Trump: Laicidade e Terrorismo no Mundo Islâmico

 

Um vento de laicismo sopra sobre o mundo muçulmano

O discurso de Donald Trump em Riade suscitou uma vaga de tomadas de posição contra o terrorismo e contra o islão político. O mundo árabe expressa a sua sede de laicidade no exacto momento em que esta é deformada na Europa e utilizada contra as religiões. Face a este sopro de liberdade, os Britânicos organizam o campo do islão político à volta do Catar, do Irão, da Turquia e dos Irmãos Muçulmanos.

 | DAMASCO (SÍRIA) | 13 DE JUNHO DE 2017 

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Sayyid Qutb (1906-1966), o pensador do islamismo político

Durante a colonização, e toda a Guerra Fria, as potências imperialistas utilizaram as religiões para abafar qualquer contestação ao seu domínio. Assim, a França, que adoptou em 1905 uma importante lei sobre o laicismo das sua instituições, decidiu de imediato não a aplicar nos territórios colonizados.

Sabe-se, hoje em dia, que as “Primaveras Árabes” eram uma iniciativa britânica destinada a colocar os Irmãos Muçulmanos no Poder e, assim, fortalecer a dominação anglo-saxónica sobre o «Médio-Oriente Alargado».

Desde há 16 anos, os Ocidentais acusam precisamente os muçulmanos de não limpar os seus países e tolerar aí os terroristas. No entanto, é agora evidente que estes terroristas são apoiados por esses mesmos Ocidentais com o fim de escravizar os muçulmanos por meio do «islão político». Londres, Washington e Paris só se inquietam com o terrorismo quando ele transborda para lá do «Médio-Oriente Alargado», e eles jamais criticam o «islão político», pelo menos no que toca aos sunitas.

Ao pronunciar o seu discurso em Riade, a 21 de Maio de 2017, o Presidente Trump significava pôr um termo ao terrorismo que consome a região e se estende agora ao Ocidente. As palavras que ele pronunciou tiveram o efeito de um electrochoque. A sua alocução foi interpretada como uma autorização para acabar com este sistema.

Aquilo que pareceu impensável durante os últimos séculos, de repente, cristalizou-se. Aceitando cessar todo e qualquer contacto com os Irmãos Muçulmanos, a Arábia Saudita atirou-se aqueles que prosseguem a colaboração com os Britânicos, e particularmente contra o Catar. Riade deu o sinal de uma tormenta que carrega com ela muitas frustrações. Por espírito de vingança beduíno, as relações diplomáticas foram interrompidas, e um bloqueio económico foi montado contra a população catariana; enquanto nos Emirados foi instituída uma sentença de 15 anos de prisão para todo aquele que mostre a mínima compaixão para com o povo do Catar, enxovalhado.

Um gigantesco deslocamento de forças e de alianças começou. Se esta tendência se mantiver, a região irá organizar-se em torno de uma nova clivagem. A questão da luta contra o imperialismo vai apagar-se para dar lugar à da luta contra o clericalismo.

Os Europeus viveram esta clivagem durante quatrocentos anos, do século XVI ao século XIX, mas não os Norte-Americanos porque o seu país foi fundado pela seita dos Puritanos que fugiam a esta clivagem. A luta contra o cristianismo político foi, antes de mais, um combate contra a pretensão do clero da Igreja Católica de dirigir os seus fiéis até mesmo dentro do quarto de dormir. Ela só terminou quando Paulo VI, o qual largou a tiara papal. Esta tríplice coroa era suposta simbolizar que o Papa estava acima de reis e de imperadores.

Tal como o Cristianismo original que não tinha sacerdotes (estes só apareceram no IIIº século), o Islão original e o Sunismo actual também não. Apenas o Xiismo se estruturou como o Catolicismo e a ortodoxia. De facto, hoje em dia o islão político é incarnado pelos Irmãos Muçulmanos e pelo governo do Xeque Rohani (o título de xeque indica que o Presidente Rohani é membro do clero xiita).

Actualmente uma aliança clerical está em vias de formação com a ajuda do Reino Unido. Poderia ser um bloco incluindo o Irão, o Catar, a Turquia, Idlib no Noroeste da Síria, e Gaza. Este conjunto iria tornar-se o protector dos Irmãos Muçulmanos e, por conseguinte, o defensor da utilização do terrorismo.

Em duas semanas a imprensa árabe, que até aqui considerava favoravelmente os Irmãos Muçulmanos como uma poderosa organização secreta e o jiadismo como uma motivação legítima, de repente virou. Por todo o lado, todos apresentam a sua denúncia contra a pretensão dos Irmãos Muçulmanos a reger a vida das pessoas, e a loucura cruel do jiadismo.

Esta maré de comentários, os séculos de frustrações que elas exprimem, a sua violência, tornam qualquer regresso atrás impossível; o que não significa que a aliança Irão-Catar-Turquia-Hamas chegue até ao fim do percurso. Esta vaga revolucionária ocorre em pleno mês do Ramadão. As reuniões entre amigos, e família, que deveriam ser celebrações consensuais transformam-se, por vezes, em contestação daquilo parecia ser até aí as bases do Islão.

No caso de a clivagem a favor ou contra o clericalismo prosseguir, iremos assistir a uma recomposição geral da paisagem política. Por exemplo, os Guardas da Revolução, que se formaram para lutar contra o imperialismo anglo-saxónico, acumularam ressentimento contra o clero iraniano.

Muitos lembram-se que durante a guerra imposta pelo Iraque, os mulás e aiatolas se desenrascavam para esconder os seus filhos enquanto os Guardiões morriam no campo de batalha. Mas, enfraquecidos durante o primeiro mandato de Rohani, é pouco provável que eles ousem levantar-se contra o poder civil-religioso. Pelo contrário o Hezbolla libanês é dirigido por Sayyed Hassan Nasrallah (aqui o título de Sayyed indica que ele é descendente directo do profeta Maomé), uma personalidade que promove a separação entre a esfera pública e a esfera privada. Muito embora desempenhando uma função religiosa e uma outra política, ele sempre se opôs a misturar as duas, aceitando sempre o princípio platónico de Velayat-e Faqih (quer dizer do governo por um sábio). É, portanto, pouco provável que o Hezbolla vá seguir o governo Rohani.

