EUA: Contradição entre o Grande Capital Norte-Americano e o Capitalismo Norte-Americano, ou o porquê da Eleição da Administração Trump – Uma contradição peculiar e novíssima – por José Valenzuela Feijóo

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Comecemos por uma pergunta: pode emergir uma contradição entre as grandes corporações transnacionais estado-unidenses e o capitalismo norte-americano?

O próprio enunciado poderia parecer absurdo: se se fala do capitalismo de tal ou qual país, será possível pensar que surja uma contradição entre este e suas empresas capitalistas? Acaso não se estará a falar do mesmo? Será que se pode falar de capitalismo nacional como algo distinto ou separado das empresas capitalistas que nele radicam? O tema merece alguma discussão mínima. Podemos abordá-lo em termos: i) da dinâmica e modos que assume o investimento no estrangeiro; ii) das origens sectoriais e regionais dos lucros.

O investimento no estrangeiro 

O investimento no estrangeiro, ou exportação de capital, constitui uma característica antiga das grandes potências capitalistas. E quando o sistema avança para a sua fase monopolista, tal característica acentua-se:   “o que caracterizava o velho capitalismo, no qual dominava plenamente a livre competição, era a exportação de mercadorias. O que caracteriza o capitalismo moderno, no qual impera o monopólio, e a exportação de capital “. [1]

Neste momento, podem-se distinguir diversas etapas. Num primeiro momento, a direcção das exportações de capital vai do centro para a periferia e concentra-se na produção e exportação de matérias-primas. Estas tornam-se baratas e ajudam a baixar a composição do valor do capital e, por esta via, elevar a taxa de lucro. Além disso, o grosso da indústria continuava localizado no pólo desenvolvido.

Num segundo momento, pelo menos na América Latina, emerge algum desenvolvimento industrial impulsionado pelo Estado e capitalistas nacionais. O que muito contrariava os teóricos neoclássicos, os que continuavam a defender a “racionalidade” da tradicional divisão internacional do trabalho. Em termos quase “curiosos”, em pouco tempo chegou ali o capital transnacional, apoderando-se dos segmentos mais estratégicos. Junto a esse movimento há outro que se deve sublinhar: o investimento estrangeiro também se move entre os países do centro: vai dos Estados Unidos para a Europa e vice-versa, do Japão para a Europa, etc. Neste caso, não são os baixos salários o factor que os impulsiona e sim a dimensão dos mercados para bens industriais. Os lucros que este movimento gera favorecem mais os Estados Unidos: na Europa, por exemplo, expande-se o american way of life e a cultura gringa tende a impor-se. Esta fase coincide com outra: a do padrão de acumulação com regulação keynesiana que imperou nos EUA e Europa desde fins dos anos quarenta até, aproximadamente, meados ou fins dos setenta. Também se deve destacar: nesta fase observa-se um crescimento muito forte das grandes companhias transnacionais.

Desde fins dos anos setenta até agora, o que impera é o padrão neoliberal. Se pensarmos nos EUA, verificamos: a) piora drasticamente a distribuição do rendimento: sob a taxa de mais-valia; b) cai o coeficiente de investimento e reduz-se significativamente o ritmo de crescimento do PIB; c) geram-se problemas do lado do emprego produtivo; d) o mercado interno torna-se pouco atraente; e) emerge um défice crónico na Balança de Pagamentos, o qual é financiado através do expediente de emitir dólares que os estrangeiros adquirem e utilizam como meio de reserva.

No plano que mais nos interessa cristaliza-se um fenómeno chave: torna-se possível uma minuciosa fragmentação dos processos produtivos. Portanto, esta fragmentação possível dá lugar a que diversas partes do processo produtivo se possam localizar em muito diversos pontos do globo terráqueo. O que passa a depender dos níveis do salário, das políticas tributárias e cambiais e das possíveis infraestruturas (portos, caminhos, energia eléctrica, etc) que possam oferecer os diversos países e regiões. Tudo isso recorda não pouco as condições que se verificavam durante o modelo primário-exportador em vigor na América Latina durante o século XIX (últimos dois terços) e no primeiro terço do século XX.

Nas condições actuais, o investimento que se efectua fora, em países como por exemplo o México, provoca um alto ritmo de crescimento das exportações mexicana e, por sua vez, gera efeitos de arrastamento que são praticamente nulos. As exportações crescem a bom ritmo (as importações ainda mais), mas o PIB permanece quase estagnado em termos per capita. Ou seja, os efeitos de arrastamento destes investimentos sobre a economia nacional interna do país recipiente são quase nulos. Mas aqui interessa-nos o impacto na economia interna dos Estados Unidos.

No caso estado-unidense destaca-se o forte crescimento do investimento que suas grandes empresas aplicam no estrangeiro. Ao mesmo tempo, o debilitamento do investimento que se aplica no território estado-unidense: investe-se muito fora e muito pouco dentro do país. Em 1982 o investimento directo dos EUA acumulado no estrangeiro chegava a 207,8 mil milhões. Em 2016 chegou a 5332,2 mil milhões. Multiplicou-se 25,7 vezes, crescendo a uma taxa média anual de 10%. Entre 1982 e 1990 cresce a 9,5%. Entre 1990 e 2007 a 12,1% e entre 2007 e 2016 (período que abrange a grande crise de 2007-2009) cresce a 6,6%. A expansão é alta, com crescimento a ritmos anuais muito elevados. Também se observa que no período 2007-2016 a expansão reduz-se bastante, quase à metade do período anterior. Neste, pode-se supor que, devido à crise, os “factores de atracção” se enfraquecem fortemente. O que certamente está ligado à recessão que afecta não só os EUA como também a Europa e o Japão. Os dados básicos mostram-se no Quadro I.

Quadro I: EUA, Investimento directo no estrangeiro 

Ano Valor acumulado   (US$ mil milhões) Índice
1982 207.8 100
1990 430,5 207
2000 1 316,2 633
2007 2 994,0 1 441
2016 5 332,2 2 566

Fonte: D.T. Jennings y S. Stutzman, “Direct Investment Position for 2016”, em Survey of Current Business, July 2017.
Valores a custos históricos.

O aumento do investimento no estrangeiro pode ser melhor avaliado se o compararmos com o comportamento do investimento no país. Isto é mostrado no quadro seguinte.

Quadro II: Investimento nacional e no estrangeiro (índices) 

Rubrica 2000 2014 Taxa média anual de crescimento
Investimento fixo não residencial 100,0 130,4 1,9 %
Investimento directo no estrangeiro 100,0 373,0 9,9 %

Fonte: Para investimento fora ver fonte do quadro I.
Para Investimento Fixo não residencial, NBER, “Economic Report of the President, 2016”.
A série é a preços constantes.

A evidência é contundente. Cresce muitíssimo mais o investimento no estrangeiro do que no país. De facto, o investimento interno mostra sinais claros de estancamento.

Convém especificar e notar os factos mais decisivos.

Primeiro: cresce muito o investimento das CMN dos EUA no estrangeiro. E enfraquece-se no território nacional.

