Venezuela, entre o chavismo (Socialismo do Século XXI, ou seja, Sem Estatização dos Meios de Produção) e a restauração colonial – por Jorge Beinstein

“A crise venezuelana aprofunda-se. O governo respondeu ao assédio da direita e dos EUA lançando a iniciativa da Assembleia Constituinte. A sua intenção foi produzir uma mudança radical de cenário, convertendo os seus atacantes da direita em assediados golpistas por uma provável avalanche popular mobilizada para um novo modelo institucional, fundada no poder comunal, expressão directa das maiorias populares. As redes sociais e um número crescente de autores referem-se à perspectiva de uma “guerra civil”.

A oposição de direita aparece girando em torno de dois pólos, um extremista, que alguns descrevem como “uribista” (de Uribe ex-presidente colombiano), imerso num raivoso neofascismo, que postula o derrube urgente do governo e a instalação de um regime de terror anti-chavista e outra mais moderada – que pressiona para a realização de um tipo de golpe suave ou até mesmo a antecipação das eleições presidenciais em que supõe sair vitoriosa. A perspectiva de um levantamento armado imediatamente assistido por uma intervenção externa, colombiana ou multinacional, pilotada por Washington, é vista cada vez mais por todos eles como altamente provável (e desejável embora ainda nem sempre confessado).

Por seu lado, o governo procura ganhar tempo, procura meter umas rasteiras à direita, como a de convocar a Assembleia Constituinte, pretende dividi-la estabelecendo pontes de negociação com a suposta oposição civilizada. O seu objectivo publicitado diariamente é a “paz”. Alguns supõem que é uma estratégia hábil que deveria reduzir o espaço social da direita empurrando os seus sectores “moderados” para negociação, e estabelecer áreas de convergência com o chavismo. Mas no chavismo aparecem vozes críticas, ressaltando que este pensamento de pacifismo a todo o transe anula as perspectivas revolucionárias bolivarianas, enterra as bandeiras do socialismo do século XXI e na realidade expressa a vontade da “boli-burguesía”, uma burguesia arrivista que se desenvolveu nos últimos anos à sombra dos negócios com o Estado e mais em geral com a direita chavista tentando estabelecer uma espécie de acordo conservador, pacto de unidade nacional onde navegariam triunfantes os expoentes da velha e da nova burguesia.

Carlos Morreo, por exemplo, estabelece a diferença entre o ” ;chavismo governamental” ; e “o chavismo amplo” [1] que outros identificam como o “povo chavista” animado pelas façanhas de seu líder histórico, transcendendo as jogadas tácticas deste ou daquele dirigente. Reinaldo Iturriza Lopez, que foi até há pouco ministro do Poder Popular para as Comunas e, mais recentemente, ministro da Cultura afirmou que “chavismo é, para dizer como John William Cooke, “o empreendimento maldito da política burguesa de um país”. Cooke referia-se, claro, ao peronismo, num texto de 1967, mas a sua frase aplica-se ao caso venezuelano.

O chavismo é, desde a sua criação, um fenómeno “maldito” para a burguesia, porque aquilo que lhe dá coesão não é sua capacidade de aglutinar o descontentamento, mas seu forte antagonismo contra o status quo. Antagonismo que adquiriu aspectos anti-capitalistas com o passar dos anos e no calor da luta como assumiram de viva voz tanto Chávez como as suas linhas de forças mais avançadas [2] .

Encontramo-nos então perante o inevitável confronto entre uma direita contra-revolucionária, firmada ideologicamente no capitalismo e no elitismo colonial e o povo chavista transbordando, com apenas a sua presença, os limites do sistema. Neste caso, paz é uma quimera porque são duas forças históricas avançando em sentidos opostos. Dia a dia a avalanche de acontecimentos, caos económico, incessante bombardeio mediático global sobre a Venezuela, dificultam olhar a realidade para além da desordem quotidiana. 

Petróleo e geopolítica 

A Venezuela tem a maior reserva mundial de petróleo (cerca de 300 mil milhões de barris de crude, de acordo com as estimativas mais recentes), quase um quinto do total mundial, superando a Arábia Saudita (cerca de 265 mil milhões de barris). Em 2003 quase 70% das exportações de petróleo venezuelano foram para os Estados Unidos mas em 2016 tinham caído para 20%, em alternativa 40% vai para a China e 20% para a Índia.

Esta orientação asiática (principalmente chinesa) da maior reserva de petróleo do mundo, longe da velha dependência do mercado imperial, constitui um casus belli de primeira ordem na estratégia dos Estados Unidos, a perda da Venezuela agora associada à China aparece como uma situação intolerável. Mais ainda quando as ilusões americanas sobre a sua produção de xisto betuminoso arrefeceram de acordo com a previsão oficial dada pela Energy Information Administration: no ano 2021 iria atingir-se o nível mais alto deste tipo de produção e a partir daí começaria a declinar. [3]

As reservas petrolíferas do império esgotam-se e também a paciência de Washington, o império está a perder a sua grande guerra asiática e com isso a sua ilusão de controlar a maior parte das reservas de gás e petróleo do planeta. Consequentemente, a reconquista da Venezuela passa a estar no primeiro nível de suas prioridades. Além disso, este projecto faz parte da estratégia de recolonização da América Latina, retaguarda histórica do império a que a derrota na Ásia atribui excepcional importância.

Mas a recolonização da Venezuela não é uma tarefa fácil, não se pode lá realizar um golpe suave, nas suas diversas formas, como aconteceu nas Honduras, Paraguai, Brasil ou Argentina, principalmente porque não só existe uma força militar convencional fortemente influenciada pelo chavismo, mas também milícias populares e todo o apoio de uma alta capacidade de mobilização de milhões de chavistas.

A intervenção das forças militares colombianas sempre foi uma alternativa, mas era difícil quando na retaguarda destas forças apareciam as FARC e seus milhares de guerrilheiros. Uma complexa estratégia de desarmamento dos rebeldes foi desenvolvida de maneira paciente e sistemática, pressionando os governos de Cuba, Venezuela e vários Estados progressistas da região que mediaram as negociações de paz, combinando ofertas atractivas, golpes baixos e um amplo espectro de acções directas e indirectas sobre as FARC, desenvolvendo uma Guerra de Quarta Geração de alto nível de sofisticação.

