Facebook, Twitter, Google, isto é, Deus Omnisciente e a Santíssima Trindade: Facebook vai avisar utilizadores que seguiam páginas de notícias falsas da Rússia

A página de “dicas” da rede social para identificar notícias falsas já não é suficiente.
Anúncios

EUA: Contradição entre o Grande Capital Norte-Americano e o Capitalismo Norte-Americano, ou o porquê da Eleição da Administração Trump – Uma contradição peculiar e novíssima – por José Valenzuela Feijóo

 7feba-wrw04nnt

Comecemos por uma pergunta: pode emergir uma contradição entre as grandes corporações transnacionais estado-unidenses e o capitalismo norte-americano?

O próprio enunciado poderia parecer absurdo: se se fala do capitalismo de tal ou qual país, será possível pensar que surja uma contradição entre este e suas empresas capitalistas? Acaso não se estará a falar do mesmo? Será que se pode falar de capitalismo nacional como algo distinto ou separado das empresas capitalistas que nele radicam? O tema merece alguma discussão mínima. Podemos abordá-lo em termos: i) da dinâmica e modos que assume o investimento no estrangeiro; ii) das origens sectoriais e regionais dos lucros.

O investimento no estrangeiro 

O investimento no estrangeiro, ou exportação de capital, constitui uma característica antiga das grandes potências capitalistas. E quando o sistema avança para a sua fase monopolista, tal característica acentua-se:   “o que caracterizava o velho capitalismo, no qual dominava plenamente a livre competição, era a exportação de mercadorias. O que caracteriza o capitalismo moderno, no qual impera o monopólio, e a exportação de capital “. [1]

Neste momento, podem-se distinguir diversas etapas. Num primeiro momento, a direcção das exportações de capital vai do centro para a periferia e concentra-se na produção e exportação de matérias-primas. Estas tornam-se baratas e ajudam a baixar a composição do valor do capital e, por esta via, elevar a taxa de lucro. Além disso, o grosso da indústria continuava localizado no pólo desenvolvido.

Num segundo momento, pelo menos na América Latina, emerge algum desenvolvimento industrial impulsionado pelo Estado e capitalistas nacionais. O que muito contrariava os teóricos neoclássicos, os que continuavam a defender a “racionalidade” da tradicional divisão internacional do trabalho. Em termos quase “curiosos”, em pouco tempo chegou ali o capital transnacional, apoderando-se dos segmentos mais estratégicos. Junto a esse movimento há outro que se deve sublinhar: o investimento estrangeiro também se move entre os países do centro: vai dos Estados Unidos para a Europa e vice-versa, do Japão para a Europa, etc. Neste caso, não são os baixos salários o factor que os impulsiona e sim a dimensão dos mercados para bens industriais. Os lucros que este movimento gera favorecem mais os Estados Unidos: na Europa, por exemplo, expande-se o american way of life e a cultura gringa tende a impor-se. Esta fase coincide com outra: a do padrão de acumulação com regulação keynesiana que imperou nos EUA e Europa desde fins dos anos quarenta até, aproximadamente, meados ou fins dos setenta. Também se deve destacar: nesta fase observa-se um crescimento muito forte das grandes companhias transnacionais.

Desde fins dos anos setenta até agora, o que impera é o padrão neoliberal. Se pensarmos nos EUA, verificamos: a) piora drasticamente a distribuição do rendimento: sob a taxa de mais-valia; b) cai o coeficiente de investimento e reduz-se significativamente o ritmo de crescimento do PIB; c) geram-se problemas do lado do emprego produtivo; d) o mercado interno torna-se pouco atraente; e) emerge um défice crónico na Balança de Pagamentos, o qual é financiado através do expediente de emitir dólares que os estrangeiros adquirem e utilizam como meio de reserva.

No plano que mais nos interessa cristaliza-se um fenómeno chave: torna-se possível uma minuciosa fragmentação dos processos produtivos. Portanto, esta fragmentação possível dá lugar a que diversas partes do processo produtivo se possam localizar em muito diversos pontos do globo terráqueo. O que passa a depender dos níveis do salário, das políticas tributárias e cambiais e das possíveis infraestruturas (portos, caminhos, energia eléctrica, etc) que possam oferecer os diversos países e regiões. Tudo isso recorda não pouco as condições que se verificavam durante o modelo primário-exportador em vigor na América Latina durante o século XIX (últimos dois terços) e no primeiro terço do século XX.

Nas condições actuais, o investimento que se efectua fora, em países como por exemplo o México, provoca um alto ritmo de crescimento das exportações mexicana e, por sua vez, gera efeitos de arrastamento que são praticamente nulos. As exportações crescem a bom ritmo (as importações ainda mais), mas o PIB permanece quase estagnado em termos per capita. Ou seja, os efeitos de arrastamento destes investimentos sobre a economia nacional interna do país recipiente são quase nulos. Mas aqui interessa-nos o impacto na economia interna dos Estados Unidos.

No caso estado-unidense destaca-se o forte crescimento do investimento que suas grandes empresas aplicam no estrangeiro. Ao mesmo tempo, o debilitamento do investimento que se aplica no território estado-unidense: investe-se muito fora e muito pouco dentro do país. Em 1982 o investimento directo dos EUA acumulado no estrangeiro chegava a 207,8 mil milhões. Em 2016 chegou a 5332,2 mil milhões. Multiplicou-se 25,7 vezes, crescendo a uma taxa média anual de 10%. Entre 1982 e 1990 cresce a 9,5%. Entre 1990 e 2007 a 12,1% e entre 2007 e 2016 (período que abrange a grande crise de 2007-2009) cresce a 6,6%. A expansão é alta, com crescimento a ritmos anuais muito elevados. Também se observa que no período 2007-2016 a expansão reduz-se bastante, quase à metade do período anterior. Neste, pode-se supor que, devido à crise, os “factores de atracção” se enfraquecem fortemente. O que certamente está ligado à recessão que afecta não só os EUA como também a Europa e o Japão. Os dados básicos mostram-se no Quadro I.