Enquanto isso, toda a região se agita : na Líbia, os Irmãos Muçulmanos deixaram Trípoli deixando uma milícia libertar(liberar-br) Saif al-Islam Kadhafi e o General Haftar alargar a sua influência. No Egipto, o General-Presidente al-Sissi encomendou aos seus homólogos do Golfo uma lista de terroristas. Na Palestina, a direcção política do Hamas refugiou-se no Irão. Na Síria, os jiadistas pararam de combater contra a República e aguardam ordens. No Iraque, o exército redobra os esforços contra os Irmãos Muçulmanos e a Ordem dos Naqchbandis. Na Arábia Saudita, a Liga Islâmica Mundial excluiu do seu Conselho de administração o pregador vedeta dos Irmãos e o propagandista das Primaveras Árabes, o Xeque Qaradawi. Enquanto a Turquia e o Paquistão iniciaram o envio de dezenas de milhar de soldados em direcção ao Catar; o qual já só consegue alimentar-se com a ajuda do Irão.

Um nova era parece levantar-se sobre a região.

Tradução
Alva

Oliver Stone, Sócrates e Putin – por John Wight e RT

 

Stone’s ‘Putin Interviews’ offend a US establishment drunk on its own exceptionalism

John Wight

 

John Wight has written for newspapers and websites across the world, including the Independent, Morning Star, Huffington Post, Counterpunch, London Progressive Journal, and Foreign Policy Journal. He is also a regular commentator on RT and BBC Radio. John is currently working on a book exploring the role of the West in the Arab Spring. You can follow him on Twitter @JohnWight1

Indeed, surely such an insight is absolutely necessary, what with Russia being the biggest country in Europe, a major nuclear power, and with the deepening tensions arising from Russia’s geostrategic differences and rivalry with Washington in recent years.

Yet for the Western liberal commentariat, condemnation rather than understanding is the order of the day, evidenced in the barrage of criticism with which Stone’s documentary series on the Russian leader has been received in the Western mainstream.

The interview the filmmaker did with liberal US talk show host Stephen Colbert on his project is a prime example.

 

 

Colbert’s line of questioning amounted to a regurgitation of the very caricature that Stone had set out to move beyond in over 20 hours of interviews on an abundance of topics with Putin – his upbringing, family history, career, thoughts on leadership, the challenges Russia faced during the dark days of the 1990s, his relations with various US presidents, NATO, and so on.

Yet for the likes of Mr. Colbert it’s much easier to go with the official narrative, contained in his first question of the interview: “What do you say to people who say that yours [Oliver Stone’s] is a fawning interview of a brutal dictator?” Not only the question, but also the casual and insouciant way in which it was delivered, confirmed the dumbing-down of news information, analysis and commentary that has been underway in the United States over decades.

The result is a culture so intellectually shallow it is frightening to behold, one in which ignorance is celebrated rather than scorned, in which national exceptionalism and arrogance is exalted rather than rejected. And woe betide anyone, such as Oliver Stone, who dares try to penetrate this fog of ignorance and sense of exceptionalism that has so corroded US cultural values.

Listening to Colbert’s studio audience laugh at Stone in response to his statement that Putin had been unfairly treated and abused by the US media, I was minded of the treatment meted out to the ancient Greek philosopher Socrates. Such a comparison is not as outlandish as some may think on first impressions.

Think about it: for daring to question the prevailing orthodoxy, received truths, and dominant ideas the philosopher was lampooned, ridiculed and ultimately condemned to death by the powers that be in Athens, considered at the time to be the home of democracy and liberty, just as Washington is – or to be more accurate claims that it is – in our time.

Interestingly, the clamor to condemn Socrates took place when tensions between Athens and its Greek city-state rival and adversary, Sparta, were still high just a few years after the end of the Peloponnesian War (431-404 BC).

As everybody knows, in times of war – whether cold or hot – a nation’s tolerance for dissent, for daring to swim against the cultural tide, evaporates, even though it is precisely at such times when dissent is most necessary. After all, in the case of the rising tensions that we have witnessed between Russia and the US recently, it is not people like Stephen Colbert who will be sent into combat should those tensions spill over into direct military conflict.

With this in mind, perhaps it would have been more to the talk show host’s benefit to have listened carefully to a man, in Oliver Stone, who has experienced combat, and who does have first-hand experience of a devastating war unleashed in the cause of the very national exceptionalism previously described.

As a filmmaker, Oliver Stone’s body of work, reaching all the way back to the 1980s, is a testament to his integrity both as an artist and as a human being. From ‘Salvador’ in 1986, an unflinching expose of covert US support for right-wing death squads in El Salvador, all the way up to his latest movie ‘Snowden’ in 2016, which tells the story of US intelligence whistleblower Edward Snowden, this is a filmmaker with a fierce passion for truth. As such, it is a fair bet that in generations to come his works will still command respect and serious analysis. Could we say the same about Stephen Colbert’s body of work?

To ask the question is to answer it.

Carthago delenda est’ – Carthage must be destroyed. These words of Cato the Elder, which the Roman statesman and orator is said to have repeated at the conclusion of every one of his speeches, is the sentiment behind the campaign of demonization against Vladimir Putin that is a feature of Western cultural life.

It has become so pervasive and obsessive you would think that it was the Russian leader who had the destruction of entire countries on his record and conscience – i.e. Afghanistan, Yugoslavia, Iraq and Libya – and that it was his foreign policy that had killed more people and sown more chaos than at any time since World War II.

Oliver Stone is to be commended for trying to wake America up to the damage it does and has done around the world over many decades. Those who would attack and laugh at him for doing so merely confirm the degeneration of a culture built on foundations not of wisdom, but of crass ignorance”.

The statements, views and opinions expressed in this column are solely those of the author and do not necessarily represent those of RT.