O resultado foi positivo para Washington, as FARC concordaram em desarmar e a retaguarda estratégica dos militares e paramilitares colombianos estava livre de perigos. Agora o que é considerado como o melhor aparelho militar da região tem as mãos livres para cumprir as ordens do seu amo imperial e colocá-las no pescoço bolivariano. [4]

Sem excluir a intervenção militar, por agora, os Estados Unidos desenvolvem uma estratégia de desgaste: sabotagem económica, guerra das ruas, ofensivas mediáticas, diplomacia de cerco, jogo de negociações e outras acções destinadas a isolar, degradar e dividir o inimigo chavista. Nos cálculos dos estrategas Imperiais é certamente o cenário do salto qualitativo passando do desgaste para uma insurreição político-militar fase convergente com a intervenção externa.

Esperanças e frustrações 

De acordo com dados do Banco Mundial, em 1960, 61% da população venezuelana era urbana, em 1980 chegou a 79% em 2000 passou para 88% e em 2015 quase para 90%. Uma crescente massa populacional passou a estar nas grandes cidades, principalmente em Caracas, não como resultado da industrialização, mas da reprodução alargada de parasitismo. Destruição social levada a cabo por uma burguesia importadora e financeira dona do Estado que desde 1976, com a nacionalização da produção de petróleo, se apropriava das divisas geradas pelas exportações (em mais de 90% resultado de vendas de petróleo bruto e seus derivados), herdando, remodelado, o velho sistema dominante baseado nas exportações de couro, cacau e café, garantindo a continuidade do subdesenvolvimento.

A economia de renda (petrolífera) bloqueou as possibilidades de desenvolvimento industrial e destruiu o tecido agrário, as vítimas do desastre passaram a engrossar as fileiras dos marginais. O modelo explodiu com o Caracazo (1989) [NR] e a vaga popular abriu o caminho da Revolução Bolivariana, Chavez era o seu líder. Este despertar das massas submersas moveu-se até à formulação de um horizonte pós-capitalista: o socialismo do século XXI. Mas o que aconteceu foi uma sucessão de obstáculos, dificuldades e deficiências que foram estabelecendo uma distância crescente entre os objectivos socialistas proclamados e a capacidade de reprodução, embora isto fosse degradado pelo país burguês que se pretendia superar.

A burguesia comercial-financeira foi pressionada, às vezes golpeada, maltratada, mas não eliminada. Não só não foi superado o capitalismo como o seu funcionamento se tornou caótico, não tendo sido substituído pela estatização socialista (que o ” ;socialismo do século XXI” ; chavista queria superar) nem pelo “socialismo, comunal” proposto produto da auto-organização das bases populares. No meio desta confusão, reproduziu-se a partir do Estado uma elite emergente parasitária com fachada de bolivariana e práticas corruptas: a boli-burguesía. O velho sistema decadente não só sobreviveu aos seus antigos crápulas mas gerou novos homens de negócios turvos.

Fica assim colocada a tragédia com final em aberto, os seus atores estão à vista. A velha burguesia parasitária arrastando um vasto conjunto social multiforme onde as camadas médias têm um papel essencial, não têm um programa definido, apenas a fúria anti-chavista os reúne. Frente a ela um vasto espaço chavista agrupando civis e militares, boli-burgueses e massas populares radicalizadas, conciliadores com a direita e revolucionários. Espaço heterogéneo, que oscila entre a rendição honrosa e o salto para o pós-capitalismo. Enquanto isso, o império vai medindo forças, ajustando os dispositivos de intervenção, sabe que mesmo afastando o governo chavista nada lhe assegura o controlo do país e em consequência o seu petróleo”.

Notas
[1] Carlos E. Morreo, “La constituyente es una decisión estratégica”, Aporrea, 06/05/2017, www.aporrea.org/actualidad/a245486.html
[2] Reinaldo Iturriza Lopez, “Chavismo y revolución¿que pasa en Venezuela”, Rebelión, 31/08/2016, www.rebelion.org/noticia.php?id=2161151
[3] US Energy Information Administration, AEO 2014, Early Release Overview.
[4] É muito esclarecedor o recente artigo de Tony Lopez Rodrigues destacado membro da diplomacia cubana: “El gobierno de Colombia ante la crisis interna venezolana”, 24.-04- 2017, PIA – Periodismo Internacional Alternativo – Nac&Pop, nacionalypopular.com/…

[NR] Revolta popular em Caracas duramente reprimida pelo governo do social-democrata Carlos Andrés Perez com uma matança de mais de 3000 cidadãos. 

Eric Hobsbawm: Ler com Urgência e para quem Não quiser ser Enganado

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Eric Hobsbawm em quatro volumes: A Era das Revoluções (1789- 1848), A Era do Capital (1848-1875), A Era do Império (1875-1914) e A Era dos Extremos (1914-1991).

Por uma abordagem objetiva, aberta e contraditória da Revolução Russa

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Apelo-petição em vésperas do 100º aniversário da Revolução de Outubro

– Nem óculos “Brancos” sobre Outubro de 1917 nem a repetição de “Livros Negros” anticomunistas!

por Annie Lacroix-Riz, Georges Gastaud e Jean Salem

Na abordagem do 100º aniversário do 7 de novembro de 1917, tudo se passa como se se tratasse – sobretudo para certos meios político-mediáticos, caucionados por certos universitários – de apresentar uma versão grosseiramente maniqueísta, tingida de encarniçamento anticomunisto, anti-bolchevique e anti-soviético.
Não apenas Outubro não teria sido senão um “golpe” bolchevique interrompendo um amável curso democrático iniciado pela revolução russa de fevereiro. Não apenas os bolcheviques não teriam tido nenhum papel importante em fevereiro de 1917, não apenas o imenso levantamento proletário e camponês que a preparou, marcou e deu seguimento em 7 de novembro de 1917, não teria tido um caráter autenticamente democrático, popular e socialista, não apenas as suas consequências se teriam revelado unicamente catastróficas para a Rússia e para a humanidade, mas todo este processo se teria desenrolado – bem como a ulterior construção da URSS – num contexto puramente russo e quimicamente puro, praticamente livre de furiosas intervenções imperialistas, da defesa sangrenta e exacerbada dos privilégios pelas classes privilegiadas, do esmagamento brutal da revolução operária na Alemanha, seguido da ascensão do fascismo, nazismo, franquismo e dos militarismos, do Japão imperial à Europa Ocidental (Hungria, Itália, Espanha…)