Quadro I: EUA, Investimento directo no estrangeiro 

Ano Valor acumulado   (US$ mil milhões) Índice
1982 207.8 100
1990 430,5 207
2000 1 316,2 633
2007 2 994,0 1 441
2016 5 332,2 2 566

Fonte: D.T. Jennings y S. Stutzman, “Direct Investment Position for 2016”, em Survey of Current Business, July 2017.
Valores a custos históricos.

O aumento do investimento no estrangeiro pode ser melhor avaliado se o compararmos com o comportamento do investimento no país. Isto é mostrado no quadro seguinte.

Quadro II: Investimento nacional e no estrangeiro (índices) 

Rubrica 2000 2014 Taxa média anual de crescimento
Investimento fixo não residencial 100,0 130,4 1,9 %
Investimento directo no estrangeiro 100,0 373,0 9,9 %

Fonte: Para investimento fora ver fonte do quadro I.
Para Investimento Fixo não residencial, NBER, “Economic Report of the President, 2016”.
A série é a preços constantes.

A evidência é contundente. Cresce muitíssimo mais o investimento no estrangeiro do que no país. De facto, o investimento interno mostra sinais claros de estancamento.

Convém especificar e notar os factos mais decisivos.

Primeiro: cresce muito o investimento das CMN dos EUA no estrangeiro. E enfraquece-se no território nacional.

Segundo: no exterior, gera-se uma rede ou cadeia de produção que impressiona pela sua fragmentação e extensão geográfica. Produzem-se diversas partes do produto final em regiões muito diversas, em cada uma das quais é acrescentado certo montante de valor agregado.

Terceiro: numa alta percentagem, o produto final acaba por ser vendido aos próprios Estados Unidos.

Quarto: no fim deste círculo, os Estados Unidos começa a transformar-se num grande comprador (importador) de produtos finais e, ao mesmo tempo, vai perdendo sua capacidade de produção industrial – com a consequente e forte perda de ocupações industriais. Em alguns estudos estima-se que entre 2001 e 2011 a perda de empregos nos EUA provocada pelo seu défice com a China chegou aos 2,7 milhões. [2] Um cálculo recente abrange os anos 2001 a 2015 e estima a perda de empregos em 3,4 milhões. [3] Quanto ao NAFTA [North American Free Trade Agreement], nos seus primeiros 20 anos de funcionamento a perda em relação ao México e Canadá é estimada em 850 mil empregos. [4]

Quinto: como contrapartida, emerge um forte défice na balança comercial dos EUA. Com isto, o problema vital da realização do excedente agrava-se ainda mais.

Para concluir esta enumeração, recordemos uma expressão clássica: “o que é bom para a General Motors é bom para os Estados Unidos”. Alguns criticavam-na pois a classe operária gringa tinha pouco a ver com tais benefícios. Pelo menos, beneficiava-se numa proporção bastante menor. Mas agora, a situação parece estar a mudar num sentido bastante mais radical: o que é bom para as grandes corporações multinacionais estado-unidenses já deixou de ser bom para o capitalismo dos EUA. 


[1] Lenin, “El imperialismo, fase superior del capitalismo”, en Obras Escogidas, Tomo I, pág.741. Edit. Progreso, Moscú, 1978.
[2] Ver R. E. Scott, “The China toll: growing U.S. trade deficit with China cost more than 2.7 million jobs between 2001 and 2011, with job losses in every state”; Economic Policy Institute; Briefing Paper, n° 345.
[3] R. E. Scott, “Renegotiation NAFTA is putting lipstick on a pig”; en Economic Policy Institute, 21 de Agosto, 2017 (página electrónica).
[4] R. E. Scott, ibídem.

[*] Economista, chileno, professor universitário no México. 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Leo Strauss e Thomas P. M. Barnett: Teoria do Caos e Nova Estratégia de Domínio do Mundo pelos EUA – Thierry Meyssan

