George Steiner – Entrevista ao Expresso.

 

Ainda que não saia dos limites da mundividência liberal-burguesa, e embora não acredite em quase nada do que ele diz,

é bom ouvir um pensador de grande nível.

George Steiner: “O verdadeiro crime é viver demasiado” 

10.06.2017 às 19h00

enviada a Cambridge

“Continua a fazer os seus exercícios de tradução pela manhã? Sim, todos os dias. Acordo, vou para o escritório — onde tenho grande parte da minha biblioteca — e escolho um livro qualquer. Abro-o ao acaso e traduzo um fragmento. Faço-o para treinar as minhas quatro línguas, pois não quero que fiquem enferrujadas. 

E o que traduz? Poesia ou prosa? 

Poesia não. Não tenho essa coragem. Só prosa. Tento não falhar, faço-o sempre que tenho dias bons.

As línguas são uma fonte de energia, de criatividade? 

São o centro da minha vida interior e a razão por que acabei por ficar na Europa, o continente de onde a minha família fugiu. Na América teria tido mais oportunidades profissionais, mas é uma civilização monoglota e não está interessada em línguas estrangeiras. Então, só ficando na Europa teria a possibilidade de usar as outras línguas. 

Isto a que chama a sua ‘condição poliglota’, o que é exatamente? Como é poder habitar diferentes línguas? 

É como ter diferentes casas, diferentes personalidades. Vive-se numa linguagem, não num lugar. Mas isto começou quando eu era criança. A minha mãe costumava iniciar uma frase numa língua e acabá-la noutra, sem sequer se aperceber! Portanto, para mim, o francês, o alemão e o inglês eram completamente nativos. O italiano veio um pouco mais tarde. 

Estudso. Todos os dias Steiner faz exercícios de tradução. Para não perder a condição de poliglota, central na sua vida. Aqui, numa fotografia de 2008

Todos os dias Steiner faz exercícios de tradução. Para não perder a condição de poliglota, central na sua vida. Aqui, numa fotografia de 2008 

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Como era a sua família? 

Tinha características centro-europeias e vienenses, pois a minha mãe era austríaca e o meu pai checo. Eu nasci e fui criado em Paris, porque em 1924 a família mudou-se para França. O meu pai, que tinha uma intuição política extraordinária, estava certo de que o desastre na Alemanha e na Áustria estava para vir.

Esse não foi o único momento em que a intuição do seu pai funcionou. 

Não. De facto, em 1940, voltou a sentir o perigo e tirou-nos de Paris. De outro modo teria sido demasiado tarde. Ele não teve qualquer dúvida de que os alemães viriam e de que a França seria provavelmente vencida. Estava em Nova Iorque e mandou-nos chamar, porque teve uma informação, na qual acreditou, de que a França seria ocupada em poucos meses. Saímos de Génova no último navio americano para Nova Iorque.

Foi por isso que, num ensaio dos anos 60, se definiu a si próprio como “uma espécie de sobrevivente”? 

Sim, porque na minha escola em Paris, onde havia muitos judeus, só dois sobreviveram. Todos os outros foram mortos. Portanto, é um milagre ter sobrevivido.

E o que é ser um sobrevivente? 

É complicado. Significa ter vergonha, perguntar-se: ‘porquê eu?’, quando os outros morreram. E, por outro lado, significa ter ao longo da vida a obrigação de nunca esquecer.

Disse: “O escuro mistério do que aconteceu na Europa é uma parte da minha identidade.”

Continuo a dizê-lo. Nunca me esqueci daqueles que morreram e sinto-me neste momento muito pessimista de que aquilo possa acontecer de novo. O antissemitismo está de novo a aumentar por toda a parte, e há hoje países onde os judeus estão em perigo iminente. A Hungria, a Roménia… Nem imagina o agradecido que estou pelo facto de os meus filhos e netos viverem na América, porque esse é provavelmente o único lugar seguro para os judeus.

Afinal, o que aprendemos com a História? 

Absolutamente nada. O antissemitismo está presente mesmo na minha amada Inglaterra. Está a crescer, a multiplicar-se.

Parece um fenómeno sem fim à vista. 

E nunca terá. Há só dois povos na Terra que sobrevivem ininterruptamente há dois mil anos: os chineses e os judeus. Os chineses por serem tantos, os judeus por serem tão poucos.

No exato dia em que tomou a decisão de ficar na Europa — mesmo numa Cambridge que não o quis nomear professor efetivo —, ligou à sua mulher e disse-lhe que preferia viver aqui mesmo que isso implicasse ser um trabalhador fabril. 

Eu tinha ido visitar o meu pai a Nova Iorque. Almoçámos juntos num restaurante que ele adorava. Contei-lhe que tinha tido duas ótimas propostas de duas universidades americanas de topo. Repare, os meus dois filhos já eram nascidos, eu tinha uma família para sustentar. Portanto, esta era uma decisão da maior importância para as nossas vidas. Ele já estava doente. Ficou a pensar e limitou-se a comentar: “Só tu podes decidir. Mas se deixares a Europa Hitler terá ganho.” Liguei à minha mulher, que estava aqui em Cambridge, e disse-lhe: “Não suportaria sentir de novo o desprezo contido nessa frase do meu pai. Seja o que for que tivermos que fazer, ficamos na Europa.”

Foi um momento decisivo. 

Aquela frase bastou. Resolveu muitos problemas. Mas ele tinha razão: a ideia era não haver mais Steiners por cá e estava nas minhas mãos contrariar isso.

Em “A Ideia da Europa” descreveu o continente dos cafés, da paisagem que pode ser atravessada a pé, do peso da memória. O que resta dessa Europa? 

É uma pergunta muito difícil. Estamos agora num momento crítico. O ‘Brexit’ arrancou da Europa a sua democracia mais forte. Não sei como responder-lhe com convicção, pois ignoro o que o futuro nos trará, mas ainda tenho uma réstia de esperança. Ainda penso que a Europa tem grandes forças culturais e educacionais. Se poderá ou não competir com os recursos americanos — em universidades, em investigação — não é ainda claro. A América tem o poder financeiro. OK. Mas, sabe, depois da América virá a Índia, não tenho qualquer dúvida.

Porquê a Índia? 

É a próxima grande explosão cultural. Tive imensos alunos vindos da China e da Índia. Os chineses dizem sempre que sim e aprendem tudo de memória — o que para mim é algo extremamente benéfico. Mas os indianos são criativos. Dizem que não e vão à procura da sua própria opinião. Estou muito otimista em relação ao futuro da ciência, da arte, da língua e da filosofia indianas.

E em relação à Europa? Sublinhou o seu paradoxo quando disse que “a Europa é o lugar onde o jardim de Goethe faz fronteira com Buchenwald”. 

Toda a minha vida foi dominada pela pergunta: como é que aquilo pôde acontecer na Europa? Como é que por trás da casa de Goethe existe um campo de concentração? Como é que o país mais educado do mundo se tornou nazi? Nunca se esqueça de que a educação na Alemanha era provavelmente a mais avançada, mas não foi suficiente para travar Hitler. Toda a minha vida me interroguei sobre se as humanidades realmente humanizam. Deixe-me colocar a questão desta forma: passo o dia todo com os meus alunos a ler o “King Lear” e, ao voltar para casa, estou tão possuído interiormente por esse texto que não ouço os gritos de alguém na rua. Alguém grita por ajuda e eu não ouço. Sempre me intrigou até que ponto a ficção — e ‘ficção’ é a palavra-chave — pode ser mais poderosa do que a realidade. Passei a vida a ensinar as pessoas a ler e a amar o que leem. Mas questiono-me a mim próprio sobre o perigo imenso de nos identificarmos com a ficção.

Que resposta encontrou? 

Quem me dera tê-la encontrado, mas não aconteceu. E acho que ninguém a tem realmente. Os verdadeiros educadores como Tolstoi não têm sido de grande ajuda para as pessoas comuns. A cultura é, provavelmente, um talento muito ambíguo.

Uma vez afirmou mesmo que as humanidades “humanizaram a mentira”. 

As ciências não conhecem a hipocrisia, não fazem bluff. Na ciência verdadeira há o certo e o errado, e quem faz batota é obrigado a sair do jogo. Pelo contrário, as chamadas ‘ciências sociais’ fazem bluff o tempo todo, estão cheias de mentira, de conversa fiada.

O que nos leva a um problema que tem estudado profundamente: o da relação tensa entre a linguagem e a inumanidade política. 

Sim, a retórica política é capaz de matar. A política pode assassinar por meio da linguagem. O horror do movimento nazi foi largamente baseado na retórica, na propaganda. Muito mais poderosas do que qualquer exército são as mentiras do totalitarismo. O totalitarismo funciona através da linguagem. E também existe outro fenómeno: pode ser-se um grande artista e um assassino, uma pessoa a favor do extermínio. Há um momento muito importante nos diários de Cosima Wagner, em que Wagner está lá em cima, no primeiro andar, e ela ouve-o ao piano a rever o 3º ato do “Tristão”. Ele desce para almoçar, e de que é que eles falam? De como queimar os judeus. O homem que tinha estado a compor a melhor música do mundo desce para almoçar e discute alegremente como livrar-se dos judeus. O que quero dizer é que eu não poderia viver num mundo sem a música de Wagner. A minha dívida para com ele é enorme. A minha dívida para com Nietszche, para com Céline! Que livros belos e horrendos! Não tenho resposta para estas pessoas. Não há explicação. Perante os gigantes temos de ficar calados.

Memória. Disse-lhe o pai: “Se deixares a Europa, Hitler terá ganho”. Steiner ficou no continente após ouvir esta frase. Em 2008, foi um dos convidados do Festival Internacional do Livro de Edimburgo 

Descreveu a cultura europeia como a cultura da memória. O peso do passado trouxe consequências positivas? 

Sim, nalguns aspetos, mas não temos escolha. Desce-se uma rua em Paris e há 20 placas azuis com o nome de grandes poetas ou pensadores. Vivemos num grande museu. Pelo contrário, a ciência olha para o futuro. Não tem nada que ver com a ideia de museu. Quando ouço os cientistas, sinto alegria. Estão a passar um bom bocado. 

de si mesmo como um “recordador”. Como é estar nessa posição? 

Não me voluntariei para isso. Mas, como expliquei, o facto de ter sobrevivido fez-me sentir que tinha um compromisso, um trabalho a fazer no sentido de ajudar a recordar. Eu fui aquele que voltou mesmo tendo sido expulso. A maioria das pessoas quis esquecer, especialmente em França, e mesmo em Israel, onde ninguém queria discutir a Shoah, a morte de seis milhões de pessoas. Demorou muito tempo até acontecer. O mais espantoso é você e eu estarmos sentados mais ou menos normalmente nesta bela casa a falar sobre como fomos capazes de recuperar dessa situação. Teria sido perfeitamente possível a Europa colapsar. Mas não colapsou. 

A Europa encontrou o caminho de volta. E agora? 

Agora, pela primeira vez, já não tenho tanta certeza. O ‘Brexit’ na Inglaterra e Trump nos Estados Unidos puseram-nos numa situação em que o futuro deixou de ser claro. Sobreviveremos enquanto civilização? Não tenho a certeza. 

Em 1965, em “Linguagem e Silêncio”, escreveu que “o nacionalismo é o veneno do nosso tempo”. Essas palavras soam hoje providenciais. O que pensa sobre a ascensão do nacionalismo europeu? 

Assusta-me muito e tenho muito medo. O nacionalismo é um veneno absoluto. Lembro-me das palavras justíssimas de Georges Clemenceau: “Não somos patriotas, somos chauvinistas.” É uma distinção importante. O patriotismo pode ser decente, mas o chauvinismo — o nacionalismo — é algo muito, muito feio. Desprezar outra pessoa por ter uma nacionalidade diferente, isso não o posso compreender nem aceitar. Porque, afinal, o que é que nós escolhemos? Não escolhemos onde nascemos, quando, com que condições. Somos convidados nesta terra. Vou dizer-lhe uma coisa central: acredito que cada lugar deste mundo pode ser interessante. Não consigo pensar num lugar que não o pudesse ser. Se fosse mais novo e tivesse de voltar a mudar de país, tentaria, primeiro, aprender a língua. Seria certamente fascinante aceder a uma nova civilização. Não há lugares aborrecidos na Terra. Isto é o que receio em relação aos mais novos hoje em dia: que por causa da sua obsessão com os media artificiais, tenham pouco entusiasmo pelas experiências genuinamente criativas. 

“Estou em casa em qualquer lugar onde haja uma máquina de escrever.“ É isso? 

Uma vez estava no meu escritório em Pequim, onde tinha sido convidado a dar aulas. A máquina de escrever perdera a maioria das teclas, havia um cheiro horrível que não vou aqui descrever, e faltavam apenas cinco minutos antes da primeira aula. Entrei em pânico. E então um estudante entrou, cumprimentou-me, pediu-me a lista de leituras para o seminário, e nesse momento senti-me completamente em casa. Pensei: que idiota sou. Seja Pequim, Harvard ou Oxford, qual é a diferença? Tenho um trabalho a fazer. Tenho um aluno que quer aprender, uma lista de livros para lhe dar. Não, eu tive muita sorte ao escolher o ensino como forma de vida. Porque o ensino não pertence a uma pessoa ou a um país. Está em toda a parte. 

Disse um dia que o verdadeiro professor é aquele que alerta: “Vai acontecer.” Encontrou quem o ouvisse? 

Sim, sim. Ainda tenho ótimos alunos, um pouco por todo o mundo, com quem mantenho contacto. E há cinco ou seis deles que são muito mais capazes e talentosos do que eu. Esta é a maior recompensa que um professor pode ter: saber que um aluno é mais capaz do que ele próprio. Houve também algumas surpresas. Tive uma aluna tão tímida que nem sequer tirava o casaco quando vinha reunir-se comigo. Mas conseguiu a melhor nota do seu ano, summa cum laude, e depois disse-me: “Venho despedir-me e dizer-lhe que tudo aquilo que me ensinou é merda.” Era uma ultracomunista, uma comunista a sério, e anunciou-me que ia para a China Ocidental. Anos mais tarde estive na China e perguntei por ela na embaixada britânica. Vivia numa dessas comunas de camponeses e era um dos chamados “professores descalços”, a trabalhar nas condições mais extremas e primitivas. Quando uma pessoa faz isto, eu encho-me de respeito e fico calado. Odeio aqueles que fingem ser radicais e continuam a viver a nossa forma de vida. Considero isso absolutamente nojento.

Falando ainda sobre o ensino, li que gostaria de ser recordado como um “bom mestre de leitura”. O que significa ensinar a ler hoje em dia? 

É verdade, quando eu disse isso sentia-me ainda bastante otimista. Porém, como sabe, hoje vivemos uma crise. Parece que os livros estão a perder alguma da sua autoridade. OK, tivemos mil anos da cultura do livro, mas há outras formas de comunicação, outras formas de recordação. Eu não poderia viver sem livros, o meu mundo é uma casa de livros. Isso em parte é uma condição muito judaica. Mas conheço pessoas muito capazes, seres humanos muito relevantes, que leem muito pouco. Lembro-me de quando fui para a escola e havia crianças que claramente não gostavam de ler e eu dizia-lhes: “Tu és ignorante.” Hoje, elas responderiam: “Não, tu é que és ignorante, pois não consegues manejar um computador.” 

Trata-se de outra forma de literacia? 

Hoje há crianças a lidar com conceitos lógicos e matemáticos que costumavam estar reservados a uma elite de topo. Temos, por isso, de estar prontos para repensar a nossa noção de literacia. O que é hoje ser-se culto ou alfabetizado? Não é o mesmo que no meu tempo, de todo. 

No seu tempo, também infundiu algumas mudanças. É o homem que trouxe as literaturas comparadas a um país essencialmente monoglota, e que um dia disse acreditar na integração do Reino Unido na Europa. 

Em Cambridge, a regra para se ser nomeado professor era primeiro ser-se convidado para dar um conjunto de palestras. Só depois é que um vínculo mais estreito com a faculdade seria decidido. Então, eu dei uma série de palestras sobre a literatura depois de Marx e de Freud. Os alunos vieram às centenas, tiveram até de me mudar de sala para caberem todos. Mas a faculdade decidiu não me nomear. Porque aquela não era literatura inglesa, eram tontices centro-europeias. Foram anos muito difíceis, em que tive a forte sensação de que aqui não estaria em segurança. Vivi como escritor e conferencista freelancer, dando algumas aulas como professor convidado, até que um dia o telefone tocou e a Universidade de Genebra me ofereceu um lugar. Passei a viver metade do ano lá e metade cá. Foi duro para a minha mulher, que era professora em Cambridge e já era mãe de duas crianças. Mas ao mesmo tempo foi muito emocionante: num único seminário havia 12 línguas à volta da mesa. Isso é o que eu amo. É o que a literatura comparada deve ser. 

Vivendo em Inglaterra há tanto tempo, e conhecendo o país como o conhece, alguma vez imaginou que o ‘Brexit’ fosse acontecer? 

Não. Eu estava totalmente enganado sobre o ‘Brexit’ e sobre Trump. Quando o meu filho me ligou às cinco da manhã para me dizer que Trump iria ser o próximo Presidente dos Estados Unidos pensei que estava a brincar. Que era uma má piada. Em relação ao ‘Brexit’, sabia que havia um perigo real, mas não pensei que fosse acontecer. Vou dizer-lhe o que se passa aqui: a Inglaterra cansou-se da História e quer ficar fora dela. Prefere ser uma nação mais pequena. E o problema fascinante é: pode ser-se uma cultura pequena e provinciana tendo uma língua internacional, que domina todo o planeta? A língua não empurrará o país para o contrário do que ele quer ser? Não tenho uma resposta, mas vou continuar atento ao que se passa com a língua inglesa aqui, na América, na Índia, em África. 

Está a dizer que a análise da linguagem permite compreender melhor um país? 

Digo que essa análise vai mostrar qual o estádio do processo político que atravessamos e para onde nos leva. 

Há muitos anos, declarou que não faz sentido explicar Hitler como sendo apenas um louco. Hoje, as pessoas falam de Trump como uma pessoa básica, ignorante e pouco educada. O que lhes diz? 

Que isso é redutor e não nos ajuda a perceber quem ele é. É evidente que nunca houve um fenómeno semelhante. Há momentos em que Trump é extremamente astuto e outros em que é infantilmente estúpido. E são estes aspetos que o tornam tão perigoso. Tê-lo como responsável do arsenal nuclear dos Estados Unidos é uma situação imprevisível. 

Vimos isso, por exemplo, com a bomba sobre a Síria em resposta ao ataque químico. Ele é um homem impulsivo. 

Por outro lado, a Síria não é problema nosso. As pessoas não concordam comigo neste ponto. Não vejo que tenhamos um interesse vital na situação da Síria, mas posso estar enganado. A Rússia tem estado a pressionar e continua a fazê-lo, e talvez estejamos a caminhar para uma guerra de pequenas dimensões. Veja a situação da Coreia do Norte: estamos a lidar com um lunático, um homem claramente demente. Mas os sul-coreanos têm um certo orgulho de que os norte-coreanos sejam tão poderosos. Os coreanos gostariam de se reunificar e não querem que o Ocidente intervenha nesse processo. Não sei o que isto poderá significar para si, para a sua geração. Provavelmente ainda assistirá a uma crise dramática entre aqueles dois países. 

Se a Síria não é um problema nosso, o que se faz aos refugiados que fugiram da guerra e esperam às portas da Europa? 

Porque é que não estamos a tentar ajudá-los nos seus próprios países? Em nome de que direito estas pessoas querem invadir a Europa?

Vê isso como uma invasão?

Certamente que é. Claro que nós os invadimos no passado e, por isso, existe aqui uma terrível simetria. Uma terrível justiça. Agora o movimento está a ir na direção oposta — mas isso não o torna mais fácil. 

Sempre defendeu que há uma diferença radical entre não saber o que se vai passar — o caso do Holocausto — e sabê-lo mas não fazer nada — o caso de outros genocídios como o do Camboja. Hoje, a informação está em toda a parte e continuamos a fazer silêncio face ao genocídio. Porquê? 

Temos estado a dizê-lo. Ou se está preparado para arriscar a vida e fazer alguma coisa ou é melhor mantermo-nos quietos. É demasiado fácil ficar confortável em casa e dizer quanto se lamenta uma situação. Vivemos hoje numa cultura de piedade elegante: estamos sempre a pedir desculpas, a dizer quão profundamente uma coisa nos afeta. Mas isso não leva a lado nenhum. 

É uma piedade que não conduz à compaixão. 

Não, compaixão significa estar preparado para fazer alguma coisa. A minha mulher e eu somos muito idosos, temos esta casa magnífica, e num mundo ideal eu diria: “Vamos ceder os quartos desocupados a refugiados.” Num mundo ideal diria que, havendo tanta gente sem teto para morar, dois idosos não precisam de uma vivenda tão espaçosa. 
Mas a verdade é que não fazemos nada. E por isso é melhor ficarmos calados. 

Depois do que aconteceu na Europa durante a II Guerra Mundial, as nossas sociedades não deveriam estar mais acordadas, mais prontas a agir? 

Veja esta estranha obscenidade — e uso a palavra muito cautelosamente: há agora mais judeus do que antes da guerra. É incrível, e de uma certa forma é também terrível. Israel é um triste milagre. Estes dois termos não deviam ser usados juntos mas, neste caso, devem sê-lo. 

Porquê? 

Porque o preço de Israel é o nacionalismo militarista. E esse é um preço muito elevado a pagar. Os israelitas têm todo o direito de contrapor: “Como não ser assim? O que podemos fazer?” Sinceramente, não sei. Há muitos anos, após a criação do Estado de Israel, foi-me oferecido um excelente cargo em Israel, para ajudar a começar a Universidade. E eu não fui, não consegui. 

Tendo atravessado quase todo o século XX, como o descreveria? 

Foi um século escuro, da maior barbárie. As pessoas que viveram o verão de 1913 conheceram a vida como nunca mais a veremos. Porque desde 1914 tem havido desastre atrás de desastre. E não pense que estamos fora de perigo. Estou muito pessimista. 

Disse mesmo que “não há mais começos”. Que esgotámos todos os começos. 

Não, hoje o que temos são muitos finais. Muitos pontos finais. 

Sente que pertence a este mundo? 

Não, não estou em casa neste mundo. Ninguém da minha idade está. Vivemos demasiado. O verdadeiro crime é viver demasiado — e por esse crime declaro-me culpado. [risos] Mas não invejo os jovens, porque os esperam tempos difíceis. É mesmo possível que depois do capitalismo sobrevenham outras formas de crise económica. Pode esta enorme distância entre ricos e pobres manter-se? É sustentável, suportável? Não, é inconcebível. E alguma coisa vai acontecer. Nunca se esqueça: o marxismo acabou da pior forma, no gulag. Mesmo que durante muito tempo tenha representado uma esperança efetiva. Há uma passagem extraordinária no manuscrito de Karl Marx, de 1848: “Trocaremos não dinheiro por dinheiro, mas confiança por confiança.” Foi um grande sonho que correu mal. Mas que tipo de sonho estamos agora a deixar aos jovens? Que sonho seremos capazes de transmitir? 

E que sonho lhes deixamos? 

A ciência. Vivo entre cientistas e tenho-me divertido muito a ouvi-los. Nunca houve um tempo melhor para eles, porque na próxima segunda-feira saberão alguma coisa que não sabiam na sexta anterior. O progresso e a descoberta estão no interior da dinâmica da ciência. Tive algum treino científico e tentei compreender ao menos uma ínfima parte do que os cientistas fazem. E é um mundo novo, intocado. Nas humanidades, mais de 90% daquilo com que lidamos está no passado. Os livros, a música, a reflexão, a arte. É como os ponteiros do relógio a caminharem em direções opostas. Estou tão feliz por presenciar isso. 

“Não fugir das dificuldades.” As palavras são suas e estão ligadas à sua infância, quando o seu pai o obrigou a olhar pela janela as manifestações antissemitas. 

Esse momento mudou a minha vida. Havia um desfile na rua em que se gritava: “Matem os judeus!” A minha maravilhosa mãe apressou-se a fechar as cortinas, mas o meu pai disse: “Pelo contrário, eu quero ver isto. Mon petit, isto chama-se História.” Que coisa incrível para me dizer! Nunca voltei a ter medo. Por outro lado, nasci com uma deficiência severa [no braço direito] e a minha mãe não me deixou ser canhoto. Para ela, a autocomiseração era algo repugnante. 

Foi o seu lema de vida? 

Sem dúvida. Mas, acima de tudo, o meu lema foi saber que a força mais poderosa é estar interessado em alguma coisa. Pode ser a Dinastia Ming, o que quer que seja, se estiveres interessado o suficiente para o estudar e aprofundar, então não corres perigo. Se te prendes a qualquer coisa — pode ser arqueologia, música, desporto — que seja maior do que tu próprio, não corres perigo. O terrível é quando as pessoas se prendem a uma nada, ao vazio. 

Onde pensa que estaremos daqui a dez anos? 

Não posso responder. Costumava pensar que tinha uma imagem do futuro, mas já não tenho. Isso também faz parte da idade. Estou à espera de morrer e penso que será uma experiência interessante. Quero muito descobrir como é. Mas à sua pergunta não posso responder, nem mesmo em relação ao país em que vivo, a Inglaterra. E é uma sensação muito desconfortável. Se os meus filhos me perguntassem onde devemos estar daqui a dez anos, aí sim, posso responder: estou muito grato que estejam na América. 

Mesmo na América de Trump? 

Trump pode ou não durar oito anos. A América é maior do que Trump. Mas Inglaterra não é maior do que o ‘Brexit’. São coisas diferentes. Tem tudo o que procurava? Sim? Então agora vamos tomar um belo café”.

A gente da cultura: Trump e Obama.

A intelligentsia norte-americana está em guerra aberta com Trump. Na Europa, alguns classificam essa intelligentsia, escritores, artistas das artes visuais, teatro e cinema, músicos, como de esquerda, sabendo bem de mais que a grande maioria são liberais com muito pouco de esquerda. Fazem bem em invectivarem Trump um reacionário proto-fascista, com tiques de caudilho […]

via A Intelligentsia nos seus labirintos — Praça do Bocage

Ficção e Histórias

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Há livros, muitos livros, que servem para imaginarem por nós ou para nós meditarmos um pouco – sobre a vida, o amor, os sucessos, os fracassos, a hierarquia dos valores, os dez mandamentos, a honestidade a falta dela, a cobiça e a falta dela, os males do mundo e o excesso deles e as partidas maldosas do mundo e o excesso delas.

Não gosto desses livros. O que prefiro são os livros que transformam o mundo, os valores no mundo, os sentimentos e as percepções no mundo. Já basta de o contemplar, de moralizar sobre valores desprezados e de idealizar sobre a perfídia da matéria, sobre o bom que é ter livre-arbítrio e sobre o mal de haver maldade no livre-arbítrio. Ora, o bom não é pensar, suspirar, imaginar histórias para imaginarmos, suspirarmos, pensarmos. Uma coisa boa é uma coisa que fica e nos acompanha toda a vida como um marco que a transformou e, porque só a transformamos se o mundo se transforma e nos leva consigo, um livro deve ser um impulso, um imperativo, não um remoer nas ideias e nos factos que já são, um analisá-los, descrevê-los e expressá-los mas uma revolução nas ideias concretas acerca da realidade concreta, um estabelecimento do novo, uma percepção nova, um viver novo e um pensar novo, uma maneira nova, qualquer que seja, que não pode deixar tudo na mesma – os valores e os actos -, sobretudo nós, que o lemos.

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Livros bons são, por exemplo, no seu tempo e agora, se os soubermos ler bem, se formos capazes de nos transfigurar com eles, sem nos tornarmos seu espelho, a Ilíada, a Odisseia, O Decameron, A Origem da Desigualdade entre os Homens, A Fenomenologia do Espírito,  O Pai Goriot, A Cartucha de Parma, o Germinal, Viagens Na Minha Terra, A Cidade e as Serras, A Ideologia Alemã, O Capital, Iluminações, As Folhas de Erva, Poemas de Alberto Caeiro, Ulisses, Galileu Galilei, Photomaton e Vox e outros que tais.

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Mário Dionísio No Centenário do seu Nascimento

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Urgente a reedição de A Paleta e o Mundo, uma das obras maiores da Teoria da Arte, não só em Portugal mas no mundo. Excelente contista e poeta, a sua contribuição para uma teoria marxista das artes, e não para um uso propagandístico das mesmas (tal só cabe à vontade do artista, quando quer involuntariamente dar cabo da propaganda das ideias que defende), mau pintor (o seu abstraccionismo é sem originalidade, estático, justaposto, caricatural, sem profundidade de sentidos), é superior, pelo seu antidogmatismo, e mais marxista (e científica, objectiva), do que a de muitos outros pensadores da arte que, sendo eles próprios caricaturas, se acreditam marxistas. É que mostrar, e exprimir sem teorizar, as contradições objectivas da realidade, e o seus efeitos subjectivos retroactivos, eventualmente junto com o processo de formação das ideias e das acções a partir delas, respeitando a complexidade do mundo, é, além do resto, mais verdadeiro, do que evidentemente fazer o disparate de (para usar um conjunto de expressões que se podem dirigir a um certo grupo de indivíduos cuja nobre militância, sobretudo política, pelo progresso é prejudicada pelo seu entendimento pouco dialéctico) esquematizar, simplificar, idealizar pessoas e práticas, esconder as próprias contradições das lutas sociais e os escolhos ou labirintos do futuro. A bem dizer, esta pobreza é mais teórica do que criativa, é mais uma forma de propaganda do que uma demonstração artística, apesar de terem existido artistas, medíocres, que seguiram os seus princípios e ditames. Entre os escritores, nem Alves Redol nem Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, José Saramago, etc. (o caso dos artistas plásticos é também uma questão de talento e de mediocridade, não de falta de jeito mas de pensamento numa certa forma de juízo de gosto), podem ser tidos por escrevinhadores de ideias feitas, que meteram a realidade no leito de Procustes e a distorceram para a transfigurar numa representação trágica da dialéctica de forças materiais idealizadas em movimentos homogéneos e personificadas em heróis e vilões. Isso fica, ironicamente, para a literatura anticomunista e para a banda-desenhada americana, sobretudo a da Marvel.

 

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Marxistas – Onde Estais? Ou Desnorte nos Valores Culturais da "Esquerda" no Ensino da Língua no Brasil

É o que acontece quando a “esquerda”, em qualquer lado, perde o norte, isto é, o marxismo, o de Marx, bem entendido. Não é que me incomode com a supressão no Brasil dos clássicos da língua portuguesa. O Brasil, onde já se propôs romper os laços da língua adoptando o brasileiro, tem todo o direito à sua autodeterminação, a promover os seus escritores,  que decerto dizem mais ao seu povo, e a escolher a narrativa da História que mais lhe interessa. De resto, até os europeus se estão nas patavinas para a sua própria História, sua cultura, sua diversidade,  suas identidades diversas. Já somos mais tudo e nada ao mesmo tempo. A única coisa que me faz ficar perplexo, se alguma coisa ainda me surpreende, é a promoção pelo próprio governo brasileiro da bandalheira linguística, como se o rigor, a harmonia, a sistemática fossem valores imperialistas, opressivos, reaccionários, neocolonialistas. Há-de haver um dia em que será revolucionário o regresso ao canibalismo.
Literatura portuguesa deixa de ser obrigatória no Brasil

“O Ministério da Educação do Brasil (MEC) eliminou a obrigatoriedade do estudo da literatura portuguesa na nova Base Nacional Curricular Comum (BNCC) que está até março em discussão e deve ser posta em prática em junho. A decisão é considerada por grupos de educadores brasileiros como “política” e “populista”, faz parte de uma série de propostas, que inclui mudanças nos currículos de Língua Portuguesa e de História e está a ser alvo de intenso debate no país.
Autores como Luís Vaz de Camões, Gil Vicente, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett ou José Saramago deixam de ser obrigatórios. Numa prova do ano passado de acesso à Universidade de São Paulo, a mais bem colocada do país nos rankings internacionais, era exigida a leitura de clássicos como Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, e A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós.
“A proposta beira o absurdo (…) como se pode apagar Portugal e a Europa de nossas origens? Tirando do mapa? Será que mais uma vez a seleção de conteúdos foi contaminada por um viés político e ideológico anacrónico? (…) Já que Portugal teria sido uma metrópole colonialista europeia que explorou as riquezas de suas colónias e escravizou populações negras e indígenas na América e em África, agora seria a vez de dar voz à cultura dos oprimidos, em detrimento da Europa elitista e opressora?”, perguntaram-se em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo dois professores universitários brasileiros, Flora Bender Garcia e José Ruy Lozano, indignados com a decisão.
O Ministério da Educação do Brasil, solicitado pelo DN a dar uma explicação, esperou uma semana para responder através do gabinete de comunicação que não teve tempo para elaborar uma resposta. Sublinhou, no entanto, que a BNCC não é definitiva e que está em processo de discussão.
José Ruy Lozano critica esse processo de discussão por ser possível apenas através de comentários no site do MEC e não via um fórum mais formal e abrangente (ver entrevista ao lado) e sublinha a “importância da literatura portuguesa na memória e na vivência dos brasileiros”. Refere o professor universitário que não se pode estudar traços essenciais da cultura e da literatura do país sul-americano sem entender primeiro as raízes europeia, ibérica e portuguesa dessa mesma literatura.

 

© Fornecido por Diário de Notícias

 

 

História e gramática
A BNCC foi criada no ano passado, na gestão do ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, entretanto substituído por Aloizio Mercadante, para estabelecer um grupo de conhecimentos e habilidades de que todos os estudantes brasileiros devem dispor na educação básica. Logo que foi conhecida do público gerou controvérsias: inicialmente, não tanto por causa da literatura portuguesa mas sim por questões ligadas à história e à gramática.
As críticas surgiram em virtude da pouca relevância dada à história mundial, ignorando pontos considerados por educadores como de conhecimento básico, para dar ênfase às histórias indígena e africana. Outra área que mereceu reparos foi a da ausência da gramática no ensino geral de linguística.
O Ministério da Educação, porém, decidiu incluir nos últimos dias algumas das sugestões nestas áreas – história e linguística – e rever os pontos mais controversos da Base Nacional Curricular Comum, após receber mais de dez milhões de contribuições no site construído para o efeito.
“Para os componentes de história e geografia, o processo de revisão tem sido no sentido de mostrar as formas de integração entre o Brasil e os processos históricos globais”, recuou o Ministério da Educação.
No mesmo documento lê-se ainda que serão introduzidos tópicos de análise linguística em todas as etapas de escolarização – mas não há referência à reintrodução, ou não, da obrigatoriedade da literatura portuguesa.
Populismo e ideologia
O governo do Partido dos Trabalhadores, de centro-esquerda, é acusado de populismo e de agir de forma ideológica, ao querer privilegiar a cultura indígena e ao ser mais permissivo em relação a questões gramaticais já desde 2011, quando causou choque na classe educadora que num manual escolar distribuído pelo MEC fosse considerada “inadequada e passível de preconceito” mas não errada” a expressão, sem concordância, “nós pega o peixe”.
O colunista de O Globo Ricardo Noblat defendeu na ocasião que era o mesmo que dizer que “dois mais dois são cinco”, enquanto o jornalista da Folha de S. Paulo Clóvis Rossi sublinhava que “a questão é exclusivamente linguística, alguns esquerdistas de botequim tentam politizá-la com o argumento de que a língua é um instrumento de dominação. Se fosse, deveríamos voltar a falar tupi-guarani”.

Agatha Christie – O segredo do seu êxito, por Miguel Urbano Rodrigues – Uma Lição Sobre o Mau-Gosto em Literatura


Agatha Christie (1890/1978) foi uma escritora importante?

Sim, muito importante. Dos seus livros, traduzidos em 100 idiomas, foram vendidos mais de 4 mil milhões de exemplares. Um total de vendas assombroso, somente superado pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare.

Mas porventura foi uma grande figura da literatura mundial? Não.

Sobre ela foram escritos dezenas de livros, quase todos elogiosos. Uma das suas peças de teatro, A Ratoeira, permaneceu no cartaz no Reino Unido durante mais de uma década. A Rainha Elisabeth, sua grande admiradora, atribuiu-lhe o título de Lady do Império.

Mas nunca obteve o apreço da crítica literária séria.

Como explicar o seu êxito comercial que ultrapassa o de qualquer outro autor de romances policiais, de Conan Doyle a Georges Simenon?

A leitura da sua autobiografia [1] ajudou-me no esforço para encontrar uma resposta.

Agatha nasceu numa mansão da estância balnear de Torquay. O pai era um americano britanizado. Não trabalhava, como era habitual na época vitoriana para quem vivia dos rendimentos.

Nas memórias a escritora recorda uma infância feliz numa família abastada da alta classe média. Quando no final do século XIX diminuíram os dinheiros que chegavam dos EUA, os pais alugaram a casa de Torquay e foram passar um ano no sul de França e depois na Bretanha, onde o custo de vida era menor.

“Uma das coisas que, penso, sentiria mais – escreveu na velhice – se fosse criança nos dias de hoje, seria a ausência de criados”.

As referências à criadagem da época, que ela admirava pelo “orgulho profissional”, são abundantes.

Agatha nunca frequentou uma escola. Estudou em casa e em pensionatos franceses, sobretudo música e canto.

Casou aos 22 anos, em 1912, com Archibald Christie, um oficial da Força Aérea, que, finda a I Guerra Mundial, se tornou corretor da City londrina. Amou intensamente o companheiro, viajou pelo mundo com ele, mas após 14 anos de um casamento harmonioso (nasceu uma filha em 1919), o marido apaixonou-se por uma amiga e pediu o divórcio. A escritora conta que olhou para ele e percebeu que afinal era “um desconhecido”. Agatha, angustiada, desapareceu durante dias, sofreu horrores, teve uma crise de amnésia.

O seu primeiro livro, um policial, foi escrito durante a guerra mas, recusado por seis editoras, somente foi publicado em 1920. Passou praticamente despercebido.

Durante anos Agatha resistiu a assumir-se como escritora, embora publicasse romances com alguma frequência. O êxito tardou. Para ele contribuiu a personagem que criou, Hercule Poirot, um excêntrico detetive belga muito vaidoso.

A publicação em folhetins dos primeiros livros e a adaptação ao teatro de outros foi para ela uma importante fonte de recursos. No início da II Guerra Mundial já era a escritora mais lida da Inglaterra e nos EUA a sua popularidade era enorme.

Muito inteligente, sensível, com uma imaginação prodigiosa, sentiu sempre dificuldade em se expressar em público, mas cativava as pessoas, era uma comunicadora superdotada.

“Sou muitas coisas – assim se retratou na Autobiografia – bem-disposta, exuberante, distraída, esquecida, tímida, afetuosa, completamente desprovida de autoconfiança, moderadamente altruísta (…) Gosto de sol, de maçãs, de quase todo o tipo de música, de comboios, de quebra-cabeças numéricos, e de tudo o que tenha a ver com números, de nadar no mar, de silêncio, de dormir, de sonhar, de comer, do cheiro de café, de lírios, da maioria dos cães e de ir ao teatro”.

Essa confidência não ajuda muito a avaliar a sua personalidade complexa, contraditória, desconcertante.

Nas suas viagens por todos os continentes acumulou uma soma impressionante de conhecimentos. Mas não os transformou numa cultura extensiva, integral. Não tentou sequer esse desafio.

Nos seus livros o leitor não encontra um pensamento estruturado, uma meditação profunda sobre a existência e a História dos países do Médio Oriente onde viveu largos anos.

Ciente das suas limitações, é uma escritora de espumas. Criou um estilo, mas cultiva o superficial, a banalidade.

O tratamento da temática do quotidiano é em alguns escritores de uma grande riqueza. Em Georges Simenon, por exemplo. Nos seus romances, ele retrata admiravelmente les petits gens, as porteiras de Paris, os taberneiros, as prostitutas, as velhas solteironas, os clochards do Sena. O comissário Maigret é a antítese do Poirot de Agatha.

Perguntaram um dia a André Gide quem era na sua opinião o maior escritor da França. A sua resposta desconcertou o entrevistador: Georges Simenon. Exagerou, mas o criador de Maigret atravessou as portas da grande literatura; a mãe de Poirot não.

A gente de baixo não merece atenção especial de Agatha. Não é por snobismo que a esquece. Concentra a sua atenção na sua gente. Com a exceção dos romances de Miss Marple, a velha senhora de uma aldeia inglesa, e de Tommy e Tupence, escolhe as personagens na aristocracia, na gentry britânica, na alta burguesia, no mundo das artes.