Os signatários do presente texto ficam horrorizados ao ver profissionais do campo da História misturarem-se no ar viciado deste nosso tempo anticomunista, “pós-moderno” e anti-progressista, abordando, sem excessivos escrúpulos metodológicos, o tema hiperbolicamente qualificado de Outubro russo.

Os mesmos que evocam com comiseração a demasiado “ingénua” historiografia dos tempos recentes e que denunciam os “preconceitos” da conjuntura política que se seguiu a Estalinegrado, o 8 de maio de 1945 e o surgimento de um poderoso partido comunista em França, não se interrogam um segundo sequer sobre a atual configuração política na qual eles desenvolvem a sua reflexão “histórica” qualificada de crítica: ofensiva neoliberal; anexação para a esfera euro-atlântica dos antigos países socialistas; domínio de Berlim sobre a “construção europeia”; subida do Front National e viragem para a direita da sociedade francesa; destruição das conquistas sociais do Conselho Nacional da Resistência ligadas à ação dos ministros comunistas em 1945-47; ressurgimento dos impérios capitalistas disputando a hegemonia mundial, arremetida europeia, leia-se global, de diversas variedades de extremismo de direita e fundamentalismo religioso; degradação da relação de forças entre Trabalho e Capital e a nível mundial; diabolização da Federação Russa, que a NATO pressiona nas suas fronteiras de Vilnius a Kiev; multiplicação de guerras neocoloniais travestidas de “direito de ingerência humanitária” (África, Médio Oriente); criminalização das atividades comunistas em antigos países socialistas (Polônia, República Checa, Bulgária,…); negacionismo histórico caracterizado pelas autoridades japonesas sobre os genocídios cometidos na Coreia e na China; investida de grupos neonazis que proliferam na esteira dos poderes fascizantes, apoiados pela UE e a NATO (Ucrânia Hungria, as antigas repúblicas soviéticas do Báltico)…

Esta tentativa pseudo-histórica de “varrer” Outubro de 1917 da memória coletiva tem objetivamente lugar numa paisagem historiográfica dominada pela reação:

Acrescida complacência com a colonização francesa (por ex. os “aspectos positivos da colonização” (sic) que círculos sarkosistas pretendem inscrever nos programas escolares),
Difamação da Revolução francesa, nomeadamente a sua fase jacobina e de Robespierre,
Tendência para reabilitar Vichy e depreciar a resistência patriótica (particularmente negando o papel proeminente que desempenharam os comunistas),
Relatos desonestos da História nacional que tanto desvalorizam séculos de construção do estado-nação em benefício da historiografia euro-politicamente correta, como pretendem ressuscitar um “romance nacional” expurgado dos confrontos de classes e da contribuição dos comunistas para a Frente Popular, a Resistência, as reformas progressistas da Libertação, a recusa das guerras coloniais, a defesa da liberdade, da paz, da soberania nacional, da igualdade entre homens e mulheres e do progresso social,
Odiosa amálgama entre o Terceiro Reich e a pátria de Estalinegrado, perpetrada nos programas e manuais escolares, sob o nome de “ascensão do totalitarismo”,
Em suma, tudo se passa como se determinados círculos que monopolizam a edição, os media e boa parte da Universidade, estivessem menos preocupados em esclarecer sob um ângulo dialético, dinâmico, e eventualmente contraditório, os Dez Dias que abalaram o mundo do que retrospectivamente dar uma lição aos povos, especialmente à juventude, para os afastar para sempre das lutas da classe operária e revolucionárias…

Como se fosse possível um simples “putsch” bolchevique ter podido mobilizar milhões de proletários e camponeses, varrer os exércitos brancos apoiados por dezoito corpos expedicionários estrangeiros, suscitar um extraordinário florescimento cultural, levantar o entusiasmo do movimento operário e dos povos dominados, derrotar a “invencível” Wehrmacht e, durante mais de sete décadas, pôr no cerne do problema geopolítico global a contradição socialismo/capitalismo, a descolonização e a igualdade entre homens e mulheres.

Difamando a seu bel prazer Outubro de 1917, suas causas, seu progresso e suas sequelas, procura-se também dar tons cor de rosa ou branquear ao máximo o terrível resultado da restauração global do capitalismo que sob o nome de “globalização liberal” resultou na liquidação da experiência multifacetada da Revolução bolchevique.

No entanto, os inquéritos de opinião atestam que feita sucessivamente a experiência de dois de sistemas sociais antagónicos, os povos do antigo campo socialista e mais fortemente ainda os da ex-URSS, continuam a honrar Lenine e todos os que permitiram a construção de uma sociedade alternativa em termos de ganhos sociais, paz civil, direito ao trabalho, acesso a cuidados de saúde e educação, respeito pelas minorias, desenvolvimento das culturas nacionais e das línguas, desenvolvimento científico, etc.

Não deverão os verdadeiros democratas escutar a palavra dos povos ao invés de esmagá-los sob o termo pejorativo de “Ostalgia”? Será assim tão constrangedor que povos que sucessivamente testaram os dois sistemas sociais, e que não esqueceram por essa razão os bloqueios do “socialismo real” nos anos 70/80, afirmem apesar disso, depois de ter experimentado a restauração capitalista, a “Integração europeia” supranacional e neoliberal, a desestabilização sangrenta de países inteiros (Jugoslávia, Ucrânia…), a ascensão de extremistas de direita, a pressão militar exercida pela NATO nas fronteiras da Rússia, que o socialismo era sem dúvida melhor, incluindo os seus defeitos, que a explosão de máfias e das desigualdade que lhe sucederam sob a altamente discutível designação de “democracia liberal”?

