George Steiner – Entrevista ao Expresso.

 

Ainda que não saia dos limites da mundividência liberal-burguesa, e embora não acredite em quase nada do que ele diz,

é bom ouvir um pensador de grande nível.

George Steiner: “O verdadeiro crime é viver demasiado” 

10.06.2017 às 19h00

enviada a Cambridge

“Continua a fazer os seus exercícios de tradução pela manhã? Sim, todos os dias. Acordo, vou para o escritório — onde tenho grande parte da minha biblioteca — e escolho um livro qualquer. Abro-o ao acaso e traduzo um fragmento. Faço-o para treinar as minhas quatro línguas, pois não quero que fiquem enferrujadas. 

E o que traduz? Poesia ou prosa? 

Poesia não. Não tenho essa coragem. Só prosa. Tento não falhar, faço-o sempre que tenho dias bons.

As línguas são uma fonte de energia, de criatividade? 

São o centro da minha vida interior e a razão por que acabei por ficar na Europa, o continente de onde a minha família fugiu. Na América teria tido mais oportunidades profissionais, mas é uma civilização monoglota e não está interessada em línguas estrangeiras. Então, só ficando na Europa teria a possibilidade de usar as outras línguas. 

Isto a que chama a sua ‘condição poliglota’, o que é exatamente? Como é poder habitar diferentes línguas? 

É como ter diferentes casas, diferentes personalidades. Vive-se numa linguagem, não num lugar. Mas isto começou quando eu era criança. A minha mãe costumava iniciar uma frase numa língua e acabá-la noutra, sem sequer se aperceber! Portanto, para mim, o francês, o alemão e o inglês eram completamente nativos. O italiano veio um pouco mais tarde. 

Estudso. Todos os dias Steiner faz exercícios de tradução. Para não perder a condição de poliglota, central na sua vida. Aqui, numa fotografia de 2008

Todos os dias Steiner faz exercícios de tradução. Para não perder a condição de poliglota, central na sua vida. Aqui, numa fotografia de 2008 

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Como era a sua família? 

Tinha características centro-europeias e vienenses, pois a minha mãe era austríaca e o meu pai checo. Eu nasci e fui criado em Paris, porque em 1924 a família mudou-se para França. O meu pai, que tinha uma intuição política extraordinária, estava certo de que o desastre na Alemanha e na Áustria estava para vir.

Esse não foi o único momento em que a intuição do seu pai funcionou. 

Não. De facto, em 1940, voltou a sentir o perigo e tirou-nos de Paris. De outro modo teria sido demasiado tarde. Ele não teve qualquer dúvida de que os alemães viriam e de que a França seria provavelmente vencida. Estava em Nova Iorque e mandou-nos chamar, porque teve uma informação, na qual acreditou, de que a França seria ocupada em poucos meses. Saímos de Génova no último navio americano para Nova Iorque.

Foi por isso que, num ensaio dos anos 60, se definiu a si próprio como “uma espécie de sobrevivente”? 

Sim, porque na minha escola em Paris, onde havia muitos judeus, só dois sobreviveram. Todos os outros foram mortos. Portanto, é um milagre ter sobrevivido.

E o que é ser um sobrevivente? 

É complicado. Significa ter vergonha, perguntar-se: ‘porquê eu?’, quando os outros morreram. E, por outro lado, significa ter ao longo da vida a obrigação de nunca esquecer.

Disse: “O escuro mistério do que aconteceu na Europa é uma parte da minha identidade.”

Continuo a dizê-lo. Nunca me esqueci daqueles que morreram e sinto-me neste momento muito pessimista de que aquilo possa acontecer de novo. O antissemitismo está de novo a aumentar por toda a parte, e há hoje países onde os judeus estão em perigo iminente. A Hungria, a Roménia… Nem imagina o agradecido que estou pelo facto de os meus filhos e netos viverem na América, porque esse é provavelmente o único lugar seguro para os judeus.

Afinal, o que aprendemos com a História? 

Absolutamente nada. O antissemitismo está presente mesmo na minha amada Inglaterra. Está a crescer, a multiplicar-se.

Parece um fenómeno sem fim à vista. 

E nunca terá. Há só dois povos na Terra que sobrevivem ininterruptamente há dois mil anos: os chineses e os judeus. Os chineses por serem tantos, os judeus por serem tão poucos.

No exato dia em que tomou a decisão de ficar na Europa — mesmo numa Cambridge que não o quis nomear professor efetivo —, ligou à sua mulher e disse-lhe que preferia viver aqui mesmo que isso implicasse ser um trabalhador fabril. 

Eu tinha ido visitar o meu pai a Nova Iorque. Almoçámos juntos num restaurante que ele adorava. Contei-lhe que tinha tido duas ótimas propostas de duas universidades americanas de topo. Repare, os meus dois filhos já eram nascidos, eu tinha uma família para sustentar. Portanto, esta era uma decisão da maior importância para as nossas vidas. Ele já estava doente. Ficou a pensar e limitou-se a comentar: “Só tu podes decidir. Mas se deixares a Europa Hitler terá ganho.” Liguei à minha mulher, que estava aqui em Cambridge, e disse-lhe: “Não suportaria sentir de novo o desprezo contido nessa frase do meu pai. Seja o que for que tivermos que fazer, ficamos na Europa.”

Foi um momento decisivo. 

Aquela frase bastou. Resolveu muitos problemas. Mas ele tinha razão: a ideia era não haver mais Steiners por cá e estava nas minhas mãos contrariar isso.

Em “A Ideia da Europa” descreveu o continente dos cafés, da paisagem que pode ser atravessada a pé, do peso da memória. O que resta dessa Europa? 

É uma pergunta muito difícil. Estamos agora num momento crítico. O ‘Brexit’ arrancou da Europa a sua democracia mais forte. Não sei como responder-lhe com convicção, pois ignoro o que o futuro nos trará, mas ainda tenho uma réstia de esperança. Ainda penso que a Europa tem grandes forças culturais e educacionais. Se poderá ou não competir com os recursos americanos — em universidades, em investigação — não é ainda claro. A América tem o poder financeiro. OK. Mas, sabe, depois da América virá a Índia, não tenho qualquer dúvida.

Porquê a Índia? 

É a próxima grande explosão cultural. Tive imensos alunos vindos da China e da Índia. Os chineses dizem sempre que sim e aprendem tudo de memória — o que para mim é algo extremamente benéfico. Mas os indianos são criativos. Dizem que não e vão à procura da sua própria opinião. Estou muito otimista em relação ao futuro da ciência, da arte, da língua e da filosofia indianas.

E em relação à Europa? Sublinhou o seu paradoxo quando disse que “a Europa é o lugar onde o jardim de Goethe faz fronteira com Buchenwald”. 

Toda a minha vida foi dominada pela pergunta: como é que aquilo pôde acontecer na Europa? Como é que por trás da casa de Goethe existe um campo de concentração? Como é que o país mais educado do mundo se tornou nazi? Nunca se esqueça de que a educação na Alemanha era provavelmente a mais avançada, mas não foi suficiente para travar Hitler. Toda a minha vida me interroguei sobre se as humanidades realmente humanizam. Deixe-me colocar a questão desta forma: passo o dia todo com os meus alunos a ler o “King Lear” e, ao voltar para casa, estou tão possuído interiormente por esse texto que não ouço os gritos de alguém na rua. Alguém grita por ajuda e eu não ouço. Sempre me intrigou até que ponto a ficção — e ‘ficção’ é a palavra-chave — pode ser mais poderosa do que a realidade. Passei a vida a ensinar as pessoas a ler e a amar o que leem. Mas questiono-me a mim próprio sobre o perigo imenso de nos identificarmos com a ficção.

Que resposta encontrou? 

Quem me dera tê-la encontrado, mas não aconteceu. E acho que ninguém a tem realmente. Os verdadeiros educadores como Tolstoi não têm sido de grande ajuda para as pessoas comuns. A cultura é, provavelmente, um talento muito ambíguo.

Uma vez afirmou mesmo que as humanidades “humanizaram a mentira”. 

As ciências não conhecem a hipocrisia, não fazem bluff. Na ciência verdadeira há o certo e o errado, e quem faz batota é obrigado a sair do jogo. Pelo contrário, as chamadas ‘ciências sociais’ fazem bluff o tempo todo, estão cheias de mentira, de conversa fiada.

O que nos leva a um problema que tem estudado profundamente: o da relação tensa entre a linguagem e a inumanidade política. 

Sim, a retórica política é capaz de matar. A política pode assassinar por meio da linguagem. O horror do movimento nazi foi largamente baseado na retórica, na propaganda. Muito mais poderosas do que qualquer exército são as mentiras do totalitarismo. O totalitarismo funciona através da linguagem. E também existe outro fenómeno: pode ser-se um grande artista e um assassino, uma pessoa a favor do extermínio. Há um momento muito importante nos diários de Cosima Wagner, em que Wagner está lá em cima, no primeiro andar, e ela ouve-o ao piano a rever o 3º ato do “Tristão”. Ele desce para almoçar, e de que é que eles falam? De como queimar os judeus. O homem que tinha estado a compor a melhor música do mundo desce para almoçar e discute alegremente como livrar-se dos judeus. O que quero dizer é que eu não poderia viver num mundo sem a música de Wagner. A minha dívida para com ele é enorme. A minha dívida para com Nietszche, para com Céline! Que livros belos e horrendos! Não tenho resposta para estas pessoas. Não há explicação. Perante os gigantes temos de ficar calados.

Memória. Disse-lhe o pai: “Se deixares a Europa, Hitler terá ganho”. Steiner ficou no continente após ouvir esta frase. Em 2008, foi um dos convidados do Festival Internacional do Livro de Edimburgo 

Descreveu a cultura europeia como a cultura da memória. O peso do passado trouxe consequências positivas? 

Sim, nalguns aspetos, mas não temos escolha. Desce-se uma rua em Paris e há 20 placas azuis com o nome de grandes poetas ou pensadores. Vivemos num grande museu. Pelo contrário, a ciência olha para o futuro. Não tem nada que ver com a ideia de museu. Quando ouço os cientistas, sinto alegria. Estão a passar um bom bocado. 

de si mesmo como um “recordador”. Como é estar nessa posição? 

Não me voluntariei para isso. Mas, como expliquei, o facto de ter sobrevivido fez-me sentir que tinha um compromisso, um trabalho a fazer no sentido de ajudar a recordar. Eu fui aquele que voltou mesmo tendo sido expulso. A maioria das pessoas quis esquecer, especialmente em França, e mesmo em Israel, onde ninguém queria discutir a Shoah, a morte de seis milhões de pessoas. Demorou muito tempo até acontecer. O mais espantoso é você e eu estarmos sentados mais ou menos normalmente nesta bela casa a falar sobre como fomos capazes de recuperar dessa situação. Teria sido perfeitamente possível a Europa colapsar. Mas não colapsou. 

A Europa encontrou o caminho de volta. E agora? 

Agora, pela primeira vez, já não tenho tanta certeza. O ‘Brexit’ na Inglaterra e Trump nos Estados Unidos puseram-nos numa situação em que o futuro deixou de ser claro. Sobreviveremos enquanto civilização? Não tenho a certeza. 

Em 1965, em “Linguagem e Silêncio”, escreveu que “o nacionalismo é o veneno do nosso tempo”. Essas palavras soam hoje providenciais. O que pensa sobre a ascensão do nacionalismo europeu? 

Assusta-me muito e tenho muito medo. O nacionalismo é um veneno absoluto. Lembro-me das palavras justíssimas de Georges Clemenceau: “Não somos patriotas, somos chauvinistas.” É uma distinção importante. O patriotismo pode ser decente, mas o chauvinismo — o nacionalismo — é algo muito, muito feio. Desprezar outra pessoa por ter uma nacionalidade diferente, isso não o posso compreender nem aceitar. Porque, afinal, o que é que nós escolhemos? Não escolhemos onde nascemos, quando, com que condições. Somos convidados nesta terra. Vou dizer-lhe uma coisa central: acredito que cada lugar deste mundo pode ser interessante. Não consigo pensar num lugar que não o pudesse ser. Se fosse mais novo e tivesse de voltar a mudar de país, tentaria, primeiro, aprender a língua. Seria certamente fascinante aceder a uma nova civilização. Não há lugares aborrecidos na Terra. Isto é o que receio em relação aos mais novos hoje em dia: que por causa da sua obsessão com os media artificiais, tenham pouco entusiasmo pelas experiências genuinamente criativas. 

“Estou em casa em qualquer lugar onde haja uma máquina de escrever.“ É isso? 

