos práticos, não está sujeita à mudança. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações com fixação relativamente densa e com bens indispensáveis à sua existência continuada, é absolutamente necessário haver uma extrema divisão do trabalho e um aparelho produtivo altamente centralizado. Já lá vai o tempo – que, olhando para trás, parece ser idílico – em que os indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente auto-suficientes. É apenas um pequeno exagero dizer-se que a humanidade constitui, mesmo actualmente, uma comunidade planetária de produção e consumo.

Cheguei agora ao ponto em que vou indicar sucintamente o que para mim constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência relativamente à sociedade. Mas ele não sente esta dependência como um bem positivo, como um laço orgânico, como uma força protectora, mas mesmo como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou ainda à sua existência económica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egotistas da sua composição estão constantemente a ser acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, seja qual for a sua posição na sociedade, sofrem este processo de deterioração. Inconscientemente prisioneiros do seu próprio egotismo, sentem-se inseguros, sós, e privados do gozo naïve, simples e não sofisticado da vida. O homem pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como é, apenas dedicando-se à sociedade.

A anarquia económica da sociedade capitalista como existe actualmente é, na minha opinião, a verdadeira origem do mal. Vemos perante nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros lutam incessantemente para despojar os outros dos frutos do seu trabalho colectivo – não pela força, mas, em geral, em conformidade com as regras legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante compreender que os meios de produção – ou seja, toda a capacidade produtiva que é necessária para produzir bens de consumo bem como bens de equipamento adicionais – podem ser legalmente, e na sua maior parte são, propriedade privada de indivíduos.

Para simplificar, no debate que se segue, chamo “trabalhadores” a todos aqueles que não partilham a posse dos meios de produção – embora isto não corresponda exactamente à utilização habitual do termo. O detentor dos meios de produção está em posição de comprar a mão-de-obra. Ao utilizar os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista. A questão essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que recebe, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe é determinado não pelo valor real dos bens que produz, mas pelas suas necessidades mínimas e pelas exigências dos capitalistas para a mão-de-obra em relação ao número de trabalhadores que concorrem aos empregos. É importante compreender que, mesmo em teoria, o pagamento do trabalhador não é determinado pelo valor do seu produto.

O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte por causa da concorrência entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de unidades de produção maiores à custa de outras mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado mesmo por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é verdade, uma vez que os membros dos órgãos legislativos são escolhidos pelos partidos políticos, largamente financiados ou influenciados pelos capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses das secções sub-privilegidas da população. Além disso, nas condições existentes, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, directa ou indirectamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É assim extremamente difícil e mesmo, na maior parte dos casos, completamente impossível, para o cidadão individual, chegar a conclusões objectivas e utilizar inteligentemente os seus direitos políticos.

Assim, a situação predominante numa economia baseada na propriedade privada do capital caracteriza-se por dois principais princípios: primeiro, os meios de produção (capital) são privados e os detentores utilizam-nos como acham adequado; segundo, o contrato de trabalho é livre. Claro que não há tal coisa como uma sociedade capitalista pura neste sentido. É de notar, em particular, que os trabalhadores, através de longas e duras lutas políticas, conseguiram garantir uma forma algo melhorada do “contrato de trabalho livre” para determinadas categorias de trabalhadores. Mas tomada no seu conjunto, a economia actual não difere muito do capitalismo “puro”.

A produção é feita para o lucro e não para o uso. Não há nenhuma disposição em que todos os que possam e queiram trabalhar estejam sempre em posição de encontrar emprego; existe quase sempre um “exército de desempregados. O trabalhador está constantemente com medo de perder o seu emprego. Uma vez que os desempregados e os trabalhadores mal pagos não fornecem um mercado rentável, a produção de bens de consumo é restrita e tem como consequência a miséria. O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego e não no alívio do fardo da carga de trabalho para todos. O motivo lucro, em conjunto com a concorrência entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital que conduz a depressões cada vez mais graves. A concorrência sem limites conduz a um enorme desperdício do trabalho e a esse enfraquecimento consciência social dos indivíduos que mencionei anteriormente.

Considero este enfraquecimento dos indivíduos como o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. É incutida uma atitude exageradamente competitiva no aluno, que é formado para venerar o sucesso de aquisição como preparação para a sua futura carreira.

Estou convencido que só há uma forma de eliminar estes sérios males, nomeadamente através da constituição de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educativo orientado para objectivos sociais. Nesta economia, os meios de produção são detidos pela própria sociedade e são utilizados de forma planeada. Uma economia planeada, que adeque a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre aqueles que podem trabalhar e garantiria o sustento a todos os homens, mulheres e crianças. A educação do indivíduo, além de promover as suas próprias capacidades inatas, tentaria desenvolver nele um sentido de responsabilidade pelo seu semelhante em vez da glorificação do poder e do sucesso na nossa actual sociedade.