É por isto que os signatários deste texto, ainda que não tenham necessariamente todos os mesmos pontos de vista sobre a história russo-soviética, fazem ponto de honra em dizer com força que a Revolução de Outubro de 1917 deve deixar de ser lida apenas com o óculos “brancos”, “termidorianos”, contrarrevolucionários, ou mesmo claramente fascizantes daquelas e daqueles que em lugar de estudarem o movimento comunista, as lutas das classes dominadas e as revoluções populares – incluindo frequentemente a Revolução francesa e a Comuna de Paris – as combatem sem sequer ter a honestidade intelectual de evidenciar a sua orientação partidária.

Não se trata para nós de exigir uma hagiografia da Revolução russa, mas de permitir às gerações jovens abordar o estudo do passado dialeticamente, avaliar a sua complexidade a partir das dinâmicas das classes e das relações de forças internacionais da época, tendo em conta todos os seus aspectos; e acima de tudo, realizar este estudo sem palas anticomunistas nos olhos, sem preconceitos antissoviéticos e, finalmente, sem posições políticas contrarrevolucionárias.

Contra aqueles que tentam já apropriar-se da próxima comemoração de Outubro de 1917 na base de evidentes preconceitos antibolcheviques, reabramos o debate contraditório, voltemos aos factos e proceda-se à sua recontextualização. Numa palavra, evite-se fazer do 100º aniversário de Outubro uma forma de vingança póstuma para os “Brancos” e todos aqueles que, na nossa época, sonham com um mundo definitivamente adquirido para o capitalismo, a integração euro-atlântica, a regressão social, as guerras imperialistas e a fascisação política.
Primeiros signatários:
Marie-Claude Berge , professeur d’histoire; Gwenaël Bidault , syndicaliste CGT (Sécurité sociale, 22) ; Jean-Pierre Bilski , professeur d’histoire (34) ; Pierre Boismenu , psychanalyste et philosophe : Danièle Bleitrach , sociologue (13) ; Christiane Combe , professeur de SVT retraité (19) ; Jean-Pierre Combe , ingénieur polytechnicien (19) ; René Coucke , psychanalyste (59) ; Jean-François Dejours , professeur de philosophie, syndicaliste (59) ; Jean-Marc del Percio , docteur en sciences politiques, ancien chargé d’enseignement à l’IEP de Lyon ; Aurélien Djament , mathématicien au CNRS, syndicaliste (44) ; Bruno Drweski , maître de Conférences HDR, Membre de l’ARAC ; Henriette Dubois , « Nelly » dans la Résistance, ancien agent de liaison des FTP de la zone Sud, chevalier de la Légion d’honneur ; Marianne Dunlop , professeur agrégé de russe ; Jean-Michel Faure , professeur émérite de sociologie, titulaire d’un doctorat 3ème cycle à l’EHSS sur l’Agriculture Russe ; Vincent Flament , militant de la solidarité internationale, 59 ; Joëlle Fontaine , professeur d’histoire retraitée ; Benoît Foucambert , professeur d’histoire, syndicaliste (81) ; Marc-Olivier Gavois , professeur d’histoire ; Jean-Christophe Grellety , professeur de philosophie (33) ; Jean-Pierre Guelfucci , militant syndical, fils de Résistant ; Gilda Guibert , professeur agrégé d’histoire (78) ; Jean-Pierre Hemmen , directeur de la revue théorique Etincelles, fils de Jean Hemmen, Fusillé de la Résistance, ancien militant de l’Internationale communiste et des Brigades internationales d’Espagne (80) ; Gisèle Jamet , professeur d’histoire ; Edmond Janssen , éditeur (75) ; Jean-Pierre Kahane , mathématicien ; François Kaldor , avocat honoraire ; Fadi Kassem , diplômé de Sciences po. Paris, professeur agrégé d’histoire (78) ; Jacques Kmieciak , journaliste (62) ; Léon Landini, ancien officier FTP-MOI, grand Mutilé de Guerre, Officier de la Légion d’honneur, Médaille de la Résistance, décoré par l’Union soviétique (92) ; Guy Laval , psychiatre (75) ; Ivan Lavallée , universitaire et chercheur en informatique ; Yves Letourneur , poète, philosophe ; Thérèse Lévené , enseignante-chercheure en sciences de l’éducation, université de Lille 1, vice-présidente du CNU 70, syndiquée au Snesup ; Olivier Long , universitaire et peintre ; Antoine Manessis , fils de Résistants, historien ; Annette Mateu-Casado , anc. documentaliste, fille de combattants antifascistes espagnols ; Aymeric Monville , éditeur de livres de philosophie et d’histoire (92) ; Dominique Mutel , agrégé d’anglais (62) ; Jean-Michel Pascal , ingénieur d’études (75) ; Anna Persichini, syndicaliste CGT (Métallurgie – 06) ; Guy Poussy , conseiller honoraire du Val-de-Marne ; Pierre Pranchère , ancien maquisard FTPF de Corrèze (dite la « Petite Russie »), ancien député ; Christophe Pouzat , neurobiologiste (94), Benoît Quennedey , historien (75) ; Marie-Noël Rio, écrivain (Allemagne) ; Hervé Sczepaniak , professeur de lettres ; Jean-Pierre Sienkiewicz, agrégé de physique, syndicaliste (24) ; Stéphane Sirot , historien du syndicalisme (59) ; Romain Telliez , historien. Université de Paris-Sorbonne ; André Tosel , professeur émérite de philosophie à l’Université de Nice ; Yves Vargas , philosophe, fils de Résistant ; Maxime Vivas , écrivain et journaliste.

Associam-se a este apelo-petição internacional:
Barbara Flamand , écrivain, Bruxelles; Domenico Losurdo , philosophe et historien, professeur émérite à l’Université d’Urbino (Italie) ; Anita Prestes , professeur à l’Université Fédérale de Rio de Janeiro; Miguel Urbano Rodrigues , anc. député portugais au Conseil de l’Europe, anc. militant antifasciste et anticolonialiste, historien du mouvement communiste.

