Portugal, Eucaliptos e a Depredação da Natureza

O meu sogro, que vive em Terena, Alto Alentejo, sabe e afirma que na sua terra, antes de terem começado as plantações de eucaliptos, a terra ressumava de água, que podia ser aproveitada para a agricultura. Agora, aquele território está seco, não se vêm regatos, é impossível a existência de cultivos que exijam um pouco de água, a não ser em volta da pequena barragem. A”lei” do menor esforço, a indústria nacional de pasta de papel e os apoios governamentais e europeus associados a tais interesses estão a fazer de Portugal a Austrália da Europa, e por mais que se retalhe o território para limitar a extensão dos incêndios (objectivo dos estudos encomendados), a aridez e o empobrecimento natural do território será inexorável enquanto esse negócio for sustentado e for economicamente viável.

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Ambiente: Grândola e Alcácer do Sal – Posso aceitar isto como pessoa de esquerda? Não, não posso calar!

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Afinal, há diferenças ou são todos iguais? Não basta lutar pela justiça social, pelo socialismo, que os comunistas sempre fizeram mais e melhor do que ninguém (por isso continuo a militar nas suas causas) mas o desenvolvimento das regiões não se pode pode fazer à custa do desinteresse pela Natureza e pelo ambiente. É possível conciliar as duas coisas. Mas os comunistas tiveram sempre uma pecha de que ainda não se desfizeram: a luta pelo desenvolvimento económico, condição da justiça social, vai-lhes a par com uma atitude industrialista que reduz a Natureza à utilidade, como se ela não tivesse um valor específico que o Homem lhe atribui quando lhe reconhece ser essencial ao seu enriquecimento afectivo, estético e ético. Não há nada a fazer quando se ocupa e altera a Natureza com estruturas imobiliárias, sejam indústrias mal localizadas, equipamentos turísticos nas mais ricas paisagens, bairros e vivendas dispersas pelo território. O desenvolvimento não pode ser territorialmente uniforme e homogéneo: deve ser diversificado em função tanto do que as pessoas têm para dar quanto do que a Natureza pode oferecer. A sensibilidade dos comunistas face à injustiça não deve torná-los insensíveis perante os encantos da Natureza.

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A área da Reserva Ecológica Nacional (REN) foi “exagerada e escandalosamente” reduzida em mais de um terço nos últimos anos nos municípios de Alcácer do Sal e Grândola, denunciou a associação ambientalista Zero.

Na sequência de um trabalho da Inspeção da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território (IGAMAOT), a associação concluiu que uma decisão da “Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, sob proposta quer da câmara de Alcácer [do Sal], quer de Grândola, em 2013 e 2014, respetivamente, [levou a que] a REN destes municípios tinha sido exagerada e escandalosamente reduzida”.

O presidente da Associação Sistema Terrestre Sustentável — Zero disse à Agência Lusa que a diminuição da área de REN rondou “os 68%, no caso de Alcácer do Sal, e de 75%, no caso de Grândola, e [trata-se de] áreas muito diferenciadas, desde zonas dunares até zonas de recarga de aquíferos e zonas chamadas de grande infiltração”.

Naquelas câmaras alentejanas, “parece-nos, suspeitamos — e gostaríamos que a tutela o averiguasse devidamente -, que há interesses, nomeadamente imobiliários, em determinadas zonas onde, para se permitir a construção, algumas áreas foram retiradas de REN”, avança Francisco Ferreira.

De acordo com os ambientalistas, o objetivo dos processos “é retirar áreas muito significativas [da REN] para dar toda a liberdade ao município de poder construir ou modificar o uso do solo de acordo com interesses que não os vitais e fundamentais da proteção dos recursos”, os quais têm implicações para as populações.

Em Alcácer do Sal, segundo a Zero, a REN passou de 55.348 para 25.924 hectares. Excluído o efeito da alteração das regras a nível nacional, referente à Reserva Natural do Estuário do Sado, a redução é ainda mais acentuada, ou seja, para 17.999 hectares. Em Grândola, a REN caiu de 37.905 para 9.150 hectares.

Perante a gravidade da situação, a Zero pretende que “sejam averiguadas responsabilidades face aos erros identificados e que qualquer técnico consegue identificar”. “Estamos a falar de percentagens de REN absolutamente brutais a serem retiradas em relação à versão anterior, em ecossistemas que, não temos qualquer dúvida, são extremamente sensíveis”, alertou Francisco Ferreira.