Uma vez estava no meu escritório em Pequim, onde tinha sido convidado a dar aulas. A máquina de escrever perdera a maioria das teclas, havia um cheiro horrível que não vou aqui descrever, e faltavam apenas cinco minutos antes da primeira aula. Entrei em pânico. E então um estudante entrou, cumprimentou-me, pediu-me a lista de leituras para o seminário, e nesse momento senti-me completamente em casa. Pensei: que idiota sou. Seja Pequim, Harvard ou Oxford, qual é a diferença? Tenho um trabalho a fazer. Tenho um aluno que quer aprender, uma lista de livros para lhe dar. Não, eu tive muita sorte ao escolher o ensino como forma de vida. Porque o ensino não pertence a uma pessoa ou a um país. Está em toda a parte. 

Disse um dia que o verdadeiro professor é aquele que alerta: “Vai acontecer.” Encontrou quem o ouvisse? 

Sim, sim. Ainda tenho ótimos alunos, um pouco por todo o mundo, com quem mantenho contacto. E há cinco ou seis deles que são muito mais capazes e talentosos do que eu. Esta é a maior recompensa que um professor pode ter: saber que um aluno é mais capaz do que ele próprio. Houve também algumas surpresas. Tive uma aluna tão tímida que nem sequer tirava o casaco quando vinha reunir-se comigo. Mas conseguiu a melhor nota do seu ano, summa cum laude, e depois disse-me: “Venho despedir-me e dizer-lhe que tudo aquilo que me ensinou é merda.” Era uma ultracomunista, uma comunista a sério, e anunciou-me que ia para a China Ocidental. Anos mais tarde estive na China e perguntei por ela na embaixada britânica. Vivia numa dessas comunas de camponeses e era um dos chamados “professores descalços”, a trabalhar nas condições mais extremas e primitivas. Quando uma pessoa faz isto, eu encho-me de respeito e fico calado. Odeio aqueles que fingem ser radicais e continuam a viver a nossa forma de vida. Considero isso absolutamente nojento.

Falando ainda sobre o ensino, li que gostaria de ser recordado como um “bom mestre de leitura”. O que significa ensinar a ler hoje em dia? 

É verdade, quando eu disse isso sentia-me ainda bastante otimista. Porém, como sabe, hoje vivemos uma crise. Parece que os livros estão a perder alguma da sua autoridade. OK, tivemos mil anos da cultura do livro, mas há outras formas de comunicação, outras formas de recordação. Eu não poderia viver sem livros, o meu mundo é uma casa de livros. Isso em parte é uma condição muito judaica. Mas conheço pessoas muito capazes, seres humanos muito relevantes, que leem muito pouco. Lembro-me de quando fui para a escola e havia crianças que claramente não gostavam de ler e eu dizia-lhes: “Tu és ignorante.” Hoje, elas responderiam: “Não, tu é que és ignorante, pois não consegues manejar um computador.” 

Trata-se de outra forma de literacia? 

Hoje há crianças a lidar com conceitos lógicos e matemáticos que costumavam estar reservados a uma elite de topo. Temos, por isso, de estar prontos para repensar a nossa noção de literacia. O que é hoje ser-se culto ou alfabetizado? Não é o mesmo que no meu tempo, de todo. 

No seu tempo, também infundiu algumas mudanças. É o homem que trouxe as literaturas comparadas a um país essencialmente monoglota, e que um dia disse acreditar na integração do Reino Unido na Europa. 

Em Cambridge, a regra para se ser nomeado professor era primeiro ser-se convidado para dar um conjunto de palestras. Só depois é que um vínculo mais estreito com a faculdade seria decidido. Então, eu dei uma série de palestras sobre a literatura depois de Marx e de Freud. Os alunos vieram às centenas, tiveram até de me mudar de sala para caberem todos. Mas a faculdade decidiu não me nomear. Porque aquela não era literatura inglesa, eram tontices centro-europeias. Foram anos muito difíceis, em que tive a forte sensação de que aqui não estaria em segurança. Vivi como escritor e conferencista freelancer, dando algumas aulas como professor convidado, até que um dia o telefone tocou e a Universidade de Genebra me ofereceu um lugar. Passei a viver metade do ano lá e metade cá. Foi duro para a minha mulher, que era professora em Cambridge e já era mãe de duas crianças. Mas ao mesmo tempo foi muito emocionante: num único seminário havia 12 línguas à volta da mesa. Isso é o que eu amo. É o que a literatura comparada deve ser. 

Vivendo em Inglaterra há tanto tempo, e conhecendo o país como o conhece, alguma vez imaginou que o ‘Brexit’ fosse acontecer? 

Não. Eu estava totalmente enganado sobre o ‘Brexit’ e sobre Trump. Quando o meu filho me ligou às cinco da manhã para me dizer que Trump iria ser o próximo Presidente dos Estados Unidos pensei que estava a brincar. Que era uma má piada. Em relação ao ‘Brexit’, sabia que havia um perigo real, mas não pensei que fosse acontecer. Vou dizer-lhe o que se passa aqui: a Inglaterra cansou-se da História e quer ficar fora dela. Prefere ser uma nação mais pequena. E o problema fascinante é: pode ser-se uma cultura pequena e provinciana tendo uma língua internacional, que domina todo o planeta? A língua não empurrará o país para o contrário do que ele quer ser? Não tenho uma resposta, mas vou continuar atento ao que se passa com a língua inglesa aqui, na América, na Índia, em África. 

Está a dizer que a análise da linguagem permite compreender melhor um país? 

Digo que essa análise vai mostrar qual o estádio do processo político que atravessamos e para onde nos leva. 

Há muitos anos, declarou que não faz sentido explicar Hitler como sendo apenas um louco. Hoje, as pessoas falam de Trump como uma pessoa básica, ignorante e pouco educada. O que lhes diz? 

Que isso é redutor e não nos ajuda a perceber quem ele é. É evidente que nunca houve um fenómeno semelhante. Há momentos em que Trump é extremamente astuto e outros em que é infantilmente estúpido. E são estes aspetos que o tornam tão perigoso. Tê-lo como responsável do arsenal nuclear dos Estados Unidos é uma situação imprevisível. 

Vimos isso, por exemplo, com a bomba sobre a Síria em resposta ao ataque químico. Ele é um homem impulsivo. 

Por outro lado, a Síria não é problema nosso. As pessoas não concordam comigo neste ponto. Não vejo que tenhamos um interesse vital na situação da Síria, mas posso estar enganado. A Rússia tem estado a pressionar e continua a fazê-lo, e talvez estejamos a caminhar para uma guerra de pequenas dimensões. Veja a situação da Coreia do Norte: estamos a lidar com um lunático, um homem claramente demente. Mas os sul-coreanos têm um certo orgulho de que os norte-coreanos sejam tão poderosos. Os coreanos gostariam de se reunificar e não querem que o Ocidente intervenha nesse processo. Não sei o que isto poderá significar para si, para a sua geração. Provavelmente ainda assistirá a uma crise dramática entre aqueles dois países. 

Se a Síria não é um problema nosso, o que se faz aos refugiados que fugiram da guerra e esperam às portas da Europa? 

Porque é que não estamos a tentar ajudá-los nos seus próprios países? Em nome de que direito estas pessoas querem invadir a Europa?

Vê isso como uma invasão?

Certamente que é. Claro que nós os invadimos no passado e, por isso, existe aqui uma terrível simetria. Uma terrível justiça. Agora o movimento está a ir na direção oposta — mas isso não o torna mais fácil. 

Sempre defendeu que há uma diferença radical entre não saber o que se vai passar — o caso do Holocausto — e sabê-lo mas não fazer nada — o caso de outros genocídios como o do Camboja. Hoje, a informação está em toda a parte e continuamos a fazer silêncio face ao genocídio. Porquê? 

Temos estado a dizê-lo. Ou se está preparado para arriscar a vida e fazer alguma coisa ou é melhor mantermo-nos quietos. É demasiado fácil ficar confortável em casa e dizer quanto se lamenta uma situação. Vivemos hoje numa cultura de piedade elegante: estamos sempre a pedir desculpas, a dizer quão profundamente uma coisa nos afeta. Mas isso não leva a lado nenhum. 

É uma piedade que não conduz à compaixão. 

Não, compaixão significa estar preparado para fazer alguma coisa. A minha mulher e eu somos muito idosos, temos esta casa magnífica, e num mundo ideal eu diria: “Vamos ceder os quartos desocupados a refugiados.” Num mundo ideal diria que, havendo tanta gente sem teto para morar, dois idosos não precisam de uma vivenda tão espaçosa. 
Mas a verdade é que não fazemos nada. E por isso é melhor ficarmos calados. 

Depois do que aconteceu na Europa durante a II Guerra Mundial, as nossas sociedades não deveriam estar mais acordadas, mais prontas a agir? 

Veja esta estranha obscenidade — e uso a palavra muito cautelosamente: há agora mais judeus do que antes da guerra. É incrível, e de uma certa forma é também terrível. Israel é um triste milagre. Estes dois termos não deviam ser usados juntos mas, neste caso, devem sê-lo. 

Porquê? 

Porque o preço de Israel é o nacionalismo militarista. E esse é um preço muito elevado a pagar. Os israelitas têm todo o direito de contrapor: “Como não ser assim? O que podemos fazer?” Sinceramente, não sei. Há muitos anos, após a criação do Estado de Israel, foi-me oferecido um excelente cargo em Israel, para ajudar a começar a Universidade. E eu não fui, não consegui. 

Tendo atravessado quase todo o século XX, como o descreveria? 

Foi um século escuro, da maior barbárie. As pessoas que viveram o verão de 1913 conheceram a vida como nunca mais a veremos. Porque desde 1914 tem havido desastre atrás de desastre. E não pense que estamos fora de perigo. Estou muito pessimista. 

Disse mesmo que “não há mais começos”. Que esgotámos todos os começos. 

Não, hoje o que temos são muitos finais. Muitos pontos finais. 

Sente que pertence a este mundo? 

Não, não estou em casa neste mundo. Ninguém da minha idade está. Vivemos demasiado. O verdadeiro crime é viver demasiado — e por esse crime declaro-me culpado. [risos] Mas não invejo os jovens, porque os esperam tempos difíceis. É mesmo possível que depois do capitalismo sobrevenham outras formas de crise económica. Pode esta enorme distância entre ricos e pobres manter-se? É sustentável, suportável? Não, é inconcebível. E alguma coisa vai acontecer. Nunca se esqueça: o marxismo acabou da pior forma, no gulag. Mesmo que durante muito tempo tenha representado uma esperança efetiva. Há uma passagem extraordinária no manuscrito de Karl Marx, de 1848: “Trocaremos não dinheiro por dinheiro, mas confiança por confiança.” Foi um grande sonho que correu mal. Mas que tipo de sonho estamos agora a deixar aos jovens? Que sonho seremos capazes de transmitir? 

E que sonho lhes deixamos? 

A ciência. Vivo entre cientistas e tenho-me divertido muito a ouvi-los. Nunca houve um tempo melhor para eles, porque na próxima segunda-feira saberão alguma coisa que não sabiam na sexta anterior. O progresso e a descoberta estão no interior da dinâmica da ciência. Tive algum treino científico e tentei compreender ao menos uma ínfima parte do que os cientistas fazem. E é um mundo novo, intocado. Nas humanidades, mais de 90% daquilo com que lidamos está no passado. Os livros, a música, a reflexão, a arte. É como os ponteiros do relógio a caminharem em direções opostas. Estou tão feliz por presenciar isso. 

“Não fugir das dificuldades.” As palavras são suas e estão ligadas à sua infância, quando o seu pai o obrigou a olhar pela janela as manifestações antissemitas. 

Esse momento mudou a minha vida. Havia um desfile na rua em que se gritava: “Matem os judeus!” A minha maravilhosa mãe apressou-se a fechar as cortinas, mas o meu pai disse: “Pelo contrário, eu quero ver isto. Mon petit, isto chama-se História.” Que coisa incrível para me dizer! Nunca voltei a ter medo. Por outro lado, nasci com uma deficiência severa [no braço direito] e a minha mãe não me deixou ser canhoto. Para ela, a autocomiseração era algo repugnante. 

Foi o seu lema de vida? 

Sem dúvida. Mas, acima de tudo, o meu lema foi saber que a força mais poderosa é estar interessado em alguma coisa. Pode ser a Dinastia Ming, o que quer que seja, se estiveres interessado o suficiente para o estudar e aprofundar, então não corres perigo. Se te prendes a qualquer coisa — pode ser arqueologia, música, desporto — que seja maior do que tu próprio, não corres perigo. O terrível é quando as pessoas se prendem a uma nada, ao vazio. 