Vladimir Putin e Hegel

Ninguém é perfeito: muito menos os grandes homens. Ninguém é mais complexo do que os grandes personagens da História – e Putin vai ficar na História como um dos maiores políticos do século XXI, ao ter, com a sua grande inteligência, força de vontade, coragem e capacidade de liderança, reerguido a Rússia do estado deplorável com que foi deixada por Gorbachev e por Ieltsin. A grandeza de um gigante mede-se pelo ódio que os seus adversários lhe têm. Hegel escreveu: “Ninguém é um herói para o seu criado de quarto, não porque ele não seja um herói mas porque um criado de quarto é um criado de quarto” (Lições sobre a Filosofia da História, ed. do Jubileu).

Venezuela, entre o chavismo (Socialismo do Século XXI, ou seja, Sem Estatização dos Meios de Produção) e a restauração colonial – por Jorge Beinstein

“A crise venezuelana aprofunda-se. O governo respondeu ao assédio da direita e dos EUA lançando a iniciativa da Assembleia Constituinte. A sua intenção foi produzir uma mudança radical de cenário, convertendo os seus atacantes da direita em assediados golpistas por uma provável avalanche popular mobilizada para um novo modelo institucional, fundada no poder comunal, expressão directa das maiorias populares. As redes sociais e um número crescente de autores referem-se à perspectiva de uma “guerra civil”.

A oposição de direita aparece girando em torno de dois pólos, um extremista, que alguns descrevem como “uribista” (de Uribe ex-presidente colombiano), imerso num raivoso neofascismo, que postula o derrube urgente do governo e a instalação de um regime de terror anti-chavista e outra mais moderada – que pressiona para a realização de um tipo de golpe suave ou até mesmo a antecipação das eleições presidenciais em que supõe sair vitoriosa. A perspectiva de um levantamento armado imediatamente assistido por uma intervenção externa, colombiana ou multinacional, pilotada por Washington, é vista cada vez mais por todos eles como altamente provável (e desejável embora ainda nem sempre confessado).

Por seu lado, o governo procura ganhar tempo, procura meter umas rasteiras à direita, como a de convocar a Assembleia Constituinte, pretende dividi-la estabelecendo pontes de negociação com a suposta oposição civilizada. O seu objectivo publicitado diariamente é a “paz”. Alguns supõem que é uma estratégia hábil que deveria reduzir o espaço social da direita empurrando os seus sectores “moderados” para negociação, e estabelecer áreas de convergência com o chavismo. Mas no chavismo aparecem vozes críticas, ressaltando que este pensamento de pacifismo a todo o transe anula as perspectivas revolucionárias bolivarianas, enterra as bandeiras do socialismo do século XXI e na realidade expressa a vontade da “boli-burguesía”, uma burguesia arrivista que se desenvolveu nos últimos anos à sombra dos negócios com o Estado e mais em geral com a direita chavista tentando estabelecer uma espécie de acordo conservador, pacto de unidade nacional onde navegariam triunfantes os expoentes da velha e da nova burguesia.

Carlos Morreo, por exemplo, estabelece a diferença entre o ” ;chavismo governamental” ; e “o chavismo amplo” [1] que outros identificam como o “povo chavista” animado pelas façanhas de seu líder histórico, transcendendo as jogadas tácticas deste ou daquele dirigente. Reinaldo Iturriza Lopez, que foi até há pouco ministro do Poder Popular para as Comunas e, mais recentemente, ministro da Cultura afirmou que “chavismo é, para dizer como John William Cooke, “o empreendimento maldito da política burguesa de um país”. Cooke referia-se, claro, ao peronismo, num texto de 1967, mas a sua frase aplica-se ao caso venezuelano.

O chavismo é, desde a sua criação, um fenómeno “maldito” para a burguesia, porque aquilo que lhe dá coesão não é sua capacidade de aglutinar o descontentamento, mas seu forte antagonismo contra o status quo. Antagonismo que adquiriu aspectos anti-capitalistas com o passar dos anos e no calor da luta como assumiram de viva voz tanto Chávez como as suas linhas de forças mais avançadas [2] .

Encontramo-nos então perante o inevitável confronto entre uma direita contra-revolucionária, firmada ideologicamente no capitalismo e no elitismo colonial e o povo chavista transbordando, com apenas a sua presença, os limites do sistema. Neste caso, paz é uma quimera porque são duas forças históricas avançando em sentidos opostos. Dia a dia a avalanche de acontecimentos, caos económico, incessante bombardeio mediático global sobre a Venezuela, dificultam olhar a realidade para além da desordem quotidiana. 

Petróleo e geopolítica 

A Venezuela tem a maior reserva mundial de petróleo (cerca de 300 mil milhões de barris de crude, de acordo com as estimativas mais recentes), quase um quinto do total mundial, superando a Arábia Saudita (cerca de 265 mil milhões de barris). Em 2003 quase 70% das exportações de petróleo venezuelano foram para os Estados Unidos mas em 2016 tinham caído para 20%, em alternativa 40% vai para a China e 20% para a Índia.

Esta orientação asiática (principalmente chinesa) da maior reserva de petróleo do mundo, longe da velha dependência do mercado imperial, constitui um casus belli de primeira ordem na estratégia dos Estados Unidos, a perda da Venezuela agora associada à China aparece como uma situação intolerável. Mais ainda quando as ilusões americanas sobre a sua produção de xisto betuminoso arrefeceram de acordo com a previsão oficial dada pela Energy Information Administration: no ano 2021 iria atingir-se o nível mais alto deste tipo de produção e a partir daí começaria a declinar. [3]

As reservas petrolíferas do império esgotam-se e também a paciência de Washington, o império está a perder a sua grande guerra asiática e com isso a sua ilusão de controlar a maior parte das reservas de gás e petróleo do planeta. Consequentemente, a reconquista da Venezuela passa a estar no primeiro nível de suas prioridades. Além disso, este projecto faz parte da estratégia de recolonização da América Latina, retaguarda histórica do império a que a derrota na Ásia atribui excepcional importância.

Mas a recolonização da Venezuela não é uma tarefa fácil, não se pode lá realizar um golpe suave, nas suas diversas formas, como aconteceu nas Honduras, Paraguai, Brasil ou Argentina, principalmente porque não só existe uma força militar convencional fortemente influenciada pelo chavismo, mas também milícias populares e todo o apoio de uma alta capacidade de mobilização de milhões de chavistas.