O presidente defendeu também a importância de “averiguar, do ponto de vista jurídico, como podemos reverter este processo e fazer a avaliação para outros municípios, porque esta é uma situação identificada para dois, mas não nos espanta que a REN à escala nacional esteja a ser completamente destruída”.

A REN foi criada em 1983 e tem sido, segundo Francisco Ferreira, “absolutamente crucial” para salvaguardar a ocupação e as atividades humanas. Em 2008, foi alvo daquilo que Ferreira considera ser “uma mudança esclarecedora”, já que até ai as delimitações que impunha eram todas iguais a nível nacional.

A partir daquele ano, iniciou-se “um processo de municipalização da REN, uma ameaça que viria depois a concretizar-se”, salientou o especialista. Nos casos denunciados pela Zero, o processo de proposta, e depois de delimitação feito pela CCDR, tinha de ouvir entidades, nomeadamente porque se tratarem de áreas classificadas no âmbito da rede Natura e de áreas protegidas, como a da Reserva do Estuário do Sado, em Alcácer do Sal.

Este acompanhamento, segundo o relatório consultado, “não foi feito, mas o mais importante é as discrepâncias, a falha no cumprimento das orientações estratégicas definidas, do ponto de vista técnico e cartográfico”.

A um Artigo no Público de que há no Interior Alentejano e Algarvio Árvores a Mais e Pessoas a Menos.

 
Árvores a mais e pessoas a menos? Nunca há árvores a mais. Pode é haver pessoas a mais. O que importa é criar condições económicas (turismo, agricultura, indústria sustentável, apoiada em matérias-primas locais ou de tecnologia de ponta que não exija muita mão-de-obra mas qualificada, indústria bem situada, junto às povoações, para não descaracterizar a paisagem) e mais pessoas para re-habitar as vilas e aldeias envelhecidas e despovoadas já existentes – desmistificando a ideia de que se vive melhor nas grandes cidades do que no campo. Mas nada de estragar a beleza específica daquela região. Nem só de pão vive o Homem.

Mértola – Vila Histórica Magnífica Rodeada de uma Paisagem Rude Estonteante

Mértola. Simples mas bela, como outras povoações portuguesas. A relação com o rio é de cortar a respiração. Carregada de História fundamental. Só não entendo por que chamam de mesquita à Igreja junto ao castelo. É que grande parte das igrejas de Portugal foram, à semelhança desta, construídas sobre uma mesquita, depois desta ter sido edificada sobre um templo romano, sempre por esta ordem. Notam-se nela algumas influências arquitectónicas nos elementos decorativos – mas as influências são inevitáveis e normais na circulação e substituição de culturas.
De resto, à parte dos arruamentos típicos do Sul da Europa, que não são propriamente uma reprodução do Norte de África, poucos vestígios, além de utensílios retirados à terra, há da ocupação árabe. O que se destaca é a Ordem de Santiago, cuja sede foi lá, responsável máxima pela expulsão militar dos árabes, administração, economia e arte de grande parte do Sul de Portugal.
Apesar de tudo, desta mistura de publicidade com propaganda ideológica (de autopunição), Cláudio Torres e os seus colegas, junto com a Câmara Municipal, fizeram um trabalho excelente, valorizando a localidade com museus temáticos e recuperação de edifícios históricos – dinamizando a economia local. A paisagem envolvente é estonteante de beleza rude, quase selvagem – cada vez mais rara na Europa, e no resto do mundo. Nos arredores o olhar ora se eleva para as serras, ora, mais longe, se perde no infinito de uma planície coberta de tons suaves. Há lagos, ou albufeiras largas, de um azul vivo a banhar os ocres do solo, a contrastar docemente com o verde seco das oliveiras e a namorar com o azul claro do céu. A gastronomia é opípara – embora não faça jus a uma região de caça – e o pão alentejano foi o melhor que já comi.

Veículos Eléctricos – Novo Paradigma Energético?