321941

O projecto militar dos Estados Unidos pelo mundo Thierry Meyssan Enquanto todos os peritos concordam em considerar que os acontecimentos na Venezuela seguem o mesmo modelo que os da Síria, alguns contestaram o artigo de Thierry Meyssan sublinhando o ponto da sua interpretação de divergências atribuída aos Presidentes Maduro e Assad. O nosso autor responde-lhes. Não se trata aqui de uma querela de especialistas, mas, sim de um debate de fundo sobre a viragem histórica a que assistimos depois do 11-de-Setembro de 2001 e que condiciona a vida particular de todos. REDE VOLTAIRE | DAMASCO (SÍRIA) | 22 DE AGOSTO DE 2017 Este artigo dá sequência a : – “Divergências no seio do campo anti-imperialista”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 16 de Agosto de 2017. Na primeira parte deste artigo, eu sublinhava que actualmente o Presidente Bachar al-Assad é a única personalidade que se adaptou à nova «grande estratégia norte-americana»; todas as outras continuam a pensar como se os conflitos em curso prosseguissem os que conhecemos desde o fim da Segunda Guerra mundial. Elas persistem em interpretar os eventos como tentativas dos Estados Unidos se apoderarem dos recursos naturais, por si próprios, organizando para isso derrubes de governos. Como irei desenvolver, penso que elas se enganam e que o seu erro é suscetível de precipitar a humanidade no inferno. O pensamento estratégico dos EU No últimos 70 anos, a obsessão dos estrategas norte-americanos não terá sido a defender o seu povo, mas a de manter a sua superioridade militar sobre o resto do mundo. Durante a década que vai da dissolução da URSS aos atentados do 11 de Setembro de 2001, eles procuraram maneiras de intimidar aqueles que lhes resistiam. Harlan K. Ullman desenvolveu a ideia de aterrorizar as populações assestando-lhes uma formidável pancada na cabeça (Shock and Awe, o choque e o estupor) [1]. Num conceito ideal, foi a utilização da bomba atómica contra os Japoneses, na prática, o bombardeamento de Bagdade por uma chuva de misseis de cruzeiro. Os Straussianos (quer dizer os discípulos do filósofo Leo Strauss) sonhavam realizar e vencer várias guerras ao mesmo tempo (Full-spectrum dominance, a dominação em todos os azimutes). Que foram, pois, as guerras do Afeganistão e do Iraque, conduzidas sob um comando único [2]. O Almirante Arthur K. Cebrowski preconizava a reorganização dos exércitos de maneira a tratar e partilhar uma pletora de dados simultaneamente. Assim, robôs poderiam um dia indicar instantaneamente as melhores tácticas [3]. Como vamos ver, as profundas reformas que ele iniciou não tardaram a produzir frutos venenosos. O pensamento neo-imperialista dos EU Estas ideias e estas fantasias levaram, primeiro, o Presidente Bush e a Marinha (Navy) a organizar o mais vasto sistema internacional de rapto e tortura, que fez 80. 000 vítimas. Depois, o Presidente Obama pôs em acção um sistema de assassínio, principalmente por drones mas também por comandos, que opera em 80 países e dispõe de um orçamento anual de 14 mil milhões(bilhões-br) de dólares [4]. A partir do 11-de-Setembro, o assistente do Almirante Cebrowski, Thomas P. M. Barnett, deu inúmeras conferências no Pentágono e nas academias militares para anunciar qual seria o novo mapa do mundo segundo o Pentágono [5]. Este projecto tornou-se possível graças às reformas estruturais dos exércitos dos EU; reformas das quais resulta esta nova visão do mundo. Isso parecia tão delirante que os observadores estrangeiros consideraram-na, precipitadamente, como mais uma retórica para suscitar o medo dos povos a dominar. Barnett afirmava que para manter a sua hegemonia sobre o mundo, os Estados Unidos deviam «participar no fogo», quer dizer dividi-lo em duas partes. De um lado, Estados “estáveis” (os membros do G8 e seus aliados), do outro o resto do mundo, considerado como um simples reservatório de recursos naturais. Ao contrário dos seus predecessores, ele não considerava mais o acesso a estes recursos como vital para Washington, antes significava que eles só seriam acessíveis aos Estados “estáveis” desde que passando pelos serviços dos Exércitos norte-americanos. Por conseguinte, convinha destruir sistematicamente todas as estruturas de estado nesse reservatório de recursos, de tal modo que alguém jamais se pudesse opor, um dia, à vontade de Washington, nem tratar directamente com Estados “estáveis”. Aquando do seu discurso sobre o estado da União, em Janeiro de 1980, o Presidente Carter enunciou a sua doutrina : Washington considerava o aprovisionamento da sua economia em petróleo do Golfo como uma questão de segurança nacional [6]. No seguimento, o Pentágono dotou-se de um CentCom para controlar esta região. Mas, actualmente, Washington retira menos petróleo do Iraque e da Líbia do que aquele que lá explorava antes destas guerras ; e borrifa-se quanto a isso ! Destruir as estruturas de Estado é atirar para o caos, um conceito copiado de Leo Strauss, mas ao qual Barnett dá um novo sentido. Para o filósofo judeu, o povo judeu não podia continuar a confiar nas democracias após o fracasso da República de Weimar e da Shoá. Para ele, a única maneira de se proteger de um novo nazismo é o de instaurar, ele mesmo, a sua própria ditadura mundial —para o Bem, claro—. Seria, então, preciso destruir certos Estados resistentes, atirá-los para o caos e reconstrui-los segundo novas leis [7]. Era isto o que dizia Condoleezza Rice durante os primeiros dias da guerra de 2006 contra o Líbano, quando Israel parecia ainda vencedor : «Não vejo o interesse da diplomacia se for para regressar ao status quo ante entre Israel e o Líbano. Penso que isso seria um erro. O que vemos aqui, de uma certa maneira, é o início, as contrações da nascença de um novo Médio-Oriente e, seja o que for que façamos, devemos estar certos que empurramos no sentido de um novo Médio-Oriente e que não retornamos ao velho». Pelo contrário, para Barnett, não basta empurrar para o caos apenas os povos resistentes, também todos aqueles que não atingiram um certo nível de vida; e, assim que eles estiverem reduzidos ao caos, será preciso mantê-los nele. A influência dos Straussianos entretanto diminuiu no Pentágono desde a morte de Andrew Marshall, o qual tinha teorizado o «pivô para a Ásia» [8]. Uma das grandes rupturas entre o pensamento de Barnett e o dos seus predecessores, é o de que a guerra não deve ser travada contra Estados em particular por motivos políticos, mas, antes contra regiões do mundo porque não estão integradas no sistema económico global. Claro, iremos começar por tal ou tal país, mas, depois promoveremos o contágio até destruir tudo, como se vê no Médio-Oriente Alargado. Hoje em dia, a guerra continua lá com o emprego de meios blindados tanto na Tunísia, como na Líbia, no Egipto (Sinai), na Palestina, no Líbano (Ain al-Hilweh e Ras Baalbeck), na Síria, no Iraque, na Arábia Saudita (Qatif), no Barein, no Iémene, na Turquia (Diyarbakır) e no Afeganistão. É por isso que a estratégia neo-imperialista de Barnett terá forçosamente de se apoiar em elementos da retórica de Bernard Lewis e de Samuel Huntington, a da «Guerra das Civilizações» [9]. Como é impossível justificar a nossa indiferença face à sorte dos povos do reservatório de recursos naturais, poderemos sempre persuadir-nos que as nossas civilizações são incompatíveis. Segundo este mapa, extraído de um Powerpoint de Thomas P. M. Barnett durante uma conferência no Pentágono em 2003, todos os Estados da zona rosada devem ser destruídos. Este projecto nada tem a ver nem com a luta de classes, no plano nacional, nem com a exploração