Para assinar clique aqui .

O original encontra-se em http://www.initiative-communiste.fr/…

Este documento encontra-se em http://resistir.info/ .

Famine and Socialism — STALIN’S MOUSTACHE

One of the great myths concerning socialist collectivisation of agriculture is that it produced ‘man-made’ famines, since it is supposedly less ‘efficient’. This story is perpetrated by friend and foe alike. Example 1: The famine of 1932-33 in the Soviet Union, which is supposed to have been ‘man-made’. Let me set the context. During the […]

via Famine and Socialism — STALIN’S MOUSTACHE

The “Holodomor” and the Film “Bitter Harvest” are Fascist Lies

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http://www.counterpunch.orghttp://www.counterpunch.org

Posted By Grover Furr On March 3, 2017 @ 12:18 am In articles 2015 | Comments Disabled
(Author’s note: In this article I rely heavily on the evidence cited in the research of Mark Tauger of West Virginia University. Tauger has spent his professional life studying Russian and Soviet famines and agriculture. He is a world authority on these subjects, and is cordially disliked by Ukrainian nationalists and anticommunists generally because his research explodes their falsehoods. )

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Judeus: os bodes expiatórios

 

The Ukrainian nationalist film “Bitter Harvest” propagates lies invented by Ukrainian nationalists. In his review Louis Proyect propagates these lies.

Proyect cites Jeff Coplon’s 1988 Village Voice article “In Search of a Soviet Holocaust: A 55-Year-Old Famine Feeds the Right.” In it Coplon shows that the leading “mainstream” anticommunist Western experts on Soviet history rejected any notion of a deliberate famine aimed at Ukrainians. They still reject it. Proyect fails to mention this fact.

There was a very serious famine in the USSR, including (but not limited to) the Ukrainian SSR, in 1932-33. But there has never been any evidence of a “Holodomor” or “deliberate famine,” and there is none today.

The “Holodomor” fiction was invented in by Ukrainian Nazi collaborators who found havens in Western Europe, Canada, and the USA after the war. An early account is Yurij Chumatskij, Why Is One Holocaust Worth More Than Others? published in Australia in 1986 by “Veterans of the Ukrainian Insurgent Army” this work is an extended attack on “Jews” for being too pro-communist.

Proyect’s review perpetuates the following falsehoods about the Soviet collectivization of agriculture and the famine of 1932-33:

* That in the main the peasants resisted collectivization because it was a “second serfdom.”

* That the famine was caused by forced collectivization. In reality the famine had environmental causes.

* That “Stalin” – the Soviet leadership – deliberately created the famine.

* That it was aimed at destroying Ukrainian nationalism.

* That “Stalin” (the Soviet government) “stopped the policy of “Ukrainization,” the promotion of a policy to encourage Ukrainian language and culture.

None of these claims are true. None are supported by evidence. They are simply asserted by Ukrainian nationalist sources for the purpose of ideological justification of their alliance with the Nazis and participation in the Jewish Holocaust, the genocide of Ukrainian Poles (the Volhynian massacres of 1943-44) and the murder of Jews, communists, and many Ukrainian peasants after the war.

Their ultimate purpose is to equate communism with Nazism (communism is outlawed in today’s “democratic Ukraine”); the USSR with Nazi Germany; and Stalin with Hitler.

Collectivization of Agriculture – The Reality

Russia and Ukraine had suffered serious famines every few years for more than a millennium. A famine accompanied the 1917 revolution, growing more serious in 1918-1920. Another serious famine, misnamed the “Volga famine,” struck from 1920-21. There were famines in 1924 and again in 1928-29, this last especially severe in the Ukrainian SSR. All these famines had environmental causes. The medieval strip-farming method of peasant agriculture made efficient agriculture impossible and famines inevitable.

Soviet leaders, Stalin among them, decided that the only solution was to reorganize agriculture on the basis of large factory-type farms like some in the American Midwest, which were deliberately adopted as models. When sovkhozy or “Soviet farms” appeared to work well the Soviet leadership made the decision to collectivize agriculture.

Contrary to anticommunist propaganda, most peasants accepted collectivization. Resistance was modest; acts of outright rebellion rare. By 1932 Soviet agriculture, including in the Ukrainian SSR, was largely collectivized.

In 1932 Soviet agriculture was hit with a combination of environmental catastrophes: drought in some areas; too much rain in others; attacks of rust and smut (fungal diseases); and infestations of insects and mice. Weeding was neglected as peasants grew weaker, further reducing production.

The reaction of the Soviet government changed as the scope of the crop failure became clearer during the Fall and Winter of 1932. Believing at first that mismanagement and sabotage were leading causes of a poor harvest, the government removed many Party and collective farm leaders (there is no evidence that any were “executed” like Mykola in the film.) In early February 1933 the Soviet government began to provide massive grain aid to famine areas.

The Soviet government also organized raids on peasant farms to confiscate excess grain in order to feed the cities, which did not produce their own food. Also, to curb profiteering; in a famine grain could be resold for inflated prices. Under famine conditions a free market in grain could not be permitted unless the poor were to be left to starve, as had been the practice under the Tsars.

The Soviet government organized political departments (politotdely) to help peasants in agricultural work. Tauger concludes: “The fact that the 1933 harvest was so much larger than those of 1931-1932 means that the politotdely around the country similarly helped farms work better.” (Modernization, 100)

The good harvest of 1933 was brought in by a considerably smaller population, since many had died during the famine, others were sick or weakened, and still others had fled to other regions or to the cities. This reflects the fact that the famine was caused not by collectivization, government interference, or peasant resistance but by environmental causes no longer present in 1933.

Collectivization of agriculture was a true reform, a breakthrough in revolutionizing Soviet agriculture. There were still years of poor harvests — the climate of the USSR did not change. But, thanks to collectivization, there was only one more devastating famine in the USSR, that of 1946-1947. The most recent student of this famine, Stephen Wheatcroft, concludes that this famine was caused by environmental conditions and by the disruptions of the war.