 
Até agora as baterias duravam pouco e acumulavam pouco. Com as baterias de lítio mais modernas atingiu-se a autonomia de quatrocentos quilómetros e a duração do carregamento de vinte minutos. Parece que já há novidades: baterias de grafeno e outras,  que conferem ainda mais autonomia. Além do mais, a electricidade está por todo o lado: é possível instalar até nas aldeias pontos de carregamento. É um negócio que um bom capitalista pouco metido nos negócios do petróleo não deixa escapar. Os automóveis eléctricos tenderão a baixar de preço – para haver mercado. As economias nacionais que não investirem neste sector estarão tramadas. 
Se é certo que o crude não serve apenas para gasolina, e que a electricidade tem de vir de algum lado, além de que estas baterias continuarão a ser caríssimas por mais alguns anos e de que ainda não se sabe até que ponto poderão ser melhoradas (se for impossível nada feito), é bom que se comece a pensar rapidamente que, entre coisas positivas que traz (redução de poluição química e do ruído – para infelicidade dos adeptos de motores ronronadores), esta é mais uma arma com que pode contar o imperialismo para derrubar os países produtores de petróleo que não dançarem os passos da dança escolhida pelos EUA e seus aliados, caso também não se comecem a mexer por si próprios ao ritmo dos impulsos eléctricos. 

Como diminuir a pegada humana: e como voltar à natureza seria um desastre para a natureza (Matt Ridley)

 

Como diminuir a pegada humana: e como voltar à natureza seria um desastre para a natureza

(Uma tradução brasileira)