Onde pensa que estaremos daqui a dez anos? 

Não posso responder. Costumava pensar que tinha uma imagem do futuro, mas já não tenho. Isso também faz parte da idade. Estou à espera de morrer e penso que será uma experiência interessante. Quero muito descobrir como é. Mas à sua pergunta não posso responder, nem mesmo em relação ao país em que vivo, a Inglaterra. E é uma sensação muito desconfortável. Se os meus filhos me perguntassem onde devemos estar daqui a dez anos, aí sim, posso responder: estou muito grato que estejam na América. 

Mesmo na América de Trump? 

Trump pode ou não durar oito anos. A América é maior do que Trump. Mas Inglaterra não é maior do que o ‘Brexit’. São coisas diferentes. Tem tudo o que procurava? Sim? Então agora vamos tomar um belo café”.

Vladimir Putin e Hegel

Ninguém é perfeito: muito menos os grandes homens. Ninguém é mais complexo do que os grandes personagens da História – e Putin vai ficar na História como um dos maiores políticos do século XXI, ao ter, com a sua grande inteligência, força de vontade, coragem e capacidade de liderança, reerguido a Rússia do estado deplorável com que foi deixada por Gorbachev e por Ieltsin. A grandeza de um gigante mede-se pelo ódio que os seus adversários lhe têm. Hegel escreveu: “Ninguém é um herói para o seu criado de quarto, não porque ele não seja um herói mas porque um criado de quarto é um criado de quarto” (Lições sobre a Filosofia da História, ed. do Jubileu).

Losurdo e a atualidade da luta de classes Miguel Urbano Rodrigues

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“Uma leitura crítica da recente edição brasileira de «Luta de Classes – Uma História Política e Filosófica» de Domenico Losurdo. Obra oportuna e actualíssima numa época de confusão ideológica promovida pela intelectualidade burguesa e por um sistema mediático ao serviço do capitalismo. A sua leitura abre espaço ao debate e à controvérsia, como é próprio da obra de um verdadeiro marxista.

Dececionado pelo defunto PCI e por Rifondazione Comunista, aderiu ao jovem Partido dos Comunistas Italianos.

Rejeita qualquer modalidade de dogmatismo e revisionismo. Fiel aos ensinamentos de Marx e Lenin, distancia se do reformismo e do dogmatismo subjetivista (bem caracterizado por Gyorgy Lukács) que durante décadas atingiu muitos partidos comunistas que, afirmando ser marxistas-leninistas, negavam na praxis a opção ideológica.

A editora brasileira Boitempo lançou em 2015 o seu último livro, A Luta de Classes-Uma História Política e Filosófica*.

É um ensaio difícil, árido, por vezes pesado, mas fascinante pela lucidez e criatividade.

O discurso de Losurdo sobre a luta de classes é oportuno e atualíssimo numa época de confusão ideológica promovida pela intelectualidade burguesa e por um sistema mediático ao serviço do capitalismo.

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DO MANIFESTO À ESCRAVATURA

Na introdução, o autor recorda que O Manifesto Comunista logo na abertura afirmava que «A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes». Enunciou uma evidência que a burguesia negava.

Losurdo comenta no Capitulo I o quadro europeu e mundial de exploração do homem que deu origem ao Manifesto Comunista e à reflexão de Marx que desembocou na teoria da luta de classes. O choque entre opressores e oprimidos tornaria inevitável uma luta de classes para a emancipação das vítimas.

A Revolução de1848 contribuiu para que «em vez de se apresentar imediatamente como económica, a luta de classes assumisse as formas politicas mais variadas (revoltas operárias e populares, insurreições nacionais, repressão desencadeada pela reação interna e internacional, recorrendo a instrumentos militares e económicos) em vez de desaparecer tornou-se mais dura».

Da Europa o autor salta para os Estados Unidos. Marx no primeiro livro do Capital qualifica a Guerra de Secessão como «o único acontecimento grandioso da história contemporânea». Somente anos mais tarde, o grande revolucionário compreendeu que a condição dos negros na sociedade norte-americana, dominada por uma oligarquia racista, mudaria muito menos do que ele esperava e desejava.

Meditando sobre o malogro da Revolução de 1848, Marx e Engels não desistem de incentivar o proletariado das potências industrializadas a rebelar-se, sublinhando que na Inglaterra, na França, na Alemanha os operários são afinal «escravos modernos».

Mas não esquecem que há outro tipo de «escravos modernos»: as nações oprimidas por estados poderosos e os povos das colónias africanas e asiáticas. Na Europa citam a Irlanda e a Polónia. A luta pela independência é nelas uma modalidade da luta de classes.

Para Losurdo a Guerra de l914/18 é também expressão da luta de classes, mas em sentido triplo. O conflito, segundo ele, remete para a luta das grandes potências capitalistas pela hegemonia mundial; nas metrópoles a classe dominante reduz a combatividade do proletariado através da prova de força no plano internacional; e, ao ampliar a exploração colonial, transforma a questão nacional numa questão social que configura uma luta de classes.

AVANÇOS E RECUOS DA REVOLUÇÃO

A transição do capitalismo para o socialismo e a extinção gradual do Estado são temas tratados exaustivamente do Capitulo III ao XII, sempre no contexto da luta de classes, exacerbada após a vitória de Outubro de 17.

A Nova Politica Económica – NEP foi criada na URSS após o malogro da política do comunismo de guerra. A fome assolava o país, invadido pelas potências da Entente e devastado pelos exércitos dos generais brancos.

Lenin ao concebê-la sabia que ela ia impor um recuo da Revolução, mas que era indispensável para a salvar. «A classe operaria-escreveu em 1920,ainda durante o comunismo de guerra- detém o poder estatal, mas é obrigada a aguentar grandes sacrifícios, morrer e a passar fome».

O paradoxo, salienta Losurdo, tornou-se mais evidente com a imposição da NEP: «Agora quem vive em condições económicas ostensivamente melhores do que a classe politicamente dominante é uma classe, ou setores de uma classe, que foi derrubada porque era exploradora».

O aparecimento do nepman, rico, corrupto e arrogante, indignava os trabalhadores e suscitou críticas de muitos militantes do Partido que chamavam à NEP a «Nova Extorsão do Proletariado». Destacados dirigentes como Alexandra Kollontai e o seu ex.amante Shlyapnikov aderiram então à chamada Oposição Operária.

Losurdo dedica páginas á formação da consciência de classe. Cita Gramsci mas, atento ao lado positivo do dirigente comunista italiano, não menciona sequer as ambíguas teses gramscianas em que o eurocomunismo, deturpando-as, se inspirou. E invoca opiniões de Mao Tse quando advertiu que a expropriação económica da burguesia não implicara o seu desaparecimento como classe quando o Partido Comunista conquistou o poder.

A Revolução Chinesa merece-lhe alias uma atenção especial. Losurdo esteve próximo do maoismo e isso é percetível na sua obra. No seu livro sobre a luta de classes transparece uma visão quase romântica do rumo que a China tomou apos as grandes reformas de Deng Xiaoping. É inegável que elas foram decisivas para a rápida transformação de um país atrasado, semicolonial, que cresceu num ritmo inédito, e tem hoje a segunda economia do mundo. Não cabe neste artigo uma reflexão mesmo superficial sobre a complexa experiencia chinesa. Mas julgo útil esclarecer que uma académica marxista francesa, Myléne Gaulard, afirma na sua tese de doutoramento, «Marx à Pékin», que a China continua a ser um país capitalista.

A TEMATICA DO NIVELAMENTO UNIVERSAL

No capítulo II Losurdo aborda a temática do «nivelamento universal».

Rebatendo a falsidade da tese de Alexis de Tocqueville – um escritor venerado pela burguesia francesa- no seu livro A Democracia na América, segundo a qual já não existiam praticamente classes sociais na Europa em meados do seculo XIX, o filósofo italiano afirma tratar se um enorme disparate reacionário

Para o liberal francês, principiou desde o seculo X no Ocidente «uma revolução nas condições de vida» dos povos que conduzira progressivamente a um «nivelamento universal». A nobreza recuara na escala social e a plebe avançara. Em breve estariam lado a lado.

Viveu porem o suficiente – faleceu em 1859 – para verificar, consternado, que a revolução industrial inglesa fizera ruir a sua absurda teoria. Tocquevlle aliás reconhecera que o «nivelamento» não impedia a existência de desníveis abissais entre os europeus e os africanos e asiáticos.

Losurdo sublinha que, no seu deslumbramento americano, Tocqueville simula esquecer a existência de milhões de escravos negros na pátria de Washington e Jefferson.

Com o seu desprezo pela «raça amarela» o autor da Democracia na América desconhece também que ainda em 1820 cabiam à China 32% do PIB mundial e à India 15%. O imperialismo britânico arruinou rapidamente os dois países.

O MITO DA PAZ UNIVERSAL DE STUART MILL A ARENDT E HABERMAS

No mesmo capítulo II e no capítulo XI, Losurdo evoca debates sobre o mito da paz universal e comenta posições de Hannah Arendt e de Jurgen Habermas relacionadas com uma imaginária nova ordem mundial que inviabilizaria novas guerras.

Lembra que o liberal Stuart Mill identificara no Imperio Britânico o prólogo a uma futura comunidade universal e à cooperação e à paz entre os povos. Para ele nenhum outro povo encarnava como o britânico a causa da liberdade e da moralidade internacional. E pretende justificar essa monstruosa opinião afirmando que as populações atrasadas têm o maior interesse em se integrarem nesse império para evitar a absorção por qualquer outro estado colonizador.

Conclusão: as guerras seriam em breve uma quase impossibilidade.

Losurdo obviamente ridiculariza e pulveriza o discurso imperialista de Stuart Mill.

Diferentes, mas igualmente aberrantes são as opiniões sobre a transformação do mundo de Arendt e do filósofo Habermas.

A sionista americana qualifica a luta de classes de «pesadelo». Para ela a ciência e a tecnologia estão a contribuir para o advento de uma nova ordem mundial.

A Historia desmente essa esperança. Losurdo cita dois exemplos. A introdução no Sul dos Estados Unidos da máquina de descaroçamento do algodão não afetou minimamente segundo ele o trabalho escravo. Em 1790 o total de escravos não atingia 697 000;em 1861, em vésperas da guerra da Secessão, ultrapassava 4 milhões.

Na India, o governador-geral, em 1864, definia como catástrofe social a introdução da maquinaria algodoeira. Arruinou milhões de tecelões hindus. «Dificilmente uma tal miséria – escreveu – encontra paralelo na história do comércio».

Ao contrapor os benefícios da tecnologia aos males da luta de classes, Arendt esboça um panorama otimista do futuro. O filósofo Habermas considera a luta de classes obsoleta e desnecessária. Segundo ele o estado social apos a II Guerra mundial conduzira a uma pacificação dos trabalhadores, tanto sob governos social-democratas como conservadores.

Essa ingénua convicção carecia de base científica. A brutal ofensiva do neoliberalismo, inspirado nas teses reacionárias do austríaco Friedrich Hayek, destruiu as bases do chamado estado social em toda a Europa.

O POPULISMO E A LUTA DE CLASSES

O último capítulo do livro, o XII, incide sobre «a luta de classes entre o marxismo e o populismo».

O autor cita repetidamente Simone Weil.

Para Marx a luta de classes é o motor do processo histórico e social; para Weil «é um momento moralmente privilegiado na história e na vida dos homens». A francesa é uma crítica severa da modernidade, da indústria, das novas tecnologias. O seu populismo tem afinidades com o pacifismo de Gandhi e com ideias do senegalês Senghor e inclusive com o projeto de Proudhon de ajuda aos pobres.

Losurdo acha que o populismo, sobretudo o de esquerda, «estimula uma visão da luta de classes que exclui do seu raio de ação acontecimentos decisivos da história mundial».

Acrescentarei que um destacado populista de esquerda, o talentoso vice presidente da Bolívia Garcia Linera, exibindo uma máscara marxista, tem desempenhado um papel nocivo ao influenciar prestigiados intelectuais progressistas da América Latina.

A EXTINÇÃO DO ESTADO

São poucas as páginas em que Losurdo retoma no seu livro a problemática da extinção do Estado. Não conheço outro pensador comunista que tenha abordado com tamanha coragem e lucidez essa questão fulcral. Repete agora aquilo que noutros ensaios afirmou ao considerar romântica a tese marxiana da extinção gradual do estado. O autor do Capital via como desnecessário o Estado na futura sociedade comunista porque, desaparecidas as classes sociais nas sociedades socialistas adultas, o Estado seria nelas uma instituição supérflua, sem função.