Proyect’s False Claims

Proyect uncritically repeats the self-serving Ukrainian fascist version of history without qualification.

* There was no “Stalinist killing machine.”

* Committed Party officials were not “purged and executed.”

* “Millions of Ukrainians” were not “forced into state farms and collectives.” Tauger concludes that most peasants accepted the collective farms and worked well in them.

* Proyect accepts the Ukrainian nationalist claim of “3-5 million premature deaths.” This is false.

Some Ukrainian nationalists cite figures of 7-10 million, in order to equal or surpass the six million of the Jewish Holocaust (cf. Chumatskij’s title “Why Is One Holocaust Worth More Than Others?”). The term “Holodomor” itself (“holod” = “hunger”, “mor” from Polish “mord” = “murder,” Ukrainian “morduvati” = “to murder) was deliberately coined to sound similar to “Holocaust.”

The latest scholarly study of famine deaths is 2.6 million (Jacques Vallin, France Meslé, Serguei Adamets, and Serhii Pirozhkov, “A New Estimate of Ukrainian Population Losses during the Crises of the 1930s and 1940s,” Population Studies 56, 3 (2002): 249–64).

* Jeff Coplon is not a “Canadian trade unionist” but a New-York based journalist and writer, The late Douglas Tottle’s book Fraud, Famine and Fascism, a reasonable response to Robert Conquest’s fraudulent Harvest of Sorrow, was written (as was Conquest’s book) before the flood of primary sources from former Soviet archives released since the end of the USSR in 1991 and so is seriously out of date.

* Walter Duranty’s statement about “omelets” and “eggs” was not said “in defense of Stalin” as Proyect claims but in criticism of Soviet government policy:

But — to put it brutally — you can’t make an omelette without breaking eggs, and the Bolshevist leaders are just as indifferent to the casualties that may be involved in their drive toward socialization as any General during the World War who ordered a costly attack in order to show his superiors that he and his division possessed the proper soldierly spirit. In fact, the Bolsheviki are more indifferent because they are animated by fanatical conviction. (The New York Times March 31, 1933)

Evidently Proyect simply copied this canard from some Ukrainian nationalist source. Garbage In, Garbage Out.

* Andrea Graziosi, whom Proyect quotes, is not a scholar of Soviet agriculture or the 1932-33 famine but an ideological anticommunist who assents to any and all anti-Soviet falsehoods. The article Proyect quotes is from Harvard Ukrainian Studies, a journal devoid of objective research, financed and edited by Ukrainian nationalists.

* Proyect refers to “two secret decrees” of December 1932 by the Soviet Politburo that he has clearly not read. These stopped “Ukrainization” outside the Ukrainian SSR. Within the Ukrainian SSR “Ukrainization” continued unabated. It did not “come to an end” as Proyect claims.

* Proyect cites no evidence of a Soviet “policy of physically destroying the Ukrainian nation, especially its intelligentsia” because there was no such policy.

A Triumph of Socialism

The Soviet collectivization of agriculture is one of the greatest feats of social reform of the 20th century, if not the greatest of all, ranking with the “Green Revolution,” “miracle rice,” and the water-control undertakings in China and the USA. If Nobel Prizes were awarded for communist achievements, Soviet collectivization would be a top contender.

The historical truth about the Soviet Union is unpalatable not only to Nazi collaborators but to anticommunists of all stripes. Many who consider themselves to be on the Left, such as Social-Democrats and Trotskyists, repeat the lies of the overt fascists and the openly pro-capitalist writers. Objective scholars of Soviet history like Tauger, determined to tell the truth even when that truth is unpopular, are far too rare and often drowned out by the chorus of anticommunist falsifiers.

Sources: Mark Tauger’s research, especially “Modernization in Soviet Agriculture” (2006); “Stalin, Soviet Agriculture, and Collectivization” (2006); and “Soviet Peasants and Collectivization, 1930-39: Resistance and Adaptation.” (2005), all available on the Internet. More of Tauger’s articles are available at this page: https://www.newcoldwar.org/archive-of-writings-of-professor-mark-tauger-on-the-famine-scourges-of-the-early-years-of-the-soviet-union/

See also Chapter I of my book Blood Lies; The Evidence that Every Accusation against Joseph Stalin and the Soviet Union in Timothy Snyder’s Bloodlands Is False (New York: Red Star Press, 2013), at http://msuweb.montclair.edu/~furrg/research/furr_bloodliesch1.pdf

On the 1946-47 famine see Stephen G. Wheatcroft, “The Soviet Famine of 1946–1947, the Weather and Human Agency in Historical Perspective.” Europe-Asia Studies, 64:6, 987-1005.

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Distorção de História

Article printed from http://www.counterpunch.org: http://www.counterpunch.org

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http://www.counterpunch.org/2017/03/03/the-holodomor-and-the-film-bitter-harvest-are-fascist-lies/

Losurdo e a atualidade da luta de classes Miguel Urbano Rodrigues

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“Uma leitura crítica da recente edição brasileira de «Luta de Classes – Uma História Política e Filosófica» de Domenico Losurdo. Obra oportuna e actualíssima numa época de confusão ideológica promovida pela intelectualidade burguesa e por um sistema mediático ao serviço do capitalismo. A sua leitura abre espaço ao debate e à controvérsia, como é próprio da obra de um verdadeiro marxista.

Dececionado pelo defunto PCI e por Rifondazione Comunista, aderiu ao jovem Partido dos Comunistas Italianos.

Rejeita qualquer modalidade de dogmatismo e revisionismo. Fiel aos ensinamentos de Marx e Lenin, distancia se do reformismo e do dogmatismo subjetivista (bem caracterizado por Gyorgy Lukács) que durante décadas atingiu muitos partidos comunistas que, afirmando ser marxistas-leninistas, negavam na praxis a opção ideológica.

A editora brasileira Boitempo lançou em 2015 o seu último livro, A Luta de Classes-Uma História Política e Filosófica*.