dos recursos naturais. Depois do Médio-Oriente Alargado, os estrategas dos EU preparam-se para reduzir a ruínas o Noroeste da América Latina. A aplicação do neo-imperialismo dos EU É exactamente esta a política que foi implementada desde o 11-de-Setembro. Nenhuma das guerras que foram lançadas terminou ainda. Desde há 16 anos, as condições de vida dos Afegãos são a cada dia que passa mais terríveis e perigosas. A reconstrução do seu Estado, que se anunciava ser planificado (planejado-br) sobre o modelo do da Alemanha e do Japão após a Segunda Guerra Mundial, não ocorreu. A presença de tropas da OTAN não melhorou a vida dos Afegãos, pelo contrário, ela deteriorou-se. Forçoso é constatar que ela é hoje em dia a causa do problema. Apesar dos discursos cor-de-rosa sobre a ajuda internacional, essas tropas apenas lá estão para aprofundar e manter o caos. Sempre que as tropas da OTAN intervieram, jamais os motivos oficiais para a guerra se revelaram verdadeiros, nem contra o Afeganistão (as responsabilidades dos Talibãs nos ataques do 11-de-Setembro), nem no Iraque (o apoio do Presidente Hussein aos terroristas do 11-de-Setembro e a preparação de armas de destruição maciça para atacar os Estados Unidos), nem na Líbia (o bombardeio pelo exército do seu próprio povo) nem na Síria (a ditadura do Presidente Assad e da seita dos Alauítas). Jamais, também, o derrube de um governo acabou com essas guerras. Todas continuam, sem interrupção, quaisquer que sejam os responsáveis no poder. As «Primaveras Árabes», mesmo quando se inspiram numa ideia do MI6, em linha directa vinda da «revolta árabe de 1916» e das façanhas de Lawrence da Arábia, foram inscritas na mesma estratégia dos EUA. A Tunísia tornou-se ingovernável. O Egipto foi, felizmente, tomado em mãos pelo seu exército e tenta agora respirar à tona da água. A Líbia tornou-se um campo de batalha, não desde a resolução do Conselho de Segurança apelando à protecção da sua população, mas depois do assassinato de Muammar Kaddafi e da vitória da OTAN. A Síria é um caso excepcional, uma vez que o Estado nunca passou para as mãos dos Irmãos Muçulmanos e eles não conseguiram instalar o caos no país. Mas, inúmeros grupos jiadistas, originários da Irmandade, controlaram —e controlam ainda— partes do território onde instauraram o caos. Nem o Califado do Daesh, nem Idlib sob a Alcaida, são Estados onde o Islão se possa mostrar, mas zonas de terror sem escolas ou hospitais. É provável que graças ao seu povo, ao seu exército e aos seus aliados russos, libaneses e iranianos, a Síria consiga escapar a este destino traçado para ela por Washington, mas o Médio-Oriente Alargado continuará a arder até que os seus Povos percebam os planos dos seus inimigos. Vemos já que o mesmo processo de destruição começa no Noroeste da América Latina. Os média (mídia-br) ocidentais referem-se, com desdém, a motins na Venezuela, mas a guerra que começa não se limitará a esse país, ela irá estender-se a toda a região, muito embora as condições económicas e políticas dos Estados que a compõem sejam muito diferentes. Os limites do neo-imperialismo dos EU Os estrategas dos EU gostam de comparar o seu poder ao do Império Romano. Mas este trazia segurança e opulência aos povos que conquistava e integrava. Ele construia monumentos e racionalizava as suas sociedades. Ao contrário, o neo-imperialismo norte-americano não pretende trazer seja o que for nem aos povos dos Estados “estáveis”, nem aos do reservatório de recursos naturais. Ele prevê extorquir os primeiros e planeia destruir os laços sociais que mantêm colados os segundos. Acima de tudo, ele não quer exterminar estes últimos antes precisa que eles sofram, para que o caos em que padeçam impeça os Estados “estáveis” de a eles ir buscar os recursos naturais sem a proteção dos exércitos Norte-americanos. Até aqui, o projecto imperialista considerava que «não se faz omeletes sem quebrar os ovos». Ele admitia cometer massacres “colaterais” para estender o seu domínio. De agora em diante, ele planeia massacres generalizados para impor definitivamente a sua autoridade. O neo-imperialismo norte-americano assume que os outros Estados do G8 e seus aliados aceitam deixar os Exércitos dos E.U «proteger» os seus interesses no estrangeiro. Se isso não coloca nenhum problema com a União Europeia, que está castrada há já muito tempo, isso ainda deverá ser debatido com o Reino Unido e será impossível com a Rússia e a China. Lembrando a sua «relação especial» com Washington, Londres já reclamou vir a ser associada ao projecto dos E.U para governar o mundo. Foi este o significado da viagem de Theresa May aos Estados Unidos em Janeiro de 2017, mas ela não recebeu resposta [10]. É, por outro lado, impensável que os exércitos dos E.U garantam a segurança das «Rotas da Seda», tal como hoje o fazem com os seus homólogos britânicos quanto às rotas marítimas e aéreas. Da mesma forma, é impensável fazer dobrar o joelho da Rússia, quando acaba, também, de ser excluída do G8 por causa de seu envolvimento na Síria e na Crimeia. Thierry Meyssan Tradução Alva <:ver_imprimer:> Facebook Twitter Delicious Seenthis Digg RSS [1] Shock and awe: achieving rapid dominance («Choque e Estupor : atingindo uma rápida supremacia»- ndT), Harlan K. Ullman & al., ACT Center for Advanced Concepts and Technology, 1996. [2] Full Spectrum Dominance. U.S. Power in Iraq and Beyond(«Domínio em todos os Azimutes. Poder dos E.U. no Iraque e Além»- ndT), Rahul Mahajan, Seven Stories Press, 2003. [3] Network Centric Warfare : Developing and Leveraging Information Superiority ,(Rede de Guerra Concêntrica : Desenvolvendo e Alavancando Superioridade na Informação»- ndT), David S. Alberts, John J. Garstka & Frederick P. Stein, CCRP, 1999. [4] Predator empire : drone warfare and full spectrum dominance («Império Predador : guerra de drones e domínio em todos os azimutes»- ndT), , Ian G. R. Shaw, University of Minnesota Press, 2016. [5] The Pentagon’s New Map («O Novo Mapa do Pentágono»- ndT), Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004. [6] “State of the Union Address 1980” («Discurso sobre o estado da União de 1980»- ndT), Jimmy Carter, Voltaire Network, 23 January 1980. [7] Alguns especialistas sobre o pensamento político de Leo Strauss interpretam-no de maneira completamente diferente. Quanto a mim, eu não me interesso sobre o que pensava o filósofo mas, antes, sobr o que defendem aqueles que, bem ou mal, se reclamam do seu pensamento no Pentágono. Political Ideas of Leo Strauss, Shadia B. Drury, Palgrave Macmillan, 1988. Leo Strauss and the Politics of American Empire, Anne Norton, Yale University Press, 2005. Leo Strauss and the conservative movement in America : a critical appraisal, Paul Edward Gottfried, Cambridge University Press, 2011. Straussophobia: Defending Leo Strauss and Straussians Against Shadia Drury and Other Accusers, Peter Minowitz, Lexington Books, 2016. [8] The Last Warrior: Andrew Marshall and the Shaping of Modern American Defense Strategy («O Último Guerreiro : A. Marshall e a Concepção da Moderna Estratégia de Defesa Americana»-ndT), Chapter 9, Andrew F. Krepinevich & Barry D. Watts, Basic Books, 2015. [9] « The Clash of Civilizations ? » & « The West Unique, Not Universal », Foreign Affairs, 1993 & 1996 ; The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order («O Choque de Civilizações e o Renovar da Ordem Mundial»-ndT), Samuel Huntington, Simon & Schuster, 1996. [10] “Theresa May addresses US Republican leaders” («Theresa May discursa para os líderes dos Republicanos dos E.U.A«- ndT), Theresa May, Voltaire Network, 27 January 2017.