Marx faleceu muito antes de que o rumo da História demonstrasse na primeira sociedade socialista a ingenuidade da teoria marxiana da extinção do Estado. Lenin tinha-a defendido no seu famoso livro O Estado e a Revolução, escrito nas vésperas de Outubro de 17. Mas teve de rever a sua posição. O Estado soviético em vez de caminhar para a extinção fortaleceu-se cada vez mais. Por motivos muito diferentes ocorreram processos similares na China, no Vietnam, em Cuba, nas democracias populares da Europa oriental.

Marx não podia adivinhar as respostas que a História daria à sua ousada previsão. Nem Lenin, nem Mao, nem Fidel e o Che podiam antecipar que o mítico homem novo imaginado por gerações de comunistas tardará muito a surgir. Ora, sem ele a transição do socialismo para o comunismo é impossível. A tendência para reconstituição gradual das classes sociais torna o Estado imprescindível.

***

Uma nota pessoal para findar este texto sobre o importante e polémico livro de Domenico Losurdo sobre a Luta de Classes.

O professor da Universidade de Urbino acumulou uma prodigiosa erudição. A sua cultura, que abarca múltiplos ramos do conhecimento, sobretudo nas áreas da filosofia, da história e da sociologia, contribui paradoxalmente para dificultar a leitura de alguns capítulos. Porquê? Pela rapidez das transposições. Muda inesperadamente de um tema para outro, de um autor para um acontecimento, de um tema económico para um exemplo, da análise de uma crise para uma citação que surpreende, da reflexão sobre as causas da desagregação da URSS para o mito do homem novo.

Losurdo é permanentemente imprevisível. Discordo de algumas posições suas. Mas a discordância não afeta a grande admiração que sinto pela obra e pelo homem”.

*Domenico Losurdo, Luta de Classes – Uma História Política e Filosófica. Editora Boitempo, 391 páginas, São Paulo,2015

Vila Nova de Gaia, Dezembro de 2016

O Materialismo Contra o Moralismo – por João Vilela

 
“Poucas terão sido as vezes, nos últimos tempos, em que um texto me deixou tão entusiasmado como este artigo de Eliane Brum. Um dos principais aspectos, quanto a mim, da extrema debilidade a que foram reduzidas as forças progressistas desde a derrocada do bloco socialista está identificado com enorme precisão, e as suas consequências enunciadas praticamente uma por uma. Falo da sentimentalização idealista da luta política, substituindo-se a fundamentação ideológica, teórica, histórica, dos posicionamentos políticos e das decisões tomadas pelas organizações de esquerda, por uma série de “próteses” idealistas que vão desde os valores da esquerda, à ética da esquerda, passando por outras moralices do género. Reduzindo as consequências do capitalismo a uma questão de carácter dos dirigentes políticos de turno, esta concepção insolitamente cristã da política não tem coisa nenhuma que ver com a tradição do pensamento marxista e (por isso) obstaculiza qualquer acção revolucionária digna de nota. 


 
 
 
 
 
 
 
 
 

Marx e Engels não eram especialmente críticos do capitalismo no plano ético. Naturalmente, não lhe era indiferente o destino que o capitalismo reserva ao proletariado, ajuizaram sobre ele, pronunciaram-se contra ele, definiram-no como vergonhoso, foram críticos do que há de mesquinho e abjecto na voragem da acumulação e do lucro. Mas como escreveu Engels sobre os socialistas utópicos no Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico “para todos eles, o socialismo é a expressão da verdade absoluta, da razão e da justiça, e é bastante revelá-lo para, graças à sua virtude, conquistar o mundo”, logo acrescentando que “para converter o socialismo em ciência era necessário, antes de tudo, situá-lo no terreno da realidade”. Sublinha-se a referência à transformação do socialismo em ciência (deixando o campo da razão, da justiça, da verdade, e das concepções ético-morais dessa natureza) porque, literalmente, é esta transformação que faz o socialismo descer à terra : todas as ideias políticas que se reclamam a concretização de um conjunto de valores, de ideais, de sonhos, de contos de fadas e castelos de nuvens de seja que ordem for, são estranhas ao marxismo. O marxismo não quer corporizar valores inventados por Deus Nosso Senhor ou concebidos por um qualquer génio da política e da moralidade: quer actuar sobre a realidade material existente, modificá-la, transformá-la, fazer dela a realidade do socialismo (apetece dizer, fazer dela o socialismo real). É acção de pessoas concretas, de uma classe concreta, sobre uma realidade social que existe, mexe, vive. A tese dos valores forjados na cabeça de um sábio ou de um colectivo deles (como se a cabeça dos sábios não fosse, desde logo, a cabeça de gente, e gente de uma determinada classe) e feitos matéria na realidade social, é o mais absurdo dos fetichismos.

Eliane Brum percebe distintamente e apresenta o principal risco que o moralismo – isto é, a redução da política à ética e à batalha das crenças entre comunidades de crentes (em muito parecida a uma discussão entre padres de seitas distintas, ou a uma discussão sobre amigos imaginários) – pode constituir para a política brasileira, numa formulação que se aplica a muitos outros lugares: “[h]á uma enorme descrença nos políticos e nos partidos tradicionais, este já é um lugar comum. Mas é importante perceber que a esta descrença se contrapõe não mais razão, mas uma vontade feroz de crença. Quando os dias, as vozes e as imagens soam falsas, e a isso ainda se soma um quotidiano corroído, há que se agarrar em algo. Quando se elege um culpado, um que simboliza todo o mal, também se elege um salvador, um que simboliza todo o bem. A adesão pela fé, manifeste-se ela pelo ódio ou pelo amor, elimina complexidades e nuances, reduz tudo a uma luta do bem contra o mal. E isso, que me parece ser o que o Brasil vive hoje, pode ser perigoso. Não só para uma ditadura, como é o medo de alguns, mas para que se instale uma democracia de fachada”. Esvaziar a política de racionalidade, enchê-la de emotividade e irracionalismo (quem esqueceu que Marcelo Rebelo de Sousa dizia, há poucos meses, querer fazer “uma campanha de afectos”?), afastá-la da concretização de projectos de sociedade e reduzi-la a uma espécie de jogo de futebol em que os partidários de cada um dos lados são apenas uma claque em fúria, é um projecto velho de muitos anos. No qual, é lastimável, já caiu alguma esquerda.

A autora apresenta-nos um caminho que muito me agrada, e que muito tem a ver com as minhas reflexões a este respeito: “talvez o mais importante, neste momento tão delicado, seja resistir. Resistir a aderir pela fé ao que pertence ao mundo da política. Fincar-se na razão, no pensamento, no conhecimento que se revela pelo exercício persistente da dúvida. É mais difícil, é mais lento, é menos certo e sem garantias. Mas é o que pode permitir a construção de um projecto para o Brasil que não seja o da destruição. Quem sofre primeiro e sofre mais com a dissolução em curso são os mais pobres e os mais frágeis”. É uma grande e sábia proposta: num tempo em que o irracionalismo tomou conta da discussão política, em que esta se permitiu ser rebaixada à disputa passional e clubística, em que a serenidade tomou sumiço e a passagem em revista dos erros e acertos para a definição de um novo projecto transformador que nos guie à revolução e ao socialismo choca com o sem-número de pruridos e sensibilidadezinhas que sempre são antepostos à discussão racional, à discussão científica, do caminho a trilhar, defender a razão, defender o materialismo dialéctico, defender a ciência do proletariado, não soçobrar à publicitarização nem à sentimentalização da política, é já um acto de coragem bem revelador da combatividade de quem o faz. E sem esta resistência, se apenas tivermos o moralismo e a famigerada confiança nos valores da esquerda e na ética de esquerda, teremos talvez uma enorme Igreja Universal do Reino Vermelho – mas não teremos, nunca teremos, a sociedade em que queremos viver”.

16/Abril/2016

O original encontra-se em cravodeabril.blogspot.pt/2016/04/materialismo-contra-o-moralismo.html 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Matrix, o Filme: Mitologia Contemporânea e Mistificação Ontológica



O irracionalismo (a mitologia contemporânea) redobram-se:
a) a mistificação da Nova Ordem Mundial na forma duma teoria de conspiração pelo poder maçónico-judaico dos Illuminati (
sociedade secreta de mações que comanda os movimentos e agentes políticos mais importantes manobrando para impor uma Nova Ordem Mundial) como maneira de desviar a atenção dos indignados e ofendidos para a luta contra forças políticas e económicas fantasiosas, contra moinhos-de-vento;
b) a confusão entre clima e ambiente mediatizada pelo oportunista Al Gore, que enriqueceu com plantações de tabaco e outras matérias-primas energéticas, e usada para dar alento aos negócios dos créditos de carbono, à energias ditas renováveis, à energia atómica e para atacar o desenvolvimento dos países em vias de tal, fazendo esquecer que os Estados Unidos poluem ‘per capita’ duas vezes mais do que a Europa, quatro vezes mais do que a China e oito vezes mais do que a Índia;
c) as ficções de massas catastrofistas e de alienação como o celebrado filme Matrix, subliminarmente associado ao pânico da Nova Ordem Mundial, e mais expressamente ao dualismo maniqueísta mente-corpo, ao complexo messiânico do ‘cowboy’, temperado com lutas de ‘kung-fu’ e consumo bioenergético-humano pelos computadores, e a uma ideia abstracta e sublimada de alienação, que nada tem a ver com a alienação real.
A Alegoria da Caverna, que Matrix pretende actualizar, como se fosse preciso, é suficientemente simbólica para representar toda e qualquer ilusão efectiva, como Platão o fez quanto à política e à educação no contexto em que inseriu a alegoria. A ilusão  da Alegoria da Caverna não é uma instância ontológica ou um efeito de uma realidade acima da nossa – é uma alegoria, uma espécie de metáfora – mas uma alienação da realidade concreta da vida que temos, produzida pelas circunstâncias da nossa existência real e não por máquinas de características mitológicas e antropomórficas que tomaram conta de nós. O «génio maligno» de Descartes não é um personagem real, ou uma máquina mítica, que se entretém a fazer-nos partidas mas a personificação irónica das nossas fragilidades cognitivas.
Há quem também veja no Matrix uma alegoria mas essa interpretação não colhe: não há nele nem humor nem ironia, não há um distanciamento entre a narrativa e a realidade sobre a qual se relacionaria à maneira de uma metáfora. O que há é apenas a representação de uma crença na possibilidade dos computadores puderem autonomizar-se e tiranizar os homens, dando vazão à sua vontade de poder. É a exploração do medo irracional da tecnologia ser capaz de se tornar humana e escravizar o seu criador, caricaturando e compreendendo de maneira errada a rábula do aprendiz de feiticeiro. A história de filme não é para ser entendida como uma ficção que se deve tomar por tal, como uma metáfora da alienação do homem por si próprio, alienação que é o efeito de auto-ilusão no seu processo real de vida, feito de contradições económicas e de classe, tecnológicas, psicofisiológicas, psicológicas,  axiológicas e ideológicas.   

Matrix, no seu enredo rebuscado e mistificado, limita-se ao que fizeram tantos filmes de Hollywood, a inventar um papão impossível mas credenciado pelo arcaísmo dos fantasmas antropomórficos que desviam os homens dos seus verdadeiros problemas, em suma, a meter medo, pelo menos enquanto se está na sala de cinema. E não só é uma expressão da visão individualista do herói solitário redentor, de um messias enunciado por um profeta, iluminado por um ser que transcende as capacidades ficcionais do sistema e que é portador de um poder especial, pelo qual devemos esperar, como também insinua a ideia de que quem luta contra o sistema é parte dele, elemento do algoritmo que produz as suas próprias anomalias, como um esquema de antecipação de erros que guia o seu auto-aperfeiçoamento e replica o efeito de ilusão, produz a fantasia de que o sistema é revolucionável, mas que logo é reintegrado.     
Matrix é, assim, ao invés da Alegoria da Caverna de Platão, um novo instrumento de mistificação, uma tela projectada na Caverna, que não é onde nos puseram mas que criámos na forma de um reflexo imaginário da realidade – sala escura onde entretemos muito felizes os nossos fantasmas, aqueles de que cuidamos para, de vez em quando, numa tela projectada por nós, num processo algo psicanalítico de transferência, nos afastarem das preocupações reais e da procura das soluções efectivas para as mesmas.

E há livros e artigos de filósofos intitulados, assim como aulas, que encontram valor num veículo de pseudo-filosofia pronta-a-usar! 
 