A intervenção das forças militares colombianas sempre foi uma alternativa, mas era difícil quando na retaguarda destas forças apareciam as FARC e seus milhares de guerrilheiros. Uma complexa estratégia de desarmamento dos rebeldes foi desenvolvida de maneira paciente e sistemática, pressionando os governos de Cuba, Venezuela e vários Estados progressistas da região que mediaram as negociações de paz, combinando ofertas atractivas, golpes baixos e um amplo espectro de acções directas e indirectas sobre as FARC, desenvolvendo uma Guerra de Quarta Geração de alto nível de sofisticação.

O resultado foi positivo para Washington, as FARC concordaram em desarmar e a retaguarda estratégica dos militares e paramilitares colombianos estava livre de perigos. Agora o que é considerado como o melhor aparelho militar da região tem as mãos livres para cumprir as ordens do seu amo imperial e colocá-las no pescoço bolivariano. [4]

Sem excluir a intervenção militar, por agora, os Estados Unidos desenvolvem uma estratégia de desgaste: sabotagem económica, guerra das ruas, ofensivas mediáticas, diplomacia de cerco, jogo de negociações e outras acções destinadas a isolar, degradar e dividir o inimigo chavista. Nos cálculos dos estrategas Imperiais é certamente o cenário do salto qualitativo passando do desgaste para uma insurreição político-militar fase convergente com a intervenção externa.

Esperanças e frustrações 

De acordo com dados do Banco Mundial, em 1960, 61% da população venezuelana era urbana, em 1980 chegou a 79% em 2000 passou para 88% e em 2015 quase para 90%. Uma crescente massa populacional passou a estar nas grandes cidades, principalmente em Caracas, não como resultado da industrialização, mas da reprodução alargada de parasitismo. Destruição social levada a cabo por uma burguesia importadora e financeira dona do Estado que desde 1976, com a nacionalização da produção de petróleo, se apropriava das divisas geradas pelas exportações (em mais de 90% resultado de vendas de petróleo bruto e seus derivados), herdando, remodelado, o velho sistema dominante baseado nas exportações de couro, cacau e café, garantindo a continuidade do subdesenvolvimento.

A economia de renda (petrolífera) bloqueou as possibilidades de desenvolvimento industrial e destruiu o tecido agrário, as vítimas do desastre passaram a engrossar as fileiras dos marginais. O modelo explodiu com o Caracazo (1989) [NR] e a vaga popular abriu o caminho da Revolução Bolivariana, Chavez era o seu líder. Este despertar das massas submersas moveu-se até à formulação de um horizonte pós-capitalista: o socialismo do século XXI. Mas o que aconteceu foi uma sucessão de obstáculos, dificuldades e deficiências que foram estabelecendo uma distância crescente entre os objectivos socialistas proclamados e a capacidade de reprodução, embora isto fosse degradado pelo país burguês que se pretendia superar.

A burguesia comercial-financeira foi pressionada, às vezes golpeada, maltratada, mas não eliminada. Não só não foi superado o capitalismo como o seu funcionamento se tornou caótico, não tendo sido substituído pela estatização socialista (que o ” ;socialismo do século XXI” ; chavista queria superar) nem pelo “socialismo, comunal” proposto produto da auto-organização das bases populares. No meio desta confusão, reproduziu-se a partir do Estado uma elite emergente parasitária com fachada de bolivariana e práticas corruptas: a boli-burguesía. O velho sistema decadente não só sobreviveu aos seus antigos crápulas mas gerou novos homens de negócios turvos.

Fica assim colocada a tragédia com final em aberto, os seus atores estão à vista. A velha burguesia parasitária arrastando um vasto conjunto social multiforme onde as camadas médias têm um papel essencial, não têm um programa definido, apenas a fúria anti-chavista os reúne. Frente a ela um vasto espaço chavista agrupando civis e militares, boli-burgueses e massas populares radicalizadas, conciliadores com a direita e revolucionários. Espaço heterogéneo, que oscila entre a rendição honrosa e o salto para o pós-capitalismo. Enquanto isso, o império vai medindo forças, ajustando os dispositivos de intervenção, sabe que mesmo afastando o governo chavista nada lhe assegura o controlo do país e em consequência o seu petróleo”.

Notas
[1] Carlos E. Morreo, “La constituyente es una decisión estratégica”, Aporrea, 06/05/2017, www.aporrea.org/actualidad/a245486.html
[2] Reinaldo Iturriza Lopez, “Chavismo y revolución¿que pasa en Venezuela”, Rebelión, 31/08/2016, www.rebelion.org/noticia.php?id=2161151
[3] US Energy Information Administration, AEO 2014, Early Release Overview.
[4] É muito esclarecedor o recente artigo de Tony Lopez Rodrigues destacado membro da diplomacia cubana: “El gobierno de Colombia ante la crisis interna venezolana”, 24.-04- 2017, PIA – Periodismo Internacional Alternativo – Nac&Pop, nacionalypopular.com/…

[NR] Revolta popular em Caracas duramente reprimida pelo governo do social-democrata Carlos Andrés Perez com uma matança de mais de 3000 cidadãos. 

Le monde à l’envers. L’opposition gauche-droite s’est inversée en France. Par Jean Bricmont

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Mondialisation.ca, 02 février 2017
rt.com 31 janvier 2017

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“Gauche droite
Depuis les années 1980, la base de classe de la gauche a complètement changé et la gauche actuelle est essentiellement devenue le parti de la petite bourgeoisie intellectuelle, juge l’essayiste Jean Bricmont.

On entend souvent dire que l’opposition gauche-droite est dépassée ou n’a plus de sens. Mais le problème est pire : sur de nombreuses questions, l’opposition gauche-droite s’est inversée, la gauche adoptant des positions qui étaient celles de la droite ou de l’extrême-droite dans le passé et une partie de la droite faisant l’inverse.