Matt Ridley
“Bizarramente, a maioria das políticas instadas pelo movimento ambientalista aumentaria a extensão de terra que cada pessoa precisa para sustentar seu estilo de vida.
Para sustentar o nosso estilo de vida atual, nós seres humanos necessitamos de 1,4 planetas. Esse é o número calculado por uma misteriosa organização chamada Global Footprint Network, que define a pegada ecológica como “uma medida da quantidade de terra biologicamente produtiva e água que um indivíduo, uma população ou atividade requer para produzir todos os recursos que consomem e para absorver o lixo que produzem utilizando a tecnologia predominante e práticas de gestão de recursos”. Em resumo, estamos consumindo a comida, os combustíveis e as fibras da terra a uma velocidade 1,4 vezes mais rápida do que eles podem ser repostos.
Na verdade, este número é enganador, quase ao ponto da desonestidade. Mais da metade dele consiste da terra que cada pessoa necessitaria para plantar árvores com as quais absorveria suas próprias emissões de carbono. Se for levada em consideração a visão de que podemos cortar as emissões, ou encontrar maneiras melhores de isolá-las, ou até mesmo lidar com pelo menos algum aumento, então a pegada diminui e estamos vivendo folgadamente dentro das condições do nosso meio ecológico.
Mesmo se esse número da pegada estiver certo, a questão interessante é se ele está ficando maior ou menor. Argumentarei que a pegada ecológica da atividade humana provavelmente está diminuindo em um ritmo acelerado e que estamos nos tornando mais sustentáveis, não menos, na maneira de usarmos o planeta. Em resumo, o mais sustentável que podemos fazer, e o melhor para o planeta, é acelerar as mudanças tecnológicas e o crescimento econômico.
Espero que tenha conseguido a sua atenção. Não acredita em mim? Então me deixe começar com o meu próprio estilo de vida. Estou sentado em uma casa com aquecimento central, vestindo um casaco de tecido sintético, meias de lã, sapatos de couro e calças e camisa de algodão. Acabei de comer uma tigela de cereais com leite e tomei um copo de suco de manga e maracujá importados.
Você concordará que, em termos ecológicos, esta vida é a mais infame que se possa imaginar. Poços de gás e petróleo, campos de algodão e de aveia, pastos para o gado e as ovelha, pomares de maracujá e de manga no mundo todo estão desviando a sua produção para mim. Acres e mais acres apenas para sustentar o meu estilo de vida.
Sim, mas suponha que eu desista de tudo isso e decida me tornar um caçador, vestido de pele de animais, possuindo pouco mais do que lenha, ferramentas de pedra feitas em casa, cestos de vime e contas de conchas. Caço veados enquanto minha esposa cava a terra à procura de raízes. De quanta terra eu precisaria? A resposta surpreendente é que eu precisaria de cerca de 1.000 hectares, exceto se eu vivesse em uma planície tropical bem irrigada à beira de um fecundo rio, mas se eu morasse – como, de fato, moro – onde uma vez foi uma fria floresta boreal de carvalhos. Essa é a extensão de terra que o estilo de vida do caçador requer. Se 6,8 bilhões de nós tentassem viver como caçadores, precisaríamos de 18 planetas (54 se não pudéssemos explorar o oceano). Voltar à natureza seria um desastre para a natureza.
Em poucas palavras, a coisa mais sustentável que podemos fazer, e o melhor para o planeta, é acelerar as mudanças tecnológicas e o crescimento econômico.
É claro, caçadores-coletores caminham pela terra com passos mais leves do que eu. Mas mesmo os amplamente dispersos caçadores de 50.000 anos atrás causaram muitos danos ecológicos. Os registros ecológicos de Israel, da Turquia e da Itália revelam que os primeiros seres humanos modernos em torno do Mediterrâneo deixaram de se alimentar de cavalos, rinocerontes, mamutes, bisões e tartarugas e passaram a comer coelhos, lebres, pombos e pequenas gazelas. Razão: eles haviam destruído as espécies de reprodução lenta. Caçadores-coletores causaram espasmos de extinção quando chegaram à Austrália, América do Norte, Madagascar e Nova Zelândia.
A característica mais notável da agricultura, quando esta foi inventada há 10.000 anos atrás, era o quanto a sua pegada era menor. Os primeiros agricultores precisavam de cerca de dez hectares cada para sustentar o seu estilo de vida – um centésimo do que o caçador-coletor precisava. Da mesma maneira, a introdução dos combustíveis fósseis, há 200 anos, diminuiu ainda mais a pegada e interrompeu o desflorestamento: nos anos 1700, a indústria de ferro britânica perecia pela falta de combustível (madeira) em uma ilha já muito desflorestada. Um século depois, a Grã-Bretanha estava queimando carvão equivalente à produção de uma floresta do tamanho da Escócia e as árvores estavam se propagando novamente.
