A gente da cultura: Trump e Obama.

A intelligentsia norte-americana está em guerra aberta com Trump. Na Europa, alguns classificam essa intelligentsia, escritores, artistas das artes visuais, teatro e cinema, músicos, como de esquerda, sabendo bem de mais que a grande maioria são liberais com muito pouco de esquerda. Fazem bem em invectivarem Trump um reacionário proto-fascista, com tiques de caudilho […]

via A Intelligentsia nos seus labirintos — Praça do Bocage

Filme Matrix: Ontologia da Ilusão e Ilusão da Ilusão, Maniqueísmo Invertido e Terrorismo Salvífico (Adriano Oliveira)

 

Terrorismo Salvífico
“Durante o período de doutrinação de Neo, Morpheus lhe havia oferecido a justificação para actos como este, afirmando que qualquer ser humano ainda não libertado da Matriz é um inimigo potencial: MORPHEUS: “A Matriz é um sistema, Neo. Esse sistema é nosso inimigo. Mas quando você está dentro, você olha em volta, o que você vê? Homens de negócio, professores, advogados, carpinteiros. As próprias mentes das pessoas que estamos tentando salvar. Mas até que o façamos, essas pessoas são ainda uma parte do sistema e isso as torna nossas inimigas. Você precisa entender que a maioria dessas pessoas não está pronta para ser desconectada. E muitas delas estão tão acostumadas, tão irremediavelmente dependentes do sistema, que lutarão para protegê-lo”.Dentro da lógica ficcional, trata-se de uma fala que anuncia a dimensão dramática da fábula, amplifica o desafio tremendo dos personagens e expõe a dimensão altruística do sacrifício do herói por alguém incapaz de reconhecer o porquê de estar sendo “salvo” de sua própria vida — além de poder ser vista como mais uma referência à caverna platônica. Sob outro ângulo, todavia, o texto de Morpheus bem poderia servir a um panfleto de divulgação da Al-Qaeda. Na lógica do mundo possível de Matrix, os seres humanos ora são vítimas indefesas à espera da salvação, ora são potenciais obstáculos à consecução de um fim que se justifica por si mesmo. Crenças como estas assemelham Neo e seus companheiros muito mais a terroristas fundamentalistas que a salvadores iluminados. Curiosamente, haja vista a repercussão em geral positiva sobre o filme, é notável que este aspecto não seja percebido pelo espectador ocidental comum (leitor-modelo de primeiro nível), que consegue estabelecer uma relação empática com Neo, sua causa e seus métodos, e ao mesmo tempo perguntar-se, perplexo, sobre as misteriosas motivações de terroristas islâmicos suicidas. Neo não chega a atirar um avião-bomba sobre um prédio civil, mas, durante o curso de seu socorro a Morpheus, um helicóptero explode contra a fachada de vidro de um edifício para depois espatifar-se em chamas contra o solo. Nenhuma preocupação é demonstrada pelos heróis quanto à possibilidade de haver inocentes entre as vítimas de tamanha destruição. Não há tempo para isso: o espetáculo deve continuar. Mesmo a ideia de que o grupo de Morpheus respeita o livre arbítrio dos seres humanos, oferecendo àqueles que estão prestes a ser libertados o ritual iniciático das pílulas coloridas, revela-se paradoxal. O que temos ali está mais ao nível de uma “escolha forçada”, uma falsa oferta de liberdade, pois qualquer escolha conduz a uma perda irremediável sobre a qual, durante todo o filme, apenas Cypher parece querer dar testemunho 
 
 
Configurações do irreal em Matrix
De forma similar a outras obras que representam a irrealidade, encontramos em Matrix um modo espacial de captura do leitor. A sequência de eventos que culmina com a saída de Neo para o “deserto do real” não é surpreendente apenas para o personagem, mas também para o espectador identificado ao leitor-modelo que o texto fílmico vinha ajudando a construir. Trata-se de uma reviravolta em um enredo que até então conduzia o leitor-modelo a supor estar diante de uma fábula de gênero misto entre policial, espionagem e suspense. A trama já vinha sendo permeada por constantes irrupções de elementos que afetavam a verossimilhança realística do texto (como os superpoderes de Trinity na sequência inicial e Neo perdendo a boca durante o interrogatório e tendo uma sonda robótica vermiforme implantada em sua barriga[12]), porém a narrativa nunca prosseguia nessa linha e retomava sempre o seu curso “normal”. Por motivos de economia semiótica, o leitor ingênuo ignora estes elementos estranhos, privilegiando as linhas temáticas mais evidentes em prol de uma leitura global. Mas a partir do momento em que Neo encontra Morpheus e toma a pílula, tudo o que havia sido narrado até então é redefinido — de uma trama policial atual, passamos abruptamente para a ficção científica radical. Essa reviravolta vertiginosa no enredo é certamente um dos trunfos narrativos de Matrix. Possivelmente, a falta de um artifício similar contribuiu para que Reloaded e Revolutions, mesmo repetindo outros motivos do original, sejam filmes menos instigantes.Como já havíamos discutido no capítulo anterior, essa captura do leitor corresponde em Matrix a uma estratégia narrativa voltada para a potencialização de uma experiência lúdica do tipo montanha-russa, típica do cinema de ação norte-americano. Entretanto, diferentemente do que ocorre em Cidade dos Sonhos, este artifício não apresenta maiores consequências para a representação da irrealidade pelo filme.