Segundo: no exterior, gera-se uma rede ou cadeia de produção que impressiona pela sua fragmentação e extensão geográfica. Produzem-se diversas partes do produto final em regiões muito diversas, em cada uma das quais é acrescentado certo montante de valor agregado.

Terceiro: numa alta percentagem, o produto final acaba por ser vendido aos próprios Estados Unidos.

Quarto: no fim deste círculo, os Estados Unidos começa a transformar-se num grande comprador (importador) de produtos finais e, ao mesmo tempo, vai perdendo sua capacidade de produção industrial – com a consequente e forte perda de ocupações industriais. Em alguns estudos estima-se que entre 2001 e 2011 a perda de empregos nos EUA provocada pelo seu défice com a China chegou aos 2,7 milhões. [2] Um cálculo recente abrange os anos 2001 a 2015 e estima a perda de empregos em 3,4 milhões. [3] Quanto ao NAFTA [North American Free Trade Agreement], nos seus primeiros 20 anos de funcionamento a perda em relação ao México e Canadá é estimada em 850 mil empregos. [4]

Quinto: como contrapartida, emerge um forte défice na balança comercial dos EUA. Com isto, o problema vital da realização do excedente agrava-se ainda mais.

Para concluir esta enumeração, recordemos uma expressão clássica: “o que é bom para a General Motors é bom para os Estados Unidos”. Alguns criticavam-na pois a classe operária gringa tinha pouco a ver com tais benefícios. Pelo menos, beneficiava-se numa proporção bastante menor. Mas agora, a situação parece estar a mudar num sentido bastante mais radical: o que é bom para as grandes corporações multinacionais estado-unidenses já deixou de ser bom para o capitalismo dos EUA. 


[1] Lenin, “El imperialismo, fase superior del capitalismo”, en Obras Escogidas, Tomo I, pág.741. Edit. Progreso, Moscú, 1978.
[2] Ver R. E. Scott, “The China toll: growing U.S. trade deficit with China cost more than 2.7 million jobs between 2001 and 2011, with job losses in every state”; Economic Policy Institute; Briefing Paper, n° 345.
[3] R. E. Scott, “Renegotiation NAFTA is putting lipstick on a pig”; en Economic Policy Institute, 21 de Agosto, 2017 (página electrónica).
[4] R. E. Scott, ibídem.

[*] Economista, chileno, professor universitário no México. 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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Pour un socialisme du bien vivre – Rafael CORREA

Le Grand Soi

Conférence faite en français à Marseille, par l’ancien président de l’Equateur

Pour un socialisme du bien vivre

Vendredi 25 août à Marseille, les AmFis d’été de la France insoumise accueillaient un invité exceptionnel en la personne de Rafael Correa, ex-président équatorien (2007-2017).

Voici l’intégralité de la conférence qu’il a prononcée, en français, sur “le socialisme du bien-vivre”. Il est également revenu sur son expérience à la présidence de l’Équateur et a analysé l’évolution politique de l’Amérique latine.
Son intervention s’est achevée dans un tonnerre d’applaudissements et sous les cris de “Correa amigo, el pueblo esta contigo” (’’Correa, notre ami, le peuple est avec toi’’).

INTRODUCTION

Après avoir vécu non seulement une crise économique, sociale et démocratique, fruit du fondamentalisme néolibéral, mais aussi une crise de leaders et d’idées, une grande partie de l´Amérique Latine a réussi à s´éloigner du joug des technocrates obséquieux et de l´orthodoxie aveugle qui nous a mené à la ruine. Nous avons eu l´audace de penser à nouveau par nous-mêmes, à repenser notre propre notion de « l´économique et de la politique ». C´est ainsi qu´a surgi le Socialisme du Bien Vivre.

Le socialisme du Bien Vivre se nourrit de la conjugaison réflexive de plusieurs socialismes : le classique, le scientifique, mais aussi le socialisme agraire d´Emiliano Zapata, le socialisme andin du péruvien José Carlos Mariátegui, la Doctrine Sociale de l´Eglise, de la Théologie de la Libération, ainsi que de la longue histoire marquée par les luttes émancipatrices de nos peuples.

Le socialisme du Bien Vivre ne se réduit pas à des modèles, mais se base plutôt sur des principes. Nous rejetons les recettes toutes faites et les dogmes. La pire des erreurs, surtout si la gauche est au gouvernement est d’agir en fonction de ses fixations mentales, de ses expectatives idéologiques et non pas en fonction de la réalité.

Nous partageons avec le socialisme traditionnel le besoin de l´action collective, de l’importance du rôle de l´État, de la défense de ce qui est public face au simplisme individualiste ; de la recherche permanente et fondamentale de la justice dans toutes ses dimensions, unique manière d´atteindre la vraie liberté ; de la suprématie de l´être humain sur le capital ; et de l´importance de générer des valeurs d’usage, c’est-à-dire, des biens publics nationaux et globaux.

Le socialisme du Bien Vivre est l´héritier de toutes les meilleures manifestations du socialisme traditionnel, mais s’y confronte aussi avec courage et esprit critique, sans crainte de pensée, les dogmes que l´Histoire s’est elle-même chargée d´enterrer.

L’ACTION COLLECTIVE ET LE RÔLE DE L’ÉTAT

Une des erreurs commises par la gauche traditionnelle a été celle de nier l’existence du marché. Les marchés sont une réalité économique. Mais il est sans doute bien différent de parler de sociétés AVEC un marché, que de sociétés DE marché, où les vies, les personnes et la propre société ne sont qu’une marchandise en plus.

La société ne peut pas exister en fonction des nécessités mercantiles, c’est le marché qui doit exister en fonction des nécessités sociales. Le marché est un magnifique serviteur, mais un très mauvais maître. C’est donc pour cela que sont indispensables l’action collective et un rôle adéquat de l’État pour gouverner le marché et le faire porter les fruits socialement désirés.

Voici ce que la droite traduit comme une limitation de la liberté. Pour eux, la liberté équivaut à la non intervention, alors que, pour nous, la liberté est la non domination. C’est- à- dire que nous cherchons à doter les individus de capacités et, en tant que société, à assumer le devoir de réguler les pouvoirs qui peuvent nous dominer.

Nous ne pouvons pas permettre qu’on nous vole le principe de liberté. Il n’est pas en contradiction avec la justice. De surcroît, dans des sociétés aussi inégales que les latino-américaines, c’est seulement à travers de la justice que nous arriverons à une vraie liberté.

Il est évident que tout est une question politique. La gauche doit revendiquer la politique. On nous présente la politique comme un monde nécessairement sombre, corrompu et méchant. Tout cela est une stratégie pour maintenir le statu quo et empêcher quelconque changement dans les relations de pouvoir. La satanisation du pouvoir politique en Amérique Latine est une stratégie pour immobiliser tout processus de changement, pour nous faire croire que nous n’avons pas besoin d’hommes politiques, mais seulement de managers.

Le développement est en essence, une question politique. C’est ensuite que viennent les questions techniques. Le problème fondamental réside dans qui détient le pouvoir dans une société : les élites ou les grandes majorités ? Le capital ou les êtres humains ? Le marché ou la société ?