Commençons par la question de la paix et de la guerre. Depuis que les guerres sont devenues «humanitaires», c’est la gauche, y compris le plus gros de la gauche «radicale», qui les soutient. Lorsqu’un coup d’Etat parfaitement orchestré a lieu en Ukraine, on célèbre la victoire de la démocratie. En Syrie, jusque récemment, le soutien, au moins verbal, aux «rebelles» ne faisait pas débat dans la gauche. Lors des bombardements sur la Libye, Mélenchon soutenait qu’il fallait empêcher le «tyran» Kadhafi de tuer la révolution. On s’aperçut un peu tard que les adversaires dudit tyran, comme le gros des rebelles en Syrie, étaient aussi nos adversaires, c’est-à-dire des islamistes fanatiques.

Mais la gauche classique, au moins dans sa partie radicale, mais parfois aussi dans une certaine social-démocratie, était opposée aux politiques impériales, à l’ingérence et à l’hégémonie américaine, notamment pendant la guerre du Vietnam. Aujourd’hui, le simple fait de défendre le principe de la souveraineté nationale passe pour étant d’extrême droite. Et, de fait, celle-ci défend parfois ce principe.

Toutes les guerres s’accompagnent de propagande de guerre et elle est presque toujours relayée par les médias dominants. Jadis la gauche communiste, mais pas seulement elle, se méfiait de la «presse bourgeoise» et la critiquait (souvent maladroitement, mais c’est une autre question). Aujourd’hui c’est la crédulité aveugle envers la presse dominante qui caractérise la gauche. On nous met en garde contre la «propagande russe» les fake news et le complotisme. Mais les médias qui sont les échos fidèles de la ligne de nos gouvernements sont supposés être inspirés uniquement par leur dévouement à la démocratie dans le monde.

Pendant la guerre froide, ainsi que pendant les guerres coloniales, ce sont des militants de gauche ou d’extrême gauche qui cherchaient et diffusaient des informations «alternatives» au discours belliciste dominant, entre autres sur la torture en Algérie ou sur les bombardements au Vietnam. Pourtant, personne ne prétendait qu’Ho Chi Minh était un parfait démocrate ni que le FLN algérien ne commettait aucun attentat contre des civils.

Mais la propagande de guerre existe quels que soient les défauts ou crimes réels de l’ennemi et les amplifie, les met hors contexte, et passe sous silence les crimes et provocations de «notre» camp. Par conséquent, le combat pour la paix est toujours indissociable du scepticisme par rapport aux allégations des médias sur les crimes de nos ennemis réels ou supposés.

Aujourd’hui, le fait de chercher des informations qui contredisent le discours belliciste, rencontrer des chrétiens en Syrie ou visiter les régions rebelles dans l’est de l’Ukraine par exemple, vous classe immédiatement à l’extrême droite. Lorsque la congressiste américaine Tulsi Gabbard (démocrate de Hawaii) revient de Syrie où elle a rencontré le président Assad et témoigne de l’hostilité de la population aux rebelles, même «modérés», ce sont des journaux classés à gauche comme le Daily Kos et le Daily Beast qui la traitent de fasciste et de suppôt d’Assad.

En France, des autorités universitaires n’hésitent pas à interdire la tenue d’une conférence critique du discours dominant sur la Syrie au nom de la lutte contre l’extrême droite, exactement comme elle l’aurait fait pendant la guerre d’Algérie au nom de la lutte contre l’extrême gauche.

Quand on lit des journaux de gauche comme Libération à propos de la Russie et de Poutine, on croirait lire la presse patriotique pendant la guerre de 14-18 parlant de l’Allemagne et du Kaiser. Les intentions russes sont toutes maléfiques, les Russes sont plus grands que nature, ils contrôlent nos pensées et menacent leurs voisins. Dans le passé, la droite dénonçait les communistes comme étant à la solde du Kremlin et dénonçait comme «idiots utiles» tous ceux qui osaient mettre en question le discours officiel. Aujourd’hui, c’est la gauche qui lance ces accusations contre l’extrême droite, et qui, de plus, diabolise comme étant d’extrême droite le scepticisme par rapport à l’hystérie anti-russe.

Si la «propagande russe» contrôlait réellement nos pensées, comment se fait-il qu’elle soit sans arrêt dénoncée sans être même entendue, sauf de façon marginale ? N’est-ce pas là un exemple typique d’inversion accusatoire ? Si les Russes voulaient réellement envahir la Pologne ou les pays baltes, pourquoi n’envoient-ils pas d’abord leur armée (et pas de simples volontaires) dans l’est de l’Ukraine où ils seraient accueillis en libérateurs ?

Poser ces simples questions de bon sens est pratiquement devenu impossible dans le discours dominant, en particulier à gauche.

Ce renversement de l’opposition gauche-droite s’est opéré, durant les années Mitterrand, avec la prise de pouvoir par les ex-68ards dans les appareils idéologiques : universités, édition, médias. La base de classe de ce qu’on appelle la «gauche» a alors complètement changé : au lieu de s’appuyer sur les salariés, comme le faisait l’ancienne gauche, la gauche actuelle est essentiellement devenue le parti de la petite bourgeoisie intellectuelle, surtout universitaire.

Son discours est presque entièrement une auto-affirmation d’attachement à des «valeurs», féministes, antiracistes, de défense des droits de l’homme etc. Mais cette auto-affirmation est essentiellement une façon d’affirmer sa propre supériorité morale face aux masses ignorantes et dépourvues de ces valeurs.

Dans le passé, le discours sur les valeurs était tenu essentiellement par les chrétiens. Les valeurs étaient bien différentes sinon opposées (familiales, sexuelles), mais avec la même prétention condescendante, la même mise en avant de sa propre pureté morale face à la dépravité du peuple. Et c’était la gauche qui parlait de structures sociales concrètes et de la nécessité de les changer.

Comme on le voit, le retournement est total : la gauche des «valeurs» est incapable de faire une analyse réellement critique des rapports de force dans le monde. C’est pourquoi, le plus souvent, elle défend, au nom des «valeurs démocratiques», le «système», y compris l’OTAN, la politique d’ingérence et les médias dominants et c’est une certaine extrême droite qui les critique (parfois).

Mais à une époque d’insatisfaction universelle, s’aligner sur le pouvoir en place et laisser à cette extrême droite le monopole de la critique est une position suicidaire, intellectuellement, moralement, et, in fine, politiquement.

Sans esprit critique, il n’y a ni droite ni gauche : il n’y a que soumission et obéissance”.