 

Os mundos paralelos de Alice Dorothy e Baudrillard

Verificamos que Matrix atualiza estruturas narrativas míticas tradicionais e elementos da cultura contemporânea que compartilham uma abordagem particular do irreal. Essa é certamente uma das estratégias narrativas fundamentais da obra, e atende ao objetivo de “amplificar” o motivo fundamental da trama. Em todas as citações filosóficas atribuídas ao filme, encontramos um denominador comum fundamental para nossa análise: a referência a uma demarcação clara entre os espaços do real e do irreal. Em Baudrillard, temos a imagem do mapa e do território como metáfora para um real distinto do simulacro. Na caverna, encontramos referência à bipartição platônica entre mundo físico e mundo das ideias. Com o gênio maligno cartesiano, vemos um ser capaz de manter o homem numa realidade baseada no engano, longe da verdade.Da mesma maneira, as referências aos dois livros de Lewis Carrol sobre Alice e ao filme O Mágico de Oz repercutem uma lógica equivalente. Em Alice no País das Maravilhas e Alice através dos espelhos e o que ela encontrou por lá temos um País das Maravilhas [Wonderland] que existe paralelo à realidade onde a menina vive com sua família. Trata-se de um mundo possível constituído de paradoxos que subvertem as características do mundo possível que a menina reconhece como real. Em O Mágico de Oz temos uma lógica ficcional semelhante, porém menos radical que a de Lewis Carrol. O país de Oz é uma versão fantástica do Kansas para onde a menina é levada pelos ventos de uma tempestade. A maioria de seus personagens são versões fantásticas de amigos e familiares de Dorothy, pois a história joga com a possibilidade de que a viagem àquele mundo não tenha passado de um sonho da menina, mesmo que tenha sido vivido por ela como uma experiência real. Em ambas as fábulas, temos a representação de uma realidade “verdadeira” à qual se precisa retornar, e a presença de espaços de transposição bem delineados entre os mundos: buracos, espelhos, ciclones etc.A identificação desses denominadores comuns permite-nos sustentar que, em termos de estratégia narrativa, as referências à filosofia, à literatura fantástica e a certos elementos da cultura de massas presentes em Matrix existem basicamente para reforçar o núcleo “ontológico” da fábula: a representação do real e do irreal como universos paralelos distintos, onde o segundo é uma variação opressiva do primeiro e, por isso mesmo, um espaço a ser abandonado.Estamos agora em condição de propor uma síntese daquilo que identificamos como o discurso de Matrix acerca da representação da irrealidade. Diante de tudo que foi levantado e analisado é possível identificar as principais premissas ideológicas sobre as quais se sustenta a fábula de Neo e seus amigos: Em Matrix, o irreal é uma representação verossímil do real, a ponto de personagens e espectadores não se darem conta de estar diante de um simulacro. Como os personagens usam conectores e telefones para entrarem e saírem da Matriz quando bem entendem, o filme propõe que o limiar entre o real e o irreal é uma fronteira tangível e transponível. O filme também sustenta que o irreal é falso e o real é verdadeiro. Essa oposição equivale à outra: apesar de atualmente devastado, o real é intrinsecamente bom, pois é o espaço “natural” dos seres humanos, e o irreal é intrinsecamente mau, pois é o espaço da ilusão opressiva. Como o real é um bem e o irreal é um mal, todos os meios se justificam em relação ao fim de retornar ao real. O irreal é um erro de percepção imposto por uma instância inumana autônoma; portanto, os seres humanos não são responsáveis por ele. Entretanto, querer permanecer no irreal é um desejo ilegítimo, como demonstram as vicissitudes de Cypher. Além disso, Matrix sustenta que a saída definitiva do irreal só é possível através de uma intervenção supra-humana.Percebemos como o filme se sustenta em uma dualidade irreconciliável, que contrasta com os ideais de dissolução das fronteiras da era pós-moderna, a qual o filme é frequentemente referido. Diante disso, poderíamos até questionar autores que classificam a obra como pós-moderna, mas não é esse o nosso objetivo. O que se mostra importante aqui é verificarmos que Matrix, em momento algum, sinaliza para um questionamento de qualquer das premissas identificadas acima. Ao contrário, todas são reforçadas do início do filme até o momento culminante onde Neo ascende aos céus. Juntas, essas premissas dão densidade dramática aos mundos possíveis de um filme de ficção científica, mas oferecem problemas insolúveis para uma aplicação direta dessas ideias na crítica da cultura e da ideologia, como querem alguns. De qualquer modo, independentemente do desejo de seus autores e leitores empíricos, o filme enquanto mecanismo textual voltado para o prazer direto não demonstra desejar tal futuro.Recortado em partes, Matrixoferece analogias para argumentações teóricas. Visto globalmente, prevalece no filme a vertente blockbuster. Como afirma Andrew Gordon, embora Matrix divirta e nos dê muito no que pensar, seria possível classificá-lo como “uma tentativa fracassada de ser um ‘filme de ação intelectualizado’, no qual o espetáculo às vezes atropela ou contradiz as ideias que propõe” (GORDON, 2003, p. 113).Em grande parte das argumentações favoráveis a reconhecer em Matrix a presença de um discurso filosófico coeso, parece-nos fazer falta uma clara distinção entre “uso” e “interpretação” textual, nos moldes do que levantamos no capítulo anterior. Seria importante que algumas posições críticas fossem revistas em termos do limite entre o que se pode atribuir a Matrix como discurso e aquilo que o filme efetivamente permite dizer através da análise da sua manifestação textual e suas relações intertextuais. Nesse sentido, verificamos que muitos autores atribuem à obra uma “vontade” crítica dificilmente verificável, ali onde se vê prevalecer o convite à fruição mais imediata. Convite legítimo e bem realizado, em todo caso.Como vimos, as possíveis citações intertextuais eruditas em Matrix nunca vão muito além da superfície imagética das narrativas empregadas nos textos filosóficos como parábolas para discussões mais amplas. Matrix talvez cite o real devastado de Baudrillard, a opressão dos humanos prisioneiros da ilusão no mito platônico e mesmo promova uma encarnação cibernética para o génio maligno cartesiano, mas não encontramos no filme uma verdadeira reverberação das ideias às quais as narrativas míticas serviram de apoio nos textos de origem. As discussões filosóficas em Matrix dão um ar solene e douto aos diálogos, conferem estofo para a trama, mas, desprovidas de cunho crítico, não passam de flatus você. Desse modo, somos levados a concordar com a leitura de Baudrillard: Matrix, ao não pôr em questão os seus pressupostos narrativos, propõe uma representação simplista, maniqueísta e ingênua das fronteiras entre realidade e irrealidade, sem qualquer aplicação crítica que não em termos de negação e oposição».
 