 

“Matrix” revisitado: por que Jean Baudrillard não gostou do filme?

“’Matrix’ é certamente o tipo de filme sobre a matriz que a matriz teria sido capaz de produzir”, afirmou de forma mordaz o pensador francês Jean Baudrillard em uma das raras entrevistas sobre o filme dos irmãos Wachowski. Além dos irmãos terem se inspirado no livro “Simulacros e Simulações” do francês para o argumento de “Matrix”, convidaram-no para assessorar a continuação da trilogia. Baudrillard prontamente declinou do convite passando a raramente opinar sobre a relação do filme com seus conceitos filosóficos. Em uma das poucas entrevistas sobre o filme concedida ao “Le Nouvel Observateur” em 2003, Baudrillard criticou a ausência de ironia em “Matrix” e de ter tomado os princípios de “simulacro” e “simulação” a partir das categorias da realidade.
Certamente o filme “Matrix” tornou-se um clássico, não tanto pelas suas virtudes cinematográficas (na verdade, um típico blockbuster com todas as convenções do gênero), mas por ter se tornado uma síntese dos temas explorados em filmes como “Show de Truman”, “O Décimo Terceiro Andar”, “Ed TV” etc.: as crises decorrentes do apagamento das fronteiras entre o real e o virtual. Embora o filme faça uma alusão ao pensador francês Baudrillard, nas poucas entrevistas concedidas sobre “Matrix” ele demonstrou a estranheza de ver um conceito filosófico transposto para a realidade com muitos efeitos especiais. Para ele, o filme foi equivocado em aproximar o tema da noção do Mito da Caverna de Platão, além de conceber a simulação da matriz a partir das categorias da realidade.
Na entrevista que transcrevemos abaixo concedida ao Le Nouvel Observateur, Baudrillard afirma que o equívoco de Matrix foi retirar a ambiguidade do choque entre o virtual e o real e conceber a Matriz como uma tecnologia de onde é retirado o perigo e o negativo. Uma narrativa esquemática onde o deserto do real (sujo, decadente e perigoso) é substituído por uma tecnologia maquiavelicamente precisa, onde até as anomalias e revoltas já estariam previstas nas equações. Em outras palavras, sob a aparente crítica “Matrix” representaria um sintoma do fascínio cultural pelas tecnologias computacionais.

 
A HIPÓTESE DO SIMULACRO MERECIA MUITO MAIS DO QUE TORNAR-SE REAL
Aude Lancelin – 25/06/2003
 
Le Nouvel Observateur: Suas reflexões sobre a realidade e o virtual são algumas das principais referências usadas pelos criadores de “Matrix”. O primeiro episódio explicitamente faz alusão a você quando o espectador claramente vê a capa de seu livro “Simulacros e Simulações”. Você ficou surpreso com isso?
 
Os irmãos Wachowski















Jean Baudrillard:Certamente houve erros de interpretação, o que seja por isso que tenho sido hesitante até agora para falar sobre o filme “Matrix”. A equipe dos irmãos Wachowski contatou-me em vários momentos após o lançamento do primeiro episódio, a fim de me envolver com os seguintes, mas isso realmente não era concebível (risos). Basicamente, um mal-entendido semelhante ocorreu em 1980, quando um grupo de artistas de Nova York chamado “Simulacionistas”[1] me contatou. Eles tomaram a hipótese do virtual como um fato irrefutável e transformouo-a em um fantasma visível. Mas é precisamente isso, o fato de não podermos utilizar categorias do real a fim de discutir as características do virtual.
 
Nouvel Observateur: A conexão entre o filme e a sua visão desenvolvida, por exemplo, no livro “O Crime Perfeito”, é, no entanto, bastante impressionante. Ao evocar um deserto do real, esses humanos totalmente virtualizados e espectrais não são mais do que a reserva energética de objetos de pensamento ….
 
Jean Baudrillard: Sim, mas já houve outros filmes que tratam a indistinção crescente entre o real e o virtual: “Show de Truman”, “Minority Report”, ou mesmo “Mulholland Drive”, a obra-prima de David Lynch. O valor de “Matrix” é, principalmente, o de ser uma síntese de tudo isso. Mas a narrativa é muito crua e não verdadeiramente evoca o problema. Os personagens ou estão na matriz, isto é, no sistema digitalizado de coisas, ou estão radicalmente fora dele, tal como em Sião, a cidade da resistência. Mas seria interessante mostrar o que acontece quando esses dois mundos colidem. A parte mais constrangedora do filme é que o novo problema colocado pela simulação é confundido com o tratamento clássico platônico. Esta é uma falha grave. A ilusão radical do mundo é um problema enfrentado por todas as grandes culturas e que é resolvido através da arte e simbolização. O que nós inventamos a fim de dar conta desse mal estar é um real simulado, que doravante suplantará o real como a sua solução final, um universo virtual do qual tudo o que é perigoso e negativo foi expulso. E “Matrix” é, inegavelmente, parte disso. Tudo que pertence à ordem do sonho, utopia e ilusão é dada uma forma concreta, é realizado.” Estamos na transparência sem cortes. “Matrix” é certamente o tipo de filme sobre a matriz que a matriz teria sido capaz de produzir.
 
Nouvel Observateur: É também um filme que pretende denunciar alienação tecnicista e, ao mesmo tempo, demonstra inteiramente o fascínio exercido pelo universo digital e das imagens geradas por computador.
 
Para Baudrillard é notável a ausência de ironia
que permita aos espectadores irem
para além dos efeitos especiais
Jean Baudrillard: O que é notável sobre “Matrix Reloaded” é a ausência de um lampejo de ironia que permita aos telespectadores transformar este gigantesco efeito especial em sua cabeça. Não há uma seqüência que seja o “punctum”, sobre qual Roland Barthes escreveu, esta marca impressionante que lhe traz cara-a-cara com uma imagem verdadeira. Além disso, isso é o que torna o filme um sintoma revelador do fetiche real em torno deste universo de tecnologias de tela no qual não há mais distinção entre o real e o imaginário. Podemos considerar “Matrix” um objeto extravagante, ao mesmo tempo sincero e perverso, onde não há nem um aqui nem lá. O pseudo-Freud que fala na conclusão do filme coloca muito bem: em um determinado momento nós reprogramamos a matriz a fim de integrar anomalias na equação. E você e as resistências seria uma parte delas. Dessa maneira estamos, ao que parece, dentro de um circuito virtual total sem um exterior. Aqui, novamente estou em desacordo teórico (risos). “Matrix” pinta a imagem de uma superpotência monopolista, como vemos hoje, e então colabora em sua refração. Basicamente, a sua difusão em escala mundial é conivente com o próprio filme. Sobre este ponto, vale a pena lembrar Marshall McLuhan: o meio é a mensagem. A mensagem de “Matrix” é a sua própria difusão por meio de uma contaminação incontrolável.
 
Nouvel Observateur: É um pouco chocante ver que, doravante, todos os sucessos de marketing norte-americanos, de “Matrix” ao novo álbum de Madonna, são apresentados como críticas ao sistema que maciçamente os promove.
 
Jean Baudrillard: Isso é exatamente o que faz com que nosso tempo seja tão opressivo. O sistema produz uma negatividade em trompe-l’oeil, que é integrado em produtos do espetáculo, assim como a obsolescência é construído em produtos industriais. É a forma mais eficiente de incorporação de todas as alternativas genuínas. Não há um ponto Omega mais externo ou meios disponíveis antagônicos para analisar o mundo. Não há nada mais do que uma adesão fascinada. Deve-se entender, no entanto, que quanto mais se aproxima de um sistema de perfeição mais nos aproximamos do acidente total. É uma forma de ironia objetivo estipulando que nada aconteceu. O 11 de setembro foi um exemplo disso. O terrorismo não é um poder alternativo, não é nada, exceto a metáfora deste retorno quase suicida do poder ocidental sobre si mesmo. Isso foi o que eu disse na época e foi amplamente criticado. Não se trata de ser niilista ou pessimista em face de tudo isso. O sistema, o virtual, a matriz – tudo isso talvez retorne à lata de lixo da História. Enquanto a reversibilidade, desafio e sedução são indestrutíveis.

Comentário

De Hollywood ao meios intelectuais e 

acadêmicos, as ideias de Baudrillard foram 

interpretadas por leituras esquemáticas a 
partir da noção ideológica de “falsa consciência”
 
A estranheza de Baudrillard em ver seus conceitos de simulacro e simulação traduzidos por meio de efeitos especiais em uma típica narrativa maniqueísta de luta entre o bem e o mal, a realidade e o virtual, não se refere apenas uma interpretação equivocada de Hollywood e dos irmãos Wachowski. Os próprios círculos intelectuais e acadêmicos também acabaram fazendo uma leitura sobre Baudrillard semelhante ao partir da tradicional crítica da ideologia como falsa consciência.
 
É como se tudo fosse uma estória narrada com a seguinte sinopse: era uma vez o virtuoso real que, de repente, foi corrompido pela ambição humana traduzida por uma sofisticada tecnologia que criou uma representação ideológica do mundo que subjuga os homens bons sedentos pela Verdade e Realidade.
Essa leitura esquemática de Baudrillard não compreende o ponto crucial no pensamento do francês expresso na entrevista acima: a realidade, desde o seu início, já foi seduzida pela ilusão através da ironia, reversibilidade e sedução. Como vimos em postagem anterior (veja links abaixo) é o postulado gnóstico de que o mundo físico é corrompido desde sua criação, seduzido pelo Mal tomado aqui em um sentido mais ontológico do que moral.
O que Baudrillard qualificava como “estratégia fatal” era o fato de a realidade ser irônica e desafiar todos os propósitos humanos de controle, assepsia e transparência. Chamava essa estratégia irônica de “reversibiliade”: o destino de cada ação no sentido do Bem (progresso, transparência, desenvolvimento, funcionalidade, racionalidade etc.) resulta em uma espécie de efeito entrópico: dissolução, regressão, opacidade. A tecnologia que de tão sofisticada e complexa converte-se em gadgets inúteis; a assepsia e o ideal de brancura total produz a infecção hospitalar; o sistema econômico que de tanta racionalidade resulta em um gigantesco potlach. Dessa forma, para cada ato bom produz-se um efeito perverso: a produção reverte-se em destruição, a paz produz a guerra, a realidade a ilusão, e assim por diante.
Por isso, como diz Baudrillard na entrevista, todas as culturas se defrontaram com a suspeita da ilusão radical do mundo e tentaram elaborá-la por meio das artes e simbologia. A cultura tecnológica, ao contrário, procurar dar conta desse mal com a simulação do real, criar uma ilusão que supere outra ilusão por meio da tentativa de eliminar a negatividade e o mal através da precisão, racionalidade e assepsia.
Por isso, Baudrillard criticava a falta de ambiguidade e ironia à trilogia “Matrix”: a matriz é perfeita demais e o real é excessivamente desértico. Tudo preto/branco, binário, tal qual a lógica do sistema contra a qual a narrativa tenta rebelar-se.

 

[1] Foi talvez Peter Halley, mais do que qualquer outro pintor americano “Simulacionista”, que triunfou a conceituação de Baudrillard de hiper-realidade na arte. E, como ele observa com ironia, Baudrillard acabou com as esperanças de Halley ao afastar-se dele com críticas. Mas não foi apenas os pintores “Simulacionistas” que mereceram a crítica. Como Paul Hegarty disse em uma recente entrevista com Baudrillard (Abril de 2003, em seu livro Jean Baudrillard: Live Theory, London: Continuum, 2004): “os últimos foram os ‘artistas simbióticos’. Eles continuaram insistindo, dizendo: ‘mas você deve amar o que estamos fazendo’. Baudrillard disse: ‘espera aí, isso não é aceitável”.

Matrix, o Filme: Mistificação à Hollywood

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O irracionalismo (a mitologia contemporânea) redobram-se:
a) a mistificação da Nova Ordem Mundial na forma duma teoria de conspiração pelo poder maçónico-judaico dos Illuminati (sociedade secreta de mações que comanda os movimentos e agentes políticos mais importantes manobrando para impor uma Nova Ordem Mundial) como maneira de desviar a atenção dos indignados e ofendidos para a luta contra forças políticas e económicas fantasiosas, contra moinhos-de-vento;
b) a confusão entre clima e ambiente mediatizada pelo oportunista Al Gore, que enriqueceu com plantações de tabaco e outras matérias-primas energéticas, e usada para dar alento aos negócios dos créditos de carbono, à energias ditas renováveis, à energia atómica e para atacar o desenvolvimento dos países em vias de tal, fazendo esquecer que os Estados Unidos poluem ‘per capita’ duas vezes mais do que a Europa, quatro vezes mais do que a China e oito vezes mais do que a Índia;
c) as ficções de massas catastrofistas e de alienação como o celebrado filme Matrix, subliminarmente associado ao pânico da Nova Ordem Mundial, e mais expressamente ao dualismo maniqueísta mente-corpo, ao complexo messiânico do ‘cowboy’, temperado com lutas de ‘kung-fu’ e consumo bioenergético-humano pelos computadores, e a uma ideia abstracta e sublimada de alienação, que nada tem a ver com a alienação real.