Jean Bricmont

Illustration Chaunu

source : http://politique.blogs.ouest-france.fr/tag/gauche-droite

La source originale de cet article est rt.com
Copyright © Jean Bricmont, rt.com, 2017

Ambiente: Grândola e Alcácer do Sal – Posso aceitar isto como pessoa de esquerda? Não, não posso calar!

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Afinal, há diferenças ou são todos iguais? Não basta lutar pela justiça social, pelo socialismo, que os comunistas sempre fizeram mais e melhor do que ninguém (por isso continuo a militar nas suas causas) mas o desenvolvimento das regiões não se pode pode fazer à custa do desinteresse pela Natureza e pelo ambiente. É possível conciliar as duas coisas. Mas os comunistas tiveram sempre uma pecha de que ainda não se desfizeram: a luta pelo desenvolvimento económico, condição da justiça social, vai-lhes a par com uma atitude industrialista que reduz a Natureza à utilidade, como se ela não tivesse um valor específico que o Homem lhe atribui quando lhe reconhece ser essencial ao seu enriquecimento afectivo, estético e ético. Não há nada a fazer quando se ocupa e altera a Natureza com estruturas imobiliárias, sejam indústrias mal localizadas, equipamentos turísticos nas mais ricas paisagens, bairros e vivendas dispersas pelo território. O desenvolvimento não pode ser territorialmente uniforme e homogéneo: deve ser diversificado em função tanto do que as pessoas têm para dar quanto do que a Natureza pode oferecer. A sensibilidade dos comunistas face à injustiça não deve torná-los insensíveis perante os encantos da Natureza.

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A área da Reserva Ecológica Nacional (REN) foi “exagerada e escandalosamente” reduzida em mais de um terço nos últimos anos nos municípios de Alcácer do Sal e Grândola, denunciou a associação ambientalista Zero.

Na sequência de um trabalho da Inspeção da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território (IGAMAOT), a associação concluiu que uma decisão da “Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, sob proposta quer da câmara de Alcácer [do Sal], quer de Grândola, em 2013 e 2014, respetivamente, [levou a que] a REN destes municípios tinha sido exagerada e escandalosamente reduzida”.

O presidente da Associação Sistema Terrestre Sustentável — Zero disse à Agência Lusa que a diminuição da área de REN rondou “os 68%, no caso de Alcácer do Sal, e de 75%, no caso de Grândola, e [trata-se de] áreas muito diferenciadas, desde zonas dunares até zonas de recarga de aquíferos e zonas chamadas de grande infiltração”.

Naquelas câmaras alentejanas, “parece-nos, suspeitamos — e gostaríamos que a tutela o averiguasse devidamente -, que há interesses, nomeadamente imobiliários, em determinadas zonas onde, para se permitir a construção, algumas áreas foram retiradas de REN”, avança Francisco Ferreira.

De acordo com os ambientalistas, o objetivo dos processos “é retirar áreas muito significativas [da REN] para dar toda a liberdade ao município de poder construir ou modificar o uso do solo de acordo com interesses que não os vitais e fundamentais da proteção dos recursos”, os quais têm implicações para as populações.

Em Alcácer do Sal, segundo a Zero, a REN passou de 55.348 para 25.924 hectares. Excluído o efeito da alteração das regras a nível nacional, referente à Reserva Natural do Estuário do Sado, a redução é ainda mais acentuada, ou seja, para 17.999 hectares. Em Grândola, a REN caiu de 37.905 para 9.150 hectares.

Perante a gravidade da situação, a Zero pretende que “sejam averiguadas responsabilidades face aos erros identificados e que qualquer técnico consegue identificar”. “Estamos a falar de percentagens de REN absolutamente brutais a serem retiradas em relação à versão anterior, em ecossistemas que, não temos qualquer dúvida, são extremamente sensíveis”, alertou Francisco Ferreira.

O presidente defendeu também a importância de “averiguar, do ponto de vista jurídico, como podemos reverter este processo e fazer a avaliação para outros municípios, porque esta é uma situação identificada para dois, mas não nos espanta que a REN à escala nacional esteja a ser completamente destruída”.

A REN foi criada em 1983 e tem sido, segundo Francisco Ferreira, “absolutamente crucial” para salvaguardar a ocupação e as atividades humanas. Em 2008, foi alvo daquilo que Ferreira considera ser “uma mudança esclarecedora”, já que até ai as delimitações que impunha eram todas iguais a nível nacional.

A partir daquele ano, iniciou-se “um processo de municipalização da REN, uma ameaça que viria depois a concretizar-se”, salientou o especialista. Nos casos denunciados pela Zero, o processo de proposta, e depois de delimitação feito pela CCDR, tinha de ouvir entidades, nomeadamente porque se tratarem de áreas classificadas no âmbito da rede Natura e de áreas protegidas, como a da Reserva do Estuário do Sado, em Alcácer do Sal.

Este acompanhamento, segundo o relatório consultado, “não foi feito, mas o mais importante é as discrepâncias, a falha no cumprimento das orientações estratégicas definidas, do ponto de vista técnico e cartográfico”.

O ano em que o globalismo estourou por Pål Steigan [*]

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‘. Pontos de viragem históricos são muitas vezes difíceis de verificar no momento em que acontecem. Normalmente somos capazes de vê-los mais claramente em retrospetiva. Não obstante, atrevo-me a argumentar que 2016 foi o ano em que o globalismo estourou. Até agora, tanto apoiantes como opositores viam o projeto globalista como algo que avançava inexoravelmente ao longo de seu percurso predeterminado, deixando toda a oposição de lado. Mas o globalismo não é apenas uma orientação política. Primeiro e acima de tudo, é a natureza do capitalismo atual. É global. As transnacionais conquistam o mundo, submetendo as nações e os povos sob a sua engrenagem poderosa como um rolo compressor.

Não há nenhum bom funcionamento

Como sempre no passado, o facto de a história nunca ocorrer de forma suave e regular está novamente a ser confirmado. A tentativa do capitalismo de subjugar o mundo inteiro é uma tendência objetiva. Corresponde à necessidade inerente ao capital para uma acumulação sem limites. E como Karl Marx e Friedrich Engels escreveram no Manifesto Comunista: “os preços baixos tornam-se a artilharia pesada que destrói todas as muralhas da China”.