Adriano Oliveira é Professor do Colegiado em “Cinema & Audiovisual” da UFRB. Este texto foi extraído do seu livro A Irrealidade no Cinema Contemporâneo: Matrix e Cidade dos Sonhos (2011). (Com alguma adaptação ao português de Portugal)

Matrix, o Filme: Mitologia Contemporânea e Mistificação Ontológica



O irracionalismo (a mitologia contemporânea) redobram-se:
a) a mistificação da Nova Ordem Mundial na forma duma teoria de conspiração pelo poder maçónico-judaico dos Illuminati (
sociedade secreta de mações que comanda os movimentos e agentes políticos mais importantes manobrando para impor uma Nova Ordem Mundial) como maneira de desviar a atenção dos indignados e ofendidos para a luta contra forças políticas e económicas fantasiosas, contra moinhos-de-vento;
b) a confusão entre clima e ambiente mediatizada pelo oportunista Al Gore, que enriqueceu com plantações de tabaco e outras matérias-primas energéticas, e usada para dar alento aos negócios dos créditos de carbono, à energias ditas renováveis, à energia atómica e para atacar o desenvolvimento dos países em vias de tal, fazendo esquecer que os Estados Unidos poluem ‘per capita’ duas vezes mais do que a Europa, quatro vezes mais do que a China e oito vezes mais do que a Índia;
c) as ficções de massas catastrofistas e de alienação como o celebrado filme Matrix, subliminarmente associado ao pânico da Nova Ordem Mundial, e mais expressamente ao dualismo maniqueísta mente-corpo, ao complexo messiânico do ‘cowboy’, temperado com lutas de ‘kung-fu’ e consumo bioenergético-humano pelos computadores, e a uma ideia abstracta e sublimada de alienação, que nada tem a ver com a alienação real.
A Alegoria da Caverna, que Matrix pretende actualizar, como se fosse preciso, é suficientemente simbólica para representar toda e qualquer ilusão efectiva, como Platão o fez quanto à política e à educação no contexto em que inseriu a alegoria. A ilusão  da Alegoria da Caverna não é uma instância ontológica ou um efeito de uma realidade acima da nossa – é uma alegoria, uma espécie de metáfora – mas uma alienação da realidade concreta da vida que temos, produzida pelas circunstâncias da nossa existência real e não por máquinas de características mitológicas e antropomórficas que tomaram conta de nós. O «génio maligno» de Descartes não é um personagem real, ou uma máquina mítica, que se entretém a fazer-nos partidas mas a personificação irónica das nossas fragilidades cognitivas.
Há quem também veja no Matrix uma alegoria mas essa interpretação não colhe: não há nele nem humor nem ironia, não há um distanciamento entre a narrativa e a realidade sobre a qual se relacionaria à maneira de uma metáfora. O que há é apenas a representação de uma crença na possibilidade dos computadores puderem autonomizar-se e tiranizar os homens, dando vazão à sua vontade de poder. É a exploração do medo irracional da tecnologia ser capaz de se tornar humana e escravizar o seu criador, caricaturando e compreendendo de maneira errada a rábula do aprendiz de feiticeiro. A história de filme não é para ser entendida como uma ficção que se deve tomar por tal, como uma metáfora da alienação do homem por si próprio, alienação que é o efeito de auto-ilusão no seu processo real de vida, feito de contradições económicas e de classe, tecnológicas, psicofisiológicas, psicológicas,  axiológicas e ideológicas.   

Matrix, no seu enredo rebuscado e mistificado, limita-se ao que fizeram tantos filmes de Hollywood, a inventar um papão impossível mas credenciado pelo arcaísmo dos fantasmas antropomórficos que desviam os homens dos seus verdadeiros problemas, em suma, a meter medo, pelo menos enquanto se está na sala de cinema. E não só é uma expressão da visão individualista do herói solitário redentor, de um messias enunciado por um profeta, iluminado por um ser que transcende as capacidades ficcionais do sistema e que é portador de um poder especial, pelo qual devemos esperar, como também insinua a ideia de que quem luta contra o sistema é parte dele, elemento do algoritmo que produz as suas próprias anomalias, como um esquema de antecipação de erros que guia o seu auto-aperfeiçoamento e replica o efeito de ilusão, produz a fantasia de que o sistema é revolucionável, mas que logo é reintegrado.     
Matrix é, assim, ao invés da Alegoria da Caverna de Platão, um novo instrumento de mistificação, uma tela projectada na Caverna, que não é onde nos puseram mas que criámos na forma de um reflexo imaginário da realidade – sala escura onde entretemos muito felizes os nossos fantasmas, aqueles de que cuidamos para, de vez em quando, numa tela projectada por nós, num processo algo psicanalítico de transferência, nos afastarem das preocupações reais e da procura das soluções efectivas para as mesmas.

E há livros e artigos de filósofos intitulados, assim como aulas, que encontram valor num veículo de pseudo-filosofia pronta-a-usar! 
 
 

“Matrix” revisitado: por que Jean Baudrillard não gostou do filme?

“’Matrix’ é certamente o tipo de filme sobre a matriz que a matriz teria sido capaz de produzir”, afirmou de forma mordaz o pensador francês Jean Baudrillard em uma das raras entrevistas sobre o filme dos irmãos Wachowski. Além dos irmãos terem se inspirado no livro “Simulacros e Simulações” do francês para o argumento de “Matrix”, convidaram-no para assessorar a continuação da trilogia. Baudrillard prontamente declinou do convite passando a raramente opinar sobre a relação do filme com seus conceitos filosóficos. Em uma das poucas entrevistas sobre o filme concedida ao “Le Nouvel Observateur” em 2003, Baudrillard criticou a ausência de ironia em “Matrix” e de ter tomado os princípios de “simulacro” e “simulação” a partir das categorias da realidade.
Certamente o filme “Matrix” tornou-se um clássico, não tanto pelas suas virtudes cinematográficas (na verdade, um típico blockbuster com todas as convenções do gênero), mas por ter se tornado uma síntese dos temas explorados em filmes como “Show de Truman”, “O Décimo Terceiro Andar”, “Ed TV” etc.: as crises decorrentes do apagamento das fronteiras entre o real e o virtual. Embora o filme faça uma alusão ao pensador francês Baudrillard, nas poucas entrevistas concedidas sobre “Matrix” ele demonstrou a estranheza de ver um conceito filosófico transposto para a realidade com muitos efeitos especiais. Para ele, o filme foi equivocado em aproximar o tema da noção do Mito da Caverna de Platão, além de conceber a simulação da matriz a partir das categorias da realidade.
Na entrevista que transcrevemos abaixo concedida ao Le Nouvel Observateur, Baudrillard afirma que o equívoco de Matrix foi retirar a ambiguidade do choque entre o virtual e o real e conceber a Matriz como uma tecnologia de onde é retirado o perigo e o negativo. Uma narrativa esquemática onde o deserto do real (sujo, decadente e perigoso) é substituído por uma tecnologia maquiavelicamente precisa, onde até as anomalias e revoltas já estariam previstas nas equações. Em outras palavras, sob a aparente crítica “Matrix” representaria um sintoma do fascínio cultural pelas tecnologias computacionais.