Na verdade, de volta ao meu estilo de vida, cada item que eu uso hoje necessita de menos terra para ser produzido do que precisava no passado. Meu casaco sintético veio de um poço de petróleo, enquanto o suéter que eu costumava usar em dias frios como este veio de uma fazenda de ovelhas. A pegada do sistema de produção do tecido sintético – poço, refinaria, fábrica e loja – é minúscula se comparada com a terra necessária para a criação de ovelhas. Minhas meias, sapatos, camisa e o café da manhã precisam de cerca de metade da extensão de terra necessária para serem produzidos do que precisavam antes do surgimento dos fertilizantes sintéticos. Meu aquecimento central a gás precisa de muito menos do que uma fogueira.
Vamos dar uma olhada nos alimentos de maneira um pouco mais detalhada. Quando os campos eram cultivados com bois ou cavalos, que também precisavam de pasto, 25% a mais precisava ser reservado apenas para alimentá-los, de acordo com o especialista em energia canadense Vaclac Smil. A introdução do trator reduziu a pegada humana. Nos últimos 50 anos, graças às inovações da genética, os defensivos e os fertilizantes, a quantidade de cereais cultivados no mundo quase triplicou, mesmo que a extensão dos campos de cereais tenha permanecido praticamente a mesma – pouco menos de 700 mil hectares.
Se tentássemos alimentar a população atual de 6,8 bilhões de pessoas usando os métodos de 1960, teríamos que cultivar 82% da área de terra do planeta ao invés de 34%, calcula o economista Indur Goklany. Isso significaria lavrar uma área extra do tamanho da América do Sul sem o Chile.
A maior inovação de diminuição de terra de todas é a capacidade de extrair nitrogênio do ar através do processo de Haber. A agricultura orgânica tira o seu nitrogênio do ar também, mas através de plantas como o trevo e utilizando o gado no processo – e isso requer terra. Alimentar o mundo com agricultura orgânica exigiria uma população de mais sete bilhões de cabeças de gado pastando em 30 bilhões de acres a mais, apenas para suprir o adubo.
Mas deixemos de lado a comida. O mesmo ocorre com as fibras. Algodão, lã, seda e linho ainda exigem terra, mas suas produções dobraram desde a introdução dos fertilizantes sintéticos. Em muitos casos, eles deram lugar às fibras “fabricadas pelo homem”, provenientes de fontes mais eficientes. A extensão de terra necessária para vestir um homem ou uma mulher diminui continuamente.
Voltar à natureza seria um desastre para a natureza.
Similarmente, os combustíveis. Uma fogueira precisa de até dez acres de área florestal intensamente ceifada apenas para aquecer uma casa; mais se você cozinhar o ano todo. Um típico poço de gás de folhelho na Pensilvânia ocupa metade de um acre e produz 50.000 metros cúbicos por dia, o suficiente para aquecer 150 casas. Isso significa que a terra necessária para produzir o seu combustível pode ser 1/3000 do que seria se você dependesse da madeira. Por isso, uma das melhores maneiras de aliviar a pressão sobre as florestas na Ásia e na África é proporcionar combustíveis fósseis às pessoas – por exemplo, na forma de eletricidade.
O transporte também requer menos terra do que antigamente. Enquanto um cavalo precisa de mais de um acre de pasto e pode transportar uma pessoa 30 milhas por dia, um poço de petróleo na Califórnia produz, todos os dias, em menos de meio acre de extensão, gasolina suficiente para transportar 200 pessoas por 30 milhas. Mesmo se levarmos em conta estradas, pistas, refinarias e fábricas de automóveis, a diferença em passageiros-milhas por acre é esmagadora. Cada melhoramento na eficiência dos combustíveis é uma redução da extensão necessária para produzí-lo.
Moradia também requer menos terra do que antigamente: concreto e aço vêm de pedreiras e fábricas com pegadas minúsculas comparadas com as concessões madeireiras. Inclua o efeito da urbanização, com as pessoas deslocando-se para as cidades em um ritmo acelerado ao redor do mundo, e a extensão de terra necessária para abrigar cada pessoa está diminuindo.
Até para pequenos luxos como a luz artificial observa-se um declínio da necessidade de terra. Para manter sua casa iluminada com velas de sebo, cera de abelha ou óleo de espermacete das baleias, ou com as antigas lamparinas babilônicas queimando óleo de sésamo, requerer-se-iam muitos acres de pasto, flores ou solo oceânico. Agora só é necessário um buraco no chão: uma mina de carvão na superfície produz quase tanta eletricidade por acre quanto um campo de milho produziria em 2000 anos.
Então, meu ponto é simplesmente esse: a necessidade de terra do homem – medida em acres para produzir alimento, acres para produzir fibras, combustível, abrigo, iluminação – estão todas diminuindo cada vez mais, e vem diminuindo por um longo período de tempo. Como, então, é possível argumentar que estamos cada vez mais, e mais, insustentavelmente em dívida com o banco ecológico do planeta?
Para esta pergunta, você ouvirá três respostas comuns. Primeira: população. O explosivo aumento populacional em oito vezes nos últimos 200 anos foi maior do que a diminuição da necessidade de terra por pessoa. Segunda: recursos finitos. Só é possível produzir certa quantidade por acre queimando muito petróleo, carvão e gás, que são a energia solar armazenada de eras passadas, e irão logo esgotar-se. Terceira: poluição. O aumento da produção por acre foi alcançado às custas da poluição do ar, da água e das mudanças climáticas.