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A Alegoria da Caverna, que Matrix pretende actualizar, como se fosse preciso, é suficientemente simbólica para representar toda e qualquer ilusão efectiva, como Platão o fez quanto à política e à educação no contexto em que inseriu a alegoria. A ilusão da Alegoria da Caverna não é uma instância ontológica ou um efeito de uma realidade acima da nossa – é uma alegoria, uma espécie de metáfora – mas uma alienação da realidade concreta da vida que temos, produzida pelas circunstâncias da nossa existência real e não por máquinas de características mitológicas e antropomórficas que tomaram conta de nós. O «génio maligno» de Descartes não é um personagem real, ou uma máquina mítica, que se entretém a fazer-nos partidas mas a personificação irónica das nossas fragilidades cognitivas.
Há quem também veja no Matrix uma alegoria mas essa interpretação não colhe: não há nele nem humor nem ironia, não há um distanciamento entre a narrativa e a realidade sobre a qual se relacionaria à maneira de uma metáfora. O que há é apenas a representação de uma crença na possibilidade dos computadores puderem autonomizar-se e tiranizar os homens, dando vazão à sua vontade de poder. É a exploração do medo irracional da tecnologia ser capaz de se tornar humana e escravizar o seu criador, caricaturando e compreendendo de maneira errada a rábula do aprendiz de feiticeiro. Não é uma ficção que se deve tomar por tal e usar-se como uma metáfora da alienação do homem por si próprio, entendendo-se esta como efeito de auto-ilusão no seu processo real de vida, feito de contradições económicas, tecnológicas, psicofisiológicas, psicológicas, axiológicas e ideológicas.
Matrix, no seu enredo rebuscado e mistificado, limita-se ao que fizeram tantos filmes de Hollywood, a inventar um papão impossível mas credenciado pelo arcaísmo dos fantasmas antropomórficos que desviam os homens dos seus verdadeiros problemas, em suma, a meter medo, pelo menos enquanto se está na sala de cinema. Matrix é, assim, ao invés da Alegoria da Caverna de Platão, um novo instrumento de mistificação, uma tela projectada na Caverna, que não é onde nos puseram mas que criámos na forma de um reflexo imaginário da realidade – sala escura onde entretemos muito felizes os nossos fantasmas: aqueles de que cuidamos para, de vez em quando, fazerem de tela, num processo psicanalítico de transferência, e nos afastarem daquelas preocupações demasiado verdadeiras e reais.
E há livros e artigos de filósofos intitulados, assim como aulas, que encontram valor num veículo de pseudo-filosofia pronta-a-usar!

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“Matrix” revisitado: por que Jean Baudrillard não gostou do filme?
quinta-feira, agosto 30, 2012 Wilson Roberto Vieira Ferreira 3 comments

“’Matrix’ é certamente o tipo de filme sobre a matriz que a matriz teria sido capaz de produzir”, afirmou de forma mordaz o pensador francês Jean Baudrillard em uma das raras entrevistas sobre o filme dos irmãos Wachowski. Além dos irmãos terem se inspirado no livro “Simulacros e Simulações” do francês para o argumento de “Matrix”, convidaram-no para assessorar a continuação da trilogia. Baudrillard prontamente declinou do convite passando a raramente opinar sobre a relação do filme com seus conceitos filosóficos. Em uma das poucas entrevistas sobre o filme concedida ao “Le Nouvel Observateur” em 2003, Baudrillard criticou a ausência de ironia em “Matrix” e de ter tomado os princípios de “simulacro” e “simulação” a partir das categorias da realidade.

Certamente o filme “Matrix” tornou-se um clássico, não tanto pelas suas virtudes cinematográficas (na verdade, um típico blockbuster com todas as convenções do gênero), mas por ter se tornado uma síntese dos temas explorados em filmes como “Show de Truman”, “O Décimo Terceiro Andar”, “Ed TV” etc.: as crises decorrentes do apagamento das fronteiras entre o real e o virtual. Embora o filme faça uma alusão ao pensador francês Baudrillard, nas poucas entrevistas concedidas sobre “Matrix” ele demonstrou a estranheza de ver um conceito filosófico transposto para a realidade com muitos efeitos especiais. Para ele, o filme foi equivocado em aproximar o tema da noção do Mito da Caverna de Platão, além de conceber a simulação da matriz a partir das categorias da realidade.

Na entrevista que transcrevemos abaixo concedida ao Le Nouvel Observateur, Baudrillard afirma que o equívoco de Matrix foi retirar a ambiguidade do choque entre o virtual e o real e conceber a Matriz como uma tecnologia de onde é retirado o perigo e o negativo. Uma narrativa esquemática onde o deserto do real (sujo, decadente e perigoso) é substituído por uma tecnologia maquiavelicamente precisa, onde até as anomalias e revoltas já estariam previstas nas equações. Em outras palavras, sob a aparente crítica “Matrix” representaria um sintoma do fascínio cultural pelas tecnologias computacionais.

A HIPÓTESE DO SIMULACRO MERECIA MUITO MAIS DO QUE TORNAR-SE REAL
Aude Lancelin – 25/06/2003

Le Nouvel Observateur: Suas reflexões sobre a realidade e o virtual são algumas das principais referências usadas pelos criadores de “Matrix”. O primeiro episódio explicitamente faz alusão a você quando o espectador claramente vê a capa de seu livro “Simulacros e Simulações”. Você ficou surpreso com isso?

Os irmãos Wachowski
Jean Baudrillard:Certamente houve erros de interpretação, o que seja por isso que tenho sido hesitante até agora para falar sobre o filme “Matrix”. A equipe dos irmãos Wachowski contatou-me em vários momentos após o lançamento do primeiro episódio, a fim de me envolver com os seguintes, mas isso realmente não era concebível (risos). Basicamente, um mal-entendido semelhante ocorreu em 1980, quando um grupo de artistas de Nova York chamado “Simulacionistas”[1] me contatou. Eles tomaram a hipótese do virtual como um fato irrefutável e transformouo-a em um fantasma visível. Mas é precisamente isso, o fato de não podermos utilizar categorias do real a fim de discutir as características do virtual.

Nouvel Observateur: A conexão entre o filme e a sua visão desenvolvida, por exemplo, no livro “O Crime Perfeito”, é, no entanto, bastante impressionante. Ao evocar um deserto do real, esses humanos totalmente virtualizados e espectrais não são mais do que a reserva energética de objetos de pensamento ….

Jean Baudrillard: Sim, mas já houve outros filmes que tratam a indistinção crescente entre o real e o virtual: “Show de Truman”, “Minority Report”, ou mesmo “Mulholland Drive”, a obra-prima de David Lynch. O valor de “Matrix” é, principalmente, o de ser uma síntese de tudo isso. Mas a narrativa é muito crua e não verdadeiramente evoca o problema. Os personagens ou estão na matriz, isto é, no sistema digitalizado de coisas, ou estão radicalmente fora dele, tal como em Sião, a cidade da resistência. Mas seria interessante mostrar o que acontece quando esses dois mundos colidem. A parte mais constrangedora do filme é que o novo problema colocado pela simulação é confundido com o tratamento clássico platônico. Esta é uma falha grave. A ilusão radical do mundo é um problema enfrentado por todas as grandes culturas e que é resolvido através da arte e simbolização. O que nós inventamos a fim de dar conta desse mal estar é um real simulado, que doravante suplantará o real como a sua solução final, um universo virtual do qual tudo o que é perigoso e negativo foi expulso. E “Matrix” é, inegavelmente, parte disso. Tudo que pertence à ordem do sonho, utopia e ilusão é dada uma forma concreta, é realizado.” Estamos na transparência sem cortes. “Matrix” é certamente o tipo de filme sobre a matriz que a matriz teria sido capaz de produzir.

Nouvel Observateur: É também um filme que pretende denunciar alienação tecnicista e, ao mesmo tempo, demonstra inteiramente o fascínio exercido pelo universo digital e das imagens geradas por computador.

Para Baudrillard é notável a ausência de ironia
que permita aos espectadores irem
para além dos efeitos especiais
Jean Baudrillard: O que é notável sobre “Matrix Reloaded” é a ausência de um lampejo de ironia que permita aos telespectadores transformar este gigantesco efeito especial em sua cabeça. Não há uma seqüência que seja o “punctum”, sobre qual Roland Barthes escreveu, esta marca impressionante que lhe traz cara-a-cara com uma imagem verdadeira. Além disso, isso é o que torna o filme um sintoma revelador do fetiche real em torno deste universo de tecnologias de tela no qual não há mais distinção entre o real e o imaginário. Podemos considerar “Matrix” um objeto extravagante, ao mesmo tempo sincero e perverso, onde não há nem um aqui nem lá. O pseudo-Freud que fala na conclusão do filme coloca muito bem: em um determinado momento nós reprogramamos a matriz a fim de integrar anomalias na equação. E você e as resistências seria uma parte delas. Dessa maneira estamos, ao que parece, dentro de um circuito virtual total sem um exterior. Aqui, novamente estou em desacordo teórico (risos). “Matrix” pinta a imagem de uma superpotência monopolista, como vemos hoje, e então colabora em sua refração. Basicamente, a sua difusão em escala mundial é conivente com o próprio filme. Sobre este ponto, vale a pena lembrar Marshall McLuhan: o meio é a mensagem. A mensagem de “Matrix” é a sua própria difusão por meio de uma contaminação incontrolável.

Nouvel Observateur: É um pouco chocante ver que, doravante, todos os sucessos de marketing norte-americanos, de “Matrix” ao novo álbum de Madonna, são apresentados como críticas ao sistema que maciçamente os promove.

Jean Baudrillard: Isso é exatamente o que faz com que nosso tempo seja tão opressivo. O sistema produz uma negatividade em trompe-l’oeil, que é integrado em produtos do espetáculo, assim como a obsolescência é construído em produtos industriais. É a forma mais eficiente de incorporação de todas as alternativas genuínas. Não há um ponto Omega mais externo ou meios disponíveis antagônicos para analisar o mundo. Não há nada mais do que uma adesão fascinada. Deve-se entender, no entanto, que quanto mais se aproxima de um sistema de perfeição mais nos aproximamos do acidente total. É uma forma de ironia objetivo estipulando que nada aconteceu. O 11 de setembro foi um exemplo disso. O terrorismo não é um poder alternativo, não é nada, exceto a metáfora deste retorno quase suicida do poder ocidental sobre si mesmo. Isso foi o que eu disse na época e foi amplamente criticado. Não se trata de ser niilista ou pessimista em face de tudo isso. O sistema, o virtual, a matriz – tudo isso talvez retorne à lata de lixo da História. Enquanto a reversibilidade, desafio e sedução são indestrutíveis.
Comentário

De Hollywood ao meios intelectuais e
acadêmicos, as ideias de Baudrillard foram
interpretadas por leituras esquemáticas a
partir da noção ideológica de “falsa consciência”

A estranheza de Baudrillard em ver seus conceitos de simulacro e simulação traduzidos por meio de efeitos especiais em uma típica narrativa maniqueísta de luta entre o bem e o mal, a realidade e o virtual, não se refere apenas uma interpretação equivocada de Hollywood e dos irmãos Wachowski. Os próprios círculos intelectuais e acadêmicos também acabaram fazendo uma leitura sobre Baudrillard semelhante ao partir da tradicional crítica da ideologia como falsa consciência.

É como se tudo fosse uma estória narrada com a seguinte sinopse: era uma vez o virtuoso real que, de repente, foi corrompido pela ambição humana traduzida por uma sofisticada tecnologia que criou uma representação ideológica do mundo que subjuga os homens bons sedentos pela Verdade e Realidade.

Essa leitura esquemática de Baudrillard não compreende o ponto crucial no pensamento do francês expresso na entrevista acima: a realidade, desde o seu início, já foi seduzida pela ilusão através da ironia, reversibilidade e sedução. Como vimos em postagem anterior (veja links abaixo) é o postulado gnóstico de que o mundo físico é corrompido desde sua criação, seduzido pelo Mal tomado aqui em um sentido mais ontológico do que moral.

O que Baudrillard qualificava como “estratégia fatal” era o fato de a realidade ser irônica e desafiar todos os propósitos humanos de controle, assepsia e transparência. Chamava essa estratégia irônica de “reversibiliade”: o destino de cada ação no sentido do Bem (progresso, transparência, desenvolvimento, funcionalidade, racionalidade etc.) resulta em uma espécie de efeito entrópico: dissolução, regressão, opacidade. A tecnologia que de tão sofisticada e complexa converte-se em gadgets inúteis; a assepsia e o ideal de brancura total produz a infecção hospitalar; o sistema econômico que de tanta racionalidade resulta em um gigantesco potlach. Dessa forma, para cada ato bom produz-se um efeito perverso: a produção reverte-se em destruição, a paz produz a guerra, a realidade a ilusão, e assim por diante.

Por isso, como diz Baudrillard na entrevista, todas as culturas se defrontaram com a suspeita da ilusão radical do mundo e tentaram elaborá-la por meio das artes e simbologia. A cultura tecnológica, ao contrário, procurar dar conta desse mal com a simulação do real, criar uma ilusão que supere outra ilusão por meio da tentativa de eliminar a negatividade e o mal através da precisão, racionalidade e assepsia.

Por isso, Baudrillard criticava a falta de ambiguidade e ironia à trilogia “Matrix”: a matriz é perfeita demais e o real é excessivamente desértico. Tudo preto/branco, binário, tal qual a lógica do sistema contra a qual a narrativa tenta rebelar-se.

[1] Foi talvez Peter Halley, mais do que qualquer outro pintor americano “Simulacionista”, que triunfou a conceituação de Baudrillard de hiper-realidade na arte. E, como ele observa com ironia, Baudrillard acabou com as esperanças de Halley ao afastar-se dele com críticas. Mas não foi apenas os pintores “Simulacionistas” que mereceram a crítica. Como Paul Hegarty disse em uma recente entrevista com Baudrillard (Abril de 2003, em seu livro Jean Baudrillard: Live Theory, London: Continuum, 2004): “os últimos foram os ‘artistas simbióticos’. Eles continuaram insistindo, dizendo: ‘mas você deve amar o que estamos fazendo’. Baudrillard disse: ‘espera aí, isso não é aceitável”.

André Glucksmann (na sua morte), do Anticomunismo «de Esquerda» (sic) – ou da Extrema-Esquerda Anticomunista – ao Exterminismo Reaganiano (Georges Gastaud)