Neste sentido, é irresistível. Como Marx e Engels também escreviam, a burguesia é uma reminiscência do “feiticeiro que já não é capaz de controlar os poderes ocultos que evoca. Desde há décadas, a história da indústria e do comércio tem sido a história da rebelião das forças de produção da era moderna contra as condições de produção da era moderna.”

Assim, o globalismo enfrenta os conflitos criados pelo próprio capitalismo, e que não é capaz de resolver, levando às crises e ao caos. A repressão, fortalecendo a luta de classes, é uma das consequências. Mas o próprio capitalismo não evolui estavelmente. Alguns Estados capitalistas mantêm-se de pé, enquanto outros se afundam, e os seus mútuos conflitos já levaram a duas guerras mundiais e inúmeras outras guerras e conflitos.

Particularmente agora, quando vários dos principais países capitalistas entraram numa recessão duradoura, até mesmo depressão, conflitos violentos irão necessariamente a ocorrer. Quando os tempos estão difíceis, mesmo o melhor dos amigos pode tornar-se inimigo. Esses conflitos são questões de vida e morte, nada menos. Não passou muito tempo desde que Barack Obama em 2014 fez um discurso onde falou sobre uma futura nova ordem mundial :

“(…) parte da preocupação das pessoas é apenas no sentido de que o mundo não está suportando a velha ordem e ainda que não estejamos seguros de para onde necessitamos ir em termos de uma nova ordem baseada num diferente conjunto de princípios, como um senso de humanidade comum, baseado em economias que funcionem para todas as pessoas.”

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Os EUA quase tiveram êxito

Após o colapso da União Soviética, os EUA têm sido de facto o único poder supremo e esta posição tem sido explorada nas suas tentativas de dominar o resto do mundo. Isso tem sido feito através de acordos de comércio assimétricos, favorecendo os grandes grupos capitalistas dos EUA. E, não menos importante, tem sido feito através de guerras, golpes de Estado, assassinatos, ameaças e subornos. Também usaram o seu sobrevalorizado dólar, como um martelo pilão contra todos os outros. A artilharia ligeira nesta batalha tem sido os media dominados pelos EUA e o seu objetivo altamente bem sucedido de controlar a mentalidade dos povos e as formas de atuação dos políticos.

Os EUA levaram guerras ao Afeganistão, Jugoslávia, Somália, Iraque, Iêmen, Líbia e Síria, desencadearam um golpe de Estado na Ucrânia e asseguraram mudanças de regime, em muitos outros países. Na África, os Estados Unidos realizam dezenas de operações militares todos os anos garantindo o controlo para os seus principais grupos capitalistas. Os EUA deram um passo gigante na destruição e pilhagem da Rússia durante a presidência de Boris Yeltsin. Os EUA também subjugaram quase completamente a Europa reduzindo as antigas potências coloniais do velho mundo, como Alemanha, França e Reino Unido, à condição de vassalos.

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Batendo contra a parede

Queda da Bastilha. Sem oficialmente tornar esta questão um grande problema, a China aproveitou os benefícios da globalização para a construir uma indústria que se tornou a fábrica do mundo e sistematicamente desenvolver as suas infraestruturas, a investigação, a ciência e tecnologia para garantir que a China não permanecesse uma nação exportadora de segunda classe. Isso aconteceu parcialmente com elevados investimentos das empresas dos EUA. As relações de comércio assimétrico entre os EUA e a China têm surgido devido à necessidade inerente ao capital dos EUA de bens baratos, mas criou um sistema econômico que implacavelmente reforça a China à custa dos EUA.

Os EUA aprenderam dolorosamente que a competição global não é um jogo para apenas um único ganhar. O lema de Donald Trump “fazer de novo a América grande” (“Make America Great Again”) é uma desesperada admissão que os EUA perderam o seu próprio jogo.

Além disto, os EUA fracassaram em todas as suas guerras. A guerra do Afeganistão, para a qual ainda não se vê um fim, é a mais prolongada na história dos EUA. E o custo é tremendo. Linda Bilmes, antiga CFO (Chief Financial Officer) do Departamento de Comercio dos EUA estimou que os custos diretos e indiretos totais das guerras no Iraque e no Afeganistão acabarão na faixa dos 4 a 6 milhões de milhões de dólares . Este cálculo foi publicado em Harvard.

Os EUA têm sido capazes de financiar a sua poderosa máquina de guerra com vendas de títulos do governo à China. Mas esta fonte agora seca rapidamente, à medida que a China se encontrar suficientemente forte e pronta para “desdolarizar” a economia global.

A guerra do Iraque foi um desastre que continua a produzir miséria. Com a Noruega a apoiar, os EUA destruíram a Líbia, mas a catástrofe deste país vai continuar a afectar grandemente a Europa, No final do verão de 2015, parecia que os exércitos de jihadistas dos EUA ganhariam a guerra na Síria, mas a Rússia interveio e os mais brilhantes estrategas dos EUA agora encaram a derrota.

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Annus horribilis

Em 2015, os cinco presidentes da UE apresentaram um plano para abolir as democracias nacionais nos Estados-membros da UE em 2025 . Se pudessem seguir a via que traçaram, a partir de 2025 os parlamentos nacionais dos Estados membros já não poderiam decidir sobre seus próprios orçamentos. Os cinco presidentes são o líder da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, o presidente da Cimeira da UE Donald Tusk , o Presidente do Eurogrupo Jeroen Dijsselbloem , o Presidente do Banco Central Europeu Mario Draghi e presidente do Parlamento Europeu Martin Schulz . Nenhum destes cavalheiros tem um mandato democrático, mas eles emitem diretivas e regulamentos para 500 milhões de pessoas que então têm de respeitá-los.

Porém, 18 meses depois podemos indiscutivelmente determinar, que isso não vai ser assim. Como sabemos a UE já não existe. A UE não é uma ” união cada vez mais unida” , citando a formulação otimista de tratados. É antes o que afirma um sarcástico comentário do The Economist, “uma união sempre mais distante” .