 
A HIPÓTESE DO SIMULACRO MERECIA MUITO MAIS DO QUE TORNAR-SE REAL
Aude Lancelin – 25/06/2003
 
Le Nouvel Observateur: Suas reflexões sobre a realidade e o virtual são algumas das principais referências usadas pelos criadores de “Matrix”. O primeiro episódio explicitamente faz alusão a você quando o espectador claramente vê a capa de seu livro “Simulacros e Simulações”. Você ficou surpreso com isso?
 
Os irmãos Wachowski















Jean Baudrillard:Certamente houve erros de interpretação, o que seja por isso que tenho sido hesitante até agora para falar sobre o filme “Matrix”. A equipe dos irmãos Wachowski contatou-me em vários momentos após o lançamento do primeiro episódio, a fim de me envolver com os seguintes, mas isso realmente não era concebível (risos). Basicamente, um mal-entendido semelhante ocorreu em 1980, quando um grupo de artistas de Nova York chamado “Simulacionistas”[1] me contatou. Eles tomaram a hipótese do virtual como um fato irrefutável e transformouo-a em um fantasma visível. Mas é precisamente isso, o fato de não podermos utilizar categorias do real a fim de discutir as características do virtual.
 
Nouvel Observateur: A conexão entre o filme e a sua visão desenvolvida, por exemplo, no livro “O Crime Perfeito”, é, no entanto, bastante impressionante. Ao evocar um deserto do real, esses humanos totalmente virtualizados e espectrais não são mais do que a reserva energética de objetos de pensamento ….
 
Jean Baudrillard: Sim, mas já houve outros filmes que tratam a indistinção crescente entre o real e o virtual: “Show de Truman”, “Minority Report”, ou mesmo “Mulholland Drive”, a obra-prima de David Lynch. O valor de “Matrix” é, principalmente, o de ser uma síntese de tudo isso. Mas a narrativa é muito crua e não verdadeiramente evoca o problema. Os personagens ou estão na matriz, isto é, no sistema digitalizado de coisas, ou estão radicalmente fora dele, tal como em Sião, a cidade da resistência. Mas seria interessante mostrar o que acontece quando esses dois mundos colidem. A parte mais constrangedora do filme é que o novo problema colocado pela simulação é confundido com o tratamento clássico platônico. Esta é uma falha grave. A ilusão radical do mundo é um problema enfrentado por todas as grandes culturas e que é resolvido através da arte e simbolização. O que nós inventamos a fim de dar conta desse mal estar é um real simulado, que doravante suplantará o real como a sua solução final, um universo virtual do qual tudo o que é perigoso e negativo foi expulso. E “Matrix” é, inegavelmente, parte disso. Tudo que pertence à ordem do sonho, utopia e ilusão é dada uma forma concreta, é realizado.” Estamos na transparência sem cortes. “Matrix” é certamente o tipo de filme sobre a matriz que a matriz teria sido capaz de produzir.
 
Nouvel Observateur: É também um filme que pretende denunciar alienação tecnicista e, ao mesmo tempo, demonstra inteiramente o fascínio exercido pelo universo digital e das imagens geradas por computador.
 
Para Baudrillard é notável a ausência de ironia
que permita aos espectadores irem
para além dos efeitos especiais
Jean Baudrillard: O que é notável sobre “Matrix Reloaded” é a ausência de um lampejo de ironia que permita aos telespectadores transformar este gigantesco efeito especial em sua cabeça. Não há uma seqüência que seja o “punctum”, sobre qual Roland Barthes escreveu, esta marca impressionante que lhe traz cara-a-cara com uma imagem verdadeira. Além disso, isso é o que torna o filme um sintoma revelador do fetiche real em torno deste universo de tecnologias de tela no qual não há mais distinção entre o real e o imaginário. Podemos considerar “Matrix” um objeto extravagante, ao mesmo tempo sincero e perverso, onde não há nem um aqui nem lá. O pseudo-Freud que fala na conclusão do filme coloca muito bem: em um determinado momento nós reprogramamos a matriz a fim de integrar anomalias na equação. E você e as resistências seria uma parte delas. Dessa maneira estamos, ao que parece, dentro de um circuito virtual total sem um exterior. Aqui, novamente estou em desacordo teórico (risos). “Matrix” pinta a imagem de uma superpotência monopolista, como vemos hoje, e então colabora em sua refração. Basicamente, a sua difusão em escala mundial é conivente com o próprio filme. Sobre este ponto, vale a pena lembrar Marshall McLuhan: o meio é a mensagem. A mensagem de “Matrix” é a sua própria difusão por meio de uma contaminação incontrolável.
 
Nouvel Observateur: É um pouco chocante ver que, doravante, todos os sucessos de marketing norte-americanos, de “Matrix” ao novo álbum de Madonna, são apresentados como críticas ao sistema que maciçamente os promove.
 
Jean Baudrillard: Isso é exatamente o que faz com que nosso tempo seja tão opressivo. O sistema produz uma negatividade em trompe-l’oeil, que é integrado em produtos do espetáculo, assim como a obsolescência é construído em produtos industriais. É a forma mais eficiente de incorporação de todas as alternativas genuínas. Não há um ponto Omega mais externo ou meios disponíveis antagônicos para analisar o mundo. Não há nada mais do que uma adesão fascinada. Deve-se entender, no entanto, que quanto mais se aproxima de um sistema de perfeição mais nos aproximamos do acidente total. É uma forma de ironia objetivo estipulando que nada aconteceu. O 11 de setembro foi um exemplo disso. O terrorismo não é um poder alternativo, não é nada, exceto a metáfora deste retorno quase suicida do poder ocidental sobre si mesmo. Isso foi o que eu disse na época e foi amplamente criticado. Não se trata de ser niilista ou pessimista em face de tudo isso. O sistema, o virtual, a matriz – tudo isso talvez retorne à lata de lixo da História. Enquanto a reversibilidade, desafio e sedução são indestrutíveis.