Quanto à população, é verdade que qualquer redução da terra usada por pessoa no século XX foi menor do que a quadruplicação da população. Suponha que o processo de Haber, no qual o nitrogênio é extraído do ar, nunca tivesse sido inventado. O século XX certamente teria assistido terríveis penúrias (e crescimento populacional muito menor). Suponha que os combustíveis fósseis não tivessem sido aproveitados no século XIX. A Revolução Industrial britânica teria sido interrompida assim que todos os córregos dos montes Peninos passassem a ser explorados com moinhos de água. Foi pela diminuição da extensão de terra necessária por pessoa alcançada por essas inovações e muitas outras que se tornou possível o imenso crescimento da população.
Esta é a versão do Paradoxo de Jevons, que recebeu o nome de um economista do século XIX, Stanley Jevons. Ele assinalou que, quando os produtos ficam mais baratos, as pessoas utilizam-se mais deles, de modo que a redução do preço da energia levou ao uso mais esbanjador da energia, enquanto o aumento da disponibilidade de alimento levou à sobrevivência de mais bebês. Hoje utilizamos os acres poupados para auxiliar-nos a acender a luz, dirigir Hummers, comer mangas e comprar mansões de uma maneira que impressionaria nossos frugais ancestrais.
Porém, bizarramente, graças a um fenômeno mundial conhecido como transição demográfica, quanto mais ricos, saudáveis e urbanizados nos tornamos, menos bebês nós temos. O ritmo do crescimento populacional têm tido uma diminuição tão abrupta e veloz que a taxa à qual o mundo está adicionando pessoas – em números reais, não apenas em porcentagem – caiu pelos últimos 22 anos. Até mesmo na África a taxa de nascimentos está caindo rapidamente. As Nações Unidas estimam que a população mundial irá parar de crescer completamente quando alcançar em torno de 9,3 bilhões de habitantes em algum ponto depois do ano 2060.
Isso significa que, longe de dobrar como no século XIX, ou quadruplicar como no século XX, a população mundial terá sido multiplicada menos de 1,5 vezes durante este século. A decrescente necessidade de terra para a vida começará a ter mais e mais impacto. À medida que a taxa de crescimento da população desacelera, a pegada da humanidade passará a encolher. Até 2070, cada redução no uso de terra por pessoa será um ganho para toda a espécie.
Na verdade, isso já está acontecendo agora. A costa leste dos Estados Unidos foi uma vez intensamente cultivada. Hoje em dia ela consiste em ilhas de cultivo em um mar de florestas. Em grande parte das Terras Altas da Escócia, o gado e as ovelhas deixaram os montes para os veados. Se não houvesse subsídios e barreiras tarifárias, uma quantidade muito maior de terra deixaria de produzir no rico oeste.
Sim, mas como os recursos são finitos, certamente ficaremos sem petróleo, gás, fósforo, cobre, níquel ou quaisquer outras fontes não renováveis? Primeiramente é preciso observar o surpreendente fato de que são os recursos renováveis que continuamente se esgotam: os mamutes, as baleias azuis, os arenques, os pombos-passageiros, as florestas de pinho branco, os cedros do Líbano, o guano. Em contraste, não há nenhum recurso renovável que tenha se esgotado ainda: nem cobre, petróleo, carvão, ferro, urânio, silício ou pedra. “É uma das previsões mais seguras”, escreveu o economista Joseph Schumpeter em 1943, “que em um futuro calculável viveremos em uma abundância de opções de supérfluos (embarras de richesse), tanto de alimentos quanto de matérias-primas, devido à expansão da produção total com a qual saberemos lidar. Isso se aplica aos recursos minerais também”.
Assim, meu ponto é simplesmente este: a necessidade humana de terras – medida em acres para produzir alimentos, acres para produzir fibras, combustíveis, abrigo ou iluminação – está ficando menor e menor, e tem sido assim por muito tempo.
Considere a humilhante falha das previsões feitas pelo modelo de computador chamado World3 no início dos anos 1970. O World3 tentou prever a capacidade de suporte dos recursos do planeta e concluiu, em um relatório chamado “Limites ao Crescimento”, de autoria do Clube de Roma, que o uso exponencial poderia esgotar o abastecimento mundial de zinco, ouro, estanho, cobre, petróleo e gás natural até 1992, e causar um colapso da civilização e da população no século subsequente. O relatório “Limites ao Crescimento” foi enormemente influente, com livros-texto escolares repetindo suas previsões sem as ressalvas. “Alguns cientistas estimam que os suprimentos conhecidos de petróleo, estanho, cobre e alumínio serão utilizados enquanto você estiver vivo”, dizia um deles. “Os governos devem ajudar a salvar nosso suprimento de combustíveis fósseis fazendo leis que limitem o seu uso”, opinava outro.