É um ensaio difícil, árido, por vezes pesado, mas fascinante pela lucidez e criatividade.

O discurso de Losurdo sobre a luta de classes é oportuno e atualíssimo numa época de confusão ideológica promovida pela intelectualidade burguesa e por um sistema mediático ao serviço do capitalismo.

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DO MANIFESTO À ESCRAVATURA

Na introdução, o autor recorda que O Manifesto Comunista logo na abertura afirmava que «A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes». Enunciou uma evidência que a burguesia negava.

Losurdo comenta no Capitulo I o quadro europeu e mundial de exploração do homem que deu origem ao Manifesto Comunista e à reflexão de Marx que desembocou na teoria da luta de classes. O choque entre opressores e oprimidos tornaria inevitável uma luta de classes para a emancipação das vítimas.

A Revolução de1848 contribuiu para que «em vez de se apresentar imediatamente como económica, a luta de classes assumisse as formas politicas mais variadas (revoltas operárias e populares, insurreições nacionais, repressão desencadeada pela reação interna e internacional, recorrendo a instrumentos militares e económicos) em vez de desaparecer tornou-se mais dura».

Da Europa o autor salta para os Estados Unidos. Marx no primeiro livro do Capital qualifica a Guerra de Secessão como «o único acontecimento grandioso da história contemporânea». Somente anos mais tarde, o grande revolucionário compreendeu que a condição dos negros na sociedade norte-americana, dominada por uma oligarquia racista, mudaria muito menos do que ele esperava e desejava.

Meditando sobre o malogro da Revolução de 1848, Marx e Engels não desistem de incentivar o proletariado das potências industrializadas a rebelar-se, sublinhando que na Inglaterra, na França, na Alemanha os operários são afinal «escravos modernos».

Mas não esquecem que há outro tipo de «escravos modernos»: as nações oprimidas por estados poderosos e os povos das colónias africanas e asiáticas. Na Europa citam a Irlanda e a Polónia. A luta pela independência é nelas uma modalidade da luta de classes.

Para Losurdo a Guerra de l914/18 é também expressão da luta de classes, mas em sentido triplo. O conflito, segundo ele, remete para a luta das grandes potências capitalistas pela hegemonia mundial; nas metrópoles a classe dominante reduz a combatividade do proletariado através da prova de força no plano internacional; e, ao ampliar a exploração colonial, transforma a questão nacional numa questão social que configura uma luta de classes.

AVANÇOS E RECUOS DA REVOLUÇÃO

A transição do capitalismo para o socialismo e a extinção gradual do Estado são temas tratados exaustivamente do Capitulo III ao XII, sempre no contexto da luta de classes, exacerbada após a vitória de Outubro de 17.

A Nova Politica Económica – NEP foi criada na URSS após o malogro da política do comunismo de guerra. A fome assolava o país, invadido pelas potências da Entente e devastado pelos exércitos dos generais brancos.

Lenin ao concebê-la sabia que ela ia impor um recuo da Revolução, mas que era indispensável para a salvar. «A classe operaria-escreveu em 1920,ainda durante o comunismo de guerra- detém o poder estatal, mas é obrigada a aguentar grandes sacrifícios, morrer e a passar fome».

O paradoxo, salienta Losurdo, tornou-se mais evidente com a imposição da NEP: «Agora quem vive em condições económicas ostensivamente melhores do que a classe politicamente dominante é uma classe, ou setores de uma classe, que foi derrubada porque era exploradora».

O aparecimento do nepman, rico, corrupto e arrogante, indignava os trabalhadores e suscitou críticas de muitos militantes do Partido que chamavam à NEP a «Nova Extorsão do Proletariado». Destacados dirigentes como Alexandra Kollontai e o seu ex.amante Shlyapnikov aderiram então à chamada Oposição Operária.

Losurdo dedica páginas á formação da consciência de classe. Cita Gramsci mas, atento ao lado positivo do dirigente comunista italiano, não menciona sequer as ambíguas teses gramscianas em que o eurocomunismo, deturpando-as, se inspirou. E invoca opiniões de Mao Tse quando advertiu que a expropriação económica da burguesia não implicara o seu desaparecimento como classe quando o Partido Comunista conquistou o poder.

A Revolução Chinesa merece-lhe alias uma atenção especial. Losurdo esteve próximo do maoismo e isso é percetível na sua obra. No seu livro sobre a luta de classes transparece uma visão quase romântica do rumo que a China tomou apos as grandes reformas de Deng Xiaoping. É inegável que elas foram decisivas para a rápida transformação de um país atrasado, semicolonial, que cresceu num ritmo inédito, e tem hoje a segunda economia do mundo. Não cabe neste artigo uma reflexão mesmo superficial sobre a complexa experiencia chinesa. Mas julgo útil esclarecer que uma académica marxista francesa, Myléne Gaulard, afirma na sua tese de doutoramento, «Marx à Pékin», que a China continua a ser um país capitalista.

A TEMATICA DO NIVELAMENTO UNIVERSAL

No capítulo II Losurdo aborda a temática do «nivelamento universal».

Rebatendo a falsidade da tese de Alexis de Tocqueville – um escritor venerado pela burguesia francesa- no seu livro A Democracia na América, segundo a qual já não existiam praticamente classes sociais na Europa em meados do seculo XIX, o filósofo italiano afirma tratar se um enorme disparate reacionário

Para o liberal francês, principiou desde o seculo X no Ocidente «uma revolução nas condições de vida» dos povos que conduzira progressivamente a um «nivelamento universal». A nobreza recuara na escala social e a plebe avançara. Em breve estariam lado a lado.

Viveu porem o suficiente – faleceu em 1859 – para verificar, consternado, que a revolução industrial inglesa fizera ruir a sua absurda teoria. Tocquevlle aliás reconhecera que o «nivelamento» não impedia a existência de desníveis abissais entre os europeus e os africanos e asiáticos.

Losurdo sublinha que, no seu deslumbramento americano, Tocqueville simula esquecer a existência de milhões de escravos negros na pátria de Washington e Jefferson.