E assim os acontecimentos ocorrem uns após outros. Alguns países revoltam-se contra a política migratória da UE, uma política que não tem o apoio da maioria dos eleitores em nenhum país, tendendo assim a estourar mais cedo ou mais tarde.

A mudança mais crucial ocorreu com o Brexit. A resolução britânica de retirada da UE abriu a válvula de escape para a saída da UE. Se adicionarmos a derrota do TPP (Parceria Transpacífica) e TTIP (Parceria de Comércio e de Investimento Transatlântica), temos a extensão dos problemas que os globalistas enfrentam justamente em 2016.

Outras tensões sobre a coesão da União têm sido as políticas de guerra e as sanções contra a Rússia. São políticas em grande medida contrárias aos interesses objectivos dos Estados europeus, mas são mantidas apesar de forte resistência interna devido às imposições dos EUA.

O primeiro-ministro italiano Matteo Renzi não foi eleito por ninguém. Alcançou a liderança do seu próprio partido e ocupa o cargo de primeiro-ministro, porque fez um acordo com Berlusconi: ” eu coço as suas costas se você coçar as minhas “. Mas ele decidiu assemelhar-se a Cameron, propondo ao seu próprio povo um voto de confiança para obter a maioria através de emendas constitucionais. Contudo, colocou-se em risco de se tornar ainda mais parecido com Cameron do que gostaria de ser. O povo italiano não quer estas alterações e Renzi está em perigo de ter que engolir um grande murro no estômago ao pequeno-almoço – um murro que o fará ver cinco estrelas, pois Beppe Grillo e o seu movimento Cinco Estrelas estão à espera desta oportunidade.

Além disto, ao que parece as eleições presidenciais francesas vão ser entre dois candidatos ambos defensores da détente e cooperação com a Rússia. Um desafio completo à doutrina da NATO.

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Perdendo na Síria e na Ucrânia

Brigada nazi na Ucrânia. Os EUA, o Ocidente, a Turquia e os Estados ditatoriais do petróleo financiam uma guerra de mercenários da Jihad para destruir a Síria. (o papel da Noruega tem sido financiar a componente mais ou menos civil da guerra e empenhar-se numa economia de guerra contra a Síria). A guerra esteve perto de sucesso visado pela NATO em 2015, mas agora verifica-se que os jihadistas e o Ocidente vão perder. Este é verdadeiramente um grande revés para os imperialistas neoconservadores e estabelece uma bifurcação de importância decisiva nas vias da política internacional.

Desde o verão de 2014 que os neocons dos EUA, tentaram fomentar uma guerra na Ucrânia. Em fevereiro de 2014, desencadearam o golpe da praça Maidan em Kiev, prometendo à população riqueza e sucesso. O que conseguiram foi guerra, pobreza, fascismo e um Estado falido. Mesmo que oficialmente responsáveis da NATO não se atrevam ainda a dize-lo, eles sabem que também esta guerra está perdida. E a bancarrota da Ucrânia será passada para os contribuintes da UE (e da Noruega).

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Hillary Clinton e a derrota do Partido Democrático da guerra

Donald Trump foi o candidato opositor que a campanha de Clinton desejava para ter certeza de eleger o seu próprio candidato impopular. Todos os grandes bancos e financeiros estavam na equipa de Clinton, Wall Street, a indústria de armamento, todos os meios de comunicação importantes. E todos eles estavam expectantes sobre Hillary Clinton para uma escalada da guerra na Síria e talvez atacar aí as forças armadas russas. Mas então eles perderam. Donald Trump é um demagogo de direita, reacionário, capitalista, mas aparentemente percebeu que a era dos EUA como “A nação indispensável” acabou.

Isto também é um golpe à lealdade dentro da NATO. Responsáveis europeus da NATO temem as consequências da perdar da proteção dos EUA. Envolveram-se pessoalmente em crimes de guerra, assegurando-se confiadamente que os EUA sempre os protegeriam e os manteriam longe dos tribunais internacionais. Agora já não podem ter tanta certeza disso. Se nada mais sair desta eleição nos Estados Unidos, pelo menos temos a hipótese de ver que espécie de patéticos vassalos são realmente os líderes europeus.

E a Turquia, que mantém o segundo maior exército da NATO, constituindo o vulnerável flanco sul da NATO, namora a ideia de aderir à Aliança da Eurásia na Organização de Cooperação de Xangai, em estreita ligação com a China e a Rússia.

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A fábrica chinesa continua a girar sem ser ultrapassada

Estrada da Seda. Deng Xiaoping aconselhou os líderes do seu país a não serem visíveis na política internacional, para evitar atenção indesejada. Eles na realidade têm seguido este conselho. A economia da China é atualmente a fonte mais importante de crescimento que ainda existe no mundo, o país estabeleceu seu próprio banco de desenvolvimento, pretende construir uma nova “estrada da seda” (One Belt, One Road) e aí investir centenas de milhares de milhões de dólares. Se nenhuma grande guerra eclodir, a economia da China será maior do que a economia dos EUA em valores absolutos daqui até 2020. Nessa altura, a China também terá ultrapassado largamente os Estados Unidos como uma nação de pesquisa e desenvolvimento. A China é já o maior parceiro comercial e o maior investidor em grande número de países que têm sido tradicionalmente aliados da América.

Bem antes dos destaques deste ano, podemos já estabelecer 2016 como um ano memorável. Para os globalistas, é o seu “Annus horribilis”. Podemos constatar como isto terá um significado histórico em todo o mundo. De que forma permanece ainda desconhecido. Os EUA conduziram desde há muito uma guerra indireta contra seus “aliados”, agora esses conflitos finalmente poderão romper à superfície e expor-se à plena luz do dia. Pode até haver uma situação de “todos contra todos”. Velhas alianças irão desfazer-se e novas surgirão. Estas coisas raramente ocorrem de forma pacífica. Mas tempos de caos são também tempos de oportunidades. É mais fácil para os povos oprimidos lutar contra inimigos que estão divididos, do que com inimigos que permanecem unidos.
[*] Escritor, norueguês.

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O original encontra-se em steigan.no e a versão em inglês em
http://www.informationclearinghouse.info/article45968.htm . Tradução de DVC.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .