Ícaro e a Caverna – Pedro Mota

Todo o Meu Mundo e o Marxismo

A gente da cultura: Trump e Obama.

A intelligentsia norte-americana está em guerra aberta com Trump. Na Europa, alguns classificam essa intelligentsia, escritores, artistas das artes visuais, teatro e cinema, músicos, como de esquerda, sabendo bem de mais que a grande maioria são liberais com muito pouco de esquerda. Fazem bem em invectivarem Trump um reacionário proto-fascista, com tiques de caudilho […]

via A Intelligentsia nos seus labirintos — Praça do Bocage

Ficção e Histórias

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Há livros, muitos livros, que servem para imaginarem por nós ou para nós meditarmos um pouco – sobre a vida, o amor, os sucessos, os fracassos, a hierarquia dos valores, os dez mandamentos, a honestidade a falta dela, a cobiça e a falta dela, os males do mundo e o excesso deles e as partidas maldosas do mundo e o excesso delas.

Não gosto desses livros. O que prefiro são os livros que transformam o mundo, os valores no mundo, os sentimentos e as percepções no mundo. Já basta de o contemplar, de moralizar sobre valores desprezados e de idealizar sobre a perfídia da matéria, sobre o bom que é ter livre-arbítrio e sobre o mal de haver maldade no livre-arbítrio. Ora, o bom não é pensar, suspirar, imaginar histórias para imaginarmos, suspirarmos, pensarmos. Uma coisa boa é uma coisa que fica e nos acompanha toda a vida como um marco que a transformou e, porque só a transformamos se o mundo se transforma e nos leva consigo, um livro deve ser um impulso, um imperativo, não um remoer nas ideias e nos factos que já são, um analisá-los, descrevê-los e expressá-los mas uma revolução nas ideias concretas acerca da realidade concreta, um estabelecimento do novo, uma percepção nova, um viver novo e um pensar novo, uma maneira nova, qualquer que seja, que não pode deixar tudo na mesma – os valores e os actos -, sobretudo nós, que o lemos.

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Livros bons são, por exemplo, no seu tempo e agora, se os soubermos ler bem, se formos capazes de nos transfigurar com eles, sem nos tornarmos seu espelho, a Ilíada, a Odisseia, O Decameron, A Origem da Desigualdade entre os Homens, A Fenomenologia do Espírito,  O Pai Goriot, A Cartucha de Parma, o Germinal, Viagens Na Minha Terra, A Cidade e as Serras, A Ideologia Alemã, O Capital, Iluminações, As Folhas de Erva, Poemas de Alberto Caeiro, Ulisses, Galileu Galilei, Photomaton e Vox e outros que tais.

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Mário Dionísio No Centenário do seu Nascimento

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Urgente a reedição de A Paleta e o Mundo, uma das obras maiores da Teoria da Arte, não só em Portugal mas no mundo. Excelente contista e poeta, a sua contribuição para uma teoria marxista das artes, e não para um uso propagandístico das mesmas (tal só cabe à vontade do artista, quando quer involuntariamente dar cabo da propaganda das ideias que defende), mau pintor (o seu abstraccionismo é sem originalidade, estático, justaposto, caricatural, sem profundidade de sentidos), é superior, pelo seu antidogmatismo, e mais marxista (e científica, objectiva), do que a de muitos outros pensadores da arte que, sendo eles próprios caricaturas, se acreditam marxistas. É que mostrar, e exprimir sem teorizar, as contradições objectivas da realidade, e o seus efeitos subjectivos retroactivos, eventualmente junto com o processo de formação das ideias e das acções a partir delas, respeitando a complexidade do mundo, é, além do resto, mais verdadeiro, do que evidentemente fazer o disparate de (para usar um conjunto de expressões que se podem dirigir a um certo grupo de indivíduos cuja nobre militância, sobretudo política, pelo progresso é prejudicada pelo seu entendimento pouco dialéctico) esquematizar, simplificar, idealizar pessoas e práticas, esconder as próprias contradições das lutas sociais e os escolhos ou labirintos do futuro. A bem dizer, esta pobreza é mais teórica do que criativa, é mais uma forma de propaganda do que uma demonstração artística, apesar de terem existido artistas, medíocres, que seguiram os seus princípios e ditames. Entre os escritores, nem Alves Redol nem Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, José Saramago, etc. (o caso dos artistas plásticos é também uma questão de talento e de mediocridade, não de falta de jeito mas de pensamento numa certa forma de juízo de gosto), podem ser tidos por escrevinhadores de ideias feitas, que meteram a realidade no leito de Procustes e a distorceram para a transfigurar numa representação trágica da dialéctica de forças materiais idealizadas em movimentos homogéneos e personificadas em heróis e vilões. Isso fica, ironicamente, para a literatura anticomunista e para a banda-desenhada americana, sobretudo a da Marvel.

 

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Marxistas – Onde Estais? Ou Desnorte nos Valores Culturais da "Esquerda" no Ensino da Língua no Brasil

É o que acontece quando a “esquerda”, em qualquer lado, perde o norte, isto é, o marxismo, o de Marx, bem entendido. Não é que me incomode com a supressão no Brasil dos clássicos da língua portuguesa. O Brasil, onde já se propôs romper os laços da língua adoptando o brasileiro, tem todo o direito à sua autodeterminação, a promover os seus escritores,  que decerto dizem mais ao seu povo, e a escolher a narrativa da História que mais lhe interessa. De resto, até os europeus se estão nas patavinas para a sua própria História, sua cultura, sua diversidade,  suas identidades diversas. Já somos mais tudo e nada ao mesmo tempo. A única coisa que me faz ficar perplexo, se alguma coisa ainda me surpreende, é a promoção pelo próprio governo brasileiro da bandalheira linguística, como se o rigor, a harmonia, a sistemática fossem valores imperialistas, opressivos, reaccionários, neocolonialistas. Há-de haver um dia em que será revolucionário o regresso ao canibalismo.
Literatura portuguesa deixa de ser obrigatória no Brasil

“O Ministério da Educação do Brasil (MEC) eliminou a obrigatoriedade do estudo da literatura portuguesa na nova Base Nacional Curricular Comum (BNCC) que está até março em discussão e deve ser posta em prática em junho. A decisão é considerada por grupos de educadores brasileiros como “política” e “populista”, faz parte de uma série de propostas, que inclui mudanças nos currículos de Língua Portuguesa e de História e está a ser alvo de intenso debate no país.
Autores como Luís Vaz de Camões, Gil Vicente, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett ou José Saramago deixam de ser obrigatórios. Numa prova do ano passado de acesso à Universidade de São Paulo, a mais bem colocada do país nos rankings internacionais, era exigida a leitura de clássicos como Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, e A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós.
“A proposta beira o absurdo (…) como se pode apagar Portugal e a Europa de nossas origens? Tirando do mapa? Será que mais uma vez a seleção de conteúdos foi contaminada por um viés político e ideológico anacrónico? (…) Já que Portugal teria sido uma metrópole colonialista europeia que explorou as riquezas de suas colónias e escravizou populações negras e indígenas na América e em África, agora seria a vez de dar voz à cultura dos oprimidos, em detrimento da Europa elitista e opressora?”, perguntaram-se em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo dois professores universitários brasileiros, Flora Bender Garcia e José Ruy Lozano, indignados com a decisão.
O Ministério da Educação do Brasil, solicitado pelo DN a dar uma explicação, esperou uma semana para responder através do gabinete de comunicação que não teve tempo para elaborar uma resposta. Sublinhou, no entanto, que a BNCC não é definitiva e que está em processo de discussão.
José Ruy Lozano critica esse processo de discussão por ser possível apenas através de comentários no site do MEC e não via um fórum mais formal e abrangente (ver entrevista ao lado) e sublinha a “importância da literatura portuguesa na memória e na vivência dos brasileiros”. Refere o professor universitário que não se pode estudar traços essenciais da cultura e da literatura do país sul-americano sem entender primeiro as raízes europeia, ibérica e portuguesa dessa mesma literatura.