Tout au long de son histoire, l’Amérique Latine a été dominée par des élites qui ont exclu les grandes majorités des bénéfices du progrès. Leur attitude rentière a même fait obstacle à un progrès majeur pour elles-mêmes. Aujourd’hui, à l’échelle mondiale, nous sommes dominés par les intérêts du grand capital, ce que j’appelle « L´empire du capital », particulièrement du capital financier.

C´est justement là que réside l’essence même de la Révolution Citoyenne : dans le changement des relations de pouvoir en faveur des grandes majorités. La transformation de l’État bourgeois dominé et au service d’une minorité, dans un État véritablement populaire, au service du bien commun et de l’intérêt général.


DÉCENNIE GAGNÉE

Grâce à ce changement dans les relations de pouvoir, nous avons réussi à atteindre en Équateur ce que nous appelons la « décennie gagnée », c’est à dire un pays totalement différent de celui que nous avons reçu en 2006.

Nous avons doublé la taille de l’économie. Malgré deux années extrêmement difficiles et la contrainte de ne pas avoir de monnaie nationale, nous avons atteint un taux de croissance supérieur à la moyenne de la région latino-américaine. Nous sommes passés du statut de pays de rente basse à un pays de rente moyenne. De même, nous sommes passés d’un développement humain moyen à un développement humain élevé. Selon des études internationales nous sommes le pays qui a su le mieux profiter du boom pétrolier.

D’après la Commission Économique pour l’Amérique Latine, des Nations Unies (CEPAL), nous nous trouvons aujourd’hui parmi les trois pays les moins inéquitables de l´Amérique du Sud, alors que 10 ans auparavant nous nous trouvions parmi les pays les plus inéquitables. Nous avons aussi réussi à réduire de 16,5 points de pourcentage la pauvreté multidimensionnelle – c´est-à-dire la définition la plus complète de la pauvreté – ce qui équivaut à 1,8 millions d’Équatoriens qui sont sortis de la pauvreté. Nous pouvons nous vanter d´avoir attaqué les causes structurelles de cette pauvreté et non pas de l´avoir maquillée. La pauvreté s´est notamment réduite grâce à la croissance économique mais surtout grâce à la redistribution des revenus. Lors de la décennie précédente, avec le néolibéralisme, la croissance économique a réussi à avoir un effet total de réduction de la pauvreté. Par contre, une plus grande concentration de la richesse a eu tendance à l’augmenter.

Le développement social a fait de grands pas en avant avec un système éducatif qui, d´après l´UNESCO est celui qui progresse le plus en Amérique Latine. En ce qui concerne l´infrastructure productive, nous sommes considérés comme le pays le plus avancé en voirie de la région, alors qu’auparavant nous étions parmi les pires. L’Équateur a réussi à atteindre la souveraineté énergétique. Aujourd’hui nous exportons de l’énergie, alors qu’avant nous en importions. De manière générale, nous avons une compétitivité systémique largement supérieure qu’il y a dix ans.

Nous avons aussi vécu une « décennie gagnée » en stabilité politique, en ce qui concerne l’institutionnalisation et l’efficacité de l´État et la solidité de notre démocratie. Avant notre gouvernement, nous avons connu 7 présidents dans l’espace de 10 ans, et aucun des 3 présidents élus n’a réussi à finir son mandat.

Le 24 mai 2017, lorsque j’ai laissé la Présidence de la République de l’Équateur, pour la première fois en vingt ans, un président élu passait le pouvoir à un autre président légitimement élu.

LA TEMPÊTE PARFAITE

Lors des deux dernières années nous avons souffert ce que j’appelle la « Tempête parfaite » : le crash des exportations et une simultanée appréciation du dollar, monnaie d’utilisation nationale, combinaison qui détruit l’économie. Les dépréciations de la monnaie dans nos pays voisins ont atteint jusqu’à les 80% comme fut le cas de la Colombie, mais il nous a été impossible de répondre monétairement puisque nous n’avons pas de monnaie nationale.

Fin 2016, notre total d’exportations fut équivalent à 64% de la valeur correspondante en 2014, ce qui signifie une réduction d’à peu près 10 milliards de dollars, plus de 10% du PIB.

En ce qui concerne le niveau fiscal nous avons perdu près de 12,5% du PIB de revenus nets car nous avons été menés, pour la première fois dans notre histoire, à transférer des ressources fiscales pour que les entreprises pétrolières publiques ne fassent pas faillite. Nous avons aussi dû subir des verdicts légaux en faveur d´entreprises transnationales de pétrole, qui nous ont obligés à payer une sanction supérieure à 1% de notre PIB en quelques mois. Finalement nous avons fait face à la plus grande tragédie du pays depuis ces soixante-dix dernières années avec le tremblement de terre de 7,8 sur l’échelle de Richter, qui a secoué nos côtes le 16 avril 2016 et qui a coûté la vie de centaines de nos compatriotes ; réduisant les chiffres de croissance de 0,7% et produisant ainsi des pertes de plus de 3% du PIB. Ce séisme a eu plus de 4000 répliques, quelques-unes d’entre elles de plus de 6 sur l’échelle de Richter, c’est-à-dire comparables avec le tremblement de terre qui a détruit en août de l’année dernière la ville italienne d´Amatrice.

Jamais dans l´histoire de mon pays, nous n´avions cumulé autant de chocs externes négatifs en si peu de temps.

Peu avant le tremblement de terre, le Fond Monétaire International prévoyait un décroissement de 4,5%. Finalement nous avons réussi à terminer l´année 2016 avec 1,5% de décroissance. Le premier trimestre de 2017, l´économie de l´Équateur a crû de 2,6%, ce qui signifie que nous avons surmonté la récession en un temps record et avec des coûts minimes.

Lénine disait que la politique est de l´économie concentrée. Il est vrai que la politique dépend fortement de l´économie. Cependant, nous avons tellement fait ces dix dernières années que nous avons quand même réussi à gagner les élections dans un contexte de récession.

Le poids des mesures que nous avons dû prendre pour protéger le secteur externe et pour financer la reconstruction des zones dévastées par le tremblement de terre, sont tombées sur les plus riches. Lors des deux dernières années, malgré la décroissance économique, il n’y a pas eu d’augmentation des inégalités ni de la pauvreté, ce qui est inédit en Amérique Latine.

La droite et l´opposition à notre gouvernement ont argumenté que le succès du modèle équatorien est dû au boom des commodités, ce fameux boom qui aujourd’hui n´est plus une réalité.

Il est clair qu´il est plus facile de gouverner pendant les époques d´expansion que de récession, mais malgré cela, le modèle socialiste a eu plus de succès dans les deux cas. Le système de protection sociale mis en place lors de la dernière décennie, comme par exemple la santé gratuite, l´éducation gratuite, l´Université gratuite, et l´allocation chômage, ont défendu les droits des plus vulnérables pendant ces dures années.

RESTITUTION DU CONSERVATISME

Pendant ce temps-là, que se passait- il au niveau régional ?

Une fois passée la longue et triste nuit néolibérale des années quatre-vingt-dix, qui a plongé dans la faillite plusieurs nations dont l´Équateur, et à partir du moment où Hugo Chavez a gagné les élections au Venezuela en 1998, les gouvernements de droite et soumis aux pouvoirs de toujours, ont commencé à tomber comme des châteaux de cartes, laissant place, tout au long de notre Amérique, aux gouvernements populaires du socialisme du Bien Vivre.

Lors de son apogée en 2009, des 10 pays qui composaient l´Amérique du sud, 8 d´entre eux étaient gouvernés par la gauche, en plus de El Salvador, avec l´arrivée du Front Farabundo Martí, le sandinisme au Nicaragua, Manuel Zelaya en Honduras et Alvaro Colom en Guatemala.

Dans des pays comme El Salvador, le Guatemala, ou le Paraguay avec Fernando Lugo, ce fut la première fois dans leur histoire que la gauche arrivait au pouvoir, dans ce dernier cas mettant fin à plusieurs siècles de bipartisme.

En mai 2008 nait l´UNASUR, Union des Nations Sud-Américaines, et, en février 2010 se crée la CELAC, Communauté des États Latino-américains et des Caraïbes, avec 33 membres. Des 20 pays latins qui composaient la CELAC, 14 d´entre eux étaient gouvernés par la gauche, c´est à dire 70 %.

La première partie du 21ème siècle fait sans doute partie des « années gagnées ». Les progrès économiques, sociaux et politiques ont été historiques et ont surpris le monde entier. Et tout ceci dans un environnement de souveraineté, de dignité, d´autonomie, et de présence dans la région mais aussi dans le monde entier.

Il est évident que cette situation a joui d´une conjoncture mondiale favorable en ce qui concerne les prix des matières premières, base des exportations sud-américaines. La grande différence est que cette richesse a été réinvestie pour le Bien Vivre de nos peuples.

L´Amérique Latine n’a pas vécu une époque de changements, mais plutôt un véritable changement d’époque, qui a aussi bouleversé substantiellement l´équilibre géopolitique de la région. C’est pourquoi, il était indispensable pour les pouvoirs factuels et les pays hégémoniques, de mettre fin à ces processus de changement.

En 2002, le gouvernement d’Hugo Chavez a déjà dû supporter une tentative de coup d´État. Depuis 2008, la droite a intensifié ses tentatives anti-démocratiques d´en finir avec les gouvernements progressistes, comme en Bolivie en septembre 2008, au Honduras en 2009, en Équateur en 2010 et au Paraguay en 2012. Toutes ces atteintes à la démocratie ont été contre des gouvernements de gauche, et deux ont abouti, au Honduras et au Paraguay.

Peu à peu, les réactions de droite se sont consolidées, avec une stratégie et collaboration internationale, avec la complicité des médias, et surtout en tirant profit des circonstances économiques adverses à partir de la deuxième moitié de 2014.

Il ne s´agit plus seulement d´une tentative de restitution du conservatisme, comme je les ai appelées deux ans auparavant, par rapport aux coalitions de la droite jamais vues et qui jouissaient d´un soutien international, avec des ressources illimitées, bénéficiant de financement externe, etc., ce qui a pu être constaté dans les élections locales à Quito. Mais au moins, dans ce cas-ci, la voie démocratique a été utilisée. Aujourd’hui la réaction s’est approfondie et a perdu toutes limites et scrupules. Nous sommes face à un nouveau « Plan Condor ». Quarante ans auparavant, sa cible était la jeunesse qui croyait en un monde meilleur et s´opposait à la brutalité des dictatures militaires financées par le pays du Nord. Aujourd’hui, ses cibles sont les gouvernements progressistes de la région.

C´est pour cela que nous souffrons aujourd’hui du harcèlement et du boycott économique de notre chère Venezuela, du coup d´État parlementaire au Brésil, et de la judiciarisation de la politique comme nous le prouvent les cas de Dilma Roussef, Lula Da Silva et Cristina Fernandez de Kichner, et, plus récemment, même de l´Equateur.

Les tentatives de destruction de l’UNASUR et de neutralisation de la CELAC, tentant de faire revivre la moribonde Organisation de États Américains, son évidentes, et souvent, effrontées. Ne parlons même pas de ce qui se passe actuellement pour le Mercosur. Même l´échec sonnant de l´ALCA au début du siècle tente d´être surmonté par la nouvelle Alliance du Pacifique.

En Amérique du Sud, actuellement, il ne reste que quatre gouvernements qui peuvent se qualifier comme progressistes. Je ne peux même plus compter parmi eux l´Équateur, à cause de tout ce qui se passe en ce moment dans ma Patrie.

Les difficultés économiques des pays comme le Venezuela ou le Brésil sont présentées comme des exemples du supposé « échec » du socialisme, alors que l’Uruguay, gouverné par la gauche, est le pays le plus développé au Sud du Rio Bravo, ou alors même que la Bolivie jouit des meilleurs indicateurs macro-économiques de toute la planète.

La droite veut revenir à tout prix et elle a la soif de vengeance, après dix ans de défaites successives.

Nous sommes peut-être les victimes de notre propre succès. Selon la CEPAL, pendant ces dix dernières années, presque 94 millions de personnes sont sorties de la pauvreté et font partie maintenant de la classe moyenne régionale. Ceci peut être sans aucun doute attribué aux politiques des gouvernements de gauche.

Au Brésil, 37,5 millions de personnes sont sorties de la pauvreté entre 2003 et 2013, et font aujourd’hui partie de la classe moyenne. Néanmoins, ces millions de personnes ne se sont pas mobilisées lorsqu´un parlement accusé de corruption a destitué la Présidente légitimement élue, Dilma Roussef.

Nous sommes aujourd’hui face à des personnes qui ont surmonté la pauvreté et qui maintenant, malgré l´amélioration de leurs conditions de vie, demandent encore plus, et se sentent pauvres, sans prendre comme référence ce qu’ils ont, et encore moins ce qu’ils avaient, mais plutôt ce à quoi ils aspirent. Nous appelons ce phénomène « prospérité objective et pauvreté subjective ». Ces personnes se laissent ainsi facilement emporter par les chants de sirène d´une droite qui, avec la complicité des médias, offre à tout le monde, un style de vie à la new-yorkaise.

ATTAQUES

La nouvelle droite accuse les gouvernements progressistes d’être « idéologiques » et de manquer de technique lors de la gestion du développement national. Soit ils dissimulent soit ils ne comprennent pas que le développement est fondamentalement un problème politique, où l´orientation de la politique publique est nettement idéologique et, dans notre cas, cherche la priorité du public, c´est- à- dire, des grandes majorités.

Il est flagrant de voir comment le marketing et le discours bien ficelé de la nouvelle droite cherchent des indéfinitions politiques, ses représentants n´apparaissent pas comme des leaders politiques, mais plutôt comme des PDG qui ont réussi dans le monde de l´entreprise.

Mais ce sont les médias qui assument aujourd’hui le rôle des principaux partis d´opposition. Maintenant, se sont eux les vrais représentants du pouvoir politique entrepreneurial et conservateur.

La relation qui lie les capitaux des médias au secteur financier et des affaires est scandaleuse. Lorsque je suis arrivé au gouvernement, parmi les 7 chaînes nationales de télévision, 5 étaient sous la propriété du secteur banquier. Il n’existait même pas de télévision publique.

Nos démocraties doivent s’appeler des démocraties médiatisées, parce que les médias sont un élément plus important du processus politique, que les partis politiques et les systèmes électoraux. En effet, ils ont substitué à l’État de droit l’État d’opinion. Peu importe quel ait été le programme présenté pendant la campagne électorale et ce que le peuple, le souverain de toute démocratie, ait décidé dans les urnes. Ce qui compte réellement c’est ce qu’approuvent ou désapprouvent dans leurs titres quotidiens les médias.

Bien que cela soit un problème planétaire, compte tenu des monopoles médiatiques détenus par une poignée de familles, le problème est encore plus sérieux en Amérique Latine. Les médias montrent d´importantes lacunes éthiques et professionnelles, et une insolente participation en politique.

Le débat devrait poser la question si une société peut être réellement libre lorsque la communication, et particulièrement l´information, est fournie par des entreprises privées, à but lucratif.

C´est un pouvoir sans aucun contre-pouvoir, mais personne n´ose parler de cela, par crainte d´être stigmatisé comme un ennemi de la liberté de presse, bien que, depuis que la presse est apparue, la liberté de presse n´est rien d`autre que la volonté du propriétaire de l’imprimerie.

On accuse aussi nos gouvernements d´être « populistes », un concept assez flou qui est souvent associée avec la démagogie, l´irresponsabilité et l´absence de technique, et qui sert finalement à définir tout ce qui s´éloigne de la logique du marché et des canons des démocraties libérales occidentales.

On confond souvent ce qui est populaire avec le populisme. Dans le cas de mon gouvernement, il a été très populaire mais il fut aussi un des gouvernements les plus techniques de l´histoire de mon pays.

La double morale internationale est aussi impressionnante : si Angela Merkel cherche sa réélection en Allemagne, cela est qualifié comme une démocratie mûre et avec une grande capacité de leadership. Par contre, si un dirigeant politique latino-américain fait la même chose, ceci est qualifié de dictatorial et d´autoritaire.

Finalement nous pouvons dire que la soi-disant « lutte contre la corruption » est devenue un outil efficace pour détruire les processus politiques progressistes et populaires de notre Amérique. Le cas le plus emblématique est celui du Brésil, où une opération politique très bien ficelée a abouti à la destitution de la présidente Dilma Roussef après quoi, il a été démontré qu´elle n´était pas du tout coupable de ce dont on l´accusait. En ce moment, en Équateur, le même scénario du Brésil est en marche pour écarter le Vice-Président de la République du pouvoir.

Et bien sûr, on dit toujours que la corruption est de la faute de l´État. On parle maintenant aussi d´une confrontation entre la société civile et l´État, la première qualifiée de bonne et le second de mauvais, alors que l´État n´est autre chose que la représentation institutionnalisée de la société.

Qui peut s’opposer à une vraie lutte contre la corruption ? Ce fut justement une de nos principales luttes pendant les dix dernières années, et nous avons mis fin à une corruption institutionnalisée qui existait auparavant. Mais la soi-disant lutte anti-corruption dirigée par la droite et par les médias est tout à fait fausse et est utilisée comme un instrument d´attaques politiques, à l’image de ce qu’a été l’utilisation de la lutte contre le trafic de drogues dans les années 90, ou de la lutte contre le communisme. Pour parler d´une vraie lutte contre la corruption il suffirait par exemple d´interdire les paradis fiscaux, où est finalement concentrée toute la corruption que nous avons dû affronter.

On nous parle d´un manque de contrôle, d´une certaine acceptation des systèmes de corruption. Mais je me demande : quel type de contrôle permet de détecter un pot de vin payé sur un compte secret dans un paradis fiscal ?

En Équateur, les contrôles sont si stricts qu´il est obligatoire de déclarer l´origine des virements de plus de 10 000 dollars. Par contre, dans les paradis fiscaux, il est possible de déposer des millions, sans que personne ne contrôle rien du tout.

La réalité est donc bien différente. On peut citer aussi le cas d´Odebrecht, une entreprise de construction du Brésil qui a mis en place toute une structure de corruption dans 12 pays. On constate donc que la corruption, en grande partie, vient aussi du secteur privé. Dans des pays comme l´Allemagne, jusqu´à il n´y a pas si longtemps, les entreprises pouvaient même déduire de leurs impôts les pots de vin versés dans nos pays !

Il existe donc encore une énorme hypocrisie dans le monde à propos de la lutte contre la corruption.

Sur ce, il est important de signaler que l´Équateur est le premier pays du monde qui a approuvé au travers d´un referendum, une loi qui empêche aux fonctionnaires d´effectuer des opérations de n´importe quel type dans des paradis fiscaux. Mais bien que l´utilisation de ces endroits pour cacher de l´argent illégalement accumulé soit maintenant interdite, ils continuent à exister.

CONCLUSIONS

Chers compagnons :

Ce sont des temps difficiles pour l´Amérique Latine, mais pas terribles. Nous ne sommes plus la gauche du 3% de voix. Nous sommes aujourd’hui une gauche avec une vocation à gouverner et qui a fait preuve d´importants succès.

Néanmoins, il est clair qu´il existe un retour du conservatisme, d´une droite nationale et internationale qui a vaincu son étourdissement de plus de dix ans de défaites politiques. Aujourd’hui cette droite s’est construit un nouveau discours, une nouvelle articulation, possède des ressources illimitées, elle détient le monopole des médias et profite des inévitables problèmes liés au pouvoir, comme le changement de cycle économique et des cas isolés de corruption.

Que peut-on faire face à tout cela ? Il ne nous reste qu´un seul chemin : je cite le grand Simón Bolívar, alors qu´il se retirait du Pérou soi-disant vaincu et victime de l´ingratitude.

Que peut-on faire face à tout cela ? Vaincre !

Hasta la victoria siempre !

Rafael CORREA
Marseille, 25 août 2017.

URL de cet article 32265
https://www.legrandsoir.info/pour-un-socialisme-du-bien-vivre.html

   

Venezuela, entre o chavismo (Socialismo do Século XXI, ou seja, Sem Estatização dos Meios de Produção) e a restauração colonial – por Jorge Beinstein

“A crise venezuelana aprofunda-se. O governo respondeu ao assédio da direita e dos EUA lançando a iniciativa da Assembleia Constituinte. A sua intenção foi produzir uma mudança radical de cenário, convertendo os seus atacantes da direita em assediados golpistas por uma provável avalanche popular mobilizada para um novo modelo institucional, fundada no poder comunal, expressão directa das maiorias populares. As redes sociais e um número crescente de autores referem-se à perspectiva de uma “guerra civil”.

A oposição de direita aparece girando em torno de dois pólos, um extremista, que alguns descrevem como “uribista” (de Uribe ex-presidente colombiano), imerso num raivoso neofascismo, que postula o derrube urgente do governo e a instalação de um regime de terror anti-chavista e outra mais moderada – que pressiona para a realização de um tipo de golpe suave ou até mesmo a antecipação das eleições presidenciais em que supõe sair vitoriosa. A perspectiva de um levantamento armado imediatamente assistido por uma intervenção externa, colombiana ou multinacional, pilotada por Washington, é vista cada vez mais por todos eles como altamente provável (e desejável embora ainda nem sempre confessado).

Por seu lado, o governo procura ganhar tempo, procura meter umas rasteiras à direita, como a de convocar a Assembleia Constituinte, pretende dividi-la estabelecendo pontes de negociação com a suposta oposição civilizada. O seu objectivo publicitado diariamente é a “paz”. Alguns supõem que é uma estratégia hábil que deveria reduzir o espaço social da direita empurrando os seus sectores “moderados” para negociação, e estabelecer áreas de convergência com o chavismo. Mas no chavismo aparecem vozes críticas, ressaltando que este pensamento de pacifismo a todo o transe anula as perspectivas revolucionárias bolivarianas, enterra as bandeiras do socialismo do século XXI e na realidade expressa a vontade da “boli-burguesía”, uma burguesia arrivista que se desenvolveu nos últimos anos à sombra dos negócios com o Estado e mais em geral com a direita chavista tentando estabelecer uma espécie de acordo conservador, pacto de unidade nacional onde navegariam triunfantes os expoentes da velha e da nova burguesia.

Carlos Morreo, por exemplo, estabelece a diferença entre o ” ;chavismo governamental” ; e “o chavismo amplo” [1] que outros identificam como o “povo chavista” animado pelas façanhas de seu líder histórico, transcendendo as jogadas tácticas deste ou daquele dirigente. Reinaldo Iturriza Lopez, que foi até há pouco ministro do Poder Popular para as Comunas e, mais recentemente, ministro da Cultura afirmou que “chavismo é, para dizer como John William Cooke, “o empreendimento maldito da política burguesa de um país”. Cooke referia-se, claro, ao peronismo, num texto de 1967, mas a sua frase aplica-se ao caso venezuelano.

O chavismo é, desde a sua criação, um fenómeno “maldito” para a burguesia, porque aquilo que lhe dá coesão não é sua capacidade de aglutinar o descontentamento, mas seu forte antagonismo contra o status quo. Antagonismo que adquiriu aspectos anti-capitalistas com o passar dos anos e no calor da luta como assumiram de viva voz tanto Chávez como as suas linhas de forças mais avançadas [2] .

Encontramo-nos então perante o inevitável confronto entre uma direita contra-revolucionária, firmada ideologicamente no capitalismo e no elitismo colonial e o povo chavista transbordando, com apenas a sua presença, os limites do sistema. Neste caso, paz é uma quimera porque são duas forças históricas avançando em sentidos opostos. Dia a dia a avalanche de acontecimentos, caos económico, incessante bombardeio mediático global sobre a Venezuela, dificultam olhar a realidade para além da desordem quotidiana. 

Petróleo e geopolítica 

A Venezuela tem a maior reserva mundial de petróleo (cerca de 300 mil milhões de barris de crude, de acordo com as estimativas mais recentes), quase um quinto do total mundial, superando a Arábia Saudita (cerca de 265 mil milhões de barris). Em 2003 quase 70% das exportações de petróleo venezuelano foram para os Estados Unidos mas em 2016 tinham caído para 20%, em alternativa 40% vai para a China e 20% para a Índia.

Esta orientação asiática (principalmente chinesa) da maior reserva de petróleo do mundo, longe da velha dependência do mercado imperial, constitui um casus belli de primeira ordem na estratégia dos Estados Unidos, a perda da Venezuela agora associada à China aparece como uma situação intolerável. Mais ainda quando as ilusões americanas sobre a sua produção de xisto betuminoso arrefeceram de acordo com a previsão oficial dada pela Energy Information Administration: no ano 2021 iria atingir-se o nível mais alto deste tipo de produção e a partir daí começaria a declinar. [3]

As reservas petrolíferas do império esgotam-se e também a paciência de Washington, o império está a perder a sua grande guerra asiática e com isso a sua ilusão de controlar a maior parte das reservas de gás e petróleo do planeta. Consequentemente, a reconquista da Venezuela passa a estar no primeiro nível de suas prioridades. Além disso, este projecto faz parte da estratégia de recolonização da América Latina, retaguarda histórica do império a que a derrota na Ásia atribui excepcional importância.

Mas a recolonização da Venezuela não é uma tarefa fácil, não se pode lá realizar um golpe suave, nas suas diversas formas, como aconteceu nas Honduras, Paraguai, Brasil ou Argentina, principalmente porque não só existe uma força militar convencional fortemente influenciada pelo chavismo, mas também milícias populares e todo o apoio de uma alta capacidade de mobilização de milhões de chavistas.

A intervenção das forças militares colombianas sempre foi uma alternativa, mas era difícil quando na retaguarda destas forças apareciam as FARC e seus milhares de guerrilheiros. Uma complexa estratégia de desarmamento dos rebeldes foi desenvolvida de maneira paciente e sistemática, pressionando os governos de Cuba, Venezuela e vários Estados progressistas da região que mediaram as negociações de paz, combinando ofertas atractivas, golpes baixos e um amplo espectro de acções directas e indirectas sobre as FARC, desenvolvendo uma Guerra de Quarta Geração de alto nível de sofisticação.

O resultado foi positivo para Washington, as FARC concordaram em desarmar e a retaguarda estratégica dos militares e paramilitares colombianos estava livre de perigos. Agora o que é considerado como o melhor aparelho militar da região tem as mãos livres para cumprir as ordens do seu amo imperial e colocá-las no pescoço bolivariano. [4]

Sem excluir a intervenção militar, por agora, os Estados Unidos desenvolvem uma estratégia de desgaste: sabotagem económica, guerra das ruas, ofensivas mediáticas, diplomacia de cerco, jogo de negociações e outras acções destinadas a isolar, degradar e dividir o inimigo chavista. Nos cálculos dos estrategas Imperiais é certamente o cenário do salto qualitativo passando do desgaste para uma insurreição político-militar fase convergente com a intervenção externa.

Esperanças e frustrações 

De acordo com dados do Banco Mundial, em 1960, 61% da população venezuelana era urbana, em 1980 chegou a 79% em 2000 passou para 88% e em 2015 quase para 90%. Uma crescente massa populacional passou a estar nas grandes cidades, principalmente em Caracas, não como resultado da industrialização, mas da reprodução alargada de parasitismo. Destruição social levada a cabo por uma burguesia importadora e financeira dona do Estado que desde 1976, com a nacionalização da produção de petróleo, se apropriava das divisas geradas pelas exportações (em mais de 90% resultado de vendas de petróleo bruto e seus derivados), herdando, remodelado, o velho sistema dominante baseado nas exportações de couro, cacau e café, garantindo a continuidade do subdesenvolvimento.

A economia de renda (petrolífera) bloqueou as possibilidades de desenvolvimento industrial e destruiu o tecido agrário, as vítimas do desastre passaram a engrossar as fileiras dos marginais. O modelo explodiu com o Caracazo (1989) [NR] e a vaga popular abriu o caminho da Revolução Bolivariana, Chavez era o seu líder. Este despertar das massas submersas moveu-se até à formulação de um horizonte pós-capitalista: o socialismo do século XXI. Mas o que aconteceu foi uma sucessão de obstáculos, dificuldades e deficiências que foram estabelecendo uma distância crescente entre os objectivos socialistas proclamados e a capacidade de reprodução, embora isto fosse degradado pelo país burguês que se pretendia superar.

A burguesia comercial-financeira foi pressionada, às vezes golpeada, maltratada, mas não eliminada. Não só não foi superado o capitalismo como o seu funcionamento se tornou caótico, não tendo sido substituído pela estatização socialista (que o ” ;socialismo do século XXI” ; chavista queria superar) nem pelo “socialismo, comunal” proposto produto da auto-organização das bases populares. No meio desta confusão, reproduziu-se a partir do Estado uma elite emergente parasitária com fachada de bolivariana e práticas corruptas: a boli-burguesía. O velho sistema decadente não só sobreviveu aos seus antigos crápulas mas gerou novos homens de negócios turvos.

Fica assim colocada a tragédia com final em aberto, os seus atores estão à vista. A velha burguesia parasitária arrastando um vasto conjunto social multiforme onde as camadas médias têm um papel essencial, não têm um programa definido, apenas a fúria anti-chavista os reúne. Frente a ela um vasto espaço chavista agrupando civis e militares, boli-burgueses e massas populares radicalizadas, conciliadores com a direita e revolucionários. Espaço heterogéneo, que oscila entre a rendição honrosa e o salto para o pós-capitalismo. Enquanto isso, o império vai medindo forças, ajustando os dispositivos de intervenção, sabe que mesmo afastando o governo chavista nada lhe assegura o controlo do país e em consequência o seu petróleo”.

Notas
[1] Carlos E. Morreo, “La constituyente es una decisión estratégica”, Aporrea, 06/05/2017, www.aporrea.org/actualidad/a245486.html
[2] Reinaldo Iturriza Lopez, “Chavismo y revolución¿que pasa en Venezuela”, Rebelión, 31/08/2016, www.rebelion.org/noticia.php?id=2161151
[3] US Energy Information Administration, AEO 2014, Early Release Overview.
[4] É muito esclarecedor o recente artigo de Tony Lopez Rodrigues destacado membro da diplomacia cubana: “El gobierno de Colombia ante la crisis interna venezolana”, 24.-04- 2017, PIA – Periodismo Internacional Alternativo – Nac&Pop, nacionalypopular.com/…

[NR] Revolta popular em Caracas duramente reprimida pelo governo do social-democrata Carlos Andrés Perez com uma matança de mais de 3000 cidadãos. 

Portugal, Eucaliptos e a Depredação da Natureza

O meu sogro, que vive em Terena, Alto Alentejo, sabe e afirma que na sua terra, antes de terem começado as plantações de eucaliptos, a terra ressumava de água, que podia ser aproveitada para a agricultura. Agora, aquele território está seco, não se vêm regatos, é impossível a existência de cultivos que exijam um pouco de água, a não ser em volta da pequena barragem. A”lei” do menor esforço, a indústria nacional de pasta de papel e os apoios governamentais e europeus associados a tais interesses estão a fazer de Portugal a Austrália da Europa, e por mais que se retalhe o território para limitar a extensão dos incêndios (objectivo dos estudos encomendados), a aridez e o empobrecimento natural do território será inexorável enquanto esse negócio for sustentado e for economicamente viável.

Eric Hobsbawm: Ler com Urgência e para quem Não quiser ser Enganado

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Eric Hobsbawm em quatro volumes: A Era das Revoluções (1789- 1848), A Era do Capital (1848-1875), A Era do Império (1875-1914) e A Era dos Extremos (1914-1991).

The Demise of Globalization By Zoltan Zigedy

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February 17, 2017

“Globalization” is a slippery term: 1. Sometimes it is used as a description of the quantitative changes in the global economy that emerged in the 1980s. 2. Sometimes it is used to express a set of policy prescriptions that gained traction in that same period. 3. Sometimes it is used to name a theory positing a new era, epoch, or stage of capitalism, a qualitative change in the way that contemporary capitalism functions.

And sometimes the word is used in all three senses:
In the 1980s and early 1990s, global trade began to expand at a rate greater than its historic average. Revolutionary changes in logistics– containerization, transportation, inventory control, and information transfer– dropped the cost of transportation and shipping dramatically. Political changes unified the global market with the integration of the PRC economy and the breakup of the socialist economic community. Many emerging nations joined the global market when the socialist development model lost its sponsors. Similarly, capital flows expanded with the removal of political and Cold War obstacles. The workers formerly buffered by an alternative economic system– over a third of the global workforce– were cast into capitalist labor markets, an unparalleled infusion of cheaper labor. Capital mobility, political hegemony, and the logistical revolution brought additional low-cost labor from emerging economies into the global nexus. All of these factors and others achieved an increase in the rates of production, economic growth, and trade that persisted for over two decades.

The recognition of the failure of the Keynesian consensus among policy makers led to a return to classical market fundamentalism. The long stagnation and rampant inflation of the 1970s defied and discredited the various iterations of pump priming and fiscal mending that had served as tools since the Great Depression. The political reaction — the ascendency of Thatcher, Reagan, and their political offspring — brought a new set of prescriptions founded on free, unfettered markets.

International capitalist structures — IMF, World Bank, Bank of International Settlements, OECD, GATT etc. — and new ones– WTO– unhesitatingly embraced the return to market fundamentalism. In the wake of the new consensus, a slew of free-trade agreements was constructed to formalize the born-again faith in free markets, the most celebrated of which was the North American Free Trade Agreement. In the mid-1990s, the OECD attempted to secretly establish the most ambitious international compact, the Multilateral Agreement on Investment, an accord that would have given virtually unimpeded freedom of action to multinational corporations. The efforts to canonize market fundamentalism and formalize the tenets in institutions and trade agreements continue to this day– for example, in the Trans-Pacific Partnership.

For some, including a significant part of the academic left, the quantitative and policy changes unfolding in the 1980s signaled a new era of capitalism. As two influential theorists ominously put the matter: “Today we are in the early phases of the fourth epoch of capitalism.” In a hurry to replace Lenin’s theory of imperialism, they, and others, posited a stage where corporations eschewed a home base and adopted the entire global economy as their domain. At the same time, they saw a decline in the authority and significance of the nation state. International organizations like the IMF and the WTO were seen as nascent replacements for the nation state. Clearly, the concept of imperialism plays a diminished role in this picture.