Comentário

De Hollywood ao meios intelectuais e 

acadêmicos, as ideias de Baudrillard foram 

interpretadas por leituras esquemáticas a 
partir da noção ideológica de “falsa consciência”
 
A estranheza de Baudrillard em ver seus conceitos de simulacro e simulação traduzidos por meio de efeitos especiais em uma típica narrativa maniqueísta de luta entre o bem e o mal, a realidade e o virtual, não se refere apenas uma interpretação equivocada de Hollywood e dos irmãos Wachowski. Os próprios círculos intelectuais e acadêmicos também acabaram fazendo uma leitura sobre Baudrillard semelhante ao partir da tradicional crítica da ideologia como falsa consciência.
 
É como se tudo fosse uma estória narrada com a seguinte sinopse: era uma vez o virtuoso real que, de repente, foi corrompido pela ambição humana traduzida por uma sofisticada tecnologia que criou uma representação ideológica do mundo que subjuga os homens bons sedentos pela Verdade e Realidade.
Essa leitura esquemática de Baudrillard não compreende o ponto crucial no pensamento do francês expresso na entrevista acima: a realidade, desde o seu início, já foi seduzida pela ilusão através da ironia, reversibilidade e sedução. Como vimos em postagem anterior (veja links abaixo) é o postulado gnóstico de que o mundo físico é corrompido desde sua criação, seduzido pelo Mal tomado aqui em um sentido mais ontológico do que moral.
O que Baudrillard qualificava como “estratégia fatal” era o fato de a realidade ser irônica e desafiar todos os propósitos humanos de controle, assepsia e transparência. Chamava essa estratégia irônica de “reversibiliade”: o destino de cada ação no sentido do Bem (progresso, transparência, desenvolvimento, funcionalidade, racionalidade etc.) resulta em uma espécie de efeito entrópico: dissolução, regressão, opacidade. A tecnologia que de tão sofisticada e complexa converte-se em gadgets inúteis; a assepsia e o ideal de brancura total produz a infecção hospitalar; o sistema econômico que de tanta racionalidade resulta em um gigantesco potlach. Dessa forma, para cada ato bom produz-se um efeito perverso: a produção reverte-se em destruição, a paz produz a guerra, a realidade a ilusão, e assim por diante.
Por isso, como diz Baudrillard na entrevista, todas as culturas se defrontaram com a suspeita da ilusão radical do mundo e tentaram elaborá-la por meio das artes e simbologia. A cultura tecnológica, ao contrário, procurar dar conta desse mal com a simulação do real, criar uma ilusão que supere outra ilusão por meio da tentativa de eliminar a negatividade e o mal através da precisão, racionalidade e assepsia.
Por isso, Baudrillard criticava a falta de ambiguidade e ironia à trilogia “Matrix”: a matriz é perfeita demais e o real é excessivamente desértico. Tudo preto/branco, binário, tal qual a lógica do sistema contra a qual a narrativa tenta rebelar-se.

 

[1] Foi talvez Peter Halley, mais do que qualquer outro pintor americano “Simulacionista”, que triunfou a conceituação de Baudrillard de hiper-realidade na arte. E, como ele observa com ironia, Baudrillard acabou com as esperanças de Halley ao afastar-se dele com críticas. Mas não foi apenas os pintores “Simulacionistas” que mereceram a crítica. Como Paul Hegarty disse em uma recente entrevista com Baudrillard (Abril de 2003, em seu livro Jean Baudrillard: Live Theory, London: Continuum, 2004): “os últimos foram os ‘artistas simbióticos’. Eles continuaram insistindo, dizendo: ‘mas você deve amar o que estamos fazendo’. Baudrillard disse: ‘espera aí, isso não é aceitável”.

Matrix, o Filme: Mistificação à Hollywood

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O irracionalismo (a mitologia contemporânea) redobram-se:
a) a mistificação da Nova Ordem Mundial na forma duma teoria de conspiração pelo poder maçónico-judaico dos Illuminati (sociedade secreta de mações que comanda os movimentos e agentes políticos mais importantes manobrando para impor uma Nova Ordem Mundial) como maneira de desviar a atenção dos indignados e ofendidos para a luta contra forças políticas e económicas fantasiosas, contra moinhos-de-vento;
b) a confusão entre clima e ambiente mediatizada pelo oportunista Al Gore, que enriqueceu com plantações de tabaco e outras matérias-primas energéticas, e usada para dar alento aos negócios dos créditos de carbono, à energias ditas renováveis, à energia atómica e para atacar o desenvolvimento dos países em vias de tal, fazendo esquecer que os Estados Unidos poluem ‘per capita’ duas vezes mais do que a Europa, quatro vezes mais do que a China e oito vezes mais do que a Índia;
c) as ficções de massas catastrofistas e de alienação como o celebrado filme Matrix, subliminarmente associado ao pânico da Nova Ordem Mundial, e mais expressamente ao dualismo maniqueísta mente-corpo, ao complexo messiânico do ‘cowboy’, temperado com lutas de ‘kung-fu’ e consumo bioenergético-humano pelos computadores, e a uma ideia abstracta e sublimada de alienação, que nada tem a ver com a alienação real.

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A Alegoria da Caverna, que Matrix pretende actualizar, como se fosse preciso, é suficientemente simbólica para representar toda e qualquer ilusão efectiva, como Platão o fez quanto à política e à educação no contexto em que inseriu a alegoria. A ilusão da Alegoria da Caverna não é uma instância ontológica ou um efeito de uma realidade acima da nossa – é uma alegoria, uma espécie de metáfora – mas uma alienação da realidade concreta da vida que temos, produzida pelas circunstâncias da nossa existência real e não por máquinas de características mitológicas e antropomórficas que tomaram conta de nós. O «génio maligno» de Descartes não é um personagem real, ou uma máquina mítica, que se entretém a fazer-nos partidas mas a personificação irónica das nossas fragilidades cognitivas.
Há quem também veja no Matrix uma alegoria mas essa interpretação não colhe: não há nele nem humor nem ironia, não há um distanciamento entre a narrativa e a realidade sobre a qual se relacionaria à maneira de uma metáfora. O que há é apenas a representação de uma crença na possibilidade dos computadores puderem autonomizar-se e tiranizar os homens, dando vazão à sua vontade de poder. É a exploração do medo irracional da tecnologia ser capaz de se tornar humana e escravizar o seu criador, caricaturando e compreendendo de maneira errada a rábula do aprendiz de feiticeiro. Não é uma ficção que se deve tomar por tal e usar-se como uma metáfora da alienação do homem por si próprio, entendendo-se esta como efeito de auto-ilusão no seu processo real de vida, feito de contradições económicas, tecnológicas, psicofisiológicas, psicológicas, axiológicas e ideológicas.
Matrix, no seu enredo rebuscado e mistificado, limita-se ao que fizeram tantos filmes de Hollywood, a inventar um papão impossível mas credenciado pelo arcaísmo dos fantasmas antropomórficos que desviam os homens dos seus verdadeiros problemas, em suma, a meter medo, pelo menos enquanto se está na sala de cinema. Matrix é, assim, ao invés da Alegoria da Caverna de Platão, um novo instrumento de mistificação, uma tela projectada na Caverna, que não é onde nos puseram mas que criámos na forma de um reflexo imaginário da realidade – sala escura onde entretemos muito felizes os nossos fantasmas: aqueles de que cuidamos para, de vez em quando, fazerem de tela, num processo psicanalítico de transferência, e nos afastarem daquelas preocupações demasiado verdadeiras e reais.
E há livros e artigos de filósofos intitulados, assim como aulas, que encontram valor num veículo de pseudo-filosofia pronta-a-usar!

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“Matrix” revisitado: por que Jean Baudrillard não gostou do filme?
quinta-feira, agosto 30, 2012 Wilson Roberto Vieira Ferreira 3 comments

“’Matrix’ é certamente o tipo de filme sobre a matriz que a matriz teria sido capaz de produzir”, afirmou de forma mordaz o pensador francês Jean Baudrillard em uma das raras entrevistas sobre o filme dos irmãos Wachowski. Além dos irmãos terem se inspirado no livro “Simulacros e Simulações” do francês para o argumento de “Matrix”, convidaram-no para assessorar a continuação da trilogia. Baudrillard prontamente declinou do convite passando a raramente opinar sobre a relação do filme com seus conceitos filosóficos. Em uma das poucas entrevistas sobre o filme concedida ao “Le Nouvel Observateur” em 2003, Baudrillard criticou a ausência de ironia em “Matrix” e de ter tomado os princípios de “simulacro” e “simulação” a partir das categorias da realidade.

Certamente o filme “Matrix” tornou-se um clássico, não tanto pelas suas virtudes cinematográficas (na verdade, um típico blockbuster com todas as convenções do gênero), mas por ter se tornado uma síntese dos temas explorados em filmes como “Show de Truman”, “O Décimo Terceiro Andar”, “Ed TV” etc.: as crises decorrentes do apagamento das fronteiras entre o real e o virtual. Embora o filme faça uma alusão ao pensador francês Baudrillard, nas poucas entrevistas concedidas sobre “Matrix” ele demonstrou a estranheza de ver um conceito filosófico transposto para a realidade com muitos efeitos especiais. Para ele, o filme foi equivocado em aproximar o tema da noção do Mito da Caverna de Platão, além de conceber a simulação da matriz a partir das categorias da realidade.

Na entrevista que transcrevemos abaixo concedida ao Le Nouvel Observateur, Baudrillard afirma que o equívoco de Matrix foi retirar a ambiguidade do choque entre o virtual e o real e conceber a Matriz como uma tecnologia de onde é retirado o perigo e o negativo. Uma narrativa esquemática onde o deserto do real (sujo, decadente e perigoso) é substituído por uma tecnologia maquiavelicamente precisa, onde até as anomalias e revoltas já estariam previstas nas equações. Em outras palavras, sob a aparente crítica “Matrix” representaria um sintoma do fascínio cultural pelas tecnologias computacionais.

A HIPÓTESE DO SIMULACRO MERECIA MUITO MAIS DO QUE TORNAR-SE REAL
Aude Lancelin – 25/06/2003

Le Nouvel Observateur: Suas reflexões sobre a realidade e o virtual são algumas das principais referências usadas pelos criadores de “Matrix”. O primeiro episódio explicitamente faz alusão a você quando o espectador claramente vê a capa de seu livro “Simulacros e Simulações”. Você ficou surpreso com isso?

Os irmãos Wachowski
Jean Baudrillard:Certamente houve erros de interpretação, o que seja por isso que tenho sido hesitante até agora para falar sobre o filme “Matrix”. A equipe dos irmãos Wachowski contatou-me em vários momentos após o lançamento do primeiro episódio, a fim de me envolver com os seguintes, mas isso realmente não era concebível (risos). Basicamente, um mal-entendido semelhante ocorreu em 1980, quando um grupo de artistas de Nova York chamado “Simulacionistas”[1] me contatou. Eles tomaram a hipótese do virtual como um fato irrefutável e transformouo-a em um fantasma visível. Mas é precisamente isso, o fato de não podermos utilizar categorias do real a fim de discutir as características do virtual.

Nouvel Observateur: A conexão entre o filme e a sua visão desenvolvida, por exemplo, no livro “O Crime Perfeito”, é, no entanto, bastante impressionante. Ao evocar um deserto do real, esses humanos totalmente virtualizados e espectrais não são mais do que a reserva energética de objetos de pensamento ….

Jean Baudrillard: Sim, mas já houve outros filmes que tratam a indistinção crescente entre o real e o virtual: “Show de Truman”, “Minority Report”, ou mesmo “Mulholland Drive”, a obra-prima de David Lynch. O valor de “Matrix” é, principalmente, o de ser uma síntese de tudo isso. Mas a narrativa é muito crua e não verdadeiramente evoca o problema. Os personagens ou estão na matriz, isto é, no sistema digitalizado de coisas, ou estão radicalmente fora dele, tal como em Sião, a cidade da resistência. Mas seria interessante mostrar o que acontece quando esses dois mundos colidem. A parte mais constrangedora do filme é que o novo problema colocado pela simulação é confundido com o tratamento clássico platônico. Esta é uma falha grave. A ilusão radical do mundo é um problema enfrentado por todas as grandes culturas e que é resolvido através da arte e simbolização. O que nós inventamos a fim de dar conta desse mal estar é um real simulado, que doravante suplantará o real como a sua solução final, um universo virtual do qual tudo o que é perigoso e negativo foi expulso. E “Matrix” é, inegavelmente, parte disso. Tudo que pertence à ordem do sonho, utopia e ilusão é dada uma forma concreta, é realizado.” Estamos na transparência sem cortes. “Matrix” é certamente o tipo de filme sobre a matriz que a matriz teria sido capaz de produzir.

Nouvel Observateur: É também um filme que pretende denunciar alienação tecnicista e, ao mesmo tempo, demonstra inteiramente o fascínio exercido pelo universo digital e das imagens geradas por computador.

Para Baudrillard é notável a ausência de ironia
que permita aos espectadores irem
para além dos efeitos especiais
Jean Baudrillard: O que é notável sobre “Matrix Reloaded” é a ausência de um lampejo de ironia que permita aos telespectadores transformar este gigantesco efeito especial em sua cabeça. Não há uma seqüência que seja o “punctum”, sobre qual Roland Barthes escreveu, esta marca impressionante que lhe traz cara-a-cara com uma imagem verdadeira. Além disso, isso é o que torna o filme um sintoma revelador do fetiche real em torno deste universo de tecnologias de tela no qual não há mais distinção entre o real e o imaginário. Podemos considerar “Matrix” um objeto extravagante, ao mesmo tempo sincero e perverso, onde não há nem um aqui nem lá. O pseudo-Freud que fala na conclusão do filme coloca muito bem: em um determinado momento nós reprogramamos a matriz a fim de integrar anomalias na equação. E você e as resistências seria uma parte delas. Dessa maneira estamos, ao que parece, dentro de um circuito virtual total sem um exterior. Aqui, novamente estou em desacordo teórico (risos). “Matrix” pinta a imagem de uma superpotência monopolista, como vemos hoje, e então colabora em sua refração. Basicamente, a sua difusão em escala mundial é conivente com o próprio filme. Sobre este ponto, vale a pena lembrar Marshall McLuhan: o meio é a mensagem. A mensagem de “Matrix” é a sua própria difusão por meio de uma contaminação incontrolável.

Nouvel Observateur: É um pouco chocante ver que, doravante, todos os sucessos de marketing norte-americanos, de “Matrix” ao novo álbum de Madonna, são apresentados como críticas ao sistema que maciçamente os promove.

Jean Baudrillard: Isso é exatamente o que faz com que nosso tempo seja tão opressivo. O sistema produz uma negatividade em trompe-l’oeil, que é integrado em produtos do espetáculo, assim como a obsolescência é construído em produtos industriais. É a forma mais eficiente de incorporação de todas as alternativas genuínas. Não há um ponto Omega mais externo ou meios disponíveis antagônicos para analisar o mundo. Não há nada mais do que uma adesão fascinada. Deve-se entender, no entanto, que quanto mais se aproxima de um sistema de perfeição mais nos aproximamos do acidente total. É uma forma de ironia objetivo estipulando que nada aconteceu. O 11 de setembro foi um exemplo disso. O terrorismo não é um poder alternativo, não é nada, exceto a metáfora deste retorno quase suicida do poder ocidental sobre si mesmo. Isso foi o que eu disse na época e foi amplamente criticado. Não se trata de ser niilista ou pessimista em face de tudo isso. O sistema, o virtual, a matriz – tudo isso talvez retorne à lata de lixo da História. Enquanto a reversibilidade, desafio e sedução são indestrutíveis.
Comentário

De Hollywood ao meios intelectuais e
acadêmicos, as ideias de Baudrillard foram
interpretadas por leituras esquemáticas a
partir da noção ideológica de “falsa consciência”

A estranheza de Baudrillard em ver seus conceitos de simulacro e simulação traduzidos por meio de efeitos especiais em uma típica narrativa maniqueísta de luta entre o bem e o mal, a realidade e o virtual, não se refere apenas uma interpretação equivocada de Hollywood e dos irmãos Wachowski. Os próprios círculos intelectuais e acadêmicos também acabaram fazendo uma leitura sobre Baudrillard semelhante ao partir da tradicional crítica da ideologia como falsa consciência.

É como se tudo fosse uma estória narrada com a seguinte sinopse: era uma vez o virtuoso real que, de repente, foi corrompido pela ambição humana traduzida por uma sofisticada tecnologia que criou uma representação ideológica do mundo que subjuga os homens bons sedentos pela Verdade e Realidade.

Essa leitura esquemática de Baudrillard não compreende o ponto crucial no pensamento do francês expresso na entrevista acima: a realidade, desde o seu início, já foi seduzida pela ilusão através da ironia, reversibilidade e sedução. Como vimos em postagem anterior (veja links abaixo) é o postulado gnóstico de que o mundo físico é corrompido desde sua criação, seduzido pelo Mal tomado aqui em um sentido mais ontológico do que moral.

O que Baudrillard qualificava como “estratégia fatal” era o fato de a realidade ser irônica e desafiar todos os propósitos humanos de controle, assepsia e transparência. Chamava essa estratégia irônica de “reversibiliade”: o destino de cada ação no sentido do Bem (progresso, transparência, desenvolvimento, funcionalidade, racionalidade etc.) resulta em uma espécie de efeito entrópico: dissolução, regressão, opacidade. A tecnologia que de tão sofisticada e complexa converte-se em gadgets inúteis; a assepsia e o ideal de brancura total produz a infecção hospitalar; o sistema econômico que de tanta racionalidade resulta em um gigantesco potlach. Dessa forma, para cada ato bom produz-se um efeito perverso: a produção reverte-se em destruição, a paz produz a guerra, a realidade a ilusão, e assim por diante.