 

© Fornecido por Diário de Notícias

 

 

História e gramática
A BNCC foi criada no ano passado, na gestão do ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, entretanto substituído por Aloizio Mercadante, para estabelecer um grupo de conhecimentos e habilidades de que todos os estudantes brasileiros devem dispor na educação básica. Logo que foi conhecida do público gerou controvérsias: inicialmente, não tanto por causa da literatura portuguesa mas sim por questões ligadas à história e à gramática.
As críticas surgiram em virtude da pouca relevância dada à história mundial, ignorando pontos considerados por educadores como de conhecimento básico, para dar ênfase às histórias indígena e africana. Outra área que mereceu reparos foi a da ausência da gramática no ensino geral de linguística.
O Ministério da Educação, porém, decidiu incluir nos últimos dias algumas das sugestões nestas áreas – história e linguística – e rever os pontos mais controversos da Base Nacional Curricular Comum, após receber mais de dez milhões de contribuições no site construído para o efeito.
“Para os componentes de história e geografia, o processo de revisão tem sido no sentido de mostrar as formas de integração entre o Brasil e os processos históricos globais”, recuou o Ministério da Educação.
No mesmo documento lê-se ainda que serão introduzidos tópicos de análise linguística em todas as etapas de escolarização – mas não há referência à reintrodução, ou não, da obrigatoriedade da literatura portuguesa.
Populismo e ideologia
O governo do Partido dos Trabalhadores, de centro-esquerda, é acusado de populismo e de agir de forma ideológica, ao querer privilegiar a cultura indígena e ao ser mais permissivo em relação a questões gramaticais já desde 2011, quando causou choque na classe educadora que num manual escolar distribuído pelo MEC fosse considerada “inadequada e passível de preconceito” mas não errada” a expressão, sem concordância, “nós pega o peixe”.
O colunista de O Globo Ricardo Noblat defendeu na ocasião que era o mesmo que dizer que “dois mais dois são cinco”, enquanto o jornalista da Folha de S. Paulo Clóvis Rossi sublinhava que “a questão é exclusivamente linguística, alguns esquerdistas de botequim tentam politizá-la com o argumento de que a língua é um instrumento de dominação. Se fosse, deveríamos voltar a falar tupi-guarani”.

Agatha Christie – O segredo do seu êxito, por Miguel Urbano Rodrigues – Uma Lição Sobre o Mau-Gosto em Literatura


Agatha Christie (1890/1978) foi uma escritora importante?

Sim, muito importante. Dos seus livros, traduzidos em 100 idiomas, foram vendidos mais de 4 mil milhões de exemplares. Um total de vendas assombroso, somente superado pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare.

Mas porventura foi uma grande figura da literatura mundial? Não.

Sobre ela foram escritos dezenas de livros, quase todos elogiosos. Uma das suas peças de teatro, A Ratoeira, permaneceu no cartaz no Reino Unido durante mais de uma década. A Rainha Elisabeth, sua grande admiradora, atribuiu-lhe o título de Lady do Império.

Mas nunca obteve o apreço da crítica literária séria.

Como explicar o seu êxito comercial que ultrapassa o de qualquer outro autor de romances policiais, de Conan Doyle a Georges Simenon?

A leitura da sua autobiografia [1] ajudou-me no esforço para encontrar uma resposta.

Agatha nasceu numa mansão da estância balnear de Torquay. O pai era um americano britanizado. Não trabalhava, como era habitual na época vitoriana para quem vivia dos rendimentos.

Nas memórias a escritora recorda uma infância feliz numa família abastada da alta classe média. Quando no final do século XIX diminuíram os dinheiros que chegavam dos EUA, os pais alugaram a casa de Torquay e foram passar um ano no sul de França e depois na Bretanha, onde o custo de vida era menor.

“Uma das coisas que, penso, sentiria mais – escreveu na velhice – se fosse criança nos dias de hoje, seria a ausência de criados”.

As referências à criadagem da época, que ela admirava pelo “orgulho profissional”, são abundantes.

Agatha nunca frequentou uma escola. Estudou em casa e em pensionatos franceses, sobretudo música e canto.

Casou aos 22 anos, em 1912, com Archibald Christie, um oficial da Força Aérea, que, finda a I Guerra Mundial, se tornou corretor da City londrina. Amou intensamente o companheiro, viajou pelo mundo com ele, mas após 14 anos de um casamento harmonioso (nasceu uma filha em 1919), o marido apaixonou-se por uma amiga e pediu o divórcio. A escritora conta que olhou para ele e percebeu que afinal era “um desconhecido”. Agatha, angustiada, desapareceu durante dias, sofreu horrores, teve uma crise de amnésia.

O seu primeiro livro, um policial, foi escrito durante a guerra mas, recusado por seis editoras, somente foi publicado em 1920. Passou praticamente despercebido.

Durante anos Agatha resistiu a assumir-se como escritora, embora publicasse romances com alguma frequência. O êxito tardou. Para ele contribuiu a personagem que criou, Hercule Poirot, um excêntrico detetive belga muito vaidoso.

A publicação em folhetins dos primeiros livros e a adaptação ao teatro de outros foi para ela uma importante fonte de recursos. No início da II Guerra Mundial já era a escritora mais lida da Inglaterra e nos EUA a sua popularidade era enorme.

Muito inteligente, sensível, com uma imaginação prodigiosa, sentiu sempre dificuldade em se expressar em público, mas cativava as pessoas, era uma comunicadora superdotada.

“Sou muitas coisas – assim se retratou na Autobiografia – bem-disposta, exuberante, distraída, esquecida, tímida, afetuosa, completamente desprovida de autoconfiança, moderadamente altruísta (…) Gosto de sol, de maçãs, de quase todo o tipo de música, de comboios, de quebra-cabeças numéricos, e de tudo o que tenha a ver com números, de nadar no mar, de silêncio, de dormir, de sonhar, de comer, do cheiro de café, de lírios, da maioria dos cães e de ir ao teatro”.

Essa confidência não ajuda muito a avaliar a sua personalidade complexa, contraditória, desconcertante.

Nas suas viagens por todos os continentes acumulou uma soma impressionante de conhecimentos. Mas não os transformou numa cultura extensiva, integral. Não tentou sequer esse desafio.

Nos seus livros o leitor não encontra um pensamento estruturado, uma meditação profunda sobre a existência e a História dos países do Médio Oriente onde viveu largos anos.

Ciente das suas limitações, é uma escritora de espumas. Criou um estilo, mas cultiva o superficial, a banalidade.

O tratamento da temática do quotidiano é em alguns escritores de uma grande riqueza. Em Georges Simenon, por exemplo. Nos seus romances, ele retrata admiravelmente les petits gens, as porteiras de Paris, os taberneiros, as prostitutas, as velhas solteironas, os clochards do Sena. O comissário Maigret é a antítese do Poirot de Agatha.

Perguntaram um dia a André Gide quem era na sua opinião o maior escritor da França. A sua resposta desconcertou o entrevistador: Georges Simenon. Exagerou, mas o criador de Maigret atravessou as portas da grande literatura; a mãe de Poirot não.

A gente de baixo não merece atenção especial de Agatha. Não é por snobismo que a esquece. Concentra a sua atenção na sua gente. Com a exceção dos romances de Miss Marple, a velha senhora de uma aldeia inglesa, e de Tommy e Tupence, escolhe as personagens na aristocracia, na gentry britânica, na alta burguesia, no mundo das artes.

Diz ter sido inspirada por Conan Doyle. Mas um abismo intransponível separa Poirot de Sherlock Holmes.

Os seus livros estão infestados de estereótipos e de lugares comuns, de disparates. É categórica na afirmação de que a amizade entre homens e mulheres lhe aparece como um absurdo. Sofreu muito durante as duas guerras. Mas concluiu que “vencer uma guerra é tão desastroso como perdê-la”. Não hesitou em confessar que “o melhor de escrever naquele tempo é que eu relacionava o trabalho diretamente com dinheiro”.

Cultiva com requinte o suspense. Mas a sua técnica faz dela, para alguns críticos, uma “escritora batoteira”. Porquê?