Diz ter sido inspirada por Conan Doyle. Mas um abismo intransponível separa Poirot de Sherlock Holmes.

Os seus livros estão infestados de estereótipos e de lugares comuns, de disparates. É categórica na afirmação de que a amizade entre homens e mulheres lhe aparece como um absurdo. Sofreu muito durante as duas guerras. Mas concluiu que “vencer uma guerra é tão desastroso como perdê-la”. Não hesitou em confessar que “o melhor de escrever naquele tempo é que eu relacionava o trabalho diretamente com dinheiro”.

Cultiva com requinte o suspense. Mas a sua técnica faz dela, para alguns críticos, uma “escritora batoteira”. Porquê?

Agatha lembra que gostou sempre de abrir “pistas falsas”, para enganar o leitor. Mas oculta até às últimas páginas informações indispensáveis para a identificação do criminoso. Em alguns casos, depois de matar várias pessoas, este só aparece quase no final.

happy end, talvez para atenuar o choque inerente à violência do tema, é frequente nos seus livros, sobretudo a relação amorosa entre personagens secundárias.

As viagens da juventude e as prolongadas estadas com o segundo marido no Iraque contribuíram para o êxito de alguns dos seus romances.

A pedido de um amigo, escreveu aliás um romance policial cuja ação se situa no Egipto faraónico.

Mas os leitores não encontram nesses livros algo que possa revelar um interesse profundo da autora – sequer interesse – pelas culturas da Assíria, da Suméria, ou do vale do Nilo no tempo do último Ramsés.

Na Autobiografia, iniciada em 1950 e concluída em 1965, três quartos são dedicados à infância, à adolescência, à juventude, ao convívio com o primeiro marido. Os 48 anos vividos com Max Mallowan, o segundo marido, um eminente arqueólogo, merecem-lhe menos atenção. A desproporção choca o leitor.


Agatha Christie somente é concebível na Inglaterra do seu tempo. Como mulher e escritora foi totalmente inglesa, inimaginável noutro país, noutro século.

Mas escreveu para milhões de não ingleses, foi por eles admirada como pelos seus compatriotas.

Como compreender, como explicar o seu imenso, surpreendente êxito literário?

Creio que para ele foi determinante ir ao encontro do que é comum no “gosto” da esmagadora maioria dos leitores de qualquer nacionalidade.

Ela escreveu o que as pessoas gostam que lhes digam.

Agatha faz-me pensar nas audiências enormes das telenovelas, na abertura à mediocridade. Penso também no êxito dos comentadores políticos da televisão cujas opiniões ofendem a inteligência.

Obviamente que Aristóteles ou Einstein não poderiam inspirar ao homo sapiens contemporâneo o interesse despertado pelos livros de Agatha Christie. 

29/Agosto/2015

[1] Agatha Christie, Autobiografia , Editora ASA, Lisboa, 2011, 704 p., ISBN 9789892316413

O original encontra-se em www.odiario.info/?p=3753 Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Estamos a Dar a Literatura Que Convém aos Adolescentes?

 
Um comentário em amazon.fr sobre uma edição de Madame Bovary de Gustave Flaubert, comentário interessante, que explica por que os adolescentes não podem apreciar as maiores obras-primas da literatura. Segundo ele, foram escritas para adultos e não para eles, que ainda não podem compreender, à falta de experiência de vida e de conhecimentos, os seus enredos e os seus comentários. Para muitos, essa experiência literária incipiente e demasiado precoce mata-lhes definitivamente o gosto pela leitura séria, que ficará para sempre associada ao sofrimento escolar. Talvez fosse preferível fazer uma escolha de obras entusiastas, mas que possuam sentido crítico e reflexivo, além de qualidade formal artística. Mais tarde, talvez sentissem a necessidade de leituras mais sérias para reflectirem sobre as questões que a vida lhes irá pôr. Transpondo para Portugal, temos poesia de Fernando Pessoa que qualquer adolescente desperto para a vida poderá apreciar, poemas de José Régio, de José Gomes Ferreira, como temos contos de Jorge de Sena e de José Cardoso Pires, entre outros que associam a reflexão à fantasia, à aventura, às questões a respeito das dúvidas típicas do processo de crescimento; obras que exprimem também aquele entusiasmo pelo presente e pelo futuro, assim como o sentido crítico do passado recente de que os adolescentes tanto precisam. Camões, Padre António Vieira, Almeida Garrett, Eça de Queirós, quase todo o Aquilino Ribeiro podem esperar – se a política cultural do Estado e os ‘media’ não lhes fecharem para sempre as janelas da fruição e da compreensão da grande arte, que é o que infelizmente acontece no nosso tempo.
 
 
 

 

“J’ai relu Madame Bovary. Je me suis fait violence car j’en ai un désastreux souvenir. Ou l’école, comment dégoûter de la littérature. Ainsi, les Balzac, Stendhal et autre Proust, dont la lecture imposée à l’adolescence, m’ont presque définitivement dégoûtée de la lecture. C’est le paradoxe de l’école, on veut faire découvrir aux jeunes esprits les perles de la littérature française, mais ces romans n’ont aucune résonnance pour un adolescent, ça reste un pensum. Ce sont des oeuvres adultes, écrites par des adultes avec leur préoccupation d’adultes, et adulés par d’autres adultes. C’est un univers qui laisse totalement indifférent l’adolescent, n’oublions pas que le « jeune vit dans un monde qu’il ne comprend pas et qui ne le comprend pas (cf une excellente pub pour la Poste). Ecrire sur les relations sociales, l’ennui, les mauvais choix que l’on peut faire dans une vie, c’est tout à fait à l’opposé de ce qu’attend le jeune : il veut qu’on le fasse rêver d’une vie pleine, enthousiaste et réussie.

 

Pourtant, je le reconnais aujourd’hui, c’est une oeuvre majeure de notre patrimoine culturel. Une leçon de littérature, sublime et habitée”   Une oeuvre magistrale (Par étoile le 5 février 2010).
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