Por isso, como diz Baudrillard na entrevista, todas as culturas se defrontaram com a suspeita da ilusão radical do mundo e tentaram elaborá-la por meio das artes e simbologia. A cultura tecnológica, ao contrário, procurar dar conta desse mal com a simulação do real, criar uma ilusão que supere outra ilusão por meio da tentativa de eliminar a negatividade e o mal através da precisão, racionalidade e assepsia.

Por isso, Baudrillard criticava a falta de ambiguidade e ironia à trilogia “Matrix”: a matriz é perfeita demais e o real é excessivamente desértico. Tudo preto/branco, binário, tal qual a lógica do sistema contra a qual a narrativa tenta rebelar-se.

[1] Foi talvez Peter Halley, mais do que qualquer outro pintor americano “Simulacionista”, que triunfou a conceituação de Baudrillard de hiper-realidade na arte. E, como ele observa com ironia, Baudrillard acabou com as esperanças de Halley ao afastar-se dele com críticas. Mas não foi apenas os pintores “Simulacionistas” que mereceram a crítica. Como Paul Hegarty disse em uma recente entrevista com Baudrillard (Abril de 2003, em seu livro Jean Baudrillard: Live Theory, London: Continuum, 2004): “os últimos foram os ‘artistas simbióticos’. Eles continuaram insistindo, dizendo: ‘mas você deve amar o que estamos fazendo’. Baudrillard disse: ‘espera aí, isso não é aceitável”.

Ídolos Pop: de Madonna ao Presente – Prostitutas?


Se fazer do próprio corpo uma mercadoria, mesmo que esta seja uma imagem, que se vende junto com a música, então não será que as estrelas pop, que são os ídolos dos adolescentes actuais, são prostitutas? Madonna é a mãe delas: Miley Cirus, Rihanna, Beyoncé, Gaga, Aguillera, Spears e as outras que andam por aí. É a prostituição sublimada.
Bem bonitas elas são, decerto, e sensuais, mas não é isso que está em questão, pois o problema é elas se tornarem objecto, fechadas na sua autopromoção enquanto imagem corporal autocarregada de valores associados ao narcisismo, convertendo-se em ídolos modernos, em objectos adorados, em centro de interesse. Em vez de criarem formas e conteúdos de enriquecimento e conhecimento do mundo, fazem de si mesmas e da sua pseudo-arte, que confundem, um fim em si mesmo, uma fantasia vivida pelos outros como se fosse uma realidade original, que vale por si.
O que elas oferecem? Elas mesmas. De maneira sublimada, claro. E o que são elas? Mulheres hiper-sexuais que fazem da sua imagem um meio de negócio, que promovem, coerentemente com a sua prática, um certo liberalismo de costumes, liberalismo este que abstrai o desejo dos afectos, do respeito por si e da responsabilidade para com o outro, objectualizando o si mesmo e o outro.
Mas elas também são instrumentos de interesses económicos e políticos poderosos. Este seu papel é, através do mecanismo idolátrico, ocultado das massas. Este papel desdobra-se numa estratégia comercial e no da alienação enquanto despersonalização na massa, reflexo ou espelho narcisista por imitação motivada no prestígio da sua própria sedução como alternativa feliz à realidade prosaica e regrada e que é oferecida, amplificada e legitimada pelos meios de comunicação. O seu papel é também o de contribuir para o alheamento dos assuntos reais da sociedade e da vida dos outros. 
No entanto, elas pertencem ao mundo real, o que se nota pelo facto de serem referenciadas às massas, incapacitadas de pensar, como modelos morais e padrões superiores de conduta, massas que as procuram timidamente imitar, e de serem contrapostas a políticas e éticas que não os subscrevem. 
Ao contrário dos artistas e sujeitos, que deveriam ser, não representam, não visam o mundo para lá do que constroem à volta de si mesmas. Essas “artistas” não são a expressão de ideias e de valores que as transcendem mas pretendem ser um mundo, que é à parte, a alternativa feliz. Até estrelas pop do passado, como Annie Lennox e Sinead, das quais , pelo seu comercialismo, também não saiu nada de muito interessante, lhes chamaram, directa ou indirectamente, prostitutas. 

A primeira escreveu no facebook: “Parece óbvio que algumas gravadoras estão optando por vender pornografia acompanhada de música”, escreveu, “É deprimente ver que esses artistas fazem de tudo para chegar a esse nível tão baixo. Essas atitudes são justificadas pelos milhões de dólares e visualizações no YouTube que você recebe por se comportar como chulo ou prostituta ao mesmo tempo”. Annie ainda completou dizendo que os vídeos com apelos sexuais deveriam ser restringidos ao público adulto.


 
 
o site Jezebel pegou no exemplo de Miley para explorar, pelo prisma do shock value, o fenómeno das estrelas Pop actuais que mostram o corpo:Isto é tudo pelo schock value [valor do choque]. Não há afirmações a serem feitas acerca do poder feminino, não é um comentário sobre a cultura ou a arte, não levanta questões acerca de como vivemos hoje. A atenção pela atenção é despropositada. Quando estás no comando e tens milhões a ouvir, tens de ter algo a dizer (…)O problema destas estrelas pop semi-nuas é que falham, mesmo que tenham sucesso, porque são artistas que se tornam a elas próprias em objectos (…) Os objectos são descartáveis (…) E apesar de haver valor no valor do choque – poder de provocar – a verdade é que os pivôs dos noticiários nocturnos poderão sentir alguma consternação, e apesar de as pessoas franzirem a sobrancelha, ninguém está realmente surpreendido.
Temos agora duas versões da javardice cultural a empestar a juventude: a cultura que nasce nos anos noventa dos bandos traficantes de droga e das prisões de Los Angeles, dos encapuzados, das tatuagens e das calças descaídas, e  conhecida por hip-hop, e a cultura das prostitutas musicais, em que se inspiram as meninas das escolas secundárias, de nádegas ao léu, num espectáculo permanente de oferta de si mesmas, e que são as suas referências éticas.