No entanto, é necessário lembrar que uma economia planeada não é ainda o socialismo. Uma tal economia planeada pode ser acompanhada pela completa opressão do indivíduo. A concretização do socialismo exige a solução de problemas socio-políticos extremamente difíceis; como é possível, perante a centralização de longo alcance do poder económico e político, evitar a burocracia de se tornar toda-poderosa e vangloriosa? Como podem ser protegidos os direitos do indivíduo e com isso assegurar-se um contrapeso democrático ao poder da burocracia?

A clareza sobre os objectivos e problemas do socialismo é da maior importância na nossa época de transição. Visto que, nas actuais circunstâncias, a discussão livre e sem entraves destes problemas surge sob um tabu poderoso, considero a fundação desta revista como um serviço público importante.

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Einstein escreveu este trabalho especialmente para o lançamento da Monthly Review , cujo primeiro número foi publicado em Maio de 1949. Tradução de Anabela Magalhães. 

O original deste artigo encontra-se em http://www.monthlyreview.org/598einst.htm .
Este artigo encontra-se em http://resistir.info

Morreu Eduard Shevardnadze

 
 
Morreu Eduard Shevardnadze:
 
Um dos que reconstruiriam o capitalismo na URSS, apoiando o desenvolvimento e a oficialização da Segunda Economia, base da derrocada do sistema, origem dos oligarcas que mandam agora na Rússia, na Geórgia, na Ucrânia e noutros países ex-soviéticos. Cão danado que pôs milhões à fome, destruiu uma das poucas nações verdadeiramente socialistas, fê-la recuar dezenas de anos e entregou aos EUA um poder sem contrabalanço que agora vai produzindo o caos no mundo.

Aleksandr Rodschenko (1891-1956) – O Modelo do Artista Soviético


Artista plástico, escultor, fotógrafo e desenhador gráfico russo. Um dos fundadores do construtivismo russo e  do desenho moderno russo. Rodchenko é uma figura central no panorama das vanguardas artísticas, um dos máximos expoentes da vanguarda soviética dos anos 20 e 30 e da arte do século XX em geral. 
Como muitos, na década de 30 sofreu ataques e limitações à sua obra por causa de uma nova linha artística imposta pelo Governo, por medo dos desvios ideológicos de esquerda e de direita, a que poderíamos chamar, por falta de nos ocorrer melhor, de mito-pedagógica, uma arte dirigida à compreensão mais simples do povo, manifestamente propagandística, falsamente naturalista, cerceando a criatividade, dirigindo-a para esconder os problemas económicos, para criar uma imagem idílica da sociedade socialista e para promover o culto da personalidade de Estaline como referência congregadora da vontade colectiva.  
Todavia podemos supor também que a arte modernista nasceu no ambiente industrial pré-soviético e soviético mas foi experimentado pela população em geral (terá sido?) e pelos dirigentes provincianos do Partido como uma tendência estética estranha à sua tradição. Deve ter-lhes parecido demasiado simples e discreto, além de desprovido de simbolismo revolucionário ostensivo, o modernismo dos primeiros arquitectos soviéticos.  Não jogava com os sentimentos e os gostos sumptuosos mas eclécticos dos dirigentes, sentimento que sempre contaminou o ambiente estético da Rússia desde a época dos Czares. A unidade ideológica da sua enorme nação talvez fosse mais fácil de conseguir se fossem recuperados para os edifícios oficiais os valores formais da tradição espectacular e monumental da grande Rússia, embora com certa conta para não se assemelhar ao luxo gratuito e caprichoso da nobreza do passado.
Repare-se que os grandes edifícios da época de Estaline (nomeadamente as chamadas Sete Irmãs em Moscovo) se assemelham, na sua forma geral, a igrejas russas mas despidas dos adornos religiosos e impondo-se no horizonte como emblemas e templos ateus ao mesmo tempo solenes e decorados com uma espécie de luxo grosseiro, embora maciço e de certo modo austero, com seriedade cívica republicana, do projecto de grandeza da pátria soviética dirigida pela força centralizada do Partido.
A gratuitidade luxuosa e a falta de sentido do lugar e de uma cultura autêntica desenvolvida pela tradição em contacto com a modernidade dos exageros das classes abastadas pré-revolucionárias foram abandonada mantendo-se, contudo, o gosto pela imponência no espírito do ecletismo.
Esse ecletismo, que antes misturava de maneira descontrolada e exibicionista os estilos ocidentais mais exuberantes, mas regra geral harmoniosos, com o gosto oriental, quer dizer, mal assimilado, pelo luxo ostensivo, exagerado e formalmente desequilibrado e que já existia antes da Revolução, voltou a ver-se em certos bairros de Moscovo e de outras cidades na Rússia pós-soviética levantado pelos novos ricos sedentos de mostrarem a sua fortuna e sem a mínima sensatez estética. O mau gosto não é  apenas soviético mas tem a ver sobretudo com a História da Rússia como um todo.
A História, mal compreendida, volta sempre como uma caricatura, como uma tragicomédia. 
Rodschenko continuou a poder pintar e exibir mas apenas como tolerado e sempre numa posição marginal.