Somos Todos Americanos (Menos Donald Trump) – Sobre um novo Livro de Regis Debray – por Bernard GENSANE (em francês)

 

Régis Debray. “Civilisation. Comment nous sommes devenus américains”

Bernard GENSANE

Un livre érudit, avec de délicieuses pointes d’humour, qui poursuit une réflexion de Simone Weill de 1943 selon laquelle une américanisation de l’Europe ferait perdre son passé à l’humanité, et une interrogation de Paul Valéry, de 1939 : « Je me demande si l’Europe ne finira pas par une démence ou un ramollissement ».

On aurait pu attendre des guillemets à « américains » dans le sous-titre car, Debray le sait mieux que personne, les Chiliens ou les Cubains sont aussi des Américains. On se fiche que la partie soit prise pour le tout comme dans Make America great again.

Mais ne boudons pas notre plaisir devant cette brillante démonstration selon laquelle si une « culture construit des lieux », une civilisation « construit des routes » avec un gros bâton (celui de la big stick policy), une flotte, des armées, aujourd’hui des drones.

Depuis qu’il a raflé le Texas, l’empire américain n’a gagné en surface que quelques centaines de milliers de kilomètres carrés. Alaska y compris. Mais les 2 000 implantations militaires sur les cinq continents ne seraient rien sans les 35 000 McDo. Et vice versa.

Au milieu des années soixante, j’habitais Montdidier, petite sous-préfecture balzacienne de la Somme. Á l’époque, une ville de 5 000 habitants comptait encore bon nombre de magasins de toutes sortes. Le magasin d’habits, qui ne désemplissait jamais, avait pour enseigne “Aux surplus américains” Nous étions heureux de nous fournir pour pas cher dans une échoppe qui proclamait sans vergogne qu’elle nous vendait des rebuts, les franchisés profitant de notre naïveté pour nous refiler du trop-plein. La civilisation zunienne avait gagné chez Balzac : on ne savait pas d’où venaient ces frusques, dans quelles conditions elles avaient été stockées, ce qu’elles avaient coûté aux producteurs. Ces vêtements n’étaient même pas toujours ricains. C’était notre deuxième peau. Au XVIe siècle, le paysan d’Amboise, voisin de Léonard de Vinci, ne parlait pas un mot d’italien. Aujourd’hui, il écoute Beyoncé dans son tracteur climatisé.

Quand, demande Debray, l’Europe a-t-elle cessé de « faire civilisation » ? En 1919, au Congrès de Versailles. Les États-Unis n’ont pas alors pleinement conscience qu’ils vont devenir la première puissance mondiale. Mais le président exige que le traité soit également rédigé en anglais. Jusqu’alors, observe Debray, il y avait à l’ouest une civilisation européenne avec sa variante américaine. Dans les cinquante années suivantes, on aurait une civilisation américaine avec des variables d’ajustement européennes. Dans tous les domaines. Je n’entre pas dans les détails, mais même dans la natation, les catégories d’âge de nageurs qui dataient d’un siècle (poussins, minimes, cadets etc.) se sont alignées cette année sur les catégories zuniennes.

Plus graves que nos bassins chlorés, la République française, l’État français, les pouvoirs publics ont plié le cou devant les méthodes uniennes. En 2008, sous Sarkozy, nos ministères furent inspectés, mieux : évalués, par une entreprise privée zunienne. Comme si le corps des inspecteurs des Finances n’existait plus. L’État français fut dès lors appréhendé dans son fonctionnement à l’aune des méthodes du privé d’outre-Atlantique. Les hôpitaux (les universités, les commissariats de police etc.) furent mis en concurrence, les partis politiques devinrent des familles et cessèrent d’élaborer des programmes en se contentant de projets, on nous obligea à aimer le modèle des primaries et les candidats à la présidentielle nous proposèrent des offres.

Á Sciences-Po, « réformée » par un chairman of the board plus ricain que ricin qui mourut dans des circonstances hollywoodiennes jamais élucidées, 60% des cours sont dispensés en anglais. Et, précise Debray, le cours sur les politiques culturelles en France est dénommé « Cultural Policy and Management ».

Á bas les anciennes catégories marxisantes (bourgeoisie, classe, capitalisme) ! Ne dites plus « prolétaires » mais « milieux défavorisées » (d’ailleurs les prolétaires ne savent plus qu’ils sont prolétaires, c’est du moins ce que pensent les bobos) ; de votre langage, « bannissez » (sic) « clochards », « SDF » étant beaucoup plus indolore. Ne dites plus « santé gratuite pour tous » mais care, « avion présidentiel » mais « Sarko One ». Et, surtout, représentez-vous Bri-Bri d’amour en termes de First Lady. Envoyez vos enfants, en bons Ricains, délirer chez les voisins avec des masques d’Halloween alors que cette fête appartient au paganisme celte. Martelez comme il convient que l’équipe de France de foot est black-blanc-beur. Forcément, puisque la quête de l’égalité a été remplacée par le mirage de la diversité et que le sociétal a étouffé le social.

La thèse fondamentale de cet essai est que l’Amérique c’est de l’espace tandis que l’Europe c’est du temps. Aux États-Unis, on part sur la Route 66 en bon Easy Rider. On conquiert un territoire – au besoin avec un colt – alors qu’en Europe on labourait un terroir (on guerroyait un peu aussi, quand même). Mais tout a changé. Il n’y a plus chez nous que des « espaces » (salle d’attente, dégustation de vin, voies piétonnières, open spaces un peu partout, surtout quand ils sont agrémentés par des open bars). Je ne te demande pas qui tu es mais où tu es grâce à ma géolocalisation à un mètre cinquante près. Dans les espaces, explique Régis Debray, pas de peuple, mais une « population », c’est-à-dire une projection préfectorale ou municipale. Un peuple, c’est autre chose : une langue, des habitus, un passé, une gastronomie, du et des liens.

Á des populations hors-temps, on peut faire gober tout ce qu’on veut. Par exemple, que les États-Unis sont la nation qui a le plus contribué à la défaite de l’Allemagne alors que les Français de 1945 pensaient que c’était l’Union Soviétique. D’ailleurs si Poutine assista au 70ème anniversaire du Débarquement en Normandie, le Young Leader Hollande ne lui rendit pas la pareille à Moscou. On peut même faire croire à tous les publics, à toutes les populations de la Terre, que Rambo a gagné la guerre.

Lors du vote du Traité de Maastricht, on nous a seriné que nos enfants voyageraient, séjourneraient dans le continent et apprendraient quantités de langue européennes. Le russe et l’allemand sont cinq fois moins enseignés qu’il y a cinquante ans. Arte n’a aucune émission de débats entre intellectuels franco-allemands mais consacre dix minutes à un malaise de Mrs Clinton. Les fonctionnaires de Bruxelles communiquent dans la langue d’un pays qui ne fait plus partie de l’Union européenne. Des anciens pays de l’Europe de l’Est se sont dépêchés d’admettre sur leur sol des centres secrets de torture de la CIA. Il faut désormais endurer un président pour qui « Belgium » est une ville et qui pense avoir envoyé 59 missiles vers l’Irak alors que c’était vers la Syrie. Ça tombe où ça peut, où ça doit. L’important, c’est que ça « frappe » (plus de bombardements, des frappes), que ça terrorise, quel que soit le degré d’improvisation.

Debray nous rappelle qu’en affaires l’empire est féroce, voyou. BNP a accepté de payer une amende bidon, une rançon de 8,9 milliards de dollars (vous me direz : elle les avait) sans que nos gouvernants s’émeuvent, sans que notre médiacratie s’étonne. Quant à imaginer une réciprocité… Debray cite Pierre Lellouche, homme politique bien à droite, pas vraiment hostile à l’aigle impérial : « Un obscur accord fiscal franco-américain transformera notre ministère des Finances en supplétif de l’International revenue Service. Cet accord ne fait que traduire dans le droit français une loi américaine obligeant nos institutions financières à déclarer au fisc américain tous les comptes détenus par des citoyens ou entités amléricains en France dès lors que leur solde est supérieur à 50 000 dollars. Mais sans réciprocité : ce que le fisc français donnera à l’IRS, le Trésor américain ne le fera pas dans l’autre sens parce que la loi américaine ne le permet pas. »

Une des dernières réflexions de l’auteur porte sur la notion de laïcité que nous, tous seuls avec nos petites mains, avons réussi à américaniser. Je vous laisse découvrir comment.

Les moins jeunes d’entre nous s’en souviennent. Le Défi américain, publié en octobre 1967, fut l’un des plus énormes succès de librairie en France. Certes, il bénéficia du battage hebdomadaire de L’Express, beaucoup plus prescripteur qu’aujourd’hui. Son éditeur avait prévu un tirage de 15 000 exemplaires. Il s’en vendit 2 millions en France et 10 millions dans le monde.

Bernard Gensane

Paris : Gallimard, 2017.