The notion of a “centerless” capitalism reached its extreme with the publication in 2000 of Hardt and Negri’s Empire. This impenetrable, rambling exercise in pretension and intellectual indiscipline became an academic best seller and a fixture on the coffee table of every petty bourgeois rebel. The book wiped away in one fell swoop the identities relevant to left politics and replaced them with the amorphous concept of “the multitude.”

The Demise

The economic collapse of 2007-2008 put to rest the quantitative basis for “globalization.” From 1983 to 2008, global trade growth averaged over 6% with many double-digit spikes. Since then, global trade growth has dropped to 3% or lower (growth in 2016 was below 2%, the lowest since 2009).

The World Trade Organization calculates that, historically, typical trade growth runs at about 1.5 times GDP growth. During exceptional periods like the so-called globalization era, trade often grows at twice the rate of GDP. But WTO notes that today (and since the crisis began) the rate of growth is approximately the same for both trade and GDP (trade growth was actually below GDP growth in 2016).

After years of brisk growth, global container traffic slowed to 1.1% in 2015 and was virtually flat in 2016. Thus, the primary impetus for the globalization thesis– global trade growth — has evaporated.Other indicators hailed as signposts for globalization have also collapsed: foreign direct investment, the harbinger of future trade growth, was 40% less in 2015 than its pre-crisis peak. International lending, as measured by the Bank for International Settlements, dropped 9% over the two-year period, 2014-2015.

Clearly, the 2007-2008 collapse choked off the growth celebrated as “globalization” as emphatically and dramatically as it was heralded in the 1980s. Those who saw a new stage or epoch of capitalism emerging are surely chastened by its demise. Rather than signaling a new, triumphant age of capitalism, the global burst of growth beginning in the 1980s came from a unique, unrepeatable conjuncture of factors fortuitous to global capitalism. An unparalleled expansion of skilled, low-cost labor, a revolution in technology and logistics, and US political hegemony created momentum unusually favorable to capitalist growth.

That momentum is now spent.The theorists who foresaw a post-imperialism accompanying globalization were quickly dispelled of this illusion with a succession of imperialist wars masking as humanitarian intervention. In 1998, France, the poster child for national pride, squelched the MAI (Multilateral Agreement on Investment) that threatened to erode national sovereignties and hand them to the corporations.

The nation state was far from dead as the aggressor or the victim. In the twenty-first century, the aggressors were, time after time, the wealthy, powerful nations (in alliances of convenience) and the victims were the poorer, weaker states.

The copies of Empire have long vanished from the coffee tables. On the left, the heavy lifting against the “left” post-imperialism, globalization thesis was done by the editors and many of the writers at the estimable US magazine, Monthly Review. Throughout the 1980s and 1990s, MR carried on an intense campaign against the notion that capitalism had morphed into an economic system unrecognizable by classical Marxism. That battle has been won.

The Remains of Globalization

Globalization lives today only as an ideology, a set of policy prescriptions intimately linked to market fundamentalism. It sets the goal of removing any and all international barriers to markets. It draws its support from those who benefitted the most from the nearly three decades preceding the 2007-8 crash. In the advanced capitalist countries of Europe and North America, the capitalists, their courtiers, and a substantial petty bourgeoisie enjoyed large gains in income and wealth. The shift of manufacturing to low-wage countries and the growth of demand for raw materials trickled some benefits to workers in emerging economies.

But few benefits accrued to the traditional workforce of Europe and North America. Deindustrialization, redundancy, de-unionization, income stagnation, reduced and underfunded social services, and crumbling physical infrastructures have created working-class communities of hopelessness and despair. The ubiquitous signs of social deterioration — alcohol and drug abuse, suicide, violence, unhealthy lifestyles — have accompanied globalization in these countries. The crash of 2007-2008 brought the misery of working-class communities to a head, with harsh political consequences. The bourgeois and social democratic political parties of Europe and North America were unable to contain the anger and frustration of most workers.

Further, the post-Soviet-era retreat from Marxism left most political parties heartily embracing the harsh tenets of market fundamentalism and its accompanying global trade policies. The so-called era of globalization coincided neatly and significantly with the rise of “New” Democrats, “New” Labour, and “New” Socialists, the “left” purveyors of market fundamentalism. Their dominance of their respective parties drove the last remnants of welfare statism to the exits.

Excepting a few remaining mass Communist Parties committed to sweeping capitalism into history’s dustbin, workers were left with no real choices, no alternative to parties wedded to free markets, corporate success, and the decidedly failed slogan that “a rising tide lifts all boats.”

To step into this void, to present an alternative for workers, to establish a working-class beachhead, new political figures and formations sprung up throughout Europe and North America. Presenting a nationalist alternative to the internationalism of globalization, promising jobs on the basis of protected borders from foreign workers and global trade, and conjuring imagery of a lost golden age, politicians and parties challenged the monolithic ideology of unrestricted market relations and global exchange that brought such pain to the working classes.

This awkward amalgam of right-wing nationalism and populist rhetoric gained traction in recent years only because of the failure of traditional parties to break away from the dogmas of market fundamentalism and the failure of the left to establish an alternative to it. The feeble attempts by social democrats to conjure their own distant memories of the welfare state have fallen on deaf ears. Likewise, the anarchist-inspired turn to vague, utopian radical democracy offers no counter vision to capitalist economic relations.

Against the backdrop of two bourgeois political parties with an overlapping core commitment to the same failed economic philosophy, the fact that the first successful election of a right-wing “populist” occurred in the US should come as no surprise. Trump represents an alternative in desperate times, a false alternative, but an alternative nonetheless.For Europeans, Trump provides a foretaste of the contradictory character of the nationalist-populist brew. As Trump’s first month demonstrates, there is no content to “populism” beyond the fawning service to monopoly capital, cheerleading for small businesses, and an occasional soundbite for the working class. All the benefits to the working class are supposed to come from closing the borders to commodities, both human (labor power) and material (imports).

Assuredly, the nationalist alternative to marketization, commodification, and globalization will fail. At best, it will intensify competitive rivalries in the short run, creating bigger winners and bigger losers. But ultimately, economic nationalism will cost the global economy in terms of growth and inequality.

It must be noted, however, that the fierce fight against Trump and the forthcoming political struggles to stop the nationalist parties from power in Europe are tragically misguided if they simply succeed in reproducing the disastrous market fundamentalism and globalization policies that produced Trump and his counterparts in the first place.

Only something different from the false choice of market internationalism or narrow, fear-driven nationalism will spare the working class even greater pain. The two ideologies that are contesting for global hegemony are merely two versions, two faces of imperialism.Nostalgia for a long-lost, never-to-be-recovered, welfare-state capitalism will not serve the left in this time of crisis. Instead, we need to craft a bold socialist alternative.

Famine and Socialism — STALIN’S MOUSTACHE

One of the great myths concerning socialist collectivisation of agriculture is that it produced ‘man-made’ famines, since it is supposedly less ‘efficient’. This story is perpetrated by friend and foe alike. Example 1: The famine of 1932-33 in the Soviet Union, which is supposed to have been ‘man-made’. Let me set the context. During the […]

via Famine and Socialism — STALIN’S MOUSTACHE