Homossexuais e Rússia (ou a Chechénia)

Os mesmos que se indignam com a suposta perseguição (bem provável, por se tratar de uma república islâmica, mas a duvidar de certas informações devido à propaganda anti-russa) aos homossexuais na República da Chechénia, pertencente à Federação Russa, e com os insultos à homossexualidade, empregam epítetos bem piores contra os comunistas (escumalha da Humanidade, genocidas, antidemocratas, desprezando os mais elementares direitos humanos, como o direito à vida, à propriedade e à liberdade, de expressão, de estilo de vida e de criação de partidos políticos) e chegaram mesmo a sugerir em comentários anteriores a proibição de actividades comunistas (já há vários países capitalistas avançados onde elas foram banidas ou onde os partidos comunistas não podem exercer actividade e ir a votos). 

É evidente que a formação social capitalista avançada chegou a um ponto em que tolera tudo, além de comercializar tudo – no seu liberalismo confiante, mercantil, oportunista e, reconheça-se, crente em todas as liberdades menos naquelas que comprometam o capital -, exceptuando, pois, a discussão da propriedade. Pode mesmo participar-se na discussão dos orçamentos e projectos locais, ser-se activista em associações cívicas de âmbito ecológico, minoritário, caritativo, cultural, ter-se sindicatos que lutem pela melhorias das condições de trabalho e de vida. Pode, com certeza, votar-se no partido que julgamos representar-nos bem. E alguma coisa sempre muda para melhor. No entanto, quem decide finalmente nos assuntos fundamentais, a respeito das relações de propriedade, do orçamento, do ensino, da política externa, da paz e da guerra, do planeamento do território, da questão da identidade e da autonomia nacionais, continuam a ser os agentes políticos do grande capital nacional e internacional. Por isso, mantêm-se, como leis da Natureza, a extrema riqueza e a extrema pobreza, o mais das vezes disfarçada, a desigualdade de meios entre as nações, a opressão laboral, a exaustão do planeta, a desordem territorial, a destruição do património edificado e do natural, a repressão a vários níveis e em diversos domínios da existência da expressão da individualidade, a guerra que tudo leva menos a perspectiva de novos negócios e da instauração de regimes que perpetuem, numa luta geo-estratégica interminável, o poder dos mais fortes a nível global e local. Vivemos, pois, num mundo livre – livre para os poderosos. Mas é por causa deste relativo avanço civilizacional – atribuível tanto às necessidades de liberalismo político e moral para o desenvolvimento industrial e para a concorrência e o crescimento económicos quanto às lutas democrático-liberais burguesas e às lutas proletárias anticapitalistas, libertário-democráticas noutro sentido – que a ideologia dominante das nações integradoras da formação social capitalista desenvolvida está convencida e convence da superioridade moral do sistema que defende face ao atraso simultaneamente económico, democrático e moral dos outros países. As guerras perpetradas pelos Estados altamente civilizados contra os Estados bárbaros são assim legitimadas, tal como é justificado o combate dos higienistas contra as pragas.

Toda esta conversa se resume a isto: propriedade privada dos meios de produção ou socialização dos meios de produção. Para a maioria, a existência de donos dos meios de produção é sinónimo de civilização e é um facto natural; para uns poucos resultou de um “roubo”, ainda que legal quando o Estado surgiu e em parte se confundiu, nas pessoas  ou nos interesses, com aqueles que se apropriaram dos campos, do gado, das oficinas, das minas, etc.. A questão central é: a exploração do homem pelo homem é um facto da Natureza ou não? Todos os outros tópicos (muito importantes sem dúvida mas manipulados) só servem a grande parte dos comentadores de serviço para distrair o pagode. Por fim, toda a política se reduziria, semelhante a contos infantis maniqueístas, à luta entre os bons dos democratas e tolerantes e os maus dos tiranos e preconceituosos.

Se compreendermos que os direitos humanos formais se prendem essencialmente com a propriedade e com a liberdade de expressão, além do básico direito à vida, e que a expressão é sobretudo a da liberdade dos grandes detentores da propriedade (tem que se estar bem caladinho no emprego e seguir as linhas ideológicas gerais no ensino), ficamos a saber que é precisamente na propriedade (dos meios de produção) que está o ponto. Propriedade ou não propriedade – eis a questão.

Alugar o corpo, do próprio ou até de outrem (fazendo negócio com o sexo alheio)? Não há problema. É tudo relativo e o ser humano tem preço.

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Notícias ao Minuto (10-02-2017):

“Comete crime de lenocínio “quem, profissionalmente ou com intenção lucrativa, fomentar, favorecer ou facilitar o exercício por outra pessoa de prostituição”, sendo “punido com pena de prisão de seis meses a cinco anos”, de acordo com o Código Penal.

O tipo legal do crime de lenocínio visa a proteção da liberdade e da autodeterminação sexual da(o) prostituta(o), inserido na parte dos crimes contra a liberdade sexual.

“Não se pode presumir, de forma categórica e inilidível, que quem fomente, favoreça ou facilite a prostituição, ao fazê-lo, pura e simplesmente, põe em risco a liberdade sexual de quem se prostitui”, sustenta o TRP, num dos argumentos apresentados.

Os juízes desembargadores João Pedro Nunes Maldonado e Francisco Mota Ribeiro votaram a favor da inconstitucionalidade do crime de lenocínio, enquanto o juiz desembargador António Gama apresentou voto de vencido, pelo que a decisão não foi unânime.

O acórdão da Relação do Porto faz menção a uma decisão do Tribunal Constitucional, proferida em dezembro de 2016, que considera constitucional o crime de lenocínio. Na ocasião, três juízes votaram neste sentido, contra dois, sendo que um dos votos contra esta decisão pertenceu ao presidente do Tribunal Constitucional, Costa Andrade.

A Relação do Porto discorda do Tribunal Constitucional e dos seus fundamentos.

“(…) Assentam em estudos de natureza acientífica, ligados à área dos conhecimentos sociais e empíricos, carecendo de demonstração metódica, organizada e racionalmente interpretada a associação da prostituição a situações de carências sociais elevadas e que qualquer comportamento de fomento favorecimento ou facilitação da prostituição comporta uma exploração da necessidade económica ou social do agente que se prostitui”, frisa o TRP.

Ou seja, além da imoralidade, os juízes mostram ignorância e atribuem-na aos outros.

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Apocalipse: RTP ou Apocalipse Estaline – António Santos

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odiario.org

Recentemente, explodiu nas televisões americanas um novo tipo de «documentário» a que chamam docufiction. Ficção apresentada como se abordasse uma realidade factual. É o caso da série da RTP dedicada a Stáline. Uma fraude documental com um objectivo ideológico preciso, no ano em que se celebra o centenário da Revolução de Outubro. A RTP, paga por todos nós, dá tempo de antena a propaganda que os nazis não desdenhariam.

Acabo de assistir a «O Demónio», o primeiro episódio da mini-série «Apocalipse: Estaline». Durante uma hora, Isabelle Clarke dedica o seu «documentário» a convencer-nos de que Estaline foi o que o título diz: um demónio. Veja-se: «Lénine e um punhado de homens lançaram a Rússia no caos. (…) Como os cavaleiros do Apocalipse, os bolcheviques semeiam morte e destruição para se manterem no poder. Continuarão durante 20 anos, até os alemães chegarem às portas de Moscovo». Estaline surge como um «louco», «sexualmente insaciável» e com uma «mentalidade próxima dos tiranos do Médio Oriente» [sic] que só Hitler pode parar. Num frenesim anacrónico, o espectador é levado de «facto» em «facto» sem direito a perguntas nem a explicações. Para trás e para a frente, dos anos quarenta para o final do século XIX, de 10 milhões de mortos na guerra civil russa para 5 milhões de mortos no «holodomor: a fome organizada por Estaline», o puzzle está feito para ser impossível de montar. Ao narrador basta descrever o que, a julgar pelas imagens de arquivo, é aparentemente indesmentível: «os camponeses ucranianos, vítimas das fomes estalinistas abençoam os invasores alemães. Mais tarde serão enforcados pelos estalinistas. A conjugação das imagens de arquivo colorizadas é tão brutal e convincente que somos tentados a concordar com as palavras do narrador: «Estaline declarou guerra ao seu próprio povo». São os «factos alternativos» de Trump aplicados à História.

Só há dois problemas. Primeiro: Isabelle Clarke, a autora, admite que «Apocalipse: Estaline» não é História nem tem pretensões de querer sê-lo. Vou repetir, a autora admite que aquilo que fez não tem nada a ver com História. Podia terminar aqui. Mas, em segundo lugar, será que a RTP, canal público pago por todos nós para cumprir a missão de educar e informar, sabia que estava a comprar ficção em vez de História?

Claramente a História, enquanto ciência social, passe a inelutável normatividade a que estamos presos, é incompatível com a calúnia e a propaganda ou, numa palavra, a demonização. «Apocalipse: Estaline – O Demónio» não disfarça a demonização, disfarça a ficção.

Então, o que é «Apocalipse, Estaline»? Recentemente, explodiu nas televisões americanas um novo tipo de «documentário» a que chamam docufiction. Exemplos recentes são «Sereias: o cadáver encontrado» ou «Megalodon, o tubarão monstro vive». Em ambos, o documentário da Discovery Channel dá a palavra a cientistas, investigadores, professores e biólogos que explicam a descoberta científica de sereias, no primeiro caso e de um tubarão jurássico, no segundo. Durante uma hora, o espectador assiste a filmagens convincentes dos míticos criptídos e ouve especialistas, identificados como tal, debater as possíveis explicações para as descobertas serôdias. No final, em letra de efeitos secundários de bula de medicamento, admite-se, para quem ainda estiver a ver, que era tudo a fingir: os especialistas eram actores, as imagens eram fabricadas. «Apocalipse, Estaline» faz algo parecido: no final ficamos a saber a que «historiadores» foi beber inspiração: a romancista Svetlana Alexievitch, uma versão actualizada de Alexander Soljenitsyne; Robert Service, o mais proselitista e criticado dos historiadores-pop contemporâneos ou Pierre Rigoulot, um ex-trotskista transformado em neocon apoiante de Bush e fã confesso da guerra do Iraque. Trata-se contudo de menções honrosas e agradecimentos. Mas de onde vêm as citações? Onde foi buscar os números? Quais são as fontes? Raquel Varela coraria de vergonha alheia.

Não se trata de admirar ou condenar Estaline, trata-se de não sermos tomados por parvos. «Apocalipse: Estaline» não é ficção nem História: é uma falsificação estupidificante e tóxica para o público. Como os novos «documentários» sobre sereias e tubarões jurássicos, que confundem ciência com ficção, a RTP acabou de confundir História com propaganda nazi.

Este texto encontra-se em:

http://manifesto74.blogspot.pt/2017/01/apocalipse-rtp.html#more

Convido-os a comparar este documentário com estudos sérios como, por exemplo, de Dominico Losurdo, Estaline Uma Lenda Negra ou de Jean Elenstein, História da União Soviética.

Freedom and de-alienated labour (Philosophers for Change) by Jeff Noonan

 

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While there is still absolute deprivation of basic needs, this crime is not caused by lack of productive capacity, but inequality in the appropriation of natural resources and social wealth.

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via Freedom and de-alienated labour — Philosophers for Change

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Barrigas de Aluguer – É tudo uma Questão de Valores

É tudo uma questão de valores: se uma mulher pode alugar o seu corpo para ganhar dinheiro com sexo, por que não poderá alugar o seu corpo para a gestação de uma criança por dinheiro? Bem sei que a prostituição costuma ser proibida e moralmente reprovada. Mas se podemos comprar um cão, por que não podemos comprar uma mulher? É tudo uma questão de valores e o culturalismo, uma versão do liberalismo, já nos ensinou que é tudo relativo. Parece que Kant, afinal, não está de acordo… 

“Dez famosos que adotaram a barriga de aluguel para ter filhos

Veja fotos de artistas que aumentaram a família através da técnica

Por Isadora Barros

 

 

 

Seja por infertilidade, escolha pessoal ou até mesmo como opção para os casais homossexuais, a barriga de aluguel é uma prática adotada por muitos famosos para realizar o sonho de ter filhos. Recentemente, o famoso apresentador do The Tonight Show no GNT, Jimmy Fallon, mostrou em seu programa fotos da filha que nasceu por meio da barriga de aluguel. O apresentador e a esposa também são pais de mais uma menina, que foi gerada pelo mesmo procedimento.

 

 

Atrizes como Sarah Jessica Parker, Nicole Kidman e Elizabeth Banks também optaram pela prática após tentativas frustradas de engravidar.No caso de Nicole e Sarah, ambas já eram mães pela maneira convencional, mas enfrentaram problemas de fertilidade quando decidiram ter mais filhos.

 

 

 

Sarah Jessica Parker e Ricky Martin: ambos utilizaram a barriga de aluguel para ter filhos (Foto: The Grosby Group/ Getty Images)Sarah Jessica Parker e Ricky Martin: ambos utilizaram a barriga de aluguel para ter filhos (Foto: The Grosby Group/ Getty Images)

 

A barriga de aluguel também possibilita que o homem tenha o poder de decidir a hora de ser pai. Antes mesmo de assumir a homossexualidade, Ricky Martin teve gêmeos por meio de uma mãe de aluguel, e o mesmo procedimento ajudou o casal Elton John e David Furnish a realizar o sonho da paternidade. O cantor britânico aproximou-se tanto da mãe de aluguel ao ter seu primeiro filho que a escolheu novamente para gerar o segundo”.

Libertar [o Dissidente] Julian Assange: O último capítulo (por John Pilger)

 

Dissidentes Digitais

“Uma das maiores perversões de justiça do nosso tempo está a deslindar-se: O Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Detenção Arbitrária – o tribunal internacional que adjudica e decide se governos cumprem suas obrigações de direitos humanos – sentenciou que Julian Assange foi detido ilegalmente pela Grã-Bretanha e Suécia.

Depois de cinco anos de combate para limpar o seu nome – tendo enlameado implacavelmente mas não acusado de qualquer crime – Assange está mais perto da justiça e do desagravo, e talvez da liberdade, do que em qualquer momento desde que foi preso e retido em Londres sob um Mandato Europeu de Extradição, o qual está agora desacreditado pelo próprio Parlamento.

O Grupo de Trabalho da ONU baseia seu julgamento na Convenção Europeia sobre Direitos Humanos e três outros tratados que obrigam todos os seus signatários. Tanto a Grã-Bretanha como a Suécia participaram na investigação da ONU que durou 16 meses e submeteram provas e defenderam sua posição diante do tribunal. Ignorariam desdenhosamente o direito internacional se não obedecessem ao julgamento e [não] permitissem a Assange deixar o refúgio que lhe foi concedido pelo governo equatoriano na sua embaixada em Londres.

Anteriormente, em casos famosos examinados pelo Grupo de Trabalho – Aung Sang Suu Kyi na Birmânia; o líder oposicionista aprisionado Anwar Ibrahim na Malásia; o jornalista Jason Rezaian do Washington Post detido no Irão – tanto a Grã-Bretanha como a Suécia deram apoio ao tribunal. A diferença agora é que a perseguição e confinamento de Assange se verifica no centro de Londres.

O caso Assange nunca foi primariamente acerca de alegadas más condutas sexuais na Suécia – onde a Promotora Chefe de Estocolomo, Eva Finne, descartou o processo dizendo: “Não acredito que haja qualquer razão para suspeitar que ele tenha cometido violação” e uma das mulheres envolvidas acusou a polícia de falsificar evidência e de “lhe impor à força”, protestando que “não queria acusar JA de coisa alguma” – e um segundo promotor misteriosamente reabriu o caso após intervenção política, colocando-o num impasse.

O caso Assange tem suas raízes do outro lado do Atlântico, na Washington dominada pelo Pentágono, obcecada em perseguir e processar denunciantes, especialmente Assange por ter revelado, na WikiLeaks, crimes capitais dos EUA no Afeganistão e no Iraque: a matança por atacado de civis e um desprezo pela soberania e pelo direito internacional. Nada deste acto de contar a verdade é ilegal sob a Constituição dos EUA. Como candidato presidencial em 2008, Barack Obama, professor de direitos constitucional, louvou denunciantes como “parte de uma democracia saudável e que devem ser protegidos de represálias.

Obama, o traidor, desde então tem perseguido mais denunciantes do que todos os presidentes dos EUA somados. A corajosa Chelsea Manning está a cumprir uma sentença de 35 anos de prisão, tendo sido torturada durante a longa detenção que precedeu seu julgamento.

A perspectiva de um destino semelhante tem pairado sobre Assange tal como uma espada de Damocles. Segundo documentos divulgados por Edward Snowden, Assange está numa “lista de homens a abater”. O vice-presidente Joe Biden chamou-o de “ciber terrorista”. Em Alexandra, Virgínia, um grande júri secreto tentou cozinhar um crime pelo qual Assange pudesse ser processado num tribunal. Muito embora ele não seja um americano, actualmente está a ser ajustado a uma lei de espionagem tramada um século atrás a fim de silenciar objectores de consciência durante a Primeira Guerra Mundial. A Lei da Espionagem tem disposições tanto para a prisão perpétua como para a pena de morte.

A capacidade de Assange para defender-se neste mundo kafkiano foi restringida pelos EUA quando declararam o seu caso como segredo de Estado. Um tribunal federal proibiu a divulgação de toda informação acerca do que é conhecida como a investigação de “segurança nacional da WikiLeaks.

O suporte desta farsa veio da segunda promotora sueca, Marianne Ny. Até recentemente, Ny recusara-se a cumprir o procedimento de rotina europeu que exigia que viajasse a Londres para interrogar Assange e assim avançar o caso que James Catlin, um dos advogados de Assange, considerou “de gargalhada … é como se eles se recompusessem quando avançam”. Na verdade, mesmo antes de Assange ter ido da Suécia para Londres, em 2010, Marianne Ny não fez qualquer tentativa de interrogá-lo. Desde então, nos anos que decorreram, ela nunca explicou adequadamente, mesmo às suas próprias autoridades judiciais, porque não terminara o caso que relançara tão entusiasticamente – assim como nunca explicou porque se recusara a dar a Assange uma garantia de que nunca será extraditado para os EUA sob um arranjo secreto acordado entre Estocolmo e Washington. Em 2010, o Independent, em Londres, revelou que os dois governos haviam discutido antecipadamente a extradição de Assange.

Surge então o pequeno e corajoso Equador. Uma das razões porque o Equador concedeu asilo político a Julian Assange foi porque o seu próprio governo, na Austrália, não lhe concedera nada da ajuda a que tinha direito legal e abandonou-o. A conivência da Austrália com os Estados Unidos contra o seu próprio cidadão é evidente em documentos vazados; a América não tem vassalos mais confiáveis do que os obedientes políticos dos antípodas.

Quatro anos atrás, em Sydney, passei várias horas com Malcolm Turnbull, membro liberal do Parlamento Federal. Discutimos as ameaças a Assange e sua implicações mais vastas para a liberdade de discurso e a justiça, e porque a Austrália era obrigada a apoiá-lo. Turnbull é agora o primeiro-ministro da Austrália e, como escrevi, está a comparecer a uma conferência internacional sobre a Síria hospedada pelo governo Cameron – a cerca de 15 minutos de táxi do quarto que Julian Assange ocupa há três anos e meio na pequena embaixada equatoriana, próxima à [loja] Harrods. A conexão Síria é relevante, ainda que não mencionada. Foi a WikiLeaks que revelou que os Estados Unidos planeavam há muito o derrube do governo Assad na Síria. Hoje, quando é recebido em Londres, o primeiro-ministro Turnbull tem oportunidade de contribuir com uma quantidade módica de sentido e verdade naquela conferência falando do seu compatriota injustamente aprisionado, por quem ele mostrou preocupação quando nos encontrámos. Tudo o que ele precisa é mencionar o julgamento do Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenção Arbitrária. Será que ele recuperará este resto de reputação da Austrália no mundo decente?

O certo é que o mundo decente deve muito a Julian Assange. Ele contou-nos como o poder indecente se comporta em segredo, como ele mente e manipula e como se empenha em grandes actos de violência, sustentando guerras que matam e mutilam e transformam milhões nos refugiados agora nos noticiários. Só por nos contar esta verdade Assange merece a liberdade, além de a justiça ser um direito seu”.

04/Fevereiro/2016

Ver também:

O original encontra-se em https://www.rt.com/op-edge/331328-freeing-assange-john-pilger/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

O Fim da Europa

Porque sou contra a imigração em massa para a Europa de pessoas de culturas e sobretudo de religiões diferentes? Por chauvinismo? Por racismo? Por xenofobia? Alvos errados! Alvos imaginários. Alvos sofistas. Falácias do boneco de palha, do espantalho. Não sou corvo mas tenho alma de corvo: prognostico a desgraça – ou pelo menos o fim da minha Europa, o que, pelo menos para mim, mas também para aqueles criados numa certa cultura, não é coisa de somenos. Nem só de pão vive o homem, mas também de boas e civilizadas tradições, de uma paisagem e de rostos reconhecidos, de um sentido ou, no mínimo de um projecto possível de projectar a mudança, de uma autêntica liberdade de criação do futuro. As minhas raízes alimentaram-se de uma paisagem cultural cujo humos é imprescindível à minha identidade. Mas, na verdade, quem sou eu para almejar um terreno à medida? Mas, na verdade, quem sou eu para exigir a minha liberdade?
A Europa construíu-se numa História de luta, de contradições de classe, de nações com aspirações de independência ou imperialistas, e de poderes fácticos, sejam mundanos, sejam religiosos. Mas também, e através de tudo isso, progrediu, desde a Grécia Antiga, em conquistas contra a superstição, o fanatismo religioso, a confusão entre os territórios do sagrado e do profano, as discriminações de ordem hereditária, de privilégios, desprezos e explorações de classe, desigualdades de género, e combateu pelo direito à livre expressão, à educação laica, à igualdade de oportunidades. O carácter potencialmente revolucionário do Novo Testamento, pelo menos em certas exegeses legítimas, e mesmo a sua ambiguidade expressa na fórmula cristã «A Deus o que é de Deus, a César o que é de César», possibilitaram e criaram, à diferença das outras profissões de fé, as condições culturais que, face ao desenvolvimento dos modos de produção e às injustiças concomitantes, fizeram nascer a mais avançada, a mais humanista e racionalista das civilizações – sem esquecer evidentemente que o seu proselitismo, outrora cristão e agora humanista, a sua cobiça, as suas figuras de estilo mais luminosas projectaram também as sombras da guerra intestina e do imperialismo, como muito bem expressou Thomas Mann na sua Montanha Mágica.
Afirmando a responsabilidade imensa da Europa (e dos Estados Unidos da América) na miséria dos outros continentes, com a cumplicidade política, militar e económica dos testas-de-ferro e beneficiários locais, reclamo que ninguém se deveria servir das dimensões ética e sentimental da retórica cristã, nomeadamente com a atitude personalista – seu calcanhar-de-Aquiles -, para, ao centrar-se em exclusivo na salvação do indivíduo, fazer esquecer que o bem de cada um implica o bem comum e que os direitos humanos dos outros jamais se fazem à custa do sacrifício de quem não é responsável directo pela miséria lançada sobre o resto do mundo.
A invasão de costumes bárbaros, de superstições e preconceitos há muito derrotados, ou submetidos (grave eurocentrismo!), numa Europa já repleta de problemas sócio-económicos e de excesso de população em nada contribui para a solução das graves dificuldades em que se encontram os outros continentes. Cada nação e zona do mundo deve emancipar-se na medida das suas possibilidades e com a ajuda solidária dos países e instituições internacionais, através de uma política de transferência de tecnologia, do favorecimento do comércio justo e da proposição não forçada das melhores práticas de justiça. Todas as nações, europeias e as outras, deveriam ter o direito de seguir o seu caminho, não nos termos impossíveis de uma autarcia que impede assimilar o melhor da indústria estrangeira, o melhor dos processos, artes e valores, que devem circular sem muros que não sejam os da vontade de cada país, mas, com efeito, nos termos da liberdade de cada povo, enquanto resultado da sua dialéctica imanente, ao deliberar e decidir, de acordo com as relações de força internas, o que lhe aproveita.
Porém, o cosmopolitismo capitalista imperialista nada reconhece como sagrado. Tudo nele está à venda, não só as mães como as culturas e as pátrias. Pouco importa tudo isto aos interesses da circulação de bens e de capitais num sistema de propriedade privada que não cabe em fronteiras, pois a fase consumista do capitalismo internacional, precisa da livre circulação de pessoas e bens e sai favorecida com a uniformização das culturas pela transversalidade de um denominador comum, que é o do gosto dominante, aquele que se propaga pelos grandes meios de comunicação e que constitui a imagem da maior nação imperialista: os Estados Unidos da América.
Desde logo, a pulverização das comunidades nacionais e locais em grupos heteróclitos, em seitas e cultos de imagem e gostos particulares é a reacção contrapartida do desenraizamento e isolamento provocado por essa homogeneidade induzida pelo comércio internacional das modas, na qual as pessoas comunicam apenas segundo um código pré-estabelecido e quase irreal, tornando impossível fazer passar através dele a individualidade de cada um, ou se torna mesmo um obstáculo não só à sua expressão como ao seu desenvolvimento pleno, embora faça surgir laços aparentes de pertença diferenciados. Estes são de novo apostas falhadas porque baseadas apenas no estilo e não na substância, que é sempre e sobretudo a das relações de produção dominantes, mais as subordinadas, as deixadas subsistir subsidiariamente ou as que ocupam resquícios pouco lucrativos, quando não se sedimentam em conteúdos reais de vida adoptados por minorias nomeadamente sexuais, sendo que estas também não escapam aos fundamentos materiais da sociedade burguesa. A atomização ou isolamento dos indivíduos na cultura dominante, junto com a uniformização dessa perspectiva individualista no fundo de aparências diferenciadoras, é o facto maior do emburguesamento cosmopolita ao nível da vivência e do desencontro de vontades no encontro do egoísmo partilhado, por mais que as pessoas afectadas por ela, e sem meios intelectuais de lhe resistir, se tentem associar através de códigos de gosto comuns.
A somar a isto, as chamadas comunidades estrangeiras, agora cada vez menos minoritárias, começam por manter muito das suas tradições e preconceitos, o que acaba por levar ao isolamento e à fragmentação cultural, cujos conflitos potenciais apenas são apaziguados pelos negócios e pelo emprego. A única possibilidade de convívio será a abdicação das tradições, a estetização das crenças e dos costumes e mesmo a confusão das raízes, por exemplo à maneira artificiosa das músicas do mundo, enfim a adopção da metamórfica, assimiladora, estética, fantasiosa e narcisista cultura anglo-americana. Isto porque a alta cultura europeia, de vocação universalista, é um privilégio das elites, ciosamente ocultada às massas, ou dispensada com doses mínimas e marginais, pela divulgação omnipresente da subcultura popular.
Em suma, universalização e individualização abstractas junto à fragmentação das nações em culturas exógenas diversas, são aquilo com que contam os apóstolos cosmopolitas do capitalismo internacional e a que chamam, apelativamente, de multiculturalismo.
Conversa fiada para os profetas dos Estados Unidos da Europa ou para quem tem interesse na submissão aos ditames do Tratado Atlântico de Livre Comércio. Conversa fiada para o Imperialismo Norte Americano, que confunde a mundialização com os seus propósitos inconfessos de controlo do planeta para benefício próprio. E, como já dizia Engels, tudo o que nasce merece morrer. A paisagem cultural não é estática e é invadida e mudada de tempos a tempos. Será esse o nosso destino, inscrito na História e no processo lei do capital. O certo é que cada um de nós, se tem personalidade e se essa personalidade é a interiorização consciente de uma cultura própria, se esta não é assumida como circunstancial e pragmática, se é vivida convictamente, passa com o fim de um mais ou menos certo modo de ser das coisas que estão na nossa paisagem intencional.