A verdade é que, à medida que as melhores fontes de cobre, fósforo ou petróleo esgotam-se e novas técnicas de extração são inventadas, as reservas antes não tão boas tornam-se economicamente viáveis. Nos últimos anos, a perfuração horizontal e o fraturamento hidráulico (fracking) para a extração de gás de folhelho dobraram as reservas americanas de gás natural acessível e barato; a mesma tecnologia está agora sendo experimentada na Europa, Ásia e Austrália e promete uma abundância de gás que durará por décadas. Mesmo que o petróleo convencional se torne escasso, as areias betuminosas, o xisto betuminoso e o gás metano assegurarão o suprimento de combustíveis fósseis por pelo menos um século, talvez por muito mais tempo. Eles serão substituídos no mercado pela energia nuclear ou solar barata muito antes de fisicamente esgotarem-se.
Muito bem, mas um recurso que certamente se esgotará, e talvez muito em breve, é a capacidade da terra de absorver o nosso lixo. Se você procura a pegada ecológica humana, não busque apenas na terra, mas no mar, nos rios e no ar. É por isso que a Global Footprint Network enfatiza tanto o sequestro de carbono. A extensão de terra necessária para retirar o dióxido de carbono do ar é vasta. Mas mesmo aqui existem vários tipos de tendências de melhoramentos. O rio Hudson e o Tâmisa têm menos esgoto e mais peixes. A cidade de Pasadena tem menos poluição. Os ovos de aves suecas têm 75% menos poluentes do que nos anos 1960. As emissões americanas de monóxido de carbono dos transportes diminuíram 75% em 25 anos. O lixo radioativo de testes de armas e acidentes nucleares diminuiu 90% desde o início dos anos 1960.
Quanto ao dióxido de carbono, a descarbonização já está acontecendo. O engenheiro italiano Cesare Marchetti elaborou um gráfico do uso de energia pelo homem nos últimos 150 anos, enquanto ocorria a transição da madeira para o carvão, para o petróleo e para o gás. Em cada caso, a proporção de átomos de carbono e átomos de hidrogênio caiu, de 10 na madeira para 1 no carvão, para ½ no petróleo, para ¼ no metano. Graças ao gás de folhelho barato, o metano pode muito em breve eliminar o carvão – o combustível mais rico em carbono – do mercado de eletricidade. Em 1800, os átomos de carbono faziam 90% da combustão, mas em 1935 a proporção era 50:50 entre carbono e hidrogênio e, até 2100, 90% da combustão pode vir do hidrogênio – provavelmente feita através de eletricidade nuclear ou solar. O especialista em energia Jesse Ausubel prevê que “se o sistema de energia for deixado funcionar ao seu próprio ritmo, a maior parte do carbono será eliminado até 2060 ou 2070”.
É claro que essas mudanças podem não acontecer a tempo de impedir as mudanças climáticas. (Contudo, eu argumentaria que as evidências mostram que as mudanças climáticas têm sido moderadas e vagarosas por muitas décadas até agora – um argumento para uma outra oportunidade). Mas o fato é que as coisas estão caminhando na direção certa. A pegada está encolhendo.
Então, é com incredulidade que assisto os governos do mundo assiduamente tentando aumentar a pegada ecológica humana enquanto alegam estarem salvando o planeta. Eles exaltam o cultivo orgânico, que significa um aumento maciço na terra necessária para a agricultura. (Não me leve a mal: eu não tenho nada contra as pessoas comprarem produtos orgânicos; eu apenas tenho objeções a elas me dizerem que é uma coisa mais ética a se fazer). E quase todas as medidas defendidas para combaterem as mudanças climáticas – energia eólica, das ondas, solar, das marés, hidrelétrica e, acima de todas, os biocombustíveis – aumentariam a extensão de terra necessária para sustentar o estilo de vida humano.
Se os Estados Unidos produzissem o seu próprio combustível para transporte como biocombustível, por exemplo, seria necessário 30% de terra cultivável a mais do que atualmente é utilizada para a produção de alimentos. Onde seriam cultivados os alimentos? O esquema dos biocombustíveis é verdadeiramente um erro terrível, um “crime contra a humanidade”, nas palavras de Jean Ziegler, a relatora especial das Nações Unidas do Direito à Alimentação. Entre 2004 e 2007, a colheita mundial de milho aumentou 51 milhões de toneladas, mas 50 milhões de toneladas foram para o etanol, não deixando nada para suprir o aumento da demanda: por isso ocorreu o aumento dos preços dos alimentos em 2008, causando tumultos e fome. Na realidade, motoristas americanos estavam tirando carboidratos das bocas dos pobres para encherem seus tanques.
Isso poderia ser aceitável se o biocombustível tivesse um grande benefício ambiental. Mas o benefício ambiental do biocombustível não é apenas ilusório; ele é negativo. Cada acre de milho ou cana de açúcar requer combustível de tratores, fertilizantes, defensivos, combustível de caminhões e combustível para a destilação – os quais são feitos de combustíveis fósseis. Então a pergunta é: quanto combustível é necessário para produzir combustível? Resposta: a mesma quantidade. Dependendo de qual estudo você cita, cada unidade de energia empregada no cultivo de milho para etanol produz 71% a 134% em produção de energia. A perfuração e o refino de petróleo, em contraste, geram um retorno de 600% ou mais da energia utilizada.
A chave é que as coisas estão indo na direção certa. A pegada está encolhendo.