Diário.info

13.Nov.15 :: Colaboradores

No coro de elogios publicado nos media nacionais sobre o pensamento do falecido «nouveau philosophe» Glucksmann não há uma nota discordante. Apenas a sua evocação pelo “socialista” Francisco Assis ajudou a compreender porquê. Trata-se de mais um ex.maoista cuja trajectória para a direita é sustentada num anticomunismo fanático. O de um filósofo que preferia uma hecatombe nuclear total à sociedade socialista.
« Nem rir, nem chorar, nem detestar nem maldizer, mas compreender ». Na ocasião do falecimento de André Glucksmann (A.G.), compreender-se-á que o melhor para um filósofo marxista e comunista seja aplicar a célebre máxima racionalista de Spinoza…
1. Do « colarinho à mao » ao atlantismo flamejante : ruptura e/ou continuidades!
Dizer que A.Glucksman foi um « grande defensor da humanidade escarnecida», como faz em uníssono a lacrimosa imprensa “pluralista”, seria exagerar muito. De início assistente do muito direitista Raymond Aron, a «caneta» filosófica do Figaro, A.Glucksman. tornou-se depois de Maio de 1968 um dos chefes da Gauche Prolétarienne, a muito violenta GP que se especializava em injuriar, e até em molestar os militantes do PCF, de la CGT e da Union des Etudiants Communistes (UEC). No início dos anos 1970, os estudantes comunistas, tal como os sindicalizados não comunistas da UNEF (como era o meu caso na altura) eram invariavelmente tratados de « revisas-colaboracionistas » pela « G.P.»; no entanto, à época, e apesar de alguns primeiros desvios, o PCF militava pelo socialismo, combatia a Europa capitalista… e pronunciava-se a favor da ditadura do proletariado! É verdade que – crime imperdoável aos olhos dos dirigentes da « G.P.»! –, os comunistas franceses não consideravam a URSS como incuravelmente « social-imperialista » e estavam longe de erigir Moscovo em inimigo principal des povos, como não tardou a fazer a maioria dos grupos «maoistas» ao apelo da direcção chinesa (que não demorou a aproximar-se espectacularmente de… Nixon !). Verdade igualmente que os comunistas franceses nunca incensaram a « Grande Revolução Cultural Proletária » que se abatia então sobre o PCC e sobre a intelectualidade chinesa… sem entretanto desenraizar a corrente « pragmática » que veio depois a triunfar em Pequim. Reconheçamos todavia que as imprecações «anti-revisionistas » d’A.G. não carecem de algum picante retrospectivo se constatarmos a vibrante evolução anticomunista do nosso futuro « novo filósofo » apaparicado pelos media giscardo-mitterrandistas: não construiu este senhor a sua fortuna politico-literária (para não falar senão nela…) sobre o anátema anti-leninista (La Cuisinière et le mangeur d’homme), sobre o antimarxismo primário e a condenação do racionalismo (Les maîtres-penseurs), sobre uma guerreira execração da URSS (La Force du vertige), sem falar do lógico alinhamento final a Sarkozy, à NATO e aos belicistas du campo neoconservador e seus satélites anti-palestinos e russófobos… No fim de contas, os Bernard Henry-Levy (BHL), A.G. e outros «novos filósofos» não terão falhado uma única cruzada ocidental contra o socialismo existente (nomeadamente o apoio à Polónia «operária » de Walesa e de João Paulo II…), contra os movimentes de libertação popular (A.G. colocou nos píncaros os « Combatentes da Liberdade» afegãos, ou seja os talibans…), contra o direito dos povos a dispor de si mesmos (apelos recorrentes à intervenção imperialista na Líbia ou na Síria, com os resultados devastadores hoje à vista…).
Concedamos entretanto que A.G. terá sabido empreender a sua grande viragem da autoproclamada extrema-esquerda ao atlantismo exacerbado aparentando constantemente uma sinceridade fulminante (que é sem dúvida preferível, para conservar a auto-estima, à postura choramingas do arrependido…). Na verdade, A.G. não terá tido ao longo da vida – tal como outras vedetas soixante-huitardes «que passaram do colarinho à mao para o Rotary Club » [2] – senão uma única continuidade real: o seu fervoroso ódio contra o PCF de Duclos e Marchais, contra a CGT de classe de Krazucki, contra a União das Republicas Socialistas Soviéticas, numa palavra, a sua guerra de morte contra a classe operária organizada, esse « proletariado » que os nossos ex.- « maos spontex » mitificavam tanto que ele assumia a posture (nobre mas inofensiva) do revoltado, mas a quem interditavam que se organizasse solidamente em partido, que estabelecesse o seu poder de classe e o consolidasse tomando certas medidas potencialmente desagradáveis aos frequentadores do Fouquet’ s…
2. A viragem hegemónica da « nova filosofia » : do « bloco histórico antifascista de Estalinegrado au bloco histórico anti-antifascista de Bitburg.
No fundo, esta gente – que acabou por comprometer o velho Sartre no seu empreendimento « antitotalitário » [3], na realidade vulgarmente anticomunista – terão sido muito úteis à grande burguesia francesa e à oligarquia capitalista mundial. À saída de um período muito ameaçador para a ordem capitalista mundial [4]. Ao invés de tantos jovens maoistas, operários e estudantes, que procuravam sinceramente os caminhos da revolução no momento em que o PCF começava subterraneamente a derivar [5], os chefes de fila do maoísmo francês terão sabido de forma notável tirar partido dos tremendos equívocos do Maio de 68: porque esse movimento altamente contraditório viu ao mesmo tempo a maior greve operária da historia [6] e o emergir de uma corrente dita liberal-libertária (os antepassados lilis dos bobos) que dissimulava o seu anticomunismo, mesclado de antipatriotismo e anti-republicanismo primários, por detrás da retorica ultra-revolucionária do esquerdismo, de forma a atacar sempre « pela esquerda» os « crápulas estalinistas » do PCF (Cohn-Bendit dixit) : o sociólogo Michel Clouscard analisou admiravelmente a emergência do liberal-libertarismo anticomunista e euro-atlântico no seu já clássico estudo do Capitalisme de la séduction. Substituindo ao antifascismo oriundo de 36 e do CNR um « anti totalitarismo » confusionista que fazia tábua rasa de qualquer análise de classe dos fenómenos políticos, BHL, A.G. e seus epígonos tipo Bernard Kouchner terão desempenhado um papel nacional e mundialmente reaccionário : com as suas engenhocas intelectuais fulminantes (amálgamas, condensados históricos ineptos, caricatura furiosa da história soviética, tom profético destinado a intimidar os eventuais objectores), A.G. e seus pares terão facilitado que tomasse forma, no terreno ideológico, o novo bloco histórico mundial contra-revolucionário no qual vivemos, ou melhor, no qual ainda sufocamos: um bloco no qual o socialismo fazia figura de Império do mal (e o sanguinário imperialismo atlântico de baluarte do Bem), no qual o direito dos povos a dispor de si mesmos cedia lugar ao « direito » do imperialismo de se ingerir nos assuntos dos Estados pequenos e médios (o humanitarismo atlântico à moda « ONG » tomando o lugar da «missão civilizadora da França ») e onde, para acabar, a ultradireita reaganiana e sarkozysta, esse primeiro escalão « liberal-autoritário » do foguetão neofascista, dispunha de um lugar estratégico: BHL convencendo Sarkozy a invadir a Líbia, BHL e A.G. santificando o desmantelamento imperialista da Jugoslávia por Kohl e Clinton, e todo esse pequeno mundo acolhendo com um silencio de chumbo o totalitarismo Anticomunista que, depois 1989/91, se traduziu num euro-macarthismo devastador (Hungria, Países bálticos, etc.), sem falar do apoio da UE/NATO à equipa pró-nazi e belicosamente russófoba entretanto no poder em Kiev. Em resumo, por detrás desse « anti-totalitarismo » de fachada que se acomodava sem problemas ao bombardeamento ieltsiniano do Parlamento russo (Outubro 93) e ao totalitarismo patronal rampante da euro-mundialização « liberal » (liberal-fascizante seria mais exacto!), estes ideólogos do anti Iluminismo que foram os « novos filósofos» terão desempenhado um papel ideológico destacado: terão efectivamente contribuído para a viragem contra-revolucionária do bloco histórico de Estalinegrado [7] no sentido daquilo que em 1984 eu tinha designado como o bloco histórico de Bitburg: Bitburg é com efeito o nome de um cemitério militar alemão onde repousam corpos de membros das Waffen-SS e onde Reagan, Thatcher, Kohl et Mitterrand, fotografados de mãos dadas, vieram manifestar o seu apoio à implantação dos euromísseis EUA na RFA, na Holanda e na Sicília, com o objectivo declarado de colocar Leningrado a 5 minutos de tiro dos polígonos da NATO. Assim nasceu, num clima de ajuste de contas contra a derrota dos EUA no Vietnam, de reabilitação de imperialismo alemão, de nova cruzada anti-soviética e de encarniçada intervenção EUA contra as insurreições centro-americanas de Salvador e Nicarágua (na base do l’Irangate), este novo bloco «anti-antifascista» ocidental que de facto criminalizava o comunismo ao mesmo tempo que, a pouco e pouco, reciclava… a extrema-direita fascizante, esse aluno distinto da turma anticomunista hoje na ofensiva por toda a Europa.
3. A.G., ou o exterminismo capitalista tornado filosofia
É extraordinário constatar que a nota biográfica que a Wikipédia consagra a A.G. omite inteiramente o aspecto mais central e no fim de contas, o mais interessante, da sua «obra»: sobretudo para o pior mais também um pouco para o melhor (assim caminha a dialéctica histórica !), A.G. terá sido um dos teóricos mais consequentes – como sucede frequentemente com os fanáticos – daquilo que desde 1984 apelidamos de exterminismo capitalista. Efectivamente desenvolvemos então a ideia, por vezes caricaturada e mais frequentemente contornada, que o exterminismo é o estádio supremo da sociedade capitalista, entendendo por tal que, tendo-se o capitalismo tornado desde há muito « reaccionário em toda a linha » (economicamente, socialmente, culturalmente, politicamente e, acrescentamos desde então, «ambientalmente» …), a sua manutenção tornou-se tendencialmente incompatível com a sobrevivência e o desenvolvimento da espécie humana enquanto tal. Na nossa época pós-soviética, este exterminismo capitalista assumiu provisoriamente formas mais subtis e «apresentáveis» do que as que manifestava em 1984: com efeito, a contra-revolução capitalista – fonte profunda da actual mundialização yankee e da « construção » germano-europeia – tendo conseguido provisoriamente eliminar o campo socialista mundial, as formas do exterminismo foram de algum modo flexibilizadas, diversificadas e disseminadas: hoje, é de algum modo em lume brando que o capitalismo imperialista submete a humanidade e o planeta azul à tortura mortal do lucro a todo o custo e das suas sequelas monstruosas, caos politico desde a Africa até ao Próximo-Oriente, fascização rampante da Europa, desastres ambientais sucessivos, etc. Nos anos 80, no momento em que a « nova filosofia » glucksmanniana conheceu o seu apogeu mediático, Reagan dominava os EUA e os seus partidários apostavam na ambiguidade do slogan E.R.A. (Elect Reagan again era interpretado também, na direita « republicana », Eliminate Russians Atomically) ; a reacção alemã enfim descomplexada clamava «lieber tot, als rot» (antes mortos que vermelhos !). Reagan e Bush Sénior lançavam o seu projecto de « guerra des estrelas » (IDS) destinado a interceptar os misseis soviéticos em caso de primeiro ataque nuclear «debilitante » dos EUA contra a URSS. Pouco tempo antes, o estratega estado-unidense Brzezinski – que se gabou depois da sua astucia – atraía o Exército vermelho a uma armadilha no Afeganistão. Quanto a Glucksmann, teorizou o indizível empreendimento exterminista como apenas um filósofo o pode fazer. Em La Force du vertige (Grasset, 1984), A.G. explicava com efeito que o Ocidente devia assumir em nome dos seus «valores» a « segunda morte de humanidade », ou seja a perda de sentido absoluta qui resultaria para cada um da ideia, não apenas da sua morte pessoal, mas do «desaparecimento da humanidade no seu conjunto». E tudo isto não se passava no Céu das Ideias mas em 1984, em plena « crise des euromísseis », num momento em que o risco de guerra nuclear mundial crescia a toda a velocidade. Para A.G., que chamava a isso «dissuasão», a « segunda morte de humanidade » era preferível ao «risco» da « Sibéria planetária »[8], ou seja da extensão do comunismo a toda a humanidade (entenda-se: da propagação das revoluções populares africanas, centro-americanas, afegã, etc. ao conjunto dos países do Sul). Quando os EUA se referiam oficialmente à doutrina do first use (utilização em primeiro lugar pelos EUA da arma atómica contra a URSS) e mesmo à do first strike (desencadeamento da terceira guerra mundial anti-soviética por um ataque nuclear massivo e «desarmante» contra a URSS) e do « linkage » (ameaçar Moscovo com uma guerra nuclear para o impedir de apoiar as revoluções populares), Glucksmann desempenhou um papel de primeiro plano na resposta atlântico-exterminista aos pacifistas oeste-europeus e americanos; porque, sem de nenhum modo apoiar Moscovo, os referidos pacifistas observavam que a utilização de 15% dos stocks fuséo-nucleares mundiais no decurso de uma guerra Este-Oeste teria necessariamente de conduzir ao « inverno nuclear » (estamos longe do aquecimento climático actual!), quer dizer à intercepção da radiação solar pela massa disseminada das poeiras radioactivas; portanto à interrupção da fotossíntese, logo à possível extinção das formas superiores de vida sobre o planeta Terra. Traduzindo em linguagem de leigo os vaticínios guerreiros dos belicosos profetas «evangelistas» yankees que, incitados por Reagan, anunciavam o « Harmaghedon » (a batalha final em que Deus derrota os infiéis – descodificado, os comunistas – e onde os « bons » se juntam ao «Reino»), Glucksmann executou o «o trabalho sujo » filosófico de que a justificação do exterminismo imperialista necessitava. Escreveu nomeadamente esta atrocidade filosófica sem qualquer precedente: « prefiro sucumbir com o filho que amo (subentendido, numa guerra nuclear, G.G.) a imaginá-lo encaminhado para uma qualquer Sibéria planetária ».
4. Duas respostas ao exterminismo reagano-glucksmanniano : Gorbatchev ou Castro.
Se este fanatismo anticomunista maximalista – que obtinha um sucesso de massas entre os pequeno-burgueses de “esquerda” : A.G. tinha efectivamente centenas de milhares de leitores e fazia mesmo escola no PS[9] – não culminou na guerra mundial nuclear, não foi porque o imperialismo dos EUA fizesse “bluff” [10], mas porque a direcção gorbatchéviana da URSS, intimidada e sobretudo contemporizadora e desleal, optou pela capitulação ideológica e diplomática em toda a linha. Em lugar de responder com firmeza, como fazia então Fidel Castro «socialismo o muerte, patria o morir !» e de como ele apelar, não a esperar o apocalipse nuclear mas ao desenvolvimento da luta de classe revolucionária, em lugar de prosseguir a via brevemente explorada por Yuri Andropov para construir uma ampla frente anti-exterminista mundial (a « frente mundial da razão »), Gorbatchev aceitou a problemática exterminista contentando-se com inverter o exterminismo EUA em social-pacifismo de tipo muniquense: o «antes morto que vermelho» exterminista dos Ocidentais tornou-se «antes não vermelhos do que mortos!», o que, traduzido no «novo pensamento» gorbatchéviano se tornava em : « preferir os valores universais da humanidade aos interesses de classe do proletariado ». Descodificado, tratava-se de renunciar ao socialismo para salvaguardar a paz, tal como Nixon convidava na mesma altura no seu livro sinistramente intitulado O mito da paz. No final, a Rússia pós-soviética actual, que os USA « perseguem » militarmente desde a Asia central à Síria passando pela Ucrânia e os países bálticos, terá repudiado o socialismo e as suas conquistas sociais sem de nenhuma forma ter ganho a paz. Como os « Muniquenses » Chamberlain e Daladier que, nas palavras de Churchill, escolheram a desonra para obter a paz e não tiveram senão a guerra como recompensa da sua fraqueza, Gorbatchev simplesmente substituiu a «guerra fria» por uma paz… cada vez mais quente. Uma « paz » que, hoje, poderia rapidamente transformar-se em confronto directo nos campos de batalha da Síria ou do Donbass uma vez que, se o Tratado de Varsóvia e a Federação soviética desapareceram, a NATO alargou-se até às fronteires da Rússia e a «União transatlântica», duplicada pela « União transpacifico » em gestação, visam claramente isolar e cercar economicamente os «BRICS», na primeira linha dos quais a China largamente descolorida e a Rússia totalmente descomunisada… E se para acabar, o exterminismo reagano-glucksmanniano, esta continuação da guerra de classe por outros meios (e acrescentaria eu, esta preparação da contra-revolução pela chantagem do extermínio), tivesse apenas mudado de forma encarnando na mortífera mundialização neoliberal, nas suas guerras imperialistas incessantes, na sua fascização politica rampante, na sua corrida ao lucro máximo, na sua mercantilização galopante do humano e da natureza, que, como dizia Marx, « esgota a Terra e o trabalhador » No fim de contas, não é mais do que uma forma de destruir a humanidade e de destruir a humanidade do homem…
5. Em que sentido, contrariamente a BHL, Glucksmann foi um « filósofo »
É neste sentido entretanto, repitamo-lo, que o triste A.G. é, muito mais do que BHL, esse histrião do conceito que ninguém tomou nunca a sério nos meios filosóficos, um filósofo à la triste figure. Sem valer moralmente e politicamente mais do que o seu comparsa, Glucksmann foi um filósofo no sentido em que o é toda a pessoa que procura pensar até às últimas consequências, de forma radical e coerente, uma hipótese teórica, e mais ainda, uma concepção do mundo e da existência. Impelindo até às suas mais negras consequências o falso humanismo, o falso universalismo e as pseudo-simetrias « antitotalitárias » da burguesia imperialista, A.G. foi e continua a ser um atractor negativo do sentido. Podemos mesmo apoiar-nos no seu pensamento, verdadeiro repelente trágico de qualquer progressismo, para conceber na sua coerência o alcance anti-exterminista radical de um comunismo de terceira geração [11] que assumiria ao mesmo tempo – porque os dois compromissos se condicionam mutuamente – a transformação da humanidade e a sua conservação (defesa anti-imperialista da paz mundial, defesa anticapitalista do ambiente, etc.); com efeito a defesa da sobrevivência humana passa pela sua transformação revolucionária e, simetricamente, a revolução socialista e anti-imperialista deve preocupar-se, mais do que nunca, não apenas em mudar a vida, mas em salvá-la. E esta dimensão tão universalista do comunismo não convida seguramente a menos combate de classe, masa mais compromisso revolucionário; porque, ainda que desagrade a Gorbatchev… e a Glucksmann, ambos de acordo em opor metafisicamente estas noções, seria mais do que nunca uma ilusão «exaustivamente» mortal opor « os interesses de classe do proletariado» aos « valores universais da humanidade » na primeira fila dos quais figura o direito à vida e ao desenvolvimento solidário de cada um. Mais do que nunca, à cubana, « patria ou morte, socialismo ou morte, venceremos ! »…
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[1] Filosofo, última obra publicada Marxisme et universalisme, Delga, 2015.
[2] Pensamos em Cohn-Bendit, em S. July, o patrão de Libération; cf. também, um escalão acima A. Finkielkraut, ex-mao tornado pensador titular dos « nouveaux réacs », ou D. Kessler, que apela doravante em nome do patronato ao « desmantelamento do programa do CNR »
[3] Recordemos que os grandes defensores franceses dos direitos dos ricos burgueses de Saigão apoiaram depois durante dez anos os Khmers Vermelhos: invariavelmente, a França de Giscard e depois a de Mitterrand votavam a favor de que estes carrascos – inimigos jurados do vizinho Vietnam! – conservassem o lugar usurpado (o do Reino khmer) na ONU sob a tutela do palhaço Norodom Sihanouk.
[4] Vitória do povo vietnamita, Revolução portuguesa dos Cravos, vitórias populares em Africa e na América central, colapso de diversas ditaduras fascistas, extensão das forças anticapitalistas em Portugal, em França, em Espanha, na Grécia… não esqueçamos nunca que os anos 70 ainda tão próximos foram muito delicados para o bloco euro-atlântico…
[5] Seria injusto assimilar à GP os marxistas-leninistas oriundos do PCF que, no final dos anos 60, julgaram necessário romper com o seu partido para preservar uma linha revolucionária que segundo eles Mao encarnava face aos herdeiros soviéticos de Khrouchtchev. Mas combater-se-ão as tendências revisionistas direitistas de uns exaltando o sectarismo esquerdista de outros… sobretudo quando, para concluir, a direcção chinesa acaba por se aliar aos EUA para combater Moscovo ou por apoiar Pol Pot para pôr em dificuldade o Vietnam considerado demasiado pró-soviético ?
[6] …que teria sido impossível sem a implantação da grande CGT de classe de Benoît Frachon e sem as intensas lutas anticoloniais dos anos 50 e 60, conduzidas, no essencial, pelos militantes do PCF, da CGT e do sindicato UNEF.
[7] Geopoliticamente falando, a derrota histórica d’Hitler perante o odioso Exército vermelho de Staline tinha marginalizado os fascistas, pelo menos na Europa, e tinha desencarcerado politicamente os comunistas. Em resumo, o antifascismo dominava então o anticomunismo do qual Hitler era a ponta de lança antes de 1945.
[8] Supondo que a extensão do comunismo constitua um risco para o mundo do trabalha, a história ulterior – a contra-revolução na URSS ! – provou que a conversa de Reagan sobre a «ameaça comunista» consistia, de facto, tanto em engano como em auto-intoxicação !
[9] À época, os planos de programação militar gigantes programados por Mitterrand e pelo seu ministro da defesa de então, que era já Le Drian, pesavam como nunca no orçamento da França «socialista»…
[10] A revista Actualidades soviéticas demonstrava então que as « manobras » da NATO assumiam uma tal amplitude que cada vez menos se conseguia distingui-las de uma preparação directa do desencadeamento de hostilidades.
[11] Se a primeira geração é a que vai de Babeuf à Comuna e a segunda a que cobre todo o movimente histórico decorrente da Revolução de Outubro.