Com o seu desprezo pela «raça amarela» o autor da Democracia na América desconhece também que ainda em 1820 cabiam à China 32% do PIB mundial e à India 15%. O imperialismo britânico arruinou rapidamente os dois países.

O MITO DA PAZ UNIVERSAL DE STUART MILL A ARENDT E HABERMAS

No mesmo capítulo II e no capítulo XI, Losurdo evoca debates sobre o mito da paz universal e comenta posições de Hannah Arendt e de Jurgen Habermas relacionadas com uma imaginária nova ordem mundial que inviabilizaria novas guerras.

Lembra que o liberal Stuart Mill identificara no Imperio Britânico o prólogo a uma futura comunidade universal e à cooperação e à paz entre os povos. Para ele nenhum outro povo encarnava como o britânico a causa da liberdade e da moralidade internacional. E pretende justificar essa monstruosa opinião afirmando que as populações atrasadas têm o maior interesse em se integrarem nesse império para evitar a absorção por qualquer outro estado colonizador.

Conclusão: as guerras seriam em breve uma quase impossibilidade.

Losurdo obviamente ridiculariza e pulveriza o discurso imperialista de Stuart Mill.

Diferentes, mas igualmente aberrantes são as opiniões sobre a transformação do mundo de Arendt e do filósofo Habermas.

A sionista americana qualifica a luta de classes de «pesadelo». Para ela a ciência e a tecnologia estão a contribuir para o advento de uma nova ordem mundial.

A Historia desmente essa esperança. Losurdo cita dois exemplos. A introdução no Sul dos Estados Unidos da máquina de descaroçamento do algodão não afetou minimamente segundo ele o trabalho escravo. Em 1790 o total de escravos não atingia 697 000;em 1861, em vésperas da guerra da Secessão, ultrapassava 4 milhões.

Na India, o governador-geral, em 1864, definia como catástrofe social a introdução da maquinaria algodoeira. Arruinou milhões de tecelões hindus. «Dificilmente uma tal miséria – escreveu – encontra paralelo na história do comércio».

Ao contrapor os benefícios da tecnologia aos males da luta de classes, Arendt esboça um panorama otimista do futuro. O filósofo Habermas considera a luta de classes obsoleta e desnecessária. Segundo ele o estado social apos a II Guerra mundial conduzira a uma pacificação dos trabalhadores, tanto sob governos social-democratas como conservadores.

Essa ingénua convicção carecia de base científica. A brutal ofensiva do neoliberalismo, inspirado nas teses reacionárias do austríaco Friedrich Hayek, destruiu as bases do chamado estado social em toda a Europa.

O POPULISMO E A LUTA DE CLASSES

O último capítulo do livro, o XII, incide sobre «a luta de classes entre o marxismo e o populismo».

O autor cita repetidamente Simone Weil.

Para Marx a luta de classes é o motor do processo histórico e social; para Weil «é um momento moralmente privilegiado na história e na vida dos homens». A francesa é uma crítica severa da modernidade, da indústria, das novas tecnologias. O seu populismo tem afinidades com o pacifismo de Gandhi e com ideias do senegalês Senghor e inclusive com o projeto de Proudhon de ajuda aos pobres.

Losurdo acha que o populismo, sobretudo o de esquerda, «estimula uma visão da luta de classes que exclui do seu raio de ação acontecimentos decisivos da história mundial».

Acrescentarei que um destacado populista de esquerda, o talentoso vice presidente da Bolívia Garcia Linera, exibindo uma máscara marxista, tem desempenhado um papel nocivo ao influenciar prestigiados intelectuais progressistas da América Latina.

A EXTINÇÃO DO ESTADO

São poucas as páginas em que Losurdo retoma no seu livro a problemática da extinção do Estado. Não conheço outro pensador comunista que tenha abordado com tamanha coragem e lucidez essa questão fulcral. Repete agora aquilo que noutros ensaios afirmou ao considerar romântica a tese marxiana da extinção gradual do estado. O autor do Capital via como desnecessário o Estado na futura sociedade comunista porque, desaparecidas as classes sociais nas sociedades socialistas adultas, o Estado seria nelas uma instituição supérflua, sem função.

Marx faleceu muito antes de que o rumo da História demonstrasse na primeira sociedade socialista a ingenuidade da teoria marxiana da extinção do Estado. Lenin tinha-a defendido no seu famoso livro O Estado e a Revolução, escrito nas vésperas de Outubro de 17. Mas teve de rever a sua posição. O Estado soviético em vez de caminhar para a extinção fortaleceu-se cada vez mais. Por motivos muito diferentes ocorreram processos similares na China, no Vietnam, em Cuba, nas democracias populares da Europa oriental.

Marx não podia adivinhar as respostas que a História daria à sua ousada previsão. Nem Lenin, nem Mao, nem Fidel e o Che podiam antecipar que o mítico homem novo imaginado por gerações de comunistas tardará muito a surgir. Ora, sem ele a transição do socialismo para o comunismo é impossível. A tendência para reconstituição gradual das classes sociais torna o Estado imprescindível.

***

Uma nota pessoal para findar este texto sobre o importante e polémico livro de Domenico Losurdo sobre a Luta de Classes.

O professor da Universidade de Urbino acumulou uma prodigiosa erudição. A sua cultura, que abarca múltiplos ramos do conhecimento, sobretudo nas áreas da filosofia, da história e da sociologia, contribui paradoxalmente para dificultar a leitura de alguns capítulos. Porquê? Pela rapidez das transposições. Muda inesperadamente de um tema para outro, de um autor para um acontecimento, de um tema económico para um exemplo, da análise de uma crise para uma citação que surpreende, da reflexão sobre as causas da desagregação da URSS para o mito do homem novo.

Losurdo é permanentemente imprevisível. Discordo de algumas posições suas. Mas a discordância não afeta a grande admiração que sinto pela obra e pelo homem”.

*Domenico Losurdo, Luta de Classes – Uma História Política e Filosófica. Editora Boitempo, 391 páginas, São Paulo,2015

Vila Nova de Gaia, Dezembro de 2016