Trump: Laicidade e Terrorismo no Mundo Islâmico

 

Um vento de laicismo sopra sobre o mundo muçulmano

O discurso de Donald Trump em Riade suscitou uma vaga de tomadas de posição contra o terrorismo e contra o islão político. O mundo árabe expressa a sua sede de laicidade no exacto momento em que esta é deformada na Europa e utilizada contra as religiões. Face a este sopro de liberdade, os Britânicos organizam o campo do islão político à volta do Catar, do Irão, da Turquia e dos Irmãos Muçulmanos.

 | DAMASCO (SÍRIA) | 13 DE JUNHO DE 2017 

-

JPEG - 26.7 kb
Sayyid Qutb (1906-1966), o pensador do islamismo político

Durante a colonização, e toda a Guerra Fria, as potências imperialistas utilizaram as religiões para abafar qualquer contestação ao seu domínio. Assim, a França, que adoptou em 1905 uma importante lei sobre o laicismo das sua instituições, decidiu de imediato não a aplicar nos territórios colonizados.

Sabe-se, hoje em dia, que as “Primaveras Árabes” eram uma iniciativa britânica destinada a colocar os Irmãos Muçulmanos no Poder e, assim, fortalecer a dominação anglo-saxónica sobre o «Médio-Oriente Alargado».

Desde há 16 anos, os Ocidentais acusam precisamente os muçulmanos de não limpar os seus países e tolerar aí os terroristas. No entanto, é agora evidente que estes terroristas são apoiados por esses mesmos Ocidentais com o fim de escravizar os muçulmanos por meio do «islão político». Londres, Washington e Paris só se inquietam com o terrorismo quando ele transborda para lá do «Médio-Oriente Alargado», e eles jamais criticam o «islão político», pelo menos no que toca aos sunitas.

Ao pronunciar o seu discurso em Riade, a 21 de Maio de 2017, o Presidente Trump significava pôr um termo ao terrorismo que consome a região e se estende agora ao Ocidente. As palavras que ele pronunciou tiveram o efeito de um electrochoque. A sua alocução foi interpretada como uma autorização para acabar com este sistema.

Aquilo que pareceu impensável durante os últimos séculos, de repente, cristalizou-se. Aceitando cessar todo e qualquer contacto com os Irmãos Muçulmanos, a Arábia Saudita atirou-se aqueles que prosseguem a colaboração com os Britânicos, e particularmente contra o Catar. Riade deu o sinal de uma tormenta que carrega com ela muitas frustrações. Por espírito de vingança beduíno, as relações diplomáticas foram interrompidas, e um bloqueio económico foi montado contra a população catariana; enquanto nos Emirados foi instituída uma sentença de 15 anos de prisão para todo aquele que mostre a mínima compaixão para com o povo do Catar, enxovalhado.

Um gigantesco deslocamento de forças e de alianças começou. Se esta tendência se mantiver, a região irá organizar-se em torno de uma nova clivagem. A questão da luta contra o imperialismo vai apagar-se para dar lugar à da luta contra o clericalismo.

Os Europeus viveram esta clivagem durante quatrocentos anos, do século XVI ao século XIX, mas não os Norte-Americanos porque o seu país foi fundado pela seita dos Puritanos que fugiam a esta clivagem. A luta contra o cristianismo político foi, antes de mais, um combate contra a pretensão do clero da Igreja Católica de dirigir os seus fiéis até mesmo dentro do quarto de dormir. Ela só terminou quando Paulo VI, o qual largou a tiara papal. Esta tríplice coroa era suposta simbolizar que o Papa estava acima de reis e de imperadores.

Tal como o Cristianismo original que não tinha sacerdotes (estes só apareceram no IIIº século), o Islão original e o Sunismo actual também não. Apenas o Xiismo se estruturou como o Catolicismo e a ortodoxia. De facto, hoje em dia o islão político é incarnado pelos Irmãos Muçulmanos e pelo governo do Xeque Rohani (o título de xeque indica que o Presidente Rohani é membro do clero xiita).

Actualmente uma aliança clerical está em vias de formação com a ajuda do Reino Unido. Poderia ser um bloco incluindo o Irão, o Catar, a Turquia, Idlib no Noroeste da Síria, e Gaza. Este conjunto iria tornar-se o protector dos Irmãos Muçulmanos e, por conseguinte, o defensor da utilização do terrorismo.

Em duas semanas a imprensa árabe, que até aqui considerava favoravelmente os Irmãos Muçulmanos como uma poderosa organização secreta e o jiadismo como uma motivação legítima, de repente virou. Por todo o lado, todos apresentam a sua denúncia contra a pretensão dos Irmãos Muçulmanos a reger a vida das pessoas, e a loucura cruel do jiadismo.

Esta maré de comentários, os séculos de frustrações que elas exprimem, a sua violência, tornam qualquer regresso atrás impossível; o que não significa que a aliança Irão-Catar-Turquia-Hamas chegue até ao fim do percurso. Esta vaga revolucionária ocorre em pleno mês do Ramadão. As reuniões entre amigos, e família, que deveriam ser celebrações consensuais transformam-se, por vezes, em contestação daquilo parecia ser até aí as bases do Islão.

No caso de a clivagem a favor ou contra o clericalismo prosseguir, iremos assistir a uma recomposição geral da paisagem política. Por exemplo, os Guardas da Revolução, que se formaram para lutar contra o imperialismo anglo-saxónico, acumularam ressentimento contra o clero iraniano.

Muitos lembram-se que durante a guerra imposta pelo Iraque, os mulás e aiatolas se desenrascavam para esconder os seus filhos enquanto os Guardiões morriam no campo de batalha. Mas, enfraquecidos durante o primeiro mandato de Rohani, é pouco provável que eles ousem levantar-se contra o poder civil-religioso. Pelo contrário o Hezbolla libanês é dirigido por Sayyed Hassan Nasrallah (aqui o título de Sayyed indica que ele é descendente directo do profeta Maomé), uma personalidade que promove a separação entre a esfera pública e a esfera privada. Muito embora desempenhando uma função religiosa e uma outra política, ele sempre se opôs a misturar as duas, aceitando sempre o princípio platónico de Velayat-e Faqih (quer dizer do governo por um sábio). É, portanto, pouco provável que o Hezbolla vá seguir o governo Rohani.