Cada incremento no preço do grão causado pela indústria do biocombustível significa mais pressão nas florestas, cuja destruição é a forma mais eficiente de se adicionar dióxido de carbono à atmosfera. Além disso, são necessários cerca de 130 galões de água para cultivar e 5 galões para destilar apenas um galão de etanol de milho – supondo que apenas 15% da safra é irrigada. Pelo contrário, são necessários menos de três galões de água para extrair e dois galões para refinar um galão de gasolina. Cumprir o objetivo dos Estados Unidos de produzir 35 bilhões de galões de etanol por ano requereria usar a quantidade de água consumida por ano por toda a população da Califórnia. Não tenha dúvida: a indústria do biocombustível aumenta amplamente a pegada humana.
O mesmo é verdade em relação a outros renováveis. Para se ter uma ideia de como eles consomem espaço, considere que para suprir os atuais 300 milhões de habitantes dos Estados Unidos, com a sua atual demanda de energia de aproximadamente 10.000 Watts cada (2.400 calorias por segundo), seriam necessários: painéis solares do tamanho da Espanha; ou parques eólicos do tamanho do Cazaquistão; ou bosques do tamanho da Índia e do Paquistão; ou campos de feno para os cavalos do tamanho da Rússia e do Canadá juntos; ou usinas hidrelétricas com represas um terço maiores do que todos os continentes juntos.
Um engenheiro chamado Saul Griffith tem um nome para essas porções de terra: Renewistan. Ele calcula que para manter o nível de dióxido de carbono em 450 partes por milhão, a área dedicada à energia renovável ocuparia um espaço do tamanho da Austrália. Mas não fique com a impressão de que esse é um jeito benigno, suave e verde de utilizar a terra. Um parque eólico na Califórnia mata 24 águias-douradas por ano e pelo menos 2.000 outras aves de rapina; cada turbina nos Apalaches necessita de quatro acres de floresta desmatados. Painéis solares requerem enormes quantidades de aço e concreto. As barragens de marés mudam a ecologia dos estuários. Todos os renováveis precisam estar ligados através de longas filas de postes de energia. Gerar a energia que mantém o ritmo da civilização com energia renovável significaria voltar ao hábito medieval de industrializar a paisagem, mas com uma população dez vezes maior.
Eis um modo diferente de se pensar a pegada humana. Helmut Haberl, da Universidade de Viena, calculou que das 650 bilhões de toneladas de carbono potencialmente absorvidas do ar pelas plantas a cada ano, seres humanos utilizam cerca de 23% para o seu próprio uso: 80 bilhões de toneladas são colhidos, 10 são queimados e 60 são impedidos de crescer por causa de arados, ruas e cabras, deixando 500 para sustentar todas as outras espécies. Isso é o que Haberl chama de AHPPL: Apropriação Humana da Produção Primária Líquida (HANPP em inglês).
Ela varia muito de uma região para outra. Na Sibéria e na Amazônia, talvez 99% da produção de plantas sustenta a vida selvagem, e não pessoas. Em muitas partes da África e da Ásia central, as pessoas reduzem a produtividade da terra mesmo apropriando-se de um quinto da produção – um pasto onde os animais pastam demais, ao ponto de danificarem a vegetação, sustenta menos cabras do que sustentaria antílopes, se fosse selva.
Mas na Europa ocidental e no leste asiático – e este é o ponto crucial – as pessoas aumentam a produtividade da terra a tal ponto que, na verdade, elas aumentam o fluxo de energia para a natureza, mesmo que tomem metade da produção para si. Graças ao processo de Haber, tanto a população quando a vida selvagem na Europa tem mais para comer.
Isso na verdade suscita otimismo, porque sugere que a intensificação da agricultura na África e Ásia central poderia alimentar mais pessoas e ainda dar mais sustento a outras espécies também. Harber diz: “Essas descobertas sugerem que, em uma escala global, pode haver um considerável potencial para elevar a produção agrícola sem necessariamente aumentar a AHPPL”.
De longe, a melhor maneira de reduzir a pegada humana no tamanho desejado no século 21 é a utilização de mais tecnologia para aumentar a produtividade.
A pegada ecológica da humanidade é muito grande. É nosso dever encolhê-la. Mas regredir à agricultura orgânica, à autossuficiência, às energias renováveis ou até mesmo à caça apenas a aumentará, à custa de outras espécies. A melhor maneira de diminuir o tamanho da pegada no século XXI é usar mais tecnologia para aumentar a produtividade, mais fertilizantes para aumentar a produção, mais gás natural – o combustível fóssil menos rico em carbono, menos consumidor de terra e possivelmente mais abundante – para amplificar o trabalho humano e mais prosperidade para diminuir as taxas de natalidade.
Então nossos netos poderão viver vidas de grande riqueza, saúde e sabedoria, enquanto rodeados da vasta natureza selvagem. Mais cidades e mais tigres. Esse é o meu sonho”.
O texto acima é uma tradução livre do ensaio de Matt Ridley publicado em 2 de junho de 2010, a capa é a figura no início. Para ver o original, clique aqui
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