Agatha lembra que gostou sempre de abrir “pistas falsas”, para enganar o leitor. Mas oculta até às últimas páginas informações indispensáveis para a identificação do criminoso. Em alguns casos, depois de matar várias pessoas, este só aparece quase no final.

happy end, talvez para atenuar o choque inerente à violência do tema, é frequente nos seus livros, sobretudo a relação amorosa entre personagens secundárias.

As viagens da juventude e as prolongadas estadas com o segundo marido no Iraque contribuíram para o êxito de alguns dos seus romances.

A pedido de um amigo, escreveu aliás um romance policial cuja ação se situa no Egipto faraónico.

Mas os leitores não encontram nesses livros algo que possa revelar um interesse profundo da autora – sequer interesse – pelas culturas da Assíria, da Suméria, ou do vale do Nilo no tempo do último Ramsés.

Na Autobiografia, iniciada em 1950 e concluída em 1965, três quartos são dedicados à infância, à adolescência, à juventude, ao convívio com o primeiro marido. Os 48 anos vividos com Max Mallowan, o segundo marido, um eminente arqueólogo, merecem-lhe menos atenção. A desproporção choca o leitor.


Agatha Christie somente é concebível na Inglaterra do seu tempo. Como mulher e escritora foi totalmente inglesa, inimaginável noutro país, noutro século.

Mas escreveu para milhões de não ingleses, foi por eles admirada como pelos seus compatriotas.

Como compreender, como explicar o seu imenso, surpreendente êxito literário?

Creio que para ele foi determinante ir ao encontro do que é comum no “gosto” da esmagadora maioria dos leitores de qualquer nacionalidade.

Ela escreveu o que as pessoas gostam que lhes digam.

Agatha faz-me pensar nas audiências enormes das telenovelas, na abertura à mediocridade. Penso também no êxito dos comentadores políticos da televisão cujas opiniões ofendem a inteligência.

Obviamente que Aristóteles ou Einstein não poderiam inspirar ao homo sapiens contemporâneo o interesse despertado pelos livros de Agatha Christie. 

29/Agosto/2015

[1] Agatha Christie, Autobiografia , Editora ASA, Lisboa, 2011, 704 p., ISBN 9789892316413

O original encontra-se em www.odiario.info/?p=3753 Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Estamos a Dar a Literatura Que Convém aos Adolescentes?

 
Um comentário em amazon.fr sobre uma edição de Madame Bovary de Gustave Flaubert, comentário interessante, que explica por que os adolescentes não podem apreciar as maiores obras-primas da literatura. Segundo ele, foram escritas para adultos e não para eles, que ainda não podem compreender, à falta de experiência de vida e de conhecimentos, os seus enredos e os seus comentários. Para muitos, essa experiência literária incipiente e demasiado precoce mata-lhes definitivamente o gosto pela leitura séria, que ficará para sempre associada ao sofrimento escolar. Talvez fosse preferível fazer uma escolha de obras entusiastas, mas que possuam sentido crítico e reflexivo, além de qualidade formal artística. Mais tarde, talvez sentissem a necessidade de leituras mais sérias para reflectirem sobre as questões que a vida lhes irá pôr. Transpondo para Portugal, temos poesia de Fernando Pessoa que qualquer adolescente desperto para a vida poderá apreciar, poemas de José Régio, de José Gomes Ferreira, como temos contos de Jorge de Sena e de José Cardoso Pires, entre outros que associam a reflexão à fantasia, à aventura, às questões a respeito das dúvidas típicas do processo de crescimento; obras que exprimem também aquele entusiasmo pelo presente e pelo futuro, assim como o sentido crítico do passado recente de que os adolescentes tanto precisam. Camões, Padre António Vieira, Almeida Garrett, Eça de Queirós, quase todo o Aquilino Ribeiro podem esperar – se a política cultural do Estado e os ‘media’ não lhes fecharem para sempre as janelas da fruição e da compreensão da grande arte, que é o que infelizmente acontece no nosso tempo.
 
 
 

 

“J’ai relu Madame Bovary. Je me suis fait violence car j’en ai un désastreux souvenir. Ou l’école, comment dégoûter de la littérature. Ainsi, les Balzac, Stendhal et autre Proust, dont la lecture imposée à l’adolescence, m’ont presque définitivement dégoûtée de la lecture. C’est le paradoxe de l’école, on veut faire découvrir aux jeunes esprits les perles de la littérature française, mais ces romans n’ont aucune résonnance pour un adolescent, ça reste un pensum. Ce sont des oeuvres adultes, écrites par des adultes avec leur préoccupation d’adultes, et adulés par d’autres adultes. C’est un univers qui laisse totalement indifférent l’adolescent, n’oublions pas que le « jeune vit dans un monde qu’il ne comprend pas et qui ne le comprend pas (cf une excellente pub pour la Poste). Ecrire sur les relations sociales, l’ennui, les mauvais choix que l’on peut faire dans une vie, c’est tout à fait à l’opposé de ce qu’attend le jeune : il veut qu’on le fasse rêver d’une vie pleine, enthousiaste et réussie.

 

Pourtant, je le reconnais aujourd’hui, c’est une oeuvre majeure de notre patrimoine culturel. Une leçon de littérature, sublime et habitée”   Une oeuvre magistrale (Par étoile le 5 février 2010).

Para Que Serve o Museu do Neo-Realismo de Vila Franca de Xira?


Em Vila Franca de Xira há um Museu do Neo-Realismo, o único do mundo dedicado sobretudo à literatura. Na Itália há um museu do cinema neo-realista. 


É uma interessante, leve, moderna, funcional obra de arquitectura à entrada da zona mais antiga da pequena e agradável cidade, com mais grandeza histórica do que tamanho. Por lá passaram nomes grandes das artes portuguesas de um dos mais importantes movimentos estéticos nacionais. Lembro-me de Alves Redol, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira e muitos outros.


Os funcionários são prestáveis e conhecedores. O mesmo não poderei dizer do director e de outros personagens que gizam o plano das actividades do Museu, assim como o sentido ideológico subjacente à montagem da exposição mais ou menos permanente, de cujos nomes agora peço desculpa mas não me lembro.


Pergunto-me para que serve um museu sobre uma corrente artística? Pode servir para homenagear e guardar a memória dos personagens que deram corpo e obra a um projecto. Pode servir para propagandear as ideias dessa corrente como um bem dos homens ou para denunciar e evitar a repetição dos seus erros e mesmo dos seus crimes. 


O Museu do Neo-Realismo, todavia, pretende servir dois senhores incompatíveis. 
Primeiro, presta homenagem a um movimento inovador de artes e letras e às suas ideias de emancipação de todas as formas de opressão, económica, política, cultural, individual. 


Depois, põe par-a-par as ideias e práticas defendidas pelos seus representantes mais persistentes e consequentes (as do socialismo, pelo qual lutaram os comunistas) com as ideias e práticas dos nazi-fascistas. Junta lado-a-lado, para efeitos de analogia, filmes como o Couraçado Potemkin e marchas militares das forças armadas nazis, a repressão soviética de uma revolta pró-nazi apoiada pela CIA na Hungria e imagens do campo de concentração de Auschwitz, completamente descontextualizadas em relação às causas históricas e sem o sentido da desproporção na grandeza e no crime. 


Quem sai dali fica com a ideia formada de que comunismo é igual a fascismo, de que capitalismo liberal é que é bom, apesar dos seus defeitos. Os dirigentes do museu terão conseguido a sua meta: distorcer a História e enganar as pessoas.


Não se trata, porém, de ocultar mas de dar a compreender. Seria o papel de um museu.
Neste, confundiram as musas e deixaram entrar as prostitutas. É pena.
John Riddell

MARXIST ESSAYS AND COMMENTARY

The Espresso Stalinist

Wake Up to the Smell of Class Struggle ☭

Viajar na História

Ontem, Hoje, Amanhã

Irresistível Mistura por Daiane Lopes

Receitas criativas, temperos e amor pela cozinha. A mistura irresistível do nosso dia-a-dia.

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São os Sabores que nos Definem. Fazem parte da nossa Herança familiar e cultural. Contam muito de Nós, e dos Outros. São, a par de Outros, dos melhores Contadores de Histórias que conheço. Até já.

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Reflexiones e ideas en torno a la fotografía

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