Enquanto isso, toda a região se agita : na Líbia, os Irmãos Muçulmanos deixaram Trípoli deixando uma milícia libertar(liberar-br) Saif al-Islam Kadhafi e o General Haftar alargar a sua influência. No Egipto, o General-Presidente al-Sissi encomendou aos seus homólogos do Golfo uma lista de terroristas. Na Palestina, a direcção política do Hamas refugiou-se no Irão. Na Síria, os jiadistas pararam de combater contra a República e aguardam ordens. No Iraque, o exército redobra os esforços contra os Irmãos Muçulmanos e a Ordem dos Naqchbandis. Na Arábia Saudita, a Liga Islâmica Mundial excluiu do seu Conselho de administração o pregador vedeta dos Irmãos e o propagandista das Primaveras Árabes, o Xeque Qaradawi. Enquanto a Turquia e o Paquistão iniciaram o envio de dezenas de milhar de soldados em direcção ao Catar; o qual já só consegue alimentar-se com a ajuda do Irão.

Um nova era parece levantar-se sobre a região.

Tradução
Alva

Oliver Stone, Sócrates e Putin – por John Wight e RT

 

Stone’s ‘Putin Interviews’ offend a US establishment drunk on its own exceptionalism

John Wight

 

John Wight has written for newspapers and websites across the world, including the Independent, Morning Star, Huffington Post, Counterpunch, London Progressive Journal, and Foreign Policy Journal. He is also a regular commentator on RT and BBC Radio. John is currently working on a book exploring the role of the West in the Arab Spring. You can follow him on Twitter @JohnWight1

Indeed, surely such an insight is absolutely necessary, what with Russia being the biggest country in Europe, a major nuclear power, and with the deepening tensions arising from Russia’s geostrategic differences and rivalry with Washington in recent years.

Yet for the Western liberal commentariat, condemnation rather than understanding is the order of the day, evidenced in the barrage of criticism with which Stone’s documentary series on the Russian leader has been received in the Western mainstream.

The interview the filmmaker did with liberal US talk show host Stephen Colbert on his project is a prime example.

 

 

Colbert’s line of questioning amounted to a regurgitation of the very caricature that Stone had set out to move beyond in over 20 hours of interviews on an abundance of topics with Putin – his upbringing, family history, career, thoughts on leadership, the challenges Russia faced during the dark days of the 1990s, his relations with various US presidents, NATO, and so on.

Yet for the likes of Mr. Colbert it’s much easier to go with the official narrative, contained in his first question of the interview: “What do you say to people who say that yours [Oliver Stone’s] is a fawning interview of a brutal dictator?” Not only the question, but also the casual and insouciant way in which it was delivered, confirmed the dumbing-down of news information, analysis and commentary that has been underway in the United States over decades.

The result is a culture so intellectually shallow it is frightening to behold, one in which ignorance is celebrated rather than scorned, in which national exceptionalism and arrogance is exalted rather than rejected. And woe betide anyone, such as Oliver Stone, who dares try to penetrate this fog of ignorance and sense of exceptionalism that has so corroded US cultural values.

Listening to Colbert’s studio audience laugh at Stone in response to his statement that Putin had been unfairly treated and abused by the US media, I was minded of the treatment meted out to the ancient Greek philosopher Socrates. Such a comparison is not as outlandish as some may think on first impressions.

Think about it: for daring to question the prevailing orthodoxy, received truths, and dominant ideas the philosopher was lampooned, ridiculed and ultimately condemned to death by the powers that be in Athens, considered at the time to be the home of democracy and liberty, just as Washington is – or to be more accurate claims that it is – in our time.

Interestingly, the clamor to condemn Socrates took place when tensions between Athens and its Greek city-state rival and adversary, Sparta, were still high just a few years after the end of the Peloponnesian War (431-404 BC).

As everybody knows, in times of war – whether cold or hot – a nation’s tolerance for dissent, for daring to swim against the cultural tide, evaporates, even though it is precisely at such times when dissent is most necessary. After all, in the case of the rising tensions that we have witnessed between Russia and the US recently, it is not people like Stephen Colbert who will be sent into combat should those tensions spill over into direct military conflict.

With this in mind, perhaps it would have been more to the talk show host’s benefit to have listened carefully to a man, in Oliver Stone, who has experienced combat, and who does have first-hand experience of a devastating war unleashed in the cause of the very national exceptionalism previously described.

As a filmmaker, Oliver Stone’s body of work, reaching all the way back to the 1980s, is a testament to his integrity both as an artist and as a human being. From ‘Salvador’ in 1986, an unflinching expose of covert US support for right-wing death squads in El Salvador, all the way up to his latest movie ‘Snowden’ in 2016, which tells the story of US intelligence whistleblower Edward Snowden, this is a filmmaker with a fierce passion for truth. As such, it is a fair bet that in generations to come his works will still command respect and serious analysis. Could we say the same about Stephen Colbert’s body of work?

To ask the question is to answer it.

Carthago delenda est’ – Carthage must be destroyed. These words of Cato the Elder, which the Roman statesman and orator is said to have repeated at the conclusion of every one of his speeches, is the sentiment behind the campaign of demonization against Vladimir Putin that is a feature of Western cultural life.

It has become so pervasive and obsessive you would think that it was the Russian leader who had the destruction of entire countries on his record and conscience – i.e. Afghanistan, Yugoslavia, Iraq and Libya – and that it was his foreign policy that had killed more people and sown more chaos than at any time since World War II.

Oliver Stone is to be commended for trying to wake America up to the damage it does and has done around the world over many decades. Those who would attack and laugh at him for doing so merely confirm the degeneration of a culture built on foundations not of wisdom, but of crass ignorance”.

The statements, views and opinions expressed in this column are solely those of the author and do not necessarily represent those of RT.