O Fim das Humanidades – Gabriel Ferreira

 

O Fim das Humanidades


  • Gabriel Ferreira
  • [06/05/2016]
  • [00h01]
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“Em setembro de 2015, o ministro da educação japonês, Hakubun Shimomura, notificou as universidades do país pedindo que elas tomassem providências para abolir os seus departamentos de humanidades – que compreendem áreas como a Filosofia, Sociologia, Antropologia, Letras entre outras – a fim de convertê-los em organismos que “sirvam melhor as necessidades da sociedade”. O ministro japonês não estava fazendo nada mais do que ecoar uma onda que tem nas universidades dos EUA o seu precedente. Já há dois anos antes, o ARC, órgão australiano de fomento à pesquisa, havia apontado o projeto de um renomado especialista em filosofia alemã como o tipo de pesquisa que consistiria em um “desperdício de dinheiro”. E temos então formado o actualíssimo tema da crise das humanidades mundo afora.
O valor do estudo da literatura não é enriquecer o vocabulário, embora tal “efeito colateral” seja desejável

 

O tipo mais comum de reacção na literatura atual pode ser sumarizado na posição da professora americana Martha Nussbaum no seu livro Sem fins lucrativos: Por que a democracia precisa das humanidades (ed. WMF, 2010). Segundo ela, as humanidades são essenciais porque delas emergem habilidades e características fundamentais para a manutenção da democracia (ou do pensamento crítico ou, ainda, da civilização ocidental). Assim, o seu ensino deve ser preservado porque fomentam capacidades e repertório indispensáveis para tal ou tal fim. E esse é um bom exemplo de como boas verdades podem constituir um mau argumento.
O problema central desse tipo de argumentação é que, por colocar o valor das humanidades na sua função ou serventia para um fim, este sim, mais desejável – a democracia, a aceitação das diferenças ou a manutenção da cultura ocidental –, o que todos os defensores estão dizendo no fundo é que, gostem ou não, as humanidades não têm um valor em si mesmas. Basta que aqueles fins não sejam mais desejáveis – e é historicamente patente que a democracia ou a boa convivência com as diferenças nem sempre gozaram do prestígio atual –, para que o “valor das humanidades” vá igualmente por água abaixo. Nem mesmo do ponto de vista pragmático, de convencer o burocrata interessado na manutenção da democracia ou da cultura ocidental, este tipo de raciocínio é cogente.
O valor do estudo da literatura não é enriquecer o vocabulário, embora tal “efeito colateral” seja desejável. Do mesmo modo, o objectivo do estudo da História não pode ser tão somente “não repetir os erros do passado”, assim como o valor da Filosofia não deve residir no desenvolvimento do famigerado “pensamento crítico”. Há uma diferença crucial entre adquirir formação ou informação e buscar conhecimento simplesmente porque, ao contrário dos saberes necessários para bem chegar a um determinado fim, à busca por alargar o conhecimento da realidade não se pode conceder um termo que lhe seja prévio e em relação ao qual possamos medir o seu progresso. Da mesma forma, a universidade deve ser o lugar no qual a ideia norteadora fundamental é que o conhecimento não pode ser sempre identificado com a formação para uma profissão ou para um outro fim que não, como diria Aristóteles, “fugir da ignorância” porque isso é bom em si mesmo. É esse o sentido de “Educação Superior”, expressão desgastada e quase esvaziada de sentido. Se as humanidades são essenciais para algo, o são para afirmar precisamente o valor intrínseco de certa parcela da existência humana que sabemos irredutível porque tem o seu fim em si mesma”.
Gabriel Ferreira é doutor em Filosofia e professor na Tunisinos.
 
(Texto modificado em certos detalhes linguísticos)
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Como diminuir a pegada humana: e como voltar à natureza seria um desastre para a natureza (Matt Ridley)

 

Como diminuir a pegada humana: e como voltar à natureza seria um desastre para a natureza

(Uma tradução brasileira)

Matt Ridley
“Bizarramente, a maioria das políticas instadas pelo movimento ambientalista aumentaria a extensão de terra que cada pessoa precisa para sustentar seu estilo de vida.
Para sustentar o nosso estilo de vida atual, nós seres humanos necessitamos de 1,4 planetas. Esse é o número calculado por uma misteriosa organização chamada Global Footprint Network, que define a pegada ecológica como “uma medida da quantidade de terra biologicamente produtiva e água que um indivíduo, uma população ou atividade requer para produzir todos os recursos que consomem e para absorver o lixo que produzem utilizando a tecnologia predominante e práticas de gestão de recursos”. Em resumo, estamos consumindo a comida, os combustíveis e as fibras da terra a uma velocidade 1,4 vezes mais rápida do que eles podem ser repostos.
Na verdade, este número é enganador, quase ao ponto da desonestidade. Mais da metade dele consiste da terra que cada pessoa necessitaria para plantar árvores com as quais absorveria suas próprias emissões de carbono. Se for levada em consideração a visão de que podemos cortar as emissões, ou encontrar maneiras melhores de isolá-las, ou até mesmo lidar com pelo menos algum aumento, então a pegada diminui e estamos vivendo folgadamente dentro das condições do nosso meio ecológico.
Mesmo se esse número da pegada estiver certo, a questão interessante é se ele está ficando maior ou menor. Argumentarei que a pegada ecológica da atividade humana provavelmente está diminuindo em um ritmo acelerado e que estamos nos tornando mais sustentáveis, não menos, na maneira de usarmos o planeta. Em resumo, o mais sustentável que podemos fazer, e o melhor para o planeta, é acelerar as mudanças tecnológicas e o crescimento econômico.
Espero que tenha conseguido a sua atenção. Não acredita em mim? Então me deixe começar com o meu próprio estilo de vida. Estou sentado em uma casa com aquecimento central, vestindo um casaco de tecido sintético, meias de lã, sapatos de couro e calças e camisa de algodão. Acabei de comer uma tigela de cereais com leite e tomei um copo de suco de manga e maracujá importados.
Você concordará que, em termos ecológicos, esta vida é a mais infame que se possa imaginar. Poços de gás e petróleo, campos de algodão e de aveia, pastos para o gado e as ovelha, pomares de maracujá e de manga no mundo todo estão desviando a sua produção para mim. Acres e mais acres apenas para sustentar o meu estilo de vida.
Sim, mas suponha que eu desista de tudo isso e decida me tornar um caçador, vestido de pele de animais, possuindo pouco mais do que lenha, ferramentas de pedra feitas em casa, cestos de vime e contas de conchas. Caço veados enquanto minha esposa cava a terra à procura de raízes. De quanta terra eu precisaria? A resposta surpreendente é que eu precisaria de cerca de 1.000 hectares, exceto se eu vivesse em uma planície tropical bem irrigada à beira de um fecundo rio, mas se eu morasse – como, de fato, moro – onde uma vez foi uma fria floresta boreal de carvalhos. Essa é a extensão de terra que o estilo de vida do caçador requer. Se 6,8 bilhões de nós tentassem viver como caçadores, precisaríamos de 18 planetas (54 se não pudéssemos explorar o oceano). Voltar à natureza seria um desastre para a natureza.
Em poucas palavras, a coisa mais sustentável que podemos fazer, e o melhor para o planeta, é acelerar as mudanças tecnológicas e o crescimento econômico.
É claro, caçadores-coletores caminham pela terra com passos mais leves do que eu. Mas mesmo os amplamente dispersos caçadores de 50.000 anos atrás causaram muitos danos ecológicos. Os registros ecológicos de Israel, da Turquia e da Itália revelam que os primeiros seres humanos modernos em torno do Mediterrâneo deixaram de se alimentar de cavalos, rinocerontes, mamutes, bisões e tartarugas e passaram a comer coelhos, lebres, pombos e pequenas gazelas. Razão: eles haviam destruído as espécies de reprodução lenta. Caçadores-coletores causaram espasmos de extinção quando chegaram à Austrália, América do Norte, Madagascar e Nova Zelândia.
A característica mais notável da agricultura, quando esta foi inventada há 10.000 anos atrás, era o quanto a sua pegada era menor. Os primeiros agricultores precisavam de cerca de dez hectares cada para sustentar o seu estilo de vida – um centésimo do que o caçador-coletor precisava. Da mesma maneira, a introdução dos combustíveis fósseis, há 200 anos, diminuiu ainda mais a pegada e interrompeu o desflorestamento: nos anos 1700, a indústria de ferro britânica perecia pela falta de combustível (madeira) em uma ilha já muito desflorestada. Um século depois, a Grã-Bretanha estava queimando carvão equivalente à produção de uma floresta do tamanho da Escócia e as árvores estavam se propagando novamente.
Na verdade, de volta ao meu estilo de vida, cada item que eu uso hoje necessita de menos terra para ser produzido do que precisava no passado. Meu casaco sintético veio de um poço de petróleo, enquanto o suéter que eu costumava usar em dias frios como este veio de uma fazenda de ovelhas. A pegada do sistema de produção do tecido sintético – poço, refinaria, fábrica e loja – é minúscula se comparada com a terra necessária para a criação de ovelhas. Minhas meias, sapatos, camisa e o café da manhã precisam de cerca de metade da extensão de terra necessária para serem produzidos do que precisavam antes do surgimento dos fertilizantes sintéticos. Meu aquecimento central a gás precisa de muito menos do que uma fogueira.
Vamos dar uma olhada nos alimentos de maneira um pouco mais detalhada. Quando os campos eram cultivados com bois ou cavalos, que também precisavam de pasto, 25% a mais precisava ser reservado apenas para alimentá-los, de acordo com o especialista em energia canadense Vaclac Smil. A introdução do trator reduziu a pegada humana. Nos últimos 50 anos, graças às inovações da genética, os defensivos e os fertilizantes, a quantidade de cereais cultivados no mundo quase triplicou, mesmo que a extensão dos campos de cereais tenha permanecido praticamente a mesma – pouco menos de 700 mil hectares.
Se tentássemos alimentar a população atual de 6,8 bilhões de pessoas usando os métodos de 1960, teríamos que cultivar 82% da área de terra do planeta ao invés de 34%, calcula o economista Indur Goklany. Isso significaria lavrar uma área extra do tamanho da América do Sul sem o Chile.
A maior inovação de diminuição de terra de todas é a capacidade de extrair nitrogênio do ar através do processo de Haber. A agricultura orgânica tira o seu nitrogênio do ar também, mas através de plantas como o trevo e utilizando o gado no processo – e isso requer terra. Alimentar o mundo com agricultura orgânica exigiria uma população de mais sete bilhões de cabeças de gado pastando em 30 bilhões de acres a mais, apenas para suprir o adubo.
Mas deixemos de lado a comida. O mesmo ocorre com as fibras. Algodão, lã, seda e linho ainda exigem terra, mas suas produções dobraram desde a introdução dos fertilizantes sintéticos. Em muitos casos, eles deram lugar às fibras “fabricadas pelo homem”, provenientes de fontes mais eficientes. A extensão de terra necessária para vestir um homem ou uma mulher diminui continuamente.
Voltar à natureza seria um desastre para a natureza.
Similarmente, os combustíveis. Uma fogueira precisa de até dez acres de área florestal intensamente ceifada apenas para aquecer uma casa; mais se você cozinhar o ano todo. Um típico poço de gás de folhelho na Pensilvânia ocupa metade de um acre e produz 50.000 metros cúbicos por dia, o suficiente para aquecer 150 casas. Isso significa que a terra necessária para produzir o seu combustível pode ser 1/3000 do que seria se você dependesse da madeira. Por isso, uma das melhores maneiras de aliviar a pressão sobre as florestas na Ásia e na África é proporcionar combustíveis fósseis às pessoas – por exemplo, na forma de eletricidade.
O transporte também requer menos terra do que antigamente. Enquanto um cavalo precisa de mais de um acre de pasto e pode transportar uma pessoa 30 milhas por dia, um poço de petróleo na Califórnia produz, todos os dias, em menos de meio acre de extensão, gasolina suficiente para transportar 200 pessoas por 30 milhas. Mesmo se levarmos em conta estradas, pistas, refinarias e fábricas de automóveis, a diferença em passageiros-milhas por acre é esmagadora. Cada melhoramento na eficiência dos combustíveis é uma redução da extensão necessária para produzí-lo.
Moradia também requer menos terra do que antigamente: concreto e aço vêm de pedreiras e fábricas com pegadas minúsculas comparadas com as concessões madeireiras. Inclua o efeito da urbanização, com as pessoas deslocando-se para as cidades em um ritmo acelerado ao redor do mundo, e a extensão de terra necessária para abrigar cada pessoa está diminuindo.
Até para pequenos luxos como a luz artificial observa-se um declínio da necessidade de terra. Para manter sua casa iluminada com velas de sebo, cera de abelha ou óleo de espermacete das baleias, ou com as antigas lamparinas babilônicas queimando óleo de sésamo, requerer-se-iam muitos acres de pasto, flores ou solo oceânico. Agora só é necessário um buraco no chão: uma mina de carvão na superfície produz quase tanta eletricidade por acre quanto um campo de milho produziria em 2000 anos.
Então, meu ponto é simplesmente esse: a necessidade de terra do homem – medida em acres para produzir alimento, acres para produzir fibras, combustível, abrigo, iluminação – estão todas diminuindo cada vez mais, e vem diminuindo por um longo período de tempo. Como, então, é possível argumentar que estamos cada vez mais, e mais, insustentavelmente em dívida com o banco ecológico do planeta?
Para esta pergunta, você ouvirá três respostas comuns. Primeira: população. O explosivo aumento populacional em oito vezes nos últimos 200 anos foi maior do que a diminuição da necessidade de terra por pessoa. Segunda: recursos finitos. Só é possível produzir certa quantidade por acre queimando muito petróleo, carvão e gás, que são a energia solar armazenada de eras passadas, e irão logo esgotar-se. Terceira: poluição. O aumento da produção por acre foi alcançado às custas da poluição do ar, da água e das mudanças climáticas.
Quanto à população, é verdade que qualquer redução da terra usada por pessoa no século XX foi menor do que a quadruplicação da população. Suponha que o processo de Haber, no qual o nitrogênio é extraído do ar, nunca tivesse sido inventado. O século XX certamente teria assistido terríveis penúrias (e crescimento populacional muito menor). Suponha que os combustíveis fósseis não tivessem sido aproveitados no século XIX. A Revolução Industrial britânica teria sido interrompida assim que todos os córregos dos montes Peninos passassem a ser explorados com moinhos de água. Foi pela diminuição da extensão de terra necessária por pessoa alcançada por essas inovações e muitas outras que se tornou possível o imenso crescimento da população.
Esta é a versão do Paradoxo de Jevons, que recebeu o nome de um economista do século XIX, Stanley Jevons. Ele assinalou que, quando os produtos ficam mais baratos, as pessoas utilizam-se mais deles, de modo que a redução do preço da energia levou ao uso mais esbanjador da energia, enquanto o aumento da disponibilidade de alimento levou à sobrevivência de mais bebês. Hoje utilizamos os acres poupados para auxiliar-nos a acender a luz, dirigir Hummers, comer mangas e comprar mansões de uma maneira que impressionaria nossos frugais ancestrais.
Porém, bizarramente, graças a um fenômeno mundial conhecido como transição demográfica, quanto mais ricos, saudáveis e urbanizados nos tornamos, menos bebês nós temos. O ritmo do crescimento populacional têm tido uma diminuição tão abrupta e veloz que a taxa à qual o mundo está adicionando pessoas – em números reais, não apenas em porcentagem – caiu pelos últimos 22 anos. Até mesmo na África a taxa de nascimentos está caindo rapidamente. As Nações Unidas estimam que a população mundial irá parar de crescer completamente quando alcançar em torno de 9,3 bilhões de habitantes em algum ponto depois do ano 2060.
Isso significa que, longe de dobrar como no século XIX, ou quadruplicar como no século XX, a população mundial terá sido multiplicada menos de 1,5 vezes durante este século. A decrescente necessidade de terra para a vida começará a ter mais e mais impacto. À medida que a taxa de crescimento da população desacelera, a pegada da humanidade passará a encolher. Até 2070, cada redução no uso de terra por pessoa será um ganho para toda a espécie.
Na verdade, isso já está acontecendo agora. A costa leste dos Estados Unidos foi uma vez intensamente cultivada. Hoje em dia ela consiste em ilhas de cultivo em um mar de florestas. Em grande parte das Terras Altas da Escócia, o gado e as ovelhas deixaram os montes para os veados. Se não houvesse subsídios e barreiras tarifárias, uma quantidade muito maior de terra deixaria de produzir no rico oeste.
Sim, mas como os recursos são finitos, certamente ficaremos sem petróleo, gás, fósforo, cobre, níquel ou quaisquer outras fontes não renováveis? Primeiramente é preciso observar o surpreendente fato de que são os recursos renováveis que continuamente se esgotam: os mamutes, as baleias azuis, os arenques, os pombos-passageiros, as florestas de pinho branco, os cedros do Líbano, o guano. Em contraste, não há nenhum recurso renovável que tenha se esgotado ainda: nem cobre, petróleo, carvão, ferro, urânio, silício ou pedra. “É uma das previsões mais seguras”, escreveu o economista Joseph Schumpeter em 1943, “que em um futuro calculável viveremos em uma abundância de opções de supérfluos (embarras de richesse), tanto de alimentos quanto de matérias-primas, devido à expansão da produção total com a qual saberemos lidar. Isso se aplica aos recursos minerais também”.
Assim, meu ponto é simplesmente este: a necessidade humana de terras – medida em acres para produzir alimentos, acres para produzir fibras, combustíveis, abrigo ou iluminação – está ficando menor e menor, e tem sido assim por muito tempo.
Considere a humilhante falha das previsões feitas pelo modelo de computador chamado World3 no início dos anos 1970. O World3 tentou prever a capacidade de suporte dos recursos do planeta e concluiu, em um relatório chamado “Limites ao Crescimento”, de autoria do Clube de Roma, que o uso exponencial poderia esgotar o abastecimento mundial de zinco, ouro, estanho, cobre, petróleo e gás natural até 1992, e causar um colapso da civilização e da população no século subsequente. O relatório “Limites ao Crescimento” foi enormemente influente, com livros-texto escolares repetindo suas previsões sem as ressalvas. “Alguns cientistas estimam que os suprimentos conhecidos de petróleo, estanho, cobre e alumínio serão utilizados enquanto você estiver vivo”, dizia um deles. “Os governos devem ajudar a salvar nosso suprimento de combustíveis fósseis fazendo leis que limitem o seu uso”, opinava outro.
A verdade é que, à medida que as melhores fontes de cobre, fósforo ou petróleo esgotam-se e novas técnicas de extração são inventadas, as reservas antes não tão boas tornam-se economicamente viáveis. Nos últimos anos, a perfuração horizontal e o fraturamento hidráulico (fracking) para a extração de gás de folhelho dobraram as reservas americanas de gás natural acessível e barato; a mesma tecnologia está agora sendo experimentada na Europa, Ásia e Austrália e promete uma abundância de gás que durará por décadas. Mesmo que o petróleo convencional se torne escasso, as areias betuminosas, o xisto betuminoso e o gás metano assegurarão o suprimento de combustíveis fósseis por pelo menos um século, talvez por muito mais tempo. Eles serão substituídos no mercado pela energia nuclear ou solar barata muito antes de fisicamente esgotarem-se.
Muito bem, mas um recurso que certamente se esgotará, e talvez muito em breve, é a capacidade da terra de absorver o nosso lixo. Se você procura a pegada ecológica humana, não busque apenas na terra, mas no mar, nos rios e no ar. É por isso que a Global Footprint Network enfatiza tanto o sequestro de carbono. A extensão de terra necessária para retirar o dióxido de carbono do ar é vasta. Mas mesmo aqui existem vários tipos de tendências de melhoramentos. O rio Hudson e o Tâmisa têm menos esgoto e mais peixes. A cidade de Pasadena tem menos poluição. Os ovos de aves suecas têm 75% menos poluentes do que nos anos 1960. As emissões americanas de monóxido de carbono dos transportes diminuíram 75% em 25 anos. O lixo radioativo de testes de armas e acidentes nucleares diminuiu 90% desde o início dos anos 1960.
Quanto ao dióxido de carbono, a descarbonização já está acontecendo. O engenheiro italiano Cesare Marchetti elaborou um gráfico do uso de energia pelo homem nos últimos 150 anos, enquanto ocorria a transição da madeira para o carvão, para o petróleo e para o gás. Em cada caso, a proporção de átomos de carbono e átomos de hidrogênio caiu, de 10 na madeira para 1 no carvão, para ½ no petróleo, para ¼ no metano. Graças ao gás de folhelho barato, o metano pode muito em breve eliminar o carvão – o combustível mais rico em carbono – do mercado de eletricidade. Em 1800, os átomos de carbono faziam 90% da combustão, mas em 1935 a proporção era 50:50 entre carbono e hidrogênio e, até 2100, 90% da combustão pode vir do hidrogênio – provavelmente feita através de eletricidade nuclear ou solar. O especialista em energia Jesse Ausubel prevê que “se o sistema de energia for deixado funcionar ao seu próprio ritmo, a maior parte do carbono será eliminado até 2060 ou 2070”.
É claro que essas mudanças podem não acontecer a tempo de impedir as mudanças climáticas. (Contudo, eu argumentaria que as evidências mostram que as mudanças climáticas têm sido moderadas e vagarosas por muitas décadas até agora – um argumento para uma outra oportunidade). Mas o fato é que as coisas estão caminhando na direção certa. A pegada está encolhendo.
Então, é com incredulidade que assisto os governos do mundo assiduamente tentando aumentar a pegada ecológica humana enquanto alegam estarem salvando o planeta. Eles exaltam o cultivo orgânico, que significa um aumento maciço na terra necessária para a agricultura. (Não me leve a mal: eu não tenho nada contra as pessoas comprarem produtos orgânicos; eu apenas tenho objeções a elas me dizerem que é uma coisa mais ética a se fazer). E quase todas as medidas defendidas para combaterem as mudanças climáticas – energia eólica, das ondas, solar, das marés, hidrelétrica e, acima de todas, os biocombustíveis – aumentariam a extensão de terra necessária para sustentar o estilo de vida humano.
Se os Estados Unidos produzissem o seu próprio combustível para transporte como biocombustível, por exemplo, seria necessário 30% de terra cultivável a mais do que atualmente é utilizada para a produção de alimentos. Onde seriam cultivados os alimentos? O esquema dos biocombustíveis é verdadeiramente um erro terrível, um “crime contra a humanidade”, nas palavras de Jean Ziegler, a relatora especial das Nações Unidas do Direito à Alimentação. Entre 2004 e 2007, a colheita mundial de milho aumentou 51 milhões de toneladas, mas 50 milhões de toneladas foram para o etanol, não deixando nada para suprir o aumento da demanda: por isso ocorreu o aumento dos preços dos alimentos em 2008, causando tumultos e fome. Na realidade, motoristas americanos estavam tirando carboidratos das bocas dos pobres para encherem seus tanques.
Isso poderia ser aceitável se o biocombustível tivesse um grande benefício ambiental. Mas o benefício ambiental do biocombustível não é apenas ilusório; ele é negativo. Cada acre de milho ou cana de açúcar requer combustível de tratores, fertilizantes, defensivos, combustível de caminhões e combustível para a destilação – os quais são feitos de combustíveis fósseis. Então a pergunta é: quanto combustível é necessário para produzir combustível? Resposta: a mesma quantidade. Dependendo de qual estudo você cita, cada unidade de energia empregada no cultivo de milho para etanol produz 71% a 134% em produção de energia. A perfuração e o refino de petróleo, em contraste, geram um retorno de 600% ou mais da energia utilizada.
A chave é que as coisas estão indo na direção certa. A pegada está encolhendo.
Cada incremento no preço do grão causado pela indústria do biocombustível significa mais pressão nas florestas, cuja destruição é a forma mais eficiente de se adicionar dióxido de carbono à atmosfera. Além disso, são necessários cerca de 130 galões de água para cultivar e 5 galões para destilar apenas um galão de etanol de milho – supondo que apenas 15% da safra é irrigada. Pelo contrário, são necessários menos de três galões de água para extrair e dois galões para refinar um galão de gasolina. Cumprir o objetivo dos Estados Unidos de produzir 35 bilhões de galões de etanol por ano requereria usar a quantidade de água consumida por ano por toda a população da Califórnia. Não tenha dúvida: a indústria do biocombustível aumenta amplamente a pegada humana.
O mesmo é verdade em relação a outros renováveis. Para se ter uma ideia de como eles consomem espaço, considere que para suprir os atuais 300 milhões de habitantes dos Estados Unidos, com a sua atual demanda de energia de aproximadamente 10.000 Watts cada (2.400 calorias por segundo), seriam necessários: painéis solares do tamanho da Espanha; ou parques eólicos do tamanho do Cazaquistão; ou bosques do tamanho da Índia e do Paquistão; ou campos de feno para os cavalos do tamanho da Rússia e do Canadá juntos; ou usinas hidrelétricas com represas um terço maiores do que todos os continentes juntos.
Um engenheiro chamado Saul Griffith tem um nome para essas porções de terra: Renewistan. Ele calcula que para manter o nível de dióxido de carbono em 450 partes por milhão, a área dedicada à energia renovável ocuparia um espaço do tamanho da Austrália. Mas não fique com a impressão de que esse é um jeito benigno, suave e verde de utilizar a terra. Um parque eólico na Califórnia mata 24 águias-douradas por ano e pelo menos 2.000 outras aves de rapina; cada turbina nos Apalaches necessita de quatro acres de floresta desmatados. Painéis solares requerem enormes quantidades de aço e concreto. As barragens de marés mudam a ecologia dos estuários. Todos os renováveis precisam estar ligados através de longas filas de postes de energia. Gerar a energia que mantém o ritmo da civilização com energia renovável significaria voltar ao hábito medieval de industrializar a paisagem, mas com uma população dez vezes maior.
Eis um modo diferente de se pensar a pegada humana. Helmut Haberl, da Universidade de Viena, calculou que das 650 bilhões de toneladas de carbono potencialmente absorvidas do ar pelas plantas a cada ano, seres humanos utilizam cerca de 23% para o seu próprio uso: 80 bilhões de toneladas são colhidos, 10 são queimados e 60 são impedidos de crescer por causa de arados, ruas e cabras, deixando 500 para sustentar todas as outras espécies. Isso é o que Haberl chama de AHPPL: Apropriação Humana da Produção Primária Líquida (HANPP em inglês).
Ela varia muito de uma região para outra. Na Sibéria e na Amazônia, talvez 99% da produção de plantas sustenta a vida selvagem, e não pessoas. Em muitas partes da África e da Ásia central, as pessoas reduzem a produtividade da terra mesmo apropriando-se de um quinto da produção – um pasto onde os animais pastam demais, ao ponto de danificarem a vegetação, sustenta menos cabras do que sustentaria antílopes, se fosse selva.
Mas na Europa ocidental e no leste asiático – e este é o ponto crucial – as pessoas aumentam a produtividade da terra a tal ponto que, na verdade, elas aumentam o fluxo de energia para a natureza, mesmo que tomem metade da produção para si. Graças ao processo de Haber, tanto a população quando a vida selvagem na Europa tem mais para comer.
Isso na verdade suscita otimismo, porque sugere que a intensificação da agricultura na África e Ásia central poderia alimentar mais pessoas e ainda dar mais sustento a outras espécies também. Harber diz: “Essas descobertas sugerem que, em uma escala global, pode haver um considerável potencial para elevar a produção agrícola sem necessariamente aumentar a AHPPL”.
De longe, a melhor maneira de reduzir a pegada humana no tamanho desejado no século 21 é a utilização de mais tecnologia para aumentar a produtividade.
A pegada ecológica da humanidade é muito grande. É nosso dever encolhê-la. Mas regredir à agricultura orgânica, à autossuficiência, às energias renováveis ou até mesmo à caça apenas a aumentará, à custa de outras espécies. A melhor maneira de diminuir o tamanho da pegada no século XXI é usar mais tecnologia para aumentar a produtividade, mais fertilizantes para aumentar a produção, mais gás natural – o combustível fóssil menos rico em carbono, menos consumidor de terra e possivelmente mais abundante – para amplificar o trabalho humano e mais prosperidade para diminuir as taxas de natalidade.
Então nossos netos poderão viver vidas de grande riqueza, saúde e sabedoria, enquanto rodeados da vasta natureza selvagem. Mais cidades e mais tigres. Esse é o meu sonho”.
O texto acima é uma tradução livre do ensaio de Matt Ridley publicado em 2 de junho de 2010, a capa é a figura no início. Para ver o original, clique aqui
.

Aquecimento global: uma Impostura Científica por Marcel Leroux

Aquecimento global: uma impostura científica

 

por Marcel Leroux [*] 

“-É uma fábula o que tu nos contaste”,
disse com desprezo o pastor peul (etnia do Senegal).
“-Sim, respondeu o caçador de crocodilos,
mas uma fábula que todo mundo repete parece muito com a verdade!”. 

(J. e J. Tharaud, La randonée de Samba Diouf, Fayard, 1927)

1- Trata-se ainda de climatologia?
2. Efeito de estufa, modelos e aquecimento global
3. Clemência ou violência do tempo?
4. A evolução recente do tempo no espaço Atlântico Norte
5. Outras “mentiras”
6. Os abusos da meteorologia-climatologia
Referências 

O aquecimento global é uma hipótese fornecida por modelos teóricos. Baseia-se em relações simplistas que anunciam um aumento da temperatura, proclamado mas não demonstrado.
São numerosas as contradições entre as previsões e os factos climáticos observados directamente. A ignorância destas distorções flagrantes constitui uma impostura científica.
Nos anos 70 (do séc. XX) verificou-se um desvio climático (que os modelos não “previram”). Traduziu-se num aumento progressivo da violência e da irregularidade do tempo e foi provocado pela modificação do modo de circulação geral da atmosfera.
O problema fundamental não é prever o clima em 2100. Deve-se, antes, determinar as causas daquele desvio climático recente. Isso permitiria prever a evolução do tempo no futuro próximo. 

O aquecimento global (“global warming”) é um tema que está na moda. Em particular depois do Verão de 1988. Então, nos Estados Unidos da América, veio ao de cima a angústia do “dust bowl”. Esse período de calor e de seca aconteceu nos anos 30 do século passado, na “bacia de poeiras” dos Grandes Planaltos. O drama vivido pelos camponeses (Cf. As Vinhas da Ira de John Steinbeck) é constantemente recordado. O passado pesado explica a atenção particular que foi imediatamente dedicada. Seguiu-se-lhe a dramatização (“greenhouse panic”). Inicialmente assunto da climatologia, o tema passou a ser tratado com emoção e irracionalidade. Depressa evoluiu para o alarmismo. Perdeu o seu conteúdo científico. Questiona-se actualmente: estaremos ainda a falar de climatologia?

1- Trata-se ainda de climatologia?

Um tema confuso 

O aquecimento global é um tema extremamente confuso que mistura tudo:

  • A poluição e o clima: o clima torna-se num álibi, num espantalho. A sua evolução futura é apresentada como um postulado. Quem colocar dúvidas sobre o aquecimento anunciado fica logo catalogado. Tanto como favorável à poluição, como “louco, mal intencionado ou a soldo da indústria petrolífera” (Singer, F., 2002 – indicação das Referências bibliográficas). Naturalmente, aqueles que “lucram” (com vantagens leoninas) do maná confeccionado pelo alarmismo estão acima de qualquer suspeita!
  • Os bons sentimentos e os interesses confessados (e inconfessados): o planeta está em perigo. É necessário “salvá-lo”. Mas, ao mesmo tempo, discutem-se os “direitos de poluir”. São os famosos “direitos de emissão negociáveis”. Passa-se do sentimentalismo de culpabilidade (o homem é o responsável de todos os males) para a defesa de interesses privados (dissimulados de modo obscuro).
  • As suposições e as realidades. As teorias dos modelos e os mecanismos reais. O hipotético clima futuro e a evolução do tempo real. As previsões são tanto mais gratuitas quanto os prazos são mais longínquos. Nas observações actuais, lobrigam-se sinais da catástrofe anunciada. Seleccionam-se as informações. Oculta-se o “frio” que é atribuído à variabilidade “natural” (desconhecida). Retém-se apenas o “calor”. Este não pode deixar de confirmar as previsões dos modelos…
  • O sensacionalismo e a seriedade científica. A procura do furo jornalístico e a informação devidamente fundamentada. Tudo cada vez mais confundido. Nomeadamente pelos políticos e/ou pelos media que ajudam à confusão. Certos cientistas não melhoram a situação. As suas declarações prematuras e conjunturais na maior parte das vezes não são fundamentadas.
  • O debate inscreve-se, igualmente, no mito mais antigo que é o do “conhecimento” popular acerca do tempo. Isso facilita o sucesso da mensagem. Cada um, como é bem conhecido, tem o seu saber sobre a matéria. Estamos muitas vezes próximo do pensamento mágico. Das discussões das tertúlias. Das previsões dos bandarras. Prevalece a confusão entre clima e evolução do tempo. Através dos “modelos” (aureolados de mistério) sonha-se com a “máquina de produzir o tempo”.

Uma “climatologia” simplista” 

O que predomina no debate e o falseia é que as alterações climáticas são um tema da climatologia tratado como se fosse do ambiente. Em anexo ao da poluição. Esta constitui um álibi moral. Invocado predominantemente por não-climatologistas. Ainda há pouco tempo, um “climatólogo” tinha pouco prestígio. Era um geógrafo considerado “literato”, isto é, “não físico”. Ou era um funcionário dos serviços de meteorologia. Encarregava-se dos arquivos (situação pouco considerada). “Acabar em climatologia” era visto como a pior das condenações! Hoje, os climatologistas na sua maioria desinteressam-se estranhamente do debate. Ou adoptam o dogma oficial sem espírito crítico. Mas também existe a pretensão de se ser “climatólogo”. Saber repetir servilmente (à maneira dos psitacídios) os comunicados do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Changes) tornou-se uma qualificação. O discurso estereotipado e recitado de modo dogmático é sempre o mesmo.

Contudo, as especializações e as competências não faltam. Mas dizem respeito à informática, à estatística, à agronomia, à química, à oceanografia, à glaciologia, à história, mesmo à geologia…Não ao clima e à sua dinâmica. Com uma “convicção” geralmente proporcional à ignorância dos rudimentos da disciplina, os “climatólogos autoproclamados” propagam hipóteses procedentes dos modelos. Hipóteses infundadas ou mal estabelecidas e não corroboradas pelas observações. Devemos assim colocar fortes reticências segundo o qual os relatórios do IPCC são preparados por “centenas de cientistas”. O número anunciado pode iludir e esconder o monolitismo da mensagem. Na realidade, uma pequena equipa dominante impõe os seus pontos de vista a uma maioria sem competências climatológicas. O “I” de IPCC significa, com efeito, “intergovernamental”. Significa que os pretensos cientistas são antes do mais representantes governamentais. O IPCC, em absoluto, não é um organismo de investigação. Na redacção definitiva do relatório de 1966 a afirmação da “influência perceptível do homem sobre o clima global” (GIEC, 1966, p.22) foi acrescentada depois da hora. Para “impressionar” os decisores como disse Emmanuel Granier (Industrie et Environnment, n.º 208, 1998). Não correspondia ao entendimento do conjunto do IPCC. Mas tem sido constantemente repetida apesar de não ter havido acordo!

Os conhecimentos de climatologia são em geral limitados. O IPCC reconhece-o quando afirma: “A aptidão dos cientistas para fazer verificações das projecções provenientes dos modelos é bastante limitada pelos conhecimentos incompletos sobre as verdades climáticas” (UNEP-WMO, 2002, p.7). As “explicações” são sobretudo simples, muito simplificadas, mesmo simplistas, para serem facilmente apreendidas. Todavia, elas não reflectem, ou reflectem apenas muito parcialmente, a verdade científica que é extremamente complexa. Este conhecimento superficial e esquemático é primeiramente imposto pelas “simplificações inevitáveis transpostas para os modelos” (Le Treut, 1997). Os modelos não podem integrar todas as componentes dos fenómenos. É necessário “parametrizá-los”, sem se saber descrevê-los explicitamente. Quanto mais simples é a mensagem, mesmo simplista (próxima do slogan, fácil de reter sem esforço), maiores são as hipóteses de ela ser adoptada pelos políticos e pelos media. O método de “consumo imediato” das notícias afasta-se desde logo da reflexão séria e de longas e complexas explicações.

Esta falha de qualificação “climatológica” muito extensiva explica também a fé cega atribuída a uma ciência de uma meteorologia idealizada. Ignora-se geralmente (ou finge-se ignorar) que a meteorologia está num verdadeiro impasse conceptual há mais de cinquenta anos. Ela não dispõe de um esquema explicativo da circulação geral apto a traduzir a realidade das trocas meridionais. Nem a integrar as perturbações que são consideradas como transplantes “passageiros”. Trata-se de um modo disfarçado de confessar a ignorância dos mecanismos reais. Este impasse conduziu, entre outros, ao “falhanço” do prestigioso Miami Hurricane Center na previsão da trajectória do furacão Mitch em 1998, por defeito de conhecimento da dinâmica dos furacões tropicais! (Leroux, M., 2000). Será necessário sublinhar todos os falhanços das previsões do tempo em todas as partes do mundo? Os próprios meteorologistas confessam estas fraquezas fundamentais. São tão evidentes que tornam os modelos (no seu estado actual) irremediavelmente inaptos a prever o que quer que seja! Podemos assim igualmente explicar a confiança ingénua, a falta de isenção quanto a dúvidas (sendo estas habitualmente salutares em ciência) e mesmo a falta de espírito crítico dos pretensos climatólogos. Tanto dos não qualificados como do público não avisado. A crítica é fundamental quando se trata de estimar a qualidade dos modelos e das suas previsões. O debate científico é assim ocultado e os contraditores são, na medida do possível, “açaimados”, censurados ou mesmo desacreditados. Por causa do conteúdo “moral” do tema, o conhecimento é substituído em proporções respectivamente inversas pela convicção (sincera ou pela fé). Como proclamou M. Petit: “Estou convencido que o aquecimento global do planeta é uma realidade”(Le Monde, 19 de Abril de 2001, p.24). “Profissão de fé” que é a própria negação do método científico.

É, pois, necessário fazer um ponto da situação, sem complacência. Sem concessões e aprofundado. Rigorosamente e unicamente centrado na climatologia. A poluição é por si só um assunto suficientemente sério e preocupante para merecer um tratamento separado, aí sim, pelos próprios especialistas.

2. Efeito de estufa, modelos e aquecimento global

O efeito de estufa natural e o adicional 

O efeito de estufa é uma realidade, pelo que é inútil discutir: ele produz um ganho de 33 ºC à temperatura média da superfície da Terra. Um efeito de estufa adicional, ou “reforçado”, de origem antropogénica (proveniente do CO e de outros gases com efeito de estufa – GEE – devidos às actividades da vida humana) poderia ser susceptível de elevar a temperatura. Sabe-se isso desde há longa data, 1824, conforme foi pressentido por Fourier. A questão é a de saber se, com efeito, o homem é capaz de influenciar (involuntariamente) o curso da evolução climática, atingindo a escala planetária, e sobretudo se, desde há um século, ele já começou a fazê-lo. Entretanto, à parte a influência demonstrada sobre o clima urbano, uma consequência à escala global permanece ainda no domínio da especulação.

Com efeito, o vapor de água representa 63 % do efeito de estufa natural (100 W/m em 160 W/m ) e constitui “a maior fonte de incerteza”(Keller, C.F., 1999). “Devido ao facto de os modelos climáticos fazerem intervir as nuvens e as precipitações, que são particularmente complexas, a amplitude precisa da respectiva retroacção – fenómeno crucial – permanece desconhecida” (UNEP-WMO, 2002, p.3). Além disso, é necessário juntar a incerteza associada à nebulosidade, cujos efeitos são contrários de acordo com a altitude das nuvens que tanto poder arrefecer como aquecer a superfície terrestre…

O presumido aquecimento global também poderá não ser outra coisa que um fenómeno urbano, como a poluição. Goodridge (1996) demonstrou a existência desse fenómeno na Califórnia. Comparou a evolução térmica das cidades com mais de um milhão de habitantes e com mais ou com menos de 100 000 habitantes. A elevação da temperatura decresce com a diminuição da importância das cidades. Ele concluiu assim: “O aparente aquecimento global é na realidade devido à perda de calor que afecta somente as superfícies urbanizadas”. Conclusão semelhante foi obtida em Espanha, onde Sala e Chiva (1996) consideraram por outro lado que “o verdadeiro “aumento natural” da temperatura, corrigida do efeito de urbanização, pode ser atribuído à actividade solar”. A evolução das temperaturas em França revela também um aumento sustentado das temperaturas mínimas, isto é nocturnas. A evolução das temperaturas máximas ou diurnas é mais irregular e não demonstra uma tendência tão sustentada (Leroux, M., 1997). As estações meteorológicas, inicialmente instaladas fora das cidades foram progressivamente absorvidas pela expansão da urbanização e/ou pela extensão da sua cúpula de calor, e elas reflectem assim, principalmente, a evolução climática à escala local.

“As indicações dos climas do passado” 

“O estudo paleoclimático (…) dá uma ideia da amplitude das futuras alterações(…)” (Cf. UNEP-WMO, 2002, p.8). Esta afirmação, que pretende fundamentar as alterações climáticas do futuro, permite colocar a questão da relação entre os GEE e a temperatura: é uma covariação (sem significado físico) ou uma correlação física? Quando é que o acréscimo dos GEE é a causa ou quando é que é o efeito? Que significa à escala paleoclimática (como à escala sazonal) a covariação mais ou menos estreita entre o CO e a temperatura? Os cilindros da estação Vostock retirados dos gelos antárcticos mostram “o paralelismo das variações de temperatura do ar e do teor atmosférico em GEE” (Masson-Delmotte, Chapellaz, 2002). Deduzir que o passado e o futuro são directamente comparáveis representa a astúcia ideal: qual é com efeito o não-climatologista e a fortiori o cidadão que conhece Milankovitch? A covariação geral dos parâmetros (deutério, CO , CH , Ca, etc. e a temperatura correspondente deduzida) no decurso de mais de 400 mil anos resulta de um “forçamento” exterior à própria Terra. Resultou de quatro ciclos principais que revelam a influência da “excentricidade da órbita terrestre” (ciclos de 100 000 anos). No interior de cada grande ciclo glaciário-interglaciário as variações mais breves são conjuntamente associadas à variação da inclinação do eixo dos pólos e à precessão dos equinócios. Estes parâmetros orbitais da radiação foram demonstrados por Milankovitch, em 1924. Todos os parâmetros covariam (e estão portanto estatisticamente correlacionados). Mas a evolução da temperatura a esta escala de tempo não depende dos GEE. Pelo contrário, são as taxas de crescimento destes é que dependem (mais ou menos directamente) da temperatura. Por consequência, apesar dos resultados notáveis das análises dos cilindros de gelo para o conhecimento dos climas passados, a referência sistemática aos paleoambientes (mais exactamente à “química isotópica”) não faz qualquer sentido no debate (…) E tanto menos sentido quanto as teorias meteorológicas convencionais utilizadas pelos modelos não propõem um esquema de circulação geral válido a esta escala paleoclimática (Cf. Leroux, M., 1993,1996).

“As indicações fornecidas pelos modelos climáticos” 

Os modelos climáticos prevêem aumentos da temperatura. Esta conclusão tornou-se num postulado indiscutível ( Cf. UNEP-WMO, 2002, p.7). Por outro lado, os modeladores impuseram o conceito de evolução “global” do clima, sendo que o globo deverá evoluir no seu conjunto e no mesmo sentido (aquecimento). Todavia, com intensidades diferentes consoante as latitudes.

Os modelos, fundamentados no efeito radiativo, podem prever outra coisa que não seja … aquecimento? Le Treut (1997) escreve a este propósito: ” Os modelos, cada vez em maior número e mais sofisticados, indicam sem excepção um acréscimo de temperatura “. A unanimidade da resposta (pudera!) é pois considerada como uma prova da capacidade dos modelos para prever o futuro. Mas para além da sofisticação dos cálculos, o resultado é no fim de contas uma aplicação da regra de três simples, entre 1) a taxa de crescimento do CO actual, 2) a suposta taxa futura e 3) a temperatura correspondente. Isto é elementar. A unanimidade dos modelos considerada como um “facto notável” (Le Treut, 2001) é uma lapalissada. A resposta não pode ser senão positiva. Como é que poderiam prever descidas de temperatura se eles são constituídos para prever subidas? Haverá de facto necessidade do recurso aos modelos (tendo ainda em conta as suas imperfeições teóricas e práticas) para se chegar a este resultado?

A argumentação é muito frágil: o balanço radiativo (excepto quanto às variações no longo prazo) permite somente compreender…porquê as altas latitudes são mais frias do que os trópicos, e de prever que…o Inverno será mais frio do que o Verão! As variações de temperatura de um dia para o outro, e de um ano para o outro (e as médias e anomalias resultantes) dependem – como as variações do tempo – das modificações de intensidade das circulações meridionais. Esquematicamente, o fluxo de norte traz frio e o do sul traz calor (outros parâmetros como a nebulosidade, a humidade, as precipitações, a velocidade do vento, etc., participam conjuntamente nesta determinação). As trocas meridionais dizem respeito evidentemente a regiões diferentes e as evoluções térmicas não podem ser uniformes. Uma temperatura média não tem se não um valor muito limitado se é que tem algum se for estabelecido à escala “global” (poderá então existir um clima global?). A posição expressa pelo IPCC (1996) é reveladora desta incoerência: “Os valores regionais das temperaturas poderão ser sensivelmente diferentes da média global mas não é ainda possível determinar com precisão estas flutuações”. Isto significaria que o valor médio seria conhecido antes dos valores locais e/ou regionais que permitiriam estabelecer aquela média! Curiosa maneira de calcular uma média! Por outro lado, é correcto dizer como o IPCC que ” não é possível determinar ” as evoluções regionais, sabendo que é simplesmente suficiente observá-las? Isso é assim simplesmente porque os modelos não sabem representar estas diferenças de comportamento? Como é que podiam saber, sublinhe-se ainda, se eles não dispõem de um esquema coerente do modo de circulação geral?

Evolução global ou evoluções regionais? 

As evoluções climáticas são regionais. Litynski (2000) comparou as temperaturas dos períodos 1931-1960 e 1961-1990 publicadas pela OMM (1971 e 1996). O primeiro período corresponde, mais ou menos, ao óptimo climático contemporâneo e o segundo contém a mais forte elevação da temperatura. A comparação é deveras eloquente. Mostra de maneira evidente que ” não existiu aquecimento global planetário durante o período 1961-1990 “. Nomeadamente, observa-se, à escala regional, arrefecimentos e aquecimentos. No hemisfério norte, por exemplo, a baixa de temperatura é da ordem de – 0,40 ºC na América do Norte, – 0,35 ºC na Europa do Norte, – 0,70 ºC no norte da Ásia, até – 1,1 ºC no vale do Nilo. Outras regiões aqueceram, como o oeste da América do Norte (do Alasca à Califórnia), ou também na Ucrânia e no sul da Rússia. Os modelos nunca previram nem revelaram estas disparidades regionais. De facto, eles são sempre incapazes tanto de as explicar como de as prever. Qual é a tendência representativa, é a das regiões que apresentam aumentos ou da que revela baixas de temperatura? Uma média hemisférica, e a fortiori global, da temperatura calculada a partir das observações, com evoluções contrárias, não tem se não um valor estatístico, contabilístico. Não tem, se não um significado limitado. Não tem mesmo qualquer significado climático. Segundo o IPCC, a temperatura média aumentou 0,6 ºC ± 0,2 ºC no decurso do período 1860-2000 (…). Este período de um século e meio, convém sublinhar, engloba a revolução industrial. Para fixar ideias, note-se que este valor, à escala da média anual como considerada, representa a diferença de temperaturas entre Nice e Marselha, de 14,8 ºC a 14,2 ºC (de 1961-1990), ou entre Marselha e Perpignan, de 14,5 ºC e15,1 ºC (também de 1961-1990). Que extraordinária conclusão!!! Sejamos sérios. Mantenha-se o bom senso: comparada com a variação “real” de 0,6 ºC de subida no período 1860-2000, uma variação de temperaturas prevista pelo IPCC entre 2 ºC a 6 ºC (ou de 1,4 ºC a 5,8 ºC com uma margem de incerteza de 1 a 3,5 ºC) para um ano tão afastado como o de 2100 tem verdadeiramente algum significado? Só com muito boa vontade…

Relação real entre CO e temperatura 

A relação entre as variações da concentração de CO e a curva global secular “calculada” das temperaturas (citada anteriormente) não é linear. Entre 1918 e 1940 produziu-se um forte aquecimento, da mesma ordem de grandeza que o dos últimos decénios, mas a concentração de CO 2não progrediu mais do que 7 ppm – partes por milhão (de 301 ppm a 308 ppm). De 1940 a 1970, a subida de CO foi de 18 ppm (de 308 ppm a 326 ppm) mas a temperatura não se elevou, bem pelo contrário. A literatura dita científica dos anos 70 anunciava então o retorno a uma “pequena idade do gelo”. Alguns dos “cientistas” que previam um arrefecimento certo e seguro tornaram-se entretanto fervorosos adeptos do aquecimento global! Apenas o aumento (presumido) da temperatura do fim do século, a partir dos anos 80, coincide com um aumento da concentração de CO (mais de 22 ppm).

Mas este aumento dos últimos decénios, superior a 0,3º C, não é confirmado pelas observações dos satélites. Nomeadamente, da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, dos EUA), entre Janeiro de 1979 e Janeiro de 2000 (Daly, 2000; Singer, 2002), que não detectaram qualquer evolução notável. Foram feitas críticas pelos defensores do “global warming” contra a validade destas medidas dos satélites (é verdade que elas são “preocupantes”). Incidiram sobre a capacidade dos satélites de ter em conta a evolução das temperaturas de superfície. Contudo, estas medidas colocam nitidamente em evidência os ciclos solares (n.º 22 e n.º 23) e o arrefecimento de 1992 ligado à erupção do Pinatubo…Parecem, pois, ser dificilmente discutíveis.
O cenário do efeito de estufa antropogénico, e nomeadamente a relação entre o CO e a temperatura, não explica de facto a evolução térmica: intervêm outros factores nesta evolução. Estes factores são numerosos (Leroux, 1996), mas eles não são tomados em conta pelos modelos.

Evoluções térmicas prevista e real das altas latitudes 

Evolução térmica prevista 

Um aspecto hipotético, saído dos modelos, é o aumento considerável presumido da temperatura nas altas latitudes. Segundo eles, poderia atingir 10 ºC a 12 ºC, paradoxalmente, no Inverno de cada pólo. Estes valores muito elevados influenciariam consideravelmente a tendência térmica média global prevista porque nas regiões tropicais a modificação seria ténue. Mas quais seriam as razões físicas para que as altas latitudes viessem a aquecer tanto? Notar-se-ia nestas latitudes uma contra-radiação terrestre mais intensa…sobretudo no Inverno precisamente no momento em que em que não existe insolação? Deve-se supor, contra toda a lógica, que haveria uma preferência do efeito de estufa perto dos pólos, precisamente onde os conteúdos em vapor de água são menores e as águas frias que bordam os gelos são poços de retenção consideráveis do CO ? Os acréscimos presumidos da temperatura, que não poderiam resultar de fenómenos in situ, seriam provenientes de transferências meridionais intensificadas quando se sabe que, em períodos quentes, estas transferências são pelo contrário consideravelmente amortecidas (modo de circulação geralmente lento, Leroux, 1993)? Seria porque o arrefecimento fora dos períodos glaciares foi mais intenso nas latitudes polares, que inversamente o aquecimento deveria aí ser nitidamente mais marcado? Parece ser um profundo mistério da alma do aquecimento global…

Seria, sobretudo porque os modelos climáticos repousam sobre o velho esquema tricelular de circulação geral (Le Treut, 1997), e nomeadamente sobre a existência hipotética de uma célula polar? Este conceito irrealista faz com efeito “arrepiar caminho” ao ar polar – ar frio que se elevaria! – a partir da latitude 60º, Norte ou Sul. Isso não traduz a realidade das trocas meridionais que seriam assim muito rapidamente interrompidas. A célula polar foi a justo título rejeitada oficialmente pela comunidade científica internacional, em 1951. Isto é, muito antes de aparecerem os modelos. Por outro lado, salienta-se que o esquema tricelular (células de Hadley, de Ferrel e polar), hipoteticamente considerado em 1856, já foi globalmente criticado. Apenas a célula de Hadley é parcialmente representativa da realidade. Isso não impede que De Félice (1999), do Laboratoire de Météorologie Dynamique (LMD) e da Société Météorologique de France (SMF), fale na existência de “três células meridionais em cada hemisfério, célula de Hadley, célula de Ferrel e célula polar”. Também Joly, do Centre National de Recherches Météorologiques (CNRM), segue o dogma mais do que centenário de confundir a percepção estatística e a percepção sinóptica dos fenómenos. Atribui ainda a existência do “anticiclone dos Açores” ao ramo subsidente (pressão exercida sobre o ar de cima para baixo) da célula de Hadley (Le Monde, 25 de Maio de 2001, p.19). Um tal conceito é fisicamente inconcebível (Leroux, 1996). As obras de Triplet e Roche (1988, 1996) da Ecole National de la Météorologie, e de Sadourny (1994), então director do LMD dependente do CNRS, não comportam sequer o esquema de circulação geral. Apesar desta situação “inimaginável”, o esquema de circulação geral utilizado pelos modelos é precisamente…o esquema tricelular que não representa absolutamente nada a realidade das trocas meridionais. O acréscimo suposto das temperaturas polares é um artefacto resultante deste conceito errado, e nomeadamente da existência suposta da “célula polar” que não é mais do que uma ficção!

Esta crítica à inadaptação dos modelos à realidade foi correctamente enunciada: “Os modelos climáticos actuais não integram de maneira correcta os processos físicos que afectam as regiões polares” (Kahl et al., 1993). Mas, aparentemente, nada mudou, apesar da importância crucial das altas latitudes na origem da circulação geral. Lenoir (2001) descreveu bem a história desta “ideia fixa” do sobreaquecimento dos pólos. Provém da afirmação de Svante Arrhenius segundo a qual “o efeito das alterações será máximo na vizinhança dos pólos”. Previu um aumento de 4 ºC…isto em 1903! Esta estranha obstinação volta a encontrar-se no último relatório do IPCC que avança a seguinte “justificação”:” […]a neve e o gelo reflectem a luz solar, assim, menos neve significa que é absorvido mais calor proveniente do Sol, o que arrasta um aquecimento […]”, e assim “está previsto um aquecimento de partes do Norte do Canadá e da Sibéria superior a 10 ºC no Inverno” (UNEP-WMO, 2002, p.5). Trata-se, bem entendido, do Sol polar de Inverno! E isto foi, como é evidente, aprovado pelos “cientistas” do IPCC!!!…

Evolução térmica real 

A evolução térmica realmente observada nas altas latitudes não é nada daquilo previsto pelos modelos. São incapazes de representar a realidade e, como é evidente, de explicar convenientemente o que lá se passa. O Antárctico não apresenta alteração notória: as curvas das temperaturas médias observadas (Daly, 2001) não apresentam estritamente qualquer tendência. Em compensação, o Árctico ocidental tem arrefecido e esta evolução produz o desmentido mais flagrante às previsões dos modelos: o arrefecimento atingiu 4 ºC a 5 ºC (– 4,4 ºC no Inverno e – 4,9 ºC na Primavera), durante o período 1940-1990 (Kahrl, et al., 1993). Isto é, já quase a metade, mas em valor negativo, do valor previsto para 2100! Este arrefecimento é confirmado por um aquecimento também nítido na camada 850 hPa-700 hPa – hectopascal (+ 3,74 ºC, entre 1500 e 3000 m), que traduz a intensificação resultante das trocas meridionais vindas do Sul, por cima dos anticiclones das baixas camadas (anticiclones móveis polares ou AMP) que partem do Pólo Norte. Rigor et al. (2000) confirmam a tendência ao arrefecimento no período 1979 a 1997, acima do mar de Beaufort assim como na Sibéria oriental e no Alasca, no Outono (– 1 ºC por década) e no Inverno (– 2 ºC por década). Devido à importância das altas latitudes na génese da circulação geral, o arrefecimento do Árctico, particularmente da sua parte ocidental onde nasce a maioria dos AMP, é um facto climático da maior importância. Mas é total e deliberadamente ignorado pelos modelos.

3. Clemência ou violência do tempo?

A evolução recente do tempo e a multiplicação de acontecimentos dramáticos são considerados (erradamente) como uma prova da evolução climática anunciada pelos modelos. A “dramatização” que é feita dos acontecimentos torna-se um argumento fundamental para se acreditar no cenário do efeito de estufa (confundindo o natural com o adicional). O que há de verdade nisto?

Modelos e evolução do tempo 

Os modelos previram inicialmente (no primeiro relatório do IPCC de 1990) um tempo mais clemente: “As tempestades nas latitudes médias […] resultam dos desvios de temperatura entre o pólo e o equador […] como este desvio se enfraquece com o aquecimento […] as tempestades nas latitudes médias serão mais fracas” (IPCC, 1990; Météo-France, 1992). É o que confirma novamente Planton e Bessemoulin (2000) do Météo-France: “A alteração climática simulada pelos modelos informáticos traduz-se geralmente por uma redução do gradiente Norte-Sul da temperatura nas baixas camadas da atmosfera […] terá por efeito atenuar a variabilidade atmosférica associada às depressões porque as instabilidades, em particular acima do Atlântico Norte, são fortemente condicionadas pela intensidade do gradiente de temperatura”. Um aumento da temperatura deveria assim traduzir-se por anticiclones móveis polares (AMP) menos vigorosos, por um decréscimo das trocas meridionais de ar e de energia (circulação lenta) e, nas latitudes temperadas e polares, por uma diminuição dos gradientes de temperatura e da pressão assim como por um contraste térmico menor entre os fluxos. Como se mostra à escala sazonal o menor rigor do tempo estival, comparado com a violência do tempo invernal, não necessita de modelos para deduzir essa evidência (Leroux, 1993). Um cenário “quente” anuncia portanto uma maior clemência do tempo.

Porém, não é isso que se tem observado, o próprio tempo contradiz estas previsões. Será por isso que, bizarramente, se anuncia agora (por simples oportunismo?) exactamente o inverso do que se havia previsto em 1990 (e confirmado acima) com as previsões catastróficas que os órgãos de comunicação social fazem eco, sem contudo se espantarem com esta reviravolta? Será que são verdadeiramente os modelos que prevêem agora esta evolução do tempo? Eis o que diz o IPCC: “A frequência e a intensidade das condições meteorológicas extremas tais como as tempestades e os furacões poderão mudar. Todavia, os modelos não podem ainda prever como. Os modelos que são utilizados para as alterações climáticas não podem eles próprios simular estas condições meteorológicas extremas […]” (UNEP-WMO, 2002, p. 5). Isto é claro: os modelos não podem prever a evolução do tempo. Porquê então evocar sem cessar a autoridade dos modelos? O que permite, por consequência, dizer que as condições ” poderiam mudar “? Não é mais do que um truísmo!, visto que os modelos não sabem prevê-lo? Como, por consequência, explicar o “endurecimento” do tempo apesar do que foi anunciado? Escute-se Planton (do CNRM, 2000, p. 70): “Um clima mais quente por cima dos oceanos é também mais húmido porque a evaporação é aí mais importante […] estes factores são favoráveis ao desenvolvimento de depressões porque uma atmosfera mais quente e mais húmida é também mais energética. Isto é um factor que seria favorável à formação de depressões mais cavadas acima do Atlântico”. Esta formulação dos fenómenos é fortemente sugerida pela relação redutora evaporação-chuva analisada a seguir. Eis então a convecção térmica acima de uma superfície oceânica (superfície “fria”, em termos de meteorologia, portanto inapta a provocar ascensões) na origem das depressões do Atlântico: é seguramente uma renovação radical das leis físicas e dos conceitos que comandam a génese das perturbações das médias latitudes! O nascimento e a intensidade destas vastas perturbações dependem, no entanto, da intensidade das transferências meridionais do ar e da energia, e portanto da potência dos factores que condicionam o volume e a velocidade destas transferências (factores aqui ignorados) e não das condições convectivas in situ. 

Todavia, as opiniões divergem ainda diametralmente sobre a influência do efeito de estufa. Eis agora, contra toda a lógica, que ” o gradiente de pressões Norte-Sul deveria mesmo aumentar. A famosa “oscilação norte-atlântica” poderia, sob a influência do efeito de estufa adicional, adquirir um índice cada vez mais positivo [o que é exactamente o inverso dos fenómenos reais, Nota do Autor]. O que favorece as novas gerações de tempestades, […] é uma das nossas hipóteses fortes de investigação.” (Le Treut do LMD, in Science et Avenir, 2000, p.82). “Hipótese forte”! A incoerência científica é contudo manifesta : ninguém ignora que o índice da oscilação norte-atlântica é nitidamente mais elevado no Inverno (Cf. ONA, figura 3b), e que nas latitudes temperadas, esquematicamente, o “mau tempo” é associado ao “frio” e aos contrastes térmicos fortes (como o demonstra a dinâmica das perturbações invernais, quando as tempestades mais intensas caracterizam esta estação). Eis agora, bizarramente, ser atribuído ao “calor” e aos contrates térmicos atenuados o contrário daquilo que é um facto observado naturalmente!

A questão é assim particularmente confusa e levanta desde já duas vezes o facto fundamental, mas ainda mal conhecido, da dinâmica das perturbações e nomeadamente a ausência actual da ligação entre a circulação geral e as distas perturbações. Os modelos são utilizados tanto como argumento, tanto como álibi ou, até mesmo, como desculpa! Mas na falta de uma concepção adequada, estes modelos são incapazes de demonstrar a relação entre o efeito de estufa e a evolução do tempo, e são sobretudo incapazes de dizer se o tempo vai ser mais clemente ou mais violento. As predições catastrofistas do IPCC sobre a evolução do tempo são, portanto, totalmente infundadas, isto é, sem suporte científico. Esta situação revela o mau conhecimento da dinâmica do tempo e, em particular, das precipitações associadas, nomeadamente, nas médias latitudes. Se não sabemos prever o tempo, como procederemos para prever as chuvas?

A dinâmica das precipitações 

Nenhum parâmetro climático pode variar isoladamente, nem tão pouco a temperatura ou a precipitação, e o tempo não se determina sobre uma base local, nem mesmo regional. É função, em proporções muito diferentes, de condições próximas e de condições afastadas. De uma maneira geral, a dinâmica do tempo depende pouco das condições locais. Nomeadamente, no caso de acontecimentos intensos que exigem transferências potentes, através de uma distância longa e de maneira sustentada, de quantidades enormes de potencial precipitável, isto é, energético. Transferências essas que são organizadas nas altas latitudes pelos AMP que têm assim eles próprios uma origem longínqua (Leroux, 1996). As precipitações simbolizam as perturbações pois produzem-se essencialmente nestas circunstâncias. Merecem assim uma atenção particular, entre outras, porque acompanham os estados do tempo mais intensos e estão na origem de inundações dramáticas.

O aquecimento anunciado iria arrastar uma modificação do ciclo hidrológico e “o volume total das precipitações deveria aumentar” (UNEP-WMO, 2002, p.). Em que argumento está fundamentada esta predição que parece (tão estranha e aberrante que possa parecer visto que os modelos não sabem prever a evolução do tempo) dissociada da dinâmica das perturbações? Como para a temperatura, a previsão das precipitações apoia-se sobre um raciocínio esquemático mas que não traduz a realidade dos mecanismos pluviogénicos. Prevê-se assim um “aumento global das precipitações”, em razão da “relação entre a evaporação e a temperatura de superfície […] relação bem estabelecida e confirmada por todos os modelos” (EOS, 1995). O raciocínio não pode ser mais simplista: subida da temperatura = subida da evaporação = subida do teor de vapor de água (potencial precipitável) = aumento da chuva. Isto é primário, mas parece (segundo certos “cientistas”) “fisicamente fundamentado” (“the underlying physics on this is well established” (EOS, 1995) e “todos os modelos confirmam esta relação”! Ora, sabe-se, pertinentemente, que a existência de um potencial precipitável não é se não uma das condições da pluviogénese. Mas ninguém observa em qualquer parte a relação directa entre o potencial precipitável e a água efectivamente precipitada! A chuva não necessita apenas da presença de vapor de água disponível, mesmo acrescida pela evaporação: então, choveria sem descontinuidade sob os Trópicos húmidos. Como também choveria sem cessar sobre a bacia mediterrânica no Verão pois o potencial precipitável é então máximo. Não seria pois espantoso (com esta relação primária) que certos modelos façam chover abundantemente sobre… o Saara! A precedente relação, em função da importância respectiva da evaporação e da chuva, permitiria por absurdo a estimativa seguinte: evaporação = chuva = seca. Espera-se assim prever tanto a inundação como a seca. Mas invalida-se então a primeira relação! Não insistamos. O potencial precipitável (necessário) não é o factor primordial da pluviogénese. Há, salvo excepções localizadas, sempre bastante vapor de água no ar (próximo ou transferível) para se sustentar uma chuvada, mesmo no Saara. Diz-se, com humor, que o ar sariano possui tanto vapor de água como o ar londrino possui do famoso fog. Isso é exacto, mas o défice de saturação é consideravelmente mais elevado e as condições aerológicas estruturais (estratificação) são drásticas.

O processo da pluviogénese exige, além da existência necessária do potencial precipitável, a reunião imperativa e simultânea de condições precisas que dizem respeito:

  • ao factor que comanda o transporte de vapor de água (isto é, a energia) nas longas distâncias e que mantém esta alimentação;
  • ao factor (térmico?, mecânico?, dinâmico?) que provoca a ascensão necessária à mudança de estado da água e à libertação consequente do calor latente;
  • às condições aerológicas estruturais favoráveis (isto é, sem cisão, rebaixamento ou estratificação), indispensáveis ao desenvolvimento vertical das formações nebulosas.

Estas condições são extremamente variáveis, tanto à escala sinóptica (instantânea, diária) como à escala sazonal. E variam também com as condições geográficas, as condições estruturais em particular. São diferentes nos Trópicos e nas latitudes altas e médias, dando às diversas perturbações os seus caracteres específicos (Leroux, 1996). É evidentemente mais complexo que a relação elementar, esquemática mas errónea, evaporação/chuva utilizada pelos modelos.

Compreende-se assim facilmente a mediocridade do resultado: “A elevação das temperaturas arrastará o reforço do ciclo hidrológico, donde um risco de agravamento das secas e/ou das inundações em certos locais e uma possibilidade de diminuição da amplitude destes fenómenos noutros locais.” (IPCC, 1996, p.23). Será isto uma previsão responsável ao se imaginar tudo e o seu contrário? Que crédito atribuir a uma tal previsão que foi repetida em 2002: “O volume total das precipitações deveria aumentar mas, no plano local, as tendências são bastante menos certas […] não se conseguindo mesmo distinguir os sinais da evolução – aumento ou diminuição – da humidade do solo no plano mundial”.(UNEP-WMO, 2002, p.5). Kukla havia já sublinhado, em 1990, o “pouco talento” com que os modelos reproduzem o fenómeno pluviométrico. Isto é verdade e sê-lo-á sempre que o raciocínio permaneça fundamentado numa relação tão redutora.

A ausência de credibilidade das previsões das precipitações feitas pelos modelos faz novamente luz sobre as carências no conhecimento dos processos que comandam o tempo. Examinemos, por exemplo, a dinâmica do tempo no Atlântico Norte.

4. A evolução recente do tempo no espaço Atlântico Norte

A França pertence ao espaço aerológico do Atlântico Norte onde todos os parâmetros climáticos covariam porque eles obedecem à mesma dinâmica (…). O tempo é aí comandado pelos AMP saídos do Árctico que veiculam o ar frio e provocam em retorno (nomeadamente pela circulação ciclónica sobre a face anterior dos AMP e acima deles) a advecção (deslocamento da massa de ar no sentido horizontal) do ar quente em direcção ao pólo (Leroux, 1996). As evoluções climáticas são diferentes em função das regiões.

O oeste e o centro do Atlântico 

A bacia do Árctico, depois de ter aquecido rapidamente até cerca dos anos 1930-1940, arrefeceu lentamente, em todas as estações, nomeadamente, no Árctico ocidental (Kahl et al., 1993; Rigor et al., 2000). Esta baixa da temperatura árctica foi repercutida na Gronelândia e no Canadá onde os recordes de frio foram constantemente batidos. A Fig. 1 mostra que este arrefecimento diz respeito às trajectórias dos AMP a oeste (de modo mais marcado) e a este da Gronelândia. As curvas seculares evidenciam o óptimo climático contemporâneo dos anos 1930-1960 e o arrefecimento contínuo depois dos anos 70. Em toda a parte central e oriental dos Estados Unidos, até ao Golfo do México, observou-se também uma tendência nítida e contínua para o arrefecimento (Litynski, 2000). Este arrefecimento propaga-se sobre a maior parte do oceano Atlântico, da Gronelândia até à Europa e mais a Sul, tanto no ar como no mar. Deser e Blackmon (1993) observam no Inverno “um aquecimento de 1920 a 1950, e um arrefecimento de 1950 até aos nossos dias”. Assim como uma coincidência entre “temperaturas marinhas mais frias que a normal e ventos mais fortes que a normal”, até ao largo da África ocidental. Nomeadamente, na vizinhança das Canárias e do arquipélago de Cabo Verde (Nouaceur, 1999; Sagna, 2001). Ao mesmo tempo, sobre a América do Norte, as vagas de frio provocadas por enormes AMP de pressões elevadas que atingem o Golfo do México, pouco severas durante os anos 50, agravaram-se fortemente depois dos anos 70 (Michaels, 1992).

O nordeste do Atlântico 

Figura 1.Fora da trajectória americano-atlântica (a mais frequente) e da localização da depressão estatística dita da Islândia, mas sobre o caminho das descidas directas dos AMP (menos frequentes), o nordeste do Atlântico regista uma evolução original:

  • Uma subida contínua da temperatura que se acentua no Inverno (Reynaud, 1994), estação que reafirma o carácter dinâmico deste fenómeno.
  • Um aumento contínuo das precipitações. Que se traduz entre outras coisas por um ganho de massa em glaciares gronelandeses, islandeses e escandinavos (WMO, 1998). Este ganho é muito raramente mencionado pelos media. Pelo contrário, a redução dos bancos de gelo vizinhos é sempre largamente exagerado (embora isso nada a tenha a ver com o dito aquecimento global).
  • Uma descida contínua da pressão que se acentua também no Inverno (Reynaud, 1994). Este comportamento transborda mais ou menos para a Europa ocidental. Uma outra unidade de circulação desenvolve-se para este a partir da Escandinávia.

Assim, observa-se ao longo das trajectórias dos AMP um arrefecimento. Enquanto um aquecimento caracteriza as regiões situadas fora da trajectória principal dos AMP. Estas regiões beneficiam de advecções acrescidas de ar quente e húmido vindo do Sul. São impulsionadas, sobre a sua face frontal, pelos AMP mais potentes. Do mesmo modo, a Deriva Norte-Atlântica, prolongamento do Gulf Stream, acelerada pelas transferências aéreas mais intensas, traz com vantagem água quente em direcção ao Mar da Noruega. E, em seguida, para o Mar de Barents. Este transporte de calor traduz-se por uma fusão e um adelgaçamento dos bancos de gelo periféricos, aquecidos por cima pelo ar quente e por baixo pela água. 

A Oscilação Norte-Atlântica 

Figura 2.O estado do tempo no Atlântico Norte e na Europa está classicamente associado à Oscilação do Atlântico Norte (ONA). A ONA é medida por um índice (Fig. 2) que representa a diferença de pressões entre a do “anticiclone dos Açores” (formado pelo agrupamento de AMP: aglutinação anticiclónica ou AA) e a da “depressão da Islândia” (formada pelas depressões associadas aos AMP). Estes “centros de acção” têm sido definidos à escala das médias. E, assim, eles não existem à escala sinóptica (do tempo real).

A referência a estas entidades estatísticas introduziu desde o inicio uma enorme confusão (que permanece depois de mais de um século) entre as escalas dos fenómenos (Leroux, 1996). A ONA está em modo positivo ( vs negativo) quando a pressão está elevada no anticiclone e, simultaneamente, pelo contrário, a depressão está cavada (e inversamente). Estes modos, positivo e negativo, estabelecem covariações mas não as explicam. A causa comum (isto é, a dinâmica dos AMP) não consegue ser identificada pelas teorias clássicas da climatologia. Sublinhe-se que o vigor da transferência ciclónica de ar quente em direcção ao Norte, particularmente sobre a face frontal dos AMP, depende da potência dos AMP. Por sua vez, eles próprios dependem do défice térmico polar. Entretanto, estes conceitos habituais (e “oficiais”) ignoram os mecanismos do “balancé do Atlântico Norte”, assim como as razões da alteração que permanecem inexplicáveis, como verifica Wanner (199): “Como e porquê a ONA balanceia de um modo ao outro? […] apesar de todos os estudos [todos?, Nota do Autor], […] a questão permanece aberta e o mecanismo do flip-flop é bem misterioso”. Hurrel et al. (2001) atestam ainda este mau conhecimento: “Permanecem bastantes coisas a apreender sobre a ONA […], podendo o forçamento provir da estratosfera, do oceano ou de outros processos ainda não identificados.” (Ver abaixo a experiência Fastex).

Nomeadamente, a dinâmica dos AMP fornece uma resposta clara ao pretenso enigma e o respectivo índice ONA (Fig. 2) transforma-se num indicador da potência dos AMP e da intensidade das trocas meridionais no espaço Norte-Atlântico. Os mecanismos seguintes são facilmente verificados. Tanto à escala sinóptica, como às sazonal, estatística (média) e mesmo paleoclimática. (Leroux, 1996):

Figura 3.

  • Fase negativa ou baixa do ONA (Fig. 3a): diferença de pressão fraca entre AA (aglutinações anticiclónicas) e D (depressões). O Árctico está relativamente menos frio, os AMP são menos potentes, menos frequentes, a sua trajectória é menos meridional; à escala média, a aglutinação anticiclónica (AA dita dos Açores ) é mais fraca, menos extensa e situada mais a Norte; as depressões sinópticas associadas aos AMP são menos cavadas; ainda à escala média, a depressão dita da Islândia é menos profunda e menos extensa. As trocas meridionais são vagarosas, tanto no ar como no oceano (modo de circulação lento). O tempo é mais clemente: os contrastes térmicos são minorados, entre os fluxos assim como entre as fachadas oeste e este do oceano. A temperatura média da unidade aerológica é portanto mais (isto é, menos falsamente) representativa da realidade. Sobre a Europa e o Mediterrâneo, as aglutinações anticiclónicas são menos frequentes e de curta duração.
O caso particular da ONA negativa produz-se quando os AMP descendentes a este da Gronelândia são anormalmente frequentes (isto é, grosseiramente superiores a um quarto das trajectórias dos AMP). A pressão média resultante da depressão D da Islândia é então menos cavada, reduzindo a diferença de pressões com a AA.
  • Fase positiva ou alta da ONA (Fig. 3b): diferença de pressão forte entre AA e D. O Árctico está mais frio, os AMP são inicialmente mais potentes, mais frequentes, a sua trajectória é mais meridional; à escala média, a aglutinação anticiclónica atlântica (dita dos Açores ) é mais potente, mais extensa e mais meridional; as depressões sinópticas provocadas pelos AMP são mais cavadas; à escala média, a depressão dita da Islândiaé mais profunda e mais extensa. As trocas meridionais são intensificadas, tanto no ar como no oceano (modo de circulação rápido). O tempo é mais violento: os contrastes térmicos são mais fortes, tanto entre os fluxos como entre as fachadas do Atlântico. A temperatura média da unidade aerológica não tem então significado climático. Sobre a Europa (AAc) e o Mediterrâneo, as aglutinações anticiclónicas são mais frequentes e de longa duração. Assim, uma fase positiva da ONA (somente o LMD pretende o inverso, cf. Le Treut, 2000, in Fléau et al. ), é absolutamente antinómica do “esquema do cenário do aquecimento global”.

O tempo tornou-se cada vez mais violento depois dos anos 70 

Os anos 70 do séc. XX apresentaram uma verdadeira viragem climática, a partir da qual os contrastes entre as duas fachadas do oceano Atlântico se acentuaram. Assim, “depois de 1974, o modo positivo é preponderante” (Wanner, 1999). A Fig. 2 mostra de maneira eloquente a covariação entre a descida da temperatura sobre o Árctico e sobre as trajectórias dos AMP, e uma subida do índice ONA (Fig. 3b), e inversamente (Fig. 3a). Todos os parâmetros covariam mas seria naturalmente arriscado, como o fazem cegamente os analistas estatísticos, evocar correlações ou relações causais entre a temperatura aérea ou a temperatura marinha de superfície e a chuva, ou entre as pressões e a chuva, visto que a causa dinâmica comum das covariações é exterior à dos parâmetros isolados. A subida contínua do índice ONA está associada a uma baixa da temperatura do Árctico e a um aumento da potência e do número dos anticiclones móveis polares saídos do Árctico (Serreze et al., 1993). Isso significa que, depois dos anos 70, as trocas meridionais intensificaram-se. O que corresponde a um cenário “frio”, a um modo rápido de circulação (Fig. 3b), a afrontamentos mais severos e a contrates mais acentuados entre as duas margens da unidade aerológica (Leroux, 2000).

Figura 4.

Sobre a América do Norte, a frequência das perturbações violentas, blizzards, e tornados, aumenta fortemente em ligação com as intrusões mais frequentes de ar frio, isto é, dos AMP mais potente e mais numerosos. Estes acontecimentos inscrevem-se numa subida contínua da frequência das tempestades violentas depois de 1965 em ligação com um aumento das depressões profundas na bacia dos Grandes Lagos (Kunkel et al., 1999). Formados na face frontal dos AMP, pelo contacto conflituoso entre o ar frio e o ar húmido proveniente do Golfo do México que fica ainda mais instável sobre o continente, os tornados aumentaram fortemente no decurso do período 1953-1995 (WMO, 1998). Este endurecimento do tempo propaga-se sobre o Atlântico Norte onde a potência acrescida dos AMP provoca depressões profundas e cavadas. Os “ciclones” polares com pressões inferiores a 950 hPa, que testemunham temperaturas invernais de forte intensidade, têm assim aumentado de maneira notável de 1956 a 1998. Quase triplicaram desde o Inverno 1988-1989 (WMO, 1999). Estas tempestades transbordam sobre os países ribeirinhos do Atlântico. Os resultados do projecto europeu WASA (1988), fundado sobre a observação das pressões (a força do vento está ligada às depressões cavadas). Donde, à intensidade das advecções ciclónicas do Sul. Não há qualquer equívoco: “A principal conclusão é que a climatologia das tempestades e das vagas na maior parte do Atlântico Nordeste e no Mar do Norte tornou-se verdadeiramente mais rude no decurso dos decénios recentes, mas a intensidade actual parece ser comparável à do início do século”. Esta conclusão está conforme à evolução da Fig. 4. Nesta verifica-se que o índice de tempestuosidade se ajusta de maneira notável à evolução do índice ONA, e onde também se nota que os valores recentes são todavia os mais elevados do século. Esta evolução é o inverso da evolução térmica das altas latitudes, em que em meados do século o clima foi mais clemente, dominando o óptimo climático. As tempestades sobre o litoral atlântico francês, e também britânico, foram cada vez mais frequentes e intensas (Lemasson et Regnaud, 1997). Provocaram na Bretanha “um aumento da frequência dos ventos fortes e das tempestades depois dos anos 70” (Audran, 1998, comunicado pessoal). Os ventos de sudoeste (quentes e húmidos), intensificados sobre a face frontal dos AMP, aumentaram a frequência das condições pluviogénicas, aumentando a temperatura e a pluviosidade (com inundações repetidas). A tempestuosidade seguiu a mesma evolução no sentido da alta.

Este acréscimo das trocas meridionais, nomeadamente da potência dos AMP, está traduzido indubitavelmente pelo aumento, contínuo e forte, da pressão atmosférica sobre a trajectória dos AMP, sobre a América do Norte e nomeadamente sobre o este do Canadá, o Atlântico Norte (Fig. 3b), a Europa ocidental. Salvo, naturalmente, acima do mar da Noruega (Fig. 3b) que conhece pelo contrário uma baixa concomitante de pressão. Uma tal tendência é antinómica de um aquecimento, se este último for considerado como uma causa (sendo o ar quente ligeiro), mas não o é pela lógica contrária, se invertermos a relação: uma alta da pressão nas baixas camadas “é a causa de uma alta das temperaturas”(Thieme, comunicação pessoal) consequência das propriedades termodinâmicas dos gases (uma pressão elevada favorece em particular a condução molecular). Esta alta de pressão traduz também uma frequência maior das aglutinações anticiclónicas, nomeadamente continentais que favorecem uma alta das temperaturas diurnas (forte insolação), mas em troca uma baixa das precipitações (estabilidade anticiclónica), em particular no coração do Inverno.

Esta evolução do tempo no espaço Atlântico Norte fornece um desmentido suplementar às previsões dos modelos, visto que é exactamente o inverso de um “cenário do efeito de estufa”. É igualmente confirmada noutras unidades aerológicas do hemisfério norte.

As outras unidades de circulação do hemisfério Norte 

Na unidade do Pacífico Norte (Fig. 3), os AMP vêm da Ásia ou descendem directamente pelo estreito de Behring. A advecção do Sul é fortemente canalizada para o Norte entre a face frontal dos AMP e o relevo das Montanhas Rochosas, formando os AMP a aglutinação anticiclónica dita do Havai ou da Califórnia. As águas marinhas são canalizadas para o Norte (corrente “quente” do Alasca), ou para o Sul (corrente “fresca” da Califórnia). A evolução recente é idêntica àquela observada no Atlântico Norte (Favre, 2001): no nordeste, na localização da depressão (média) dita das Aleutas, observa-se um aquecimento tanto no ar como na água superficial (sendo intensificada a corrente do Alasca), com as mesmas consequências (que no mar de Barents) sobre a espessura do banco de gelo. A pluviosidade aumenta fortemente, enquanto a pressão baixa nas escalas sinópticas e médias. Mais ao Sul, o aumento da pressão é forte na aglutinação anticiclónica deslocada em direcção ao Sul, arrefecendo o Pacífico Norte ocidental e central (Gershunov et al., 1999). A actividade ciclónica “aumentou de maneira notável”,a frequência das depressões profundas aumentou cerca de 50%, a pressão central mínima baixou 4 hPa a 5 hPa. Os ventos extremos associados e a vorticidade aumentaram 10 % a 15 % (Graham et Diaz, 2001). As perturbações migraram vantajosamente para o Sul, donde as tempestades foram mais frequentes (inundações na Califórnia).

Figura 5.

A partir da Escandinávia começa uma outra unidade de circulação (Fig. 3). Os AMP escandinavos e russos propagam frio e aumento da pressão em direcção aos Balcãs e à bacia do Mediterrâneo. Schönwiese et Rapp (1987) mostraram que durante um século, de 1891 a 1990, a temperatura baixou 1 ºC na Escandinávia e para lá da Europa central. Ao longo da trajectória dos AMP. Enquanto aumentou na Ucrânia e ao sul da Rússia de aproximadamente 2 ºC, ao longo da trajectória dos retornos ciclónicos do Sul. Esta evolução foi confirmada por Litynsk89i (2000). No Mediterrâneo central e oriental a temperatura baixou em média 1 ºC em trinta anos (Kutiel et Paz, 2000). Em Jerusalém, as temperaturas invernais registaram em 1992-1993 os seus recordes inferiores dentro do período 1865-1993 (– 3,5 ºC em relação à normal de 1961-1990). Israel conheceu em 1994 o pior Inverno desde há cem anos (WMO, 1995). Uma situação de “seca” reinou no Mediterrâneo, nomeadamente na Espanha (Gil Olcina et Morales Gil, 2001), na Itália (Conte et Palmieri, 1990), na Argélia (Djellouli et Daget, 1993) e na Grécia onde o défice pluviométrico se tornou preocupante (Nalbantis et al., 1993; Nastos, 1993). O aumento da pressão é forte, constante e generalizado sobre a Europa ocidental e central assim como no conjunto da bacia mediterrânica. Estendeu-se ao Sul na África setentrional. A evolução da pressão em Constança (como em Lisboa, Fig. 5), comparada com as temperaturas árcticas é muito eloquente: a pressão ali baixa quando aqui a temperatura aumenta até se atingir o óptimo climático, o aumento de pressão é em seguida rápido depois dos anos 70, associado ao arrefecimento árctico, atingindo 4 hPa (o que é considerável à escala dos valores médios anuais).

A leste, uma unidade de circulação, a da Ásia, é alimentada pelos AMP da trajectória siberiana, descendo principalmente a este dos Montes Urais, que atravessa dificilmente a Ásia e atinge o Pacífico através da China. Os dados disponíveis dessa região são fragmentados, mas Litynski (2000) sublinha o arrefecimento muito marcado (– 0,7 ºC) na Sibéria (os recordes de frio da Sibéria e da Mongólia dos Invernos recentes ainda se mantêm na memória) e um aquecimento nas regiões litorais orientais, sobre a trajectória das elações do Sul.

Em resumo, no hemisfério Norte, as evoluções climáticas recentes são diversas mas não são as previstas pelos modelos: algumas regiões arrefecem, outras aquecem, as precipitações aumentam ou diminuem, a pressão aumenta ou baixa, mas, em todo o lado, o tempo tornou-se mais severo, mais irregular e mais violento depois dos anos 70, verdadeiro marco da viragem climática do século passado. Estes diferentes comportamentos não devem nada ao acaso e são, pelo contrário, perfeitamente organizados. Têm a mesma condição inicial: o arrefecimento do Árctico, de há trinta anos para cá, fornece um vigor crescente aos AMP boreais. Colocada na evolução climática a longo prazo, esta situação corresponde, todas as proporções guardadas, às premissas da primeira fase de uma glaciação que se caracteriza por uma intensificação lenta da transferência do potencial precipitável tropical em direcção aos pólos e a uma retenção da reserva de água sob a forma sólida. A evolução do tempo, tal como ele é observado directamente, não deve, por consequência, absolutamente nada ao “cenário do efeito de estufa antropogénico, do aquecimento global e das alterações climáticas mal compreendidas”.

5. Outras “mentiras”

Outras afirmações não verdadeiras participam na constituição da impostura científica do presumido aquecimento global. Qual é o seu valor real?

As alterações climáticas já começaram? 

Figura 6.

 

“Existem provas que as alterações climáticas já começaram” (UNEP-WMO, 2002, p.2) conforme pretende o IPCC. Acrescenta: “A evolução das temperaturas desde há alguns decénios corresponde ao aquecimento previsto pelos modelos devido ao efeito de estufa”. O principal argumento sob o qual se fundamenta esta certeza reside na curva da temperatura reconstituída a partir das observações. Isto é, a partir das médias à escala planetária ou hemisférica (publicada todos os anos pela OMM), e parece assim confirmar que podemos atribuir “uma influência perceptível do homem… na evolução do clima”. Qual é o valor real desta “prova absoluta” (desde já infirmada pelos satélites, cf. abaixo)? Nada permite afirmar que o aquecimento global começou, e a prova considerada irrefutável – a curva-padrão da evolução da temperatura média global – é também um logro. A Fig. 6, na qual o índice ONA deve ser considerado como uma testemunha da intensidade das trocas meridionais no hemisfério Norte, mostra três períodos distintos:
1) No início do século, a diminuição progressiva do índice ONA traduz uma atenuação dos desvios entre as faces das unidades de circulação e um aumento da temperatura média a norte da latitude de 30 ºN.
2) Em meados do século (óptimo climático), o índice ONA é moderado a negativo, os contrastes térmicos são fracos e a média da temperatura é próxima da normal.
3) Depois do fim dos anos 70, o índice ONA aumenta vigorosamente e a elevação da temperatura está directamente associada ao aumento das subidas de ar quente na face frontal dos AMP que intensificaram de produção. Ottermans et al. (2002) demonstraram recentemente que o aquecimento dos Invernos europeus não é devido, no decurso do período 1948-1995, à elevação dos GEE mas a uma modificação da circulação atmosférica e nomeadamente à intensificação dos ventos de sudoeste (Fig. 3b).

Tendo em conta as evoluções similares nas outras unidades de circulação do hemisfério Norte, o aumento recente de temperatura, indevidamente atribuído ao efeito de estufa antropogénico, não é se não um artefacto. Foi provocado pela aceleração das trocas meridionais e por um fornecimento mais intenso nas médias e altas latitudes de calor tropical, aéreo e marinho. A curva térmica reconstituída tem portanto cada vez menos significado climático à medida que vai ascendendo. Deve-se, por outro lado, sublinhar que este aquecimento (aritmético ou contabilístico) é mais elevado ao norte da latitude 30 ºN (cf. WMO, 2001). É esse aumento regionalizado que determina a evolução da curva dita “global” (Fig. 6: an T glob ), donde o significado climático real é mesmo assim consideravelmente diminuto. A similitude entre estas duas curvas térmicas mostra que o hemisfério Sul e as latitudes 0 ºN – 30 ºN não jogam se não um papel muito limitado na evolução geral, sendo que esta é, por fim, sobretudo determinada pelas latitudes situadas a norte de 30 ºN. O pretendido aquecimento dito global atribuído ao efeito de estufa antropogénico é com efeito regional e limitado. Releva no essencial do factor dinâmico e, portanto, de uma alteração do modo de circulação geral a partir dos anos 70, desvio climático principal que é, recordemos, ignorado pelos “modelos” e pelos “experts”, nomeadamente, os ditos “cientistas” do IPCC.

O caso do nível do mar 

“Os modelos prevêem uma elevação suplementar do nível do mar de 15 cm a 95 cm daqui até ao ano 2100 […] devido à dilatação térmica das águas dos oceanos […] e […] da fusão das calotes glaciares e dos glaciares” (UNEP-WMO, 2002, p.11). Esta previsão segue-se a estimativas anteriores bastante mais dramáticas, então expressas em metros, mas progressivamente minimizadas. Qual é a verdade desta ameaça permanente sobre “as zonas costeiras e as pequenas ilhas”?

Afastemos imediatamente a maior ameaça de todas, a do Antárctico (que fazia subir, em teoria, 70 m o nível dos oceanos). A sua situação é notavelmente estável: “O grosso da calote antárctica não sofreu qualquer fusão desde a sua formação, ou seja, desde há 60 milhões de anos”(Postel-Vinay, 2002). A observação dos satélites mostra mesmo que no decurso do período 1979-1999, que é aquele em que se supõe ter havido uma maior elevação de temperatura, houve um aumento da superfície do gelo à volta do continente antárctico (Parkinson, 2002). O gelo da Gronelândia está protegido pelo relevo, não podendo o oceano provocar a desagregação de uma parte dos bancos de gelo que produziria os icebergues (o que explica a conservação dos glaciares continentais até à latitude inabitual de 61 ºN). Além disso, a maior parte da sua superfície do gelo situa-se a mais de 2000 m de altitude onde o ar permanece frio. Observa-se uma alternância de zonas de fusão e de ganho de massa, mas no conjunto o gelo gronelandês permanece estável. Que problemas existem então para se falar tanto nos perigos da Gronelândia? O dos glaciares de montanha? Eles não representam se não um milésimo do volume total dos gelos. Por outro lado, como sublinha Vivian (2002), os glaciares “já registaram no passado flutuações mais importantes do que as que se verificam actualmente”, onde em todo o planeta existem glaciares que recuam (por exemplo, na vertente exposta ao Sul do Alasca; Pfeffer et al., 2000) como há glaciares que avançam (nomeadamente na Escandinávia). Eis pois uma forma aparentemente simples de raciocínio – “Faz calor, o gelo funde” – que não funciona bem na Natureza!

É também invocada uma outra relação primária: “a água quente dilata-se, o mar sobe”, pelo que um aumento de 1 ºC da temperatura do ar arrastaria uma subida de 20 cm numa camada de água do mar de 200 m de espessura. É isto tão simples e imediato? Em Brest, por exemplo, o nível médio do oceano é máximo de Outubro a Dezembro (+ 7 cm), e mínimo de Março a Agosto (- 5 cm), enquanto que a temperatura média do ar é de 16,0 ºC em Agosto de 5,8 ºC em Fevereiro, ou seja uma amplitude média de 10,2 ºC para uma diferença de altura observada de 12 cm… Mas as variações de temperatura e de nível do mar são inversas! Esta ausência de ligação directa mostra que a temperatura do ar não comanda a altura da água, e que as cotas elevadas são produzidas no Inverno por factores meteorológicos: a intensificação das tempestades e aceleração dos ventos de afluxo do sector sudoeste (Fig. 3b), e acréscimo da altura das vagas (Bouws et al., 1996).

O factor atmosférico, raramente ou mesmo nunca tomado em conta, é assim fundamental na variação do nível do mar. A pressão atmosférica (1 hPa corresponde a 1 cm) baixa o nível sob os AMP e sob as aglutinações anticiclónicas, mas permite uma elevação sob as depressões. Assim, por exemplo, a anomalia positiva do nível do mar do Pacifico equatorial revelado pelo Topex-Poséidon, ligada a uma anomalia positiva da temperatura durante os anos 1997-1998 (e subida imediata), resulta simplesmente do deslizamento para o sul do Equador meteorológico vertical (EMV). Esta translação manifesta-se em superfície por uma baixa de pressão sob os movimentos ascendentes do EMV. E por uma migração das águas quentes da Contra-Corrente-Equatorial em direcção ao Este (que compensa a translação para oeste da Corrente Norte-Equatorial e da Corrente Sul-Equatorial impulsionadas pelos alísios norte e sul).O aquecimento e a elevação do nível (deslocados para o Sul) acompanham todos os episódios do El Niño, donde a origem é aerológica (Leroux, 1996). Mas quem o sabe? Tanto mais que os acontecimentos do El Niño são geralmente considerados, sem razão, como as causas e responsáveis de calamidades através do mundo (mas sem provas). Sempre pela mesma razão: as análises estatísticas (climatologia diagnóstico) colocam em evidência covariações. Consideradas prematuramente como relações físicas causais à falta do esquema coerente de circulação geral. Mas estas análises não podem determinar o sentido real das relações e o lugar exacto do fenómeno incriminado na cadeia de processos, no início ou no fim. A intensidade das vagas (que se acrescentam também no Pacífico Norte; Allan et Komar, 2000), do movimento das águas do mar depois de uma tempestade, dos upwellings (fenómeno oceanográfico), das correntes superficiais, depende por outro lado das variações da circulação aérea. Uma estimativa das variações do nível do mar (Cf.Cabanes et al., 2002) tem assim pouco significado sem uma estimativa paralela das variações da pressão atmosférica e da circulação aérea das baixas camadas. Uma evolução do tempo com aquecimento, isto é, em direcção a um estado clemente, seria por outro lado uma perspectiva tranquilizadora para os litorais.

Por outro lado, antes de dramaticamente fazer “amortecer, deslocar”, mesmo “desaparecer”, Gulf Stream, é necessário repor os fluxos aéreos e marítimos nos grandes “8” descritos em cada unidade de circulação das baixas camadas (Leroux, 1996). Deve-se recordar em particular que esta corrente é impulsionada para o Golfo do México pela circulação do alísio que transforma a Corrente das Canárias em Corrente Norte-Equatorial. A circulação do próprio alísio sai da aglutinação dos AMP (na AA dita dos Açores). O deslocamento dos AMP e a tensão sobre a água organizam os grandes movimentos oceânicos. Por consequência, para modificar o escoamento da água superficial oceânica, não é necessário (paradoxalmente) falta de ar! Intervêm ainda outros parâmetros (não tendo em conta factores tectónicos, sedimentológicos, hidrológicos, etc.). O nível 0, teórico, depende assim das águas variáveis da chuva (e das variações das extensões das zonas molhadas), da antecipação por evaporação, ou da retenção glaciar ou continental (terrenos gelados, águas subterrâneas, lagos, barragens, irrigação, etc.).

A ameaça da “subida do nível do mar”, resumida nas duas formulações elementares recordadas anteriormente, repousa ainda sobre o “mais ou menos” e constitui portanto um argumento que, no essencial, cai por água abaixo.

O espantalho do aquecimento 

Apresentar um hipotético aquecimento como um “apocalipse” (exercício choramingas no qual se distinguem os media) pode certamente fazer passar a mensagem anti-poluição. Mas isso constitui, no plano estritamente científico, uma mensagem errada e um péssimo espantalho. Esquecemo-nos que ainda há bem pouco tempo era o arrefecimento global que era apresentado como a pior (segundo eu, a justo título) perspectiva! E que dizer das reacções dos medias sobre o lançamento da angústia dos sem-abrigo durante as vagas de frio ou quando os automobilistas estão transformados em “náufragos da auto-estrada” no meio de nevões!

Pode-se fazer uma comparação com as condições registadas durante o óptimo climático eemien (OCE, há 120 000 BP – before present ) ou mais facilmente com as do óptimo climático holoceno (OCH, entre 8000 e 5000 BP), quando a temperatura global era de 2 ºC superior à actual. Assim, por exemplo, no OCH, o Saara estava cheio de lagos e de terras húmidas, com a parte desértica consideravelmente reduzida. As trocas transarianas intensas favoreceram o florescimento do Neolítico de tradição sudanesa. Esta situação prevaleceu, numa menor escala, durante todos os períodos quentes ulteriores, nomeadamente durante o óptimo climático medieval. Neste período assistiu-se ao progresso dos impérios sudaneses. Durante o óptimo climático contemporâneo, dos anos 1930-1960, quando as chuvas subsarianas eram superiores às actuais, assistiu-se à subida dos criadores nómadas sahelianos em direcção ao Norte. Esta migração tornou mais dramático o deslocamento ulterior para o Sul durante a desfavorável pluviometria recente, desde os anos 70, “seca” prolongada que se estende para o Sul, para além do domínio saheliano. Esta extensão oferece ela própria um nítido desmentido ao cenário do aquecimento global, como mostra a situação durante o Último Máximo Glacial, entre 18 e 15 mil anos BP. Então o deserto do Saara estendia-se a mais de 1000 quilómetros para Sul em relação à situação actual. O deslocamento recente das estruturas pluviométricas e das isoietas (linhas de igual precipitação) progrediu (de maneira relativa) aproximadamente 200 km em direcção ao Sul do Saara.

Não é absolutamente certo que as conclusões sejam catastrofistas, muito longe disso. É evidente, com efeito, que poderíamos também encontrar, numa situação de aquecimento (se tal viesse verdadeiramente a produzir-se), múltiplas vantagens: um maior conforto nas regiões actualmente frias, uma diminuição dos gastos em aquecimento, uma maior clemência e regularidade do tempo (como foi descrito anteriormente), menos tempestades e ventos fortes, uma frequência menor das vagas de frio severo (e dos gelos tardios, cf. a seguir), uma extensão de terras aráveis ganhas ao mesmo tempo ao frio (alongamento do ciclo vegetativo, diminuição do gelo superficial e entranhado no solo, etc.). As vantagens estendiam-se à menor aridez (amplificação das circulações das monções e aumento das chuvas tropicais marginais, nomeadamente subsarianas ou indianas). Mas, para julgar a pertinência do cenário catastrófico, é necessário fazer apelo simultâneo aos conhecimentos dos paleoclimatologistas, dos mecanismos das variações climáticas a todas as escalas de tempo e da distribuição dos climas, cultura climatológica que não é forçosamente extensiva aos conhecimentos dos “experts auto proclamados”.

Alterações climáticas e alarmismo 

Do mesmo modo, a abundante e “impressionante” literatura pseudo-científica produzida pelo Grupo II do IPCC repousa apenas numa hipótese com valor de postulado. Um simples “se”: “se a temperatura aumenta, pode-se imaginar que…” A imaginação é preferencial ou unicamente dirigida para um resultado: “…sucedem catástrofes”. Aquele grupo está encarregado de avaliar os impactos eventuais do aquecimento presumido. Isto é, de “simulações trabalhosas” que consistem em “imaginar o máximo de prejuízos […] para meter medo a toda a gente” (Lenoir, 2001). Estas ficções-elucubrações são entretanto consideradas sem-razão como se fossem previsões. Os media reproduzem-nas sem nuances. Aliás, seria escusado já que a catástrofe como o sensacionalismo fazem vender papel. Mas, o que é mais grave, também são repetidas sem vergonha pelos “cientistas”. Assim, por exemplo, Le Treut et Jancovici (2001) – o segundo apresenta-se como “engenheiro-climatólogo” (sic) de geração tão recente quanto artificial – reúnem numa centena de páginas uma densidade notável de banalidades, lapalissadas, ninharias e “lágrimas de crocodilo” (Cf. a citação liminar seguinte) que amplificam o alarmismo do IPCC.

Vejam-se alguns extractos do escrito desses “cientistas”:

  • “A modelação permitiu traçar um feixe de futuros possíveis onde o clima parece inevitavelmente que vai mudar.” (p. 45). Que truísmo! Que faz o clima há milhares de anos?
  • “Uma alteração climática corresponderá justamente a uma desregulação das flutuações naturais […]” (p. 54). La Palice teria dito melhor? Qual será de facto a definição de uma “flutuação natural”? E qual é a diferença entre “flutuação” e “alteração”, nomeadamente, “natural”?
  • “[…]A possibilidade da fusão dos gelos polares é praticamente nula até 2100. […] Mas para lá de 2100?” (p.52). Na falta de uma catástrofe “imediata”, deve-se projectar para além da Saint-Glinglin. Porque “uma fusão parcial do Antárctico teria consequências fenomenais e irreversíveis.” (p. 52). Brrr! E “a elevação dos oceanos ameaçará também a existência de certas ilhas.” É a síndrome maldiviana. Não se percebe, visto que antes se dissera que a “elevação” era considerada “praticamente nula” (p.52) e até “impossível” (p. 56).
  • “Um eventual aumento da variabilidade […] pode afectar as temperaturas (aumento dos gelos tardios da Primavera, etc.” (p. 59). Um “gelo” como um risco natural num cenário de aquecimento!
  • “Como preservar a nossa saúde se não dispusermos de alimentos em quantidade suficiente, se os produtos tóxicos se disseminam ou se um stress intenso desenvolve o consumo de drogas e de álcool?” (p.61) E se…e se… é evidentemente terrificante, mas esta tagarelice (que ultrapassa as tertúlias) é grotesca!
  • “Um aumento da mortalidade, consequência possível de um aumento das temperaturas” (p. 61) também é possível imaginar. Esquece-se que a mortalidade associada ao frio é de longe a mais frequente? Provavelmente como este desaparece, a mortalidade vai diminuir!
  • “Um deslocamento para Norte e em altitude das zonas endémicas do paludismo” (p. 62) é de recear. Devido aos “miasmas dos pântanos” como se sabe. Ninguém ignora que este mal era endémico há pouco tempo em França, na Sologne ou nas Landes. Foram arborizadas para erradicar o flagelo. Mais recentemente no Languedoc e na Camargue a malária estava erradicada. Tão pouco nas planícies do Pó ou nos Marrais Pontins, nem sequer na Lapónia ou no Quebeque, existe infestação de mosquitos!
  • “O aumento de outras doenças transmitidas por insectos” (p. 62) é outra terrível doença também imaginada por esta gente. Quando será que a mosca tsé-tsé invadirá os prados normandos transformados em savanas (recheadas de macieiras, bem entendido)?

Quem pode acreditar em tais idiotices? Elas são contudo reproduzidas muitas vezes sem qualquer discernimento. A Sociedade Francesa de Meteorologia julga entretanto que esta literatura de cordel é uma ” excelente síntese sobre as alterações climáticas ” (Javelle, La Météorologie,nº 36, 2002, p. 74). Quem diria! Felizmente que os autores tomam a cautela de precisar, sem escrúpulos e sem sombra de dúvida, a qualidade das suas especializações. “A credibilidade do diagnóstico da comunidade científica é um ponto essencial” (p. 102)!

6. Os abusos da meteorologia-climatologia

 

O discurso das alterações climáticas não é convincente. É mesmo incoerente. Poluição e clima abusivamente ligados devem ser dissociados. A poluição é preocupante e deve ser tratada separadamente pelos especialistas destes problemas. O clima deve ser tratado pelos climatologistas. É evidente. Não está provada a ligação do clima com a poluição. Salvo à escala das cidades. Cada disciplina tem o seu próprio domínio de competência. Mesmo neste existe muito a fazer. A mistura dos dois domínios diminui a eficácia de resolução dos problemas respectivos. Em climatologia, o imperialismo dos modelos deve ser questionado em particular.

O imperialismo dos modelos 

As previsões-predições dos modelos são consideradas, injustificadamente, como o fruto idealizado de uma ciência meteorológica acabada. Todavia, eles só podem impressionar favoravelmente aqueles que não são climatologistas avisados. Estes supõem resolvida a modelação dos fenómenos meteorológicos e perfeitamente conhecidos os esquema da circulação geral. Isso está muito longe de acontecer. Com efeito, estas previsões são sobretudo aproximações. São simplificações exageradas, são incoerências e contradições de uma disciplina meteorológica em crise de conceitos. Está prisioneira dos seus velhos dogmas e tem necessidade de confessar o que ela não é capaz de explicar. A polarização do efeito de estufa antropogénico feita nos modelos oculta os outros factores possíveis de modificações climáticas: o vapor de água, a nebulosidade, a falta de homogeneidade atmosférica, a actividade solar, o vulcanismo, a urbanização, os parâmetros orbitais, os raios cósmicos, etc. Sobretudo a dinâmica das trocas meridionais (Leroux, 1996). Todos estes parâmetros não são tidos em conta nos modelos.

G. Dady ajuíza a propósito da modelação que “a deriva redutora […] é não somente perigosa porque ela interpreta mal a realidade mas, além disso, é totalitária”. (in Le Monde, 24 de Fevereiro de 1995). A modelação impõe o seu “totalitarismo científico”:

  • Sobre a climatologia, donde os estudos ditos diagnósticos estabelecem invariavelmente “teleligações” ou correlações estatísticas. Isto é, na realidade são covariações. Sem nunca demonstrar os eventuais laços de causalidade entre os parâmetros analisados. Pode-se muito facilmente “estabelecer relações longínquas”. Por exemplo, entre as temperaturas marítimas da superfície do Atlântico Norte e as precipitações saharianas. Mesmo que, por motivo das trajectórias dos alísios marítimos, o potencial precipitável desta parte do Atlântico tenha ínfimas chances de ser enviado para África por advecção. É possível deste modo estabelecer relações estatísticas muito longínquas entre o ENSO (El Niño Southern Oscillation) e as precipitações à escala global…mesmo que os fenómenos considerados obedeçam a factores totalmente diferentes. Estão afastados por milhares de quilómetros e pertencem a unidades de circulação específicas. Unidades separadas por barreiras montanhosas imponentes que interditam qualquer comunicação entre si realizadas nas baixas camadas. Estas análises não servem para grande coisa. Não fazem progredir um milímetro a compreensão das perturbações e dos processos pluviogénicos (cujos mecanismos reais são sempre ignorados pelos modelos). Recordemos por outro lado que os modelos são incapazes de precisar o sentido da causalidade das relações supostas devido à falta de um esquema de circulação geral. A interpretação pode então, indiferentemente, de acordo com as necessidades, a fantasia ou o maior dos bambúrrios, tomar o efeito pela causa. É o caso do El Niño considerado como um factor fundamental ainda que se encontre no fim da cadeia dos processos. Mas o essencial não é que os resultados sejam …”estatisticamente significativos”!
  • Sobre a meteorologia, em particular no domínio das previsões, onde os modelos são incapazes de prever o tempo para lá de 2-3 dias. Para além de 3 dias, a taxa de confiança não é superior a 3 em 5 ou 2 em 5, isto é, uma hipótese em duas, o que não constitui uma previsão! Os modelos não podem sequer prever o tempo do próximo mês, nem sequer do próximo Verão. Quanto mais num prazo mais alargado. E são sempre os mesmos modelos: “Simulamos o clima com os mesmos modelos que são utilizados para prever o tempo.” (Rochas et Javelle, 1993). Os modelos não previram e não explicaram nem as inundações de Aude de Novembro de 1999, nem as tempestades de Dezembro de 1999, nem as inundações de Gard de Setembro de 2002, nem a neve de Janeiro de 2003, etc., etc. Os modelos não são capazes de reconstituir a evolução do clima do século que acabou recentemente. E há quem tenha a pretensão de prever o clima que existirá dentro de um século! É isto verdadeiramente sério? Quando os modelos prevêem o clima de 2100, não se deve esquecer as reservas emitidas pelos próprios modeladores: “As incertezas ainda são muito elevadas […] as mudanças associadas às diferentes parametrizações são da mesma ordem de grandeza que os erros do modelo”. (Beniston et al., 1997). Assim “sem dúvida, a acumulação destes factores de incerteza torna ilusória, de momento, a predição detalhada de uma evolução do clima futuro.” (Le Treut, 1997).

Os modeladores, que estão na origem do “cenário do aquecimento global”, devem pois cessar de acreditar neles próprios (não esquecendo as suas reservas confessadas). Sobretudo, os modeladores devem deixar de enganar aqueles que não dominam a climatologia nem estão em condições de julgar os modelos ao estarem a informar que dispõem realmente de “modelos” no sentido próprio do termo. Talvez assim se atenuasse esta forma de ditadura, do IPCC, sobre a climatologia em França.

A situação da climatologia em França 

Qual é o estado do debate sobre o efeito de estufa antropogénico e, mais geralmente, sobre a climatologia em França?

  • O director da Météo-France tomou partido pelo aquecimento global. Aparentemente sem razão científica porque, sem por em causa os seus méritos administrativos, ele não possui formação adequada. Fê-lo, mais ou menos por duas razões evidentes. Primeiro para defesa da sua instituição que recebe deste modo créditos em abundância (para manter o funcionamento vão dos tera-flops – meios caríssimos sem resultados palpáveis – e o fantasma dos supercomputadores dos quais espera sempre milagre que tarda a chegar). Depois porque tem a ambição de vir a ser secretário-geral da Organização Mundial de Meteorologia. Compreende-se também a análise que faz Rochas (inspector geral da meteorologia) na La Météorologie, revista da Sociedade de Meteorologia de França (nº 38, 2002, pp. 68-69), da obra de Lenoir (2001): “A posição em que se coloca Yves Lenoir é difícil de manter […] porque defende uma posição oposta à da ideologia (sic) dominante.” Ideologia! Pode-se imaginar uma afirmação mais ingénua do lyssenkismo (do charlatão russo Lyssenko) que reina na instituição francesa?
  • O presidente do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) lançou-se desde a sua nomeação em conferências sobre as alterações climáticas. Mostrou imediatamente que ele é um especialista incontestado da camada do ozono mas não da climatologia. O CNRS seria transformado num centro da solução encontrada, ou imposta, para resolver o problema? A atribuição da Medalha de Ouro do CNRS a dois eminentes químicos glaciologistas (C. Lorius e J. Jouzel) é sintomática deste estado de espírito. Estes teriam evidenciado a covariação de parâmetros climáticos no decurso dos quatro últimos ciclos glaciários. Esta medalha, amplamente merecida pelos resultados absolutamente notáveis em paleoclimatologia, que validam sem ambiguidade as teorias de Milankovitch, foi atribuída “por ter posto em evidência a ligação entre o teor de gases com efeito de estufa na atmosfera e a evolução do clima”. Esta “ligação” é falsa (Cf. o segundo parágrafo do número 2 anterior) …mas este “desvio fraudulento” é redutor, é uma mentira. Mas é o pão-nosso de cada dia (veja-se os trabalhos do SIAM- Scenarios, Impacts and Adaptation Measures, em Portugal)!
  • A Comissão interministerial do efeito de estufa (que se deveria antes chamar de controlo da poluição já que corresponderia melhor à sua vocação) só pode com um tal nome defender (sem estado de alma) a “bíblia” do IPCC. A sua presidente, cujo nome não pertence à bibliografia dos especialistas na matéria, só pode considerar B. Lomborg ( The Skeptical Environmentalist, 2002) como um perigoso “negativista”! (Nouvel Observateur, 2 de Outubro de 2002, p.22). E por que não herético ou mesmo terrorista?
  • A Comissão francesa para o desenvolvimento sustentável realizou em Fevereiro de 2002 uma Conferência dos Cidadãos. Realizou-se na Cidade das Ciências. O objectivo era “formar profanos da maneira mais objectiva e completa possível”. Este alvo não deixa qualquer dúvida – dúvida que é salutar em ciência. A Comissão pôde assim tranquilamente emitir a sua propaganda para um público ignorante. A plateia considerava-se sem dúvida lisonjeada por ter sido “eleita”. (Eleita como a maioria dos delegados do IPCC, através de um processo semelhante, embora noutra escala). Qual pode ter sido a utilidade de uma tal hipocrisia? Seria possível imaginar um sítio mais impróprio?
  • A delegação francesa do IPCC (qual é o procedimento de selecção?) não tem qualquer climatologista reconhecido. Isto é, observador atento da realidade meteorológica. M. Petit, engenheiro de telecomunicações, inicialmente membro do Grupo II do IPCC (Cf. atrás), declarou a propósito das inundações no Somme durante o Inverno e a Primavera de 200-2001: “Nada permite dizer que as inundações […] foram devidas ao efeito de estufa […] mas pode-se dizer que estas chuvas fortes são exactamente o género de acontecimentos que os modelos prevêem como mais frequentes no decorrer deste século”. (É inexacto, os modelos são incapazes de fornecer uma previsão do género!) E acrescentou: “[…] mas atenção, isso não significa que haverá inundações todos os anos. Não, também conheceremos anos secos”. (Le Monde, 19 de Abril de 2001) Caricatural! A vacuidade de uma tal opinião não provém de um climatologista. Mas M. Petit tem uma escapatória: fervoroso praticante da teleclima, nunca publicou nada sobre esta matéria. Esta lacuna não impediu de ser nomeado (por mérito não duvidoso) presidente da Sociedade de Meteorologia de França. Nem o milagre de ter ascendido recentemente ao Grupo I do IPCC. Claro, dentro da orgânica do IPCC, este é o grupo…científico! É assim que se designa um “especialista de climatologia”! Pode-se facilmente imaginar o nível da especialização!
  • A Academia das Ciências, na sua última grande missa de Outubro de 2002, convocou o areópago dos fiéis. Mas não convocou sobretudo elementos perturbadores que poderiam estragar uma tão bela festa. A perturbação poderia acontecer precisamente na primeira sessão. Esta era consagrada à “credibilidade dos modelos climáticos” (os próprios alicerces do baralho de cartas). Seriam apresentados pontos embaraçosos como os evocados anteriormente. Relativos ao modo de predição da temperatura, da chuva, e do tempo. Ou então, poderiam ser apresentadas reservas quanto à incapacidade estrutural dos modelos para tratar a matéria em causa. As comunicações académicas, já utilizadas nos precedentes ofícios, ficaram novamente prontas para o próximo sínodo!
  • Em Julho de 2002, a Assembleia Nacional francesa aprovou o relatório da comissão parlamentar para a ciência e tecnologia. Na preparação do relatório, o relator (um senador desconhecido da bibliografia climatológica) entrevistou 89 pessoas (Cf. pp.255-261 do relatório). Todas bem-pensantes. Nem ao menos as aparências foram salvaguardadas. Não foi ouvido um único “céptico”. Seria honestamente obrigatório não esquecer outras vozes. Mas foi assim que, perante um delito de não-assistência à climatologia em perigo, se definiu uma “prioridade nacional” (para a ciência e tecnologia)!
  • Que dizer da geoclimatologia? Os geógrafos-climatólogos, normalmente preocupados com a evolução do ambiente e teoricamente bem colocados para analisar o tema, são particularmente discretos no debate, e/ou são afastados (sem resistência), e alinham na sua grande maioria sob a doutrina oficial.

“França, mãe das artes…”! A situação em França é aflitiva, sobretudo indigna da vocação de certas instituições e particularmente aferrolhada. Tenho experiência disso (felicitando-me de não pertencer à classe dos psitacídeos):
– Conferências anunciadas a pedido e depois desmarcadas sem explicação; por exemplo, pelo CNRS, em 21 de Junho de 2000, na Cidade das Ciências, porque tinha lá ido, por convite, anteriormente, apresentar em 7 de Junho uma primeira conferência contra-a-corrente dos slogansoficiais (o que provocou uma “desordem”!);
– Projectos de investigação afastados por razões obscuras (porque o projecto incomoda, não consola e não tem os sacramentos necessários?);
– Artigos pedidos e depois recusados para publicação sem explicação coerente (ausência de palavras-chave adequadas?): não há lugar para os heréticos, é necessário recitar cânticos;
É bem certo que este debate (ou mais seguramente nesta ausência de debate!) se afastou desde há muito tempo do domínio, stricto sensu, da ciência objectiva e desinteressada. No essencial tornou-se numa repetição servil, como leitmotiv, do catecismo do IPCC. Esta sigla transformou-se na tradução do “Inventário do Psitacismo Politicamente Correcto”. Politicamente pode ser, mas “correcto” não certamente no plano científico.

O “matraquear” mediático 

Os media, nem todos felizmente, perderam todo o bom senso e toda a lucidez (a menos que?). Caíram num tal painel para contribuir (gratuitamente?) no reforço desta situação de cegueira e bloqueamento?

Durante a vaga de frio da primeira quinzena de Dezembro de 2002 reinou pudicamente o silêncio sobre as ondas… Mas durante a vaga de “calor” (tudo é relativo) do fim do ano de 2002, ou durante a reunião do IPCC, em Paris, de 19 de Fevereiro de 2003 reapareceram instantaneamente, entre outras, as parangonas e as pilhérias:

  • A curva terrificante da temperatura “global”, contudo sem valor climático (fala-se agora de um aumento de 10 ºC! Para quando as chamas do inferno?);
  • A eterna imagem (sempre a mesma) de um bloco de gelo mergulhando no mar (só faltava na imagem a angústia do urso branco!)…;
  • As entrevistas das “estrelas bondosas”, dos especialistas incontornáveis, como o inevitável M. Petit, famoso “climatólogo” que debita mecanicamente, quase ao milésimo, os versículos do press-book do IPCC!

É necessário “recuperar tudo”, de uma maneira ou de outra. Muita vezes ingenuamente e de raspão. Numa cadeia de televisão pública os contrastes de temperatura do Canadá foram considerados como um sinal da “desregulação do clima”. No entanto, é proverbial para os canadianos sublinhar que “o Inverno e o Verão podem suceder num mesmo dia”! Esquece-se, ao mesmo tempo – muito bizarramente – de evocar as descidas do frio na América do Norte, na Europa central (Polónia e Roménia), até na Turquia, no Mediterrâneo e na Ásia oriental… Quando se observam as reacções, dolorosas e justificadas, a estas vagas de frio logo que elas se produzem em França, onde não atingem contudo a mesma severidade que nas regiões precedentes, pergunta-se por que razão “a opinião pública” (será ela condicionada?) fica tão assustada como na perspectiva de uma “vaga de calor” …

A dúvida não é verdadeiramente permitida: não se trata de informação, objectiva e documentada, mas de propaganda descarada (oficial e organizada?). Torna-se necessário dramatizar, como se se tratasse de cumprir um contrato publicitário, de promover um vulgar detergente (para lavagem ao cérebro). Como nos melhores dias de uma agência de comunicação social… Mas não há ninguém para fazer notar, durante um episódio “quente”, que a exportação de frio a partir do pólo (com os AMP) deve – obrigatoriamente – ser acompanhado pelos retornos de ar quente. Este ar vem do Sul em direcção ao pólo donde partiu o ar frio. As trajectórias destas trocas meridionais obedecem a esquemas médios (Cf. Fig. 3) e conhecem variações em intensidade e em comprimento. No momento em que a Europa ocidental, então situada num corredor depressionário, enquadrado por duas aglutinações anticiclónicas, regista uma vaga de “calor”, de humidade e de pluviosidade com advecções do vento Sul, a América e a Europa central, separada ou simultaneamente, sofrem vagas de frio intenso. É impossível, seria uma grande banalidade, mas é necessário recordar, que faça ao mesmo tempo frio e calor em toda a parte … Mas é verdade que os orelhudos têm uma limitação considerável da visão panorâmica!

Quando se processará o grande debate: científico, público, honesto, necessário e salutar?

As prioridades da climatologia 

A utilização da climatologia no debate sobre a poluição dá uma péssima ideia da própria climatologia. A parte saliente da disciplina, isto é, aquela que é utilizada nos modelos e propagada pelos não-especialistas e os media, é superficial. Muito simples, esquematizada ao extremo, até caricatural. De qualidade medíocre: uma climatologia-popularucha! É surpreendente que cientistas participem nesta mediocridade e se comportem (involuntariamente?) como bruxos. Fazer previsões inverificáveis para 2100 é inútil e extremamente custoso. Mas apresenta-se sem o menor risco (o prazo é tão longínquo!). No entanto, existem tantas coisas a realizar no curto prazo que ocupariam os especialistas com coisas sérias. Os riscos são maiores, e é necessário ousar – e/ou desejar/poder – sair dos carris da rotina e da auto-satisfação!

Os modelos não estão “au point”, e não hão-de estar, enquanto permanecer “este bloqueamento intelectual, universal em meteorologia, que impede actualmente a investigação de avançar.” (G. Dady, Le Monde, 24 de Fevereiro de 1995). Os modelos informáticos não conseguem ultrapassar os esquemas erróneos da circulação geral como o esquema tricelular. Isto é, não integram os mecanismos reais da circulação geral e da dinâmica do tempo. Estes problemas fundamentais não estão resolvidos pela comunidade meteorológica. Basta consultar a última obra da Ecole Nationale de Météorologie (Cours et Manuels, nº 14, de Le Vourc’h, Fons et Le Stum, 2001). Constitui o actual corpo de doutrina do ensino para os alunos de engenharia da Météo-France. Lá permanece a ambiguidade citada. No capítulo 9, intitulado “La circulation générale” (pp. 78-94), o único esquema de circulação (figura 9.7, p. 83) não é tirado da literatura clássica. Foi directamente copiado de…Leroux (1983, 1996, 2000) mas sem citação e sem referência da origem (indelicadeza que não deverá permanecer pois será resolvida por outra vias)! Este modelo de circulação geral é actualmente o único que integra a circulação atmosférica e as perturbações. É o único que se aplica em todas as escalas temporais e do espaço (donde o interesse evidente de ser apropriado às escondidas). Fundamenta-se expressamente no conceito dos anticiclones móveis polares (AMP). Os AMP são o motor das trocas meridionais do ar e da energia. Contudo, os AMP são “oficialmente” (mas sem declaração oficial!) rejeitados pela instituição meteorológica que foi ” coberta por uma capa glacial […] desde que a questão dos AMP foi colocada ” (Labasse, Foechterlé, 1999). Jamais foi escrito qualquer artigo com argumentos para refutar este conceito de AMP. Na opinião de Rochas, produzida em La Météorologie (nº 38, 202, pp.68-69), que consagra apenas algumas linhas aos AMP, estes são, segundo ele, “des petites bêtes que nascem nas regiões polares […]” e que “no decurso da sua migração expulsam (a sexualidade não tem nada a ver com isso) as depressões” (sic). Eis o nível de argumentação “científica”! Incrível! Sobretudo quando se considera que é a opinião de um inspector-geral da meteorologia, presidente da comissão de redacção da La Météorologie, revista editada pela Sociedade de Meteorologia de França e apadrinhada pelo CNRS! Uma questão climatológica importante é a de perceber a evolução do tempo no último século. Nomeadamente, a de precisar e explicar o que se passou exactamente nos anos 70 para provocar a viragem climática do hemisfério Norte. Mas outras se colocam. A tendência actual provocada pelo arrefecimento do Árctico ocidental, cujas causas profundas se ignoram, vai prosseguir com a mesma intensidade? Ou, pelo contrário, vai-se atenuar ou mesmo inverter? Deve-se esperar uma regularidade e uma clemência do tempo (cenário “quente”: circulação geral lenta)? Ou pelo contrário espera-se uma irregularidade e uma violência acrescida (cenário “frio”: circulação rápida)? Assim, por exemplo, as velocidades do vento superiores a 140 km/h do dia 26 de Outubro de 2002 no norte da França (e mais elevadas ainda nas ilhas britânicas), confirmam a extensão para o Sul da zona tempestuosa do Mar do Norte (Cf. atrás, figura 4 com ONA positivo)? A evolução da pluviosidade, que provocou inundações repetidas no Inverno, na Bretanha, e no Outono, no sul e no vale do Ródano, vai também continuar a modificar o regime das quedas de neve nas montanhas (onde em pleno Inverno se conhece haver um défice de neve frequente)? A Primavera e o Outono vão aparecer molhados e com neve? Como gerir os riscos naturais de origem climática e, nomeadamente, como tomar, a curto e médio prazo, medidas realistas de manutenção e prevenção, sem conhecer a resposta a esta questões fundamentais?

Fenómenos extremos em França 

Uma outra prioridade mais imediata diz respeito, em França, ao conhecimento e à previsão dos fenómenos meteorológicos intensos, ou mesmo extremos, e a eficácia resultante dos procedimentos de alerta. Um procedimento de alerta-meteo deve fornecer aos responsáveis o estado “do tempo” antecipando os acontecimentos e as suas eventuais consequências. A apreciação correcta da intensidade dos fenómenos deve permitir a tomada exacta das medidas e das disposições a pôr em acção. Uma previsão que anuncia apenas “chuvas” ou “quedas de neve”, sem estimar a sua importância, não merece verdadeiramente a qualificação de previsão. Sobretudo, evidentemente, quando uma previsão-alerta é lançada depois de o fenómeno já se ter desencadeado. Em vez de se antecipar, fica-se obrigado a “correr à pressa” em direcção ao acontecimento. É o que Météo-France faz no seu sítio web chamado ” refazer em tempo real uma previsão” (sic). Este procedimento não é mais do que o nivel da descrição, a posteriori ! Assim, cada acontecimento dramático conduz às mesmas reflexões e aos mesmos votos piedosos. Mas completamente ineficazes. Nenhuma das catástrofes (na Grand-Bornand, em Nîmes, em Vaison-la-Romaine, nos Aude ou nos Pirenéus-Orientais, ou as tempestades de Dezembro de 1999, etc.) foi verdadeiramente prevista no sentido próprio do termo. Após cada tragédia é repetida a sempiterna questão: ” Será que tudo foi feito, em todos os domínios, para evitar tais dramas?” (Leroux, 1993, 2000).

Observou-se de novo com as chuvas torrenciais do Gard em 7 e 8 de Setembro de 2002. As chuvas foram previstas com 24 horas de avanço, o que é banal. Sob todos os pontos de vista. Mas estas “chuvas” ultrapassaram largamente, de muito longe, o nível anunciado. O alerta laranja só foi desencadeado 12 horas antes. E o alerta vermelho só quando o dilúvio já tinha começado! Contudo, prever o “mau tempo” com um prazo de 24 horas, sobretudo quando se pretende fazer uma previsão de 7 dias, está longe de constituir uma façanha quando se dispõe da panóplia dos meios actuais, nomeadamente dos satélites. As explicações fornecidas aos media pelo “director da previsão” de Toulouse imediatamente após o dilúvio sobre o Gard revelaram uma profunda e estranha dicotomia (ou desconexão) entre os argumentos avançados e as previsões dos modelos. Assim, estas chuvas diluvianas seriam devidas “à diferença de temperatura entre o continente e o mar […] o continente arrefeceu nesta estação do ano mais rapidamente que o mar” ! Esta “explicação” de escala local (absolutamente inapropriada) foi várias vezes repetida pelos media. É fisicamente absurda. Uma tal oposição (devido ao mecanismo da brisa de terra, que corresponde ao esquema térmico e que sopra para o mar) impediria a advecção (transporte na horizontal) do potencial precipitável mediterrânico para o interior. Tornaria a chuva impossível! Ao mesmo tempo foi possível ler no sítio web da Météo-France (8-9 de Setembro de 2002, “orages”) que “outros factores de grande escala intervêm e podem no limite das possibilidades actuais dos modelos informáticos de previsão contribuir para antecipar estes acontecimentos”. Mas não se precisava quais eram os “outros factores”. 

Tomaram-se de novo rapidamente na medida das “possibilidades actuais” de antecipação dos modelos, quatro dias mais tarde, a 12 de Setembro, quando Météo-France lançou um novo alerta, totalmente inútil, porque seria suficiente anunciar … chuva e mau tempo! “Falar para o boneco”, simplesmente por precaução (depois do “falhanço”, para encobrir), não é previsão. Isso não vale nada.

Que dizer ainda das quedas de neve do Sábado 4 e do Domingo 5 de Janeiro de 2003 sobre um quarto do nordeste da França? O sítio web da Météo-France afirma, sem vergonha, que tudo havia sido “previsto 3 dias antes”! Bravo, mas o alerta não foi dado senão no Sábado às 12h30m… e recebido às 14h00 pelos serviços responsáveis. Isto é, quando tudo estava já bloqueado – estradas, aeroporto, automobilistas e passageiros. Que soberbo motivo de auto-satisfação! As numerosas declarações dos responsáveis da Météo-France aos media tentaram dar respostas (i.é., desculpas) a este novo falhanço:

  • “O frio chegou mais depressa do que pensávamos”. Era no entanto possível, graças aos satélites e às cartas sinópticas, seguir a “descida” do ar frio árctico afastando para o Sul uma frente fria. Situava-se sobre a Islândia às zero horas do dia 1 de Janeiro, sobre a Escócia no dia 2 às zero horas, sobre a Inglaterra no dia 3 às zero horas, sobre o norte da França no dia 4 às zero horas. Frente fria que se estendia à Bretanha e à Alemanha, e mesmo para lá. Para um fenómeno de tão ” pequena escala ” (Cf. sítio Météo-France), foi um pensamento demasiado lento!
  • “Os nossos três modelos informáticos de previsão estavam em desacordo”. Eis que foi encontrado o “culpado” do falhanço. Para o director do Météo-France a culpa foi do modelo! Mas atenção, não se pode tratar de um erro de um modelo francês porque “nós confiámos no modelo europeu” …Por que razão será ele fiável?

Todavia, nada é dito sobre as capacidades de previsão informática. A imperícia é contudo flagrante e reconhecida pelos próprios utilizadores. Então não disseram que havia um “desacordo”? Note-se que o falhanço não foi de um modelo. Eram três!…E, como habitualmente, após cada fenómeno extremo, tal como acontece às numerosas vítimas, há mais de um decénio, a conclusão é sempre a mesma. Isto é, não há mais nada a fazer… do que persistir no erro e esperar pela chegada na nova super-máquina mágica. É necessário passar um cheque em branco, pois esta máquina realizará (não haja a menor dúvida, como já foi dito várias vezes anteriormente) o milagre tão desejado que tarda a acontecer. Isso deixa ainda uma margem de tempo longo com a possibilidade de “êxito!”. Permanece toda a imunidade-impunidade perante novos falhanços. Mas é confortável pertencer a um organismo como a Météo-France que é ao mesmo tempo juiz e culpado! Desta vez, os falhanços foram fixados para até 2008… Paciência!

As falhas repetidas mostram, uma vez mais, que a dinâmica dos acontecimentos meteorológicos está longe de ser conhecida, ou reconhecida, como mostra a (in)-experiência Fastex.

A “(in)-experiência” Fastex 

Um (não)-acontecimento meteorológico, geralmente ignorado do grande público, merece ser aqui referido. A experiência Fastex (Fronts and Atlantic Storms Track Experiment) foi realizada sobre o Atlântico Norte, por iniciativa da Météo-France, em Fevereiro de 1997. Tinha por finalidade ” observar o conjunto do ciclo de evolução de uma tempestade e determinar os mecanismos que contribuem para a sua formação ” (in La Météorologie, nº 16, 1996, p. 42). O objectivo fixado para esta operação produziu um grande ruído e custou imenso dinheiro. Pretendia-se mostrar o desencadear das tempestades através de “um turbilhão situado a dez quilómetros de altitude, longe do solo”, chamado precursor. Dito de outra maneira, desejava-se provar que a pretendida “nova teoria” proposta pelo CNRM- Centre National de la Recherche Météorologique(Joly, 1995; Thillet J.J., Joly A., 1995) era verificada. Esta hipótese considera nomeadamente que o mau tempo é “o fruto do acaso e da oportunidade” (Joly, 1995). Imediatamente critiquei esta “teoria”, principalmente retirada a Farrel (1994), ao sublinhar que ela só era original no nome visto que não apresentava rigorosamente nada de novo (Leroux, 1996). Em Novembro de 1997, Arbogast e Joly do CNRM apressaram-se a apresentar um procedimento de urgência à Academia das Ciências com a conclusão fundamental do Fastex. Mas esta conclusão estava em desacordo total com o que era esperado. De facto, concluíram pelo “papel inesperado de um precursor confinado às baixas camadas” e não às altas!

Fastex é assim (ou poderia ser), no sentido próprio, um acontecimento científico! Com efeito, cinquenta anos de hesitação e de inércia podem ser balizados porque a origem da depressão inicial procurada há mais de um século foi enfim “encontrada”:
1. O conceito da escola norueguesa dos anos 20, julgado ultrapassado mas “que tem a vida dura” (Joly, 1995) foi rejeitado (ao menos de modo formal).
2. O conceito da escola dinamarquesa dos anos 40 que concede a prioridade absoluta aos fenómenos de altitude foi igualmente rejeitado. Pretendia-se que este conceito revisitado pela falsa “nova teoria” (Joly, 1995; Leroux, 1996) fosse corroborado pela experiência Fastex. Não havia a menor dúvida antes do início da experiência. Mas a conclusão saiu furada…
3. O motor que desencadeia as tempestades do Atlântico Norte foi enfim “descoberto”. Está situado nas baixas camadas. É, sem ambiguidade, segundo as palavras de Arbogast e Joly, “o verdadeiro desencadeador” (1997, p.230).

Mas, infelizmente para a Météo-France, “o verdadeiro desencadeador” é, nem mais nem menos, um anticiclone móvel polar (AMP)!

Como o mostram muito claramente as cartas sinópticas de superfície do Environnement Canada, “nova depressão” (i.é., o famoso precursor ), situada entre dois anticiclones móveis polares de 1038 hPa e 1024 hPa, deve a sua existência, a sua baixa pressão cavada e a sua mobilidade a dois centros de alta pressão que se situam sobre a América do Norte em direcção ao Atlântico (Leroux, 2000, p.112). Isto é intolerável! CQNFSPD: C’est ce Qu’il Ne Fallait Surtout Pas Démontrer ! Primeiro porque o dogma, centenário e incontornável, não autoriza como referência se não uma “depressão”! E sobretudo porque os verdadeiros responsáveis – os anticiclones móveis polares – são inumeráveis. Para esses senhores, eles não podem existir, eles não podem (e não devem) absolutamente ser reconhecidos. Mas eles são seres verdadeiros. São os AMP. Como titulava a revista Science et Avenir (nº 979, 199), é precisamente “A teoria que mete medo à Météo-France”! De facto, é mais do que medo. É pavor! Os autores preferem então escrever verdadeiramente, e peso as minhas palavras, não importa como:

  • Primeiro, inventar “a depressão dos Grandes Lagos”, uma depressão desconhecida e de origem indeterminada, que aparece ex nihilo mas … que poderia também ser um “velho sistema depressionário” sobrevivente!
  • Depois, atribuir a esta depressão (talvez sobrevivente, sabe-se lá) um “papel crucial”, que não é precisado, ou então que “pela sua presença, a depressão dos Grandes lagos induz logicamente uma circulação ciclónica em baixas camadas […]”! É possível fazer melhor em termos de geração espontânea e de lapalissada?
  • Mas tudo é móvel e afastado dos Grandes Lagos, é preciso ainda considerar que é “a acção à distância deste sistema de baixas camadas que…”. Que significa “acção à distância”? A fórmula é mágica mas sem o menor fundamento físico!

Como é que a Academia das Ciências pôde aceitar uma tal formulação dita científica? Com é que ela pôde validar o aparecimento tão oportuno e miraculoso de um tal deus ex machina? E como, sobretudo, ela pôde tornar-se cúmplice de uma tremenda mistificação? É ainda um mistério… mas um “mistério” que esclarece o modo como o, por assim dizer, “debate” sobre o efeito de estufa antropogénico é ele próprio tratado: a ideologia sobrepõe-se ao veredicto da observação directa e da realidade dos factos.

Fastex, apesar do seu custo, e a despeito – mas sobretudo por causa – do seu “sucesso” evidente e indiscutível na demonstração da validade do conceito AMP, tornou-se um não-acontecimento, como se nada tivesse alguma vez acontecido…Nunca mais se devia deixar de questionar ou de pôr em causa:

  • A teoria norueguesa (ultrapassada) reina sempre sobre as cartas sinópticas de superfície;
  • O conceito dinâmico (não demonstrado) que privilegia a altitude domina sempre o corpo de doutrina da modelação;
  • A ONA permanece sempre também misteriosa (Cf. atrás);
  • A origem das perturbações atlânticas, como de uma maneira geral as perturbações das médias latitudes, é sempre (deliberadamente) ignorada. Como a das tempestades, nomeadamente, as de Dezembro de 1999, sempre atribuídas, apesar do desmentido da observação, ao ““rail” das depressões em altitude” (Cf. sítio web Météo-France).

Por conseguinte, nas condições do obscurantismo, “a previsão das tempestades, apesar do excesso de meios técnicos, releva ainda durante muito tempo da utopia […]” (Leroux, 2000, p.338). E as consequências catastróficas dos acontecimentos extremos podem continuar a multiplicar-se!

Verificou-se recentemente, a 13 de Novembro de 2002, a destruição da frota de catamarãs da corrida do Rhum! A partida desta corrida deveria ter sido adiada, se apenas o Météo-France tivesse lançado um alerta sério, identificando antes da sua chegada sobre o Atlântico, o responsável da tempestade situado nas baixas camadas. Mas para isso seria necessário que a Météo-France soubesse compreender a situação meteorológica…

Entretanto, compreensão e previsão não são, parece, inseparáveis, como exprime Joly do CNRM: “predizer não é explicar” (in La Recherche,276, vol. 26, p. 480, 1995). Este ponto de vista, como as “lições” da (in)-experiência Fastex, recordam primeiramente que a falta de conhecimentos dos processos reais de desencadeamento das perturbações, nomeadamente nas médias latitudes, os modelos são completamente incapazes de prever a evolução do tempo. Como se pode então anunciar acontecimentos em 2100 sem cair nas profecias impenitentes? Põe-se também o problema do processo a seguir, estatístico e probabilístico de um lado, ou determinista de outro.

Os modelos de previsão são fundamentados no primeiro caso. A observação como a “compreensão” dos fenómenos, neste caso, não é indispensável a priori. Mas a estatística e as probabilidades só dão “bons” resultados…se o desenrolar dos processos não sai da normal. Dito de outro modo, se não desviam dos processos “médios”. Quer dizer finalmente que não há nada de inesperado…a prever. Os “limites da previsibilidade” (Cf. sítio da Météo-France) são rapidamente atingidos.

O tempo depende todavia, nas nossas latitudes, não da abstracção saída dos cálculos, mas dos actores nitidamente identificados – os AMP – que criam estados do tempo particulares a cada AMP. Depende de cada estado evolução dos AMP, em função das suas potencialidades iniciais adquiridas e das circunstâncias que são variáveis no decurso da sua viagem. O processo determinista, isto é, a atribuição de um tempo específico, e a sua evolução, a um responsável determinado é, por consequência, a mais apropriada das previsões eficazes. Mas isso supõe um conhecimento aprofundado dos fenómenos, uma identificação dos factores responsáveis e a sua verdadeira integração nos modelos. Isso supõe também uma observação atenta, seguida e directa. Mas também uma colocação em questão, todos ao mesmo tempo, dos conceitos meteorológicos clássicos. Entre estes é impossível (há mais de cinquenta anos) realizar uma síntese. Os métodos actuais de previsão apresentam uma ineficácia flagrante. Precisamente, nas situações de paroxismo para as quais a necessidade de eficácia é máxima. A tarefa é pois grande para a instituição meteorológica. Esta está restrita a uma obrigação de resultados conformes à sua missão de serviço público.

Conclusões 

Este fundamental colocar em questão, que é indispensável, teria como primeiro resultado mostrar que o hipotético aquecimento do planeta, saído dos modelos, e fundamentado em aproximações, é indubitavelmente uma impostura no plano científico. Todavia ainda se fala em ciência? Depois da ameaça de uma “nova idade do gelo”, depois das “chuvas ácidas”, depois do “buraco do ozono” que se fecha e abre, depois (e ao mesmo tempo) do “El Niño-mestre do Mundo” e esperando um novo lobby ou fixação passageira, quanto tempo ainda vamos gastar, inutilmente e com custos elevados, a fábula do “aquecimento global”?

Durante este tempo, perdido, falha-se a pontaria no alvo certo. Esquece-se que as verdadeiras questões são mais sérias, mais exigentes e sobretudo mais imediatas do que o tempo e o clima. Sobretudo no domínio da poluição. Mas para isso seria necessário que a “alteração” se operasse primeiro no seio da própria meteorologia-climatologia!

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[*] Professor de Climatologia da Universidade Jean Moulin, Lyon III, França, director do Laboratório de Climatologia do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), França. Autor de Global Warming: Myth or Reality? The Erring Ways of Climatology  e La dynamique du temps et du climat  . 

O original encontra-se em http://www.revuefusion.com/images/Art_095_36.pdf . O artigo “Réchauffement global: une imposture scientifique!” foi publicado no nº 95, Março-Abril/2003 da revista Fusion. Tradução de João Bricmont.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

21/Mai/06

Bento de Jesus Caraça (1901-1948) e a Ciência na Cultura

 

 
“A Ciência pode ser encarada sob dois aspectos diferentes. Ou se olha para ela tal como vem exposta nos livros de ensino, como coisa criada, e o aspecto é o de um todo harmonioso, onde os capítulos se encadeiam em ordem, sem contradições. Ou se procura acompanhá-la no seu desenvolvimento progressivo, assistir à maneira como foi sendo elaborada, e o aspecto é totalmente diferente – descobrem-se hesitações, dúvidas, contradições, que só um longo trabalho de reflexão e apuramento consegue eliminar, para que logo surjam outras hesitações, outras dúvidas, outras contradições.”

“Se não receio o erro, é porque estou sempre disposto a corrigi-lo”
“O homem desiludido e pessimista é um ser inerte, sujeito a todas as renúncias, a todas as derrotas – e derrotas só existem aquelas que se aceitam.”

“A cultura tem que reivindicar-se para a colectividade inteira, porque só com ela pode a humanidade tomar consciência de si própria.”

“Conseguirá a Humanidade, num grande estremecimento de todo o seu imenso corpo, tomar finalmente consciência de si mesma, revelar a si própria a sua alma colectiva, feita do desenvolvimento ao máximo, pela cultura, da personalidade de todos os seus membros?”

“A obra de Newton, contemporâneo de Bach, tem, na física, o mesmo carácter de majestade, de segurança, de universalidade da obra de Bach em música.”

 


“As ilusões nunca são perdidas. Elas significam o que há de melhor na vida dos homens e dos povos. Perdidos são os cépticos que escondem sob uma ironia fácil a sua impotência para compreender e agir; perdidos são aqueles períodos da história em que os melhores, gastos e cansados, se retiram da luta, sem enxergarem no horizonte nada a que se entreguem, caída uma sombra uniforme sobre o pânatano estéril da vida sem formas.Benditas as ilusões, a adesão firme e total a qualquer coisa de grande, que nos ultrapassa e nos requer. Sem ilusão, nada de sublime teria sido realizado, nem a catedral de Estrasburgo, nem as sinfonias de Beethoven. Nem a obra imortal de Galileo”.

 «O que é o homem culto? É aquele que:

1.º Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
2.º Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
3.º Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida.

Ser-se culto não implica ser-se sábio; há sábios que não são homens cultos e homens cultos que não são sábios; mas o que o ser culto implica, é um certo grau de saber, aquele que precisamente que fornece uma base mínima para a satisfação das três condições enunciadas.»

Bento de Jesus Caraça, no seu texto «A cultura integral do indivíduo» (conferência proferida na União Cultural « Mocidade Livre», em 25 de Maio de 1933)

Bento Jesus Caraça – GALILEO GALILEI

GALILEO GALILEI


 



 


VALOR CIENTÍFICO E VALOR MORAL DA SUA OBRA!(*)


 



 


(por Bento Jesus Caraça)


 


MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES:
No dia 22 de Junho de 1633, faz hoje trezentos anos, quem pudesse ter penetrado numa certa sala do convento de Minerva, em Roma, teria assistido a uma cena singular.
Um velho de setenta anos ouvia, perante um tribunal constituído por dez cardeais, a leitura deste documento estranho:
“Nós (seguem os nomes e os títulos dos cardeais) pela misericórdia de Deus, Cardeais da Santa Igreja Romana, delegados especialmente como Inquisidores gerais da Santa Sé Apostólica, contra a maldade herética, da República Cristã.
“Sendo certo que tu, Galileo, filho de Vincenzo Galilei, florentino, de setenta anos de idade, foste denunciado em 1615 a este Santo Ofício por teres como verdadeira a falsa doutrina, ensinada por alguns, que o Sol seja centro do mundo e imóvel, e que a Terra se mova, ainda de movimento diurno; por, acerca da mesma, teres correspondência com alguns matemáticos da Germânia; por teres dado à estampa cartas intituladas “Das manchas Solares”, nas quais explicavas a mesma doutrina como verdadeira; por, às objecções que às vezes te faziam tiradas da Sagrada Escritura, responderes interpretando a dita Escritura, conforme o teu sentido;
“E tendo sucessivamente sido apresentada cópia dum manuscrito, sob a forma de carta, a qual se dizia ter sido escrita por ti, a um tal teu discípulo, e nessa, seguindo a posição de Copérnico, se conterem várias proposições contra o verdadeiro sentido e autoridade da Sagrada Escritura;
“Querendo por isto este Sacro Tribunal dar providências contra a desordem e o dano que de aqui provinha e andava crescendo com prejuízo da Santa Fé;
“Por ordem de Nosso Senhor e dos Eminentíssimos e Reverendíssimos Senhores Cardeais desta Suprema e Universal Inquisição, foram, pelos Qualificadores Teólogos, qualificadas as duas proposições da estabilidade do Sol e do movimento da Terra do seguinte modo:
“Que o Sol seja centro do mundo e imóvel de movimento local, é proposição absurda e falsa em filosofia, e formalmente herética, por ser expressamente contrária à Sagrada Escritura;
“Que a Terra não seja centro do mundo nem imóvel, mas que se mova, ainda de movimento diurno, é igualmente proposição absurda e falsa em filosofia, e considerada em teologia ad minis errónea em Fé.
“Mas querendo-se naquele tempo proceder para contigo com benignidade, foi decretado na Sacra Congregação reunida diante de Nosso Senhor a 25 de Fevereiro de 1616, que o Eminentíssimo Cardeal Bellarmino te ordenasse que tu devesses totalmente abandonar a dita opinião falsa e que, recusando tu tal fazeres, te fosse pelo Comissário do Santo Ofício intimado que deixasses a dita doutrina e que não pudesses ensiná-la a outros, nem defendê-la, nem tratar dela, e que, se não te conformasses com a intimação, fosses encarcerado;
“Em execução do mesmo decreto, no dia seguinte, no mesmo palácio e na presença do acima dito Eminentíssimo Senhor Cardeal Bellarminio, depois de teres sido pelo mesmo Senhor Cardeal benignamente avisado e admoestado, te foi pelo Comissário do Santo Oficio daquele tempo intimado, com notário e testemunhas, que totalmente devesses abandonar a dita falsa opinião e que no futuro a não pudesses sustentar, nem defender, nem ensinar de qualquer maneira, nem pela voz nem pelo escrito, e tendo tu prometido obedecer, foste mandado em paz.
“E a fim de que tolhesse inteiramente tão perniciosa doutrina e não andasse caminhando mais, com grave prejuízo da verdade católica, saiu um decreto da Sacra Congregação do Índice, por meio do qual foram proibidos os livros que tratam de tal doutrina e foi esta declarada falsa e totalmente contrária à Sagrada e Divina Escritura.
“E tendo ultimamente aparecido aqui um livro, estampado em Florença no ano passado, cuja inscrição mostrava que fosses tu o seu autor, dizendo o título: “Diálogos de Galileo Galilei acerca dos dois Máximos Sistemas do Mundo, Ptolomaico e Copernicano”; e informada depois a Sacra Congregação de que, com a impressão do dito livro, cada vez mais tomava pé e se disseminava a falsa opinião do movimento da Terra e da estabilidade do Sol; foi o dito livro diligentemente considerado e nele achada expressamente a transgressão do preceito que te foi intimado, tendo tu no mesmo defendido a opinião já condenada e na tua face por tal declarada, acontecendo que tu, no dito livro, procuras persuadir que a deixas como indecisa e expressamente provável, o que também é erro gravíssimo, não podendo de nenhum modo ser provável uma opinião declarada e definida por contrário à Escritura Divina.
“Por isso, por nossa ordem foste chamado a este Santo Ofício, no qual, com o teu juramento, examinado, reconheceste o livro como por ti composto e dado à estampa. Confessaste que, cerca de dez ou doze anos depois de te ter sido feita a intimação como acima, começaste a escrever o dito livro; que pediste autorização para o estampar sem porém significares àqueles que te deram semelhante faculdade que te tinha sido ordenado não sustentar, defender, nem ensinar de qualquer modo tal doutrina.
“E parecendo a nós que tu não tinhas dito inteiramente a verdade acerca da tua intenção, julgamos ser necessário proceder a um rigoroso exame de ti; no qual sem porém prejuízo algum das coisas por ti confessadas e contra ti deduzidas como acima acerca da tua intenção, respondeste catolicamente.
“Portanto, vistos e maduramente considerados os méritos desta tua causa, com as supraditas tuas confissões e escusas e quanto de razão se devia ver e considerar, chegámos contra ti à infra-escrita sentença:
“Invocando o Santíssimo Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e da gloriosíssima Mãe sempre virgem Maria;
“Por esta nossa definitiva sentença, a qual, pro tribunali, de conselho e parecer dos Reverendíssimos Mestres de Sacra Teologia e Doutores unius utriusque iuris, nossos consultores, proferimos nestes escritos, na causa e causas pendentes ante nós entre o Magnífico Carlo Sinceri, doutor unius utriusque iuris, Procurador Fiscal deste Santo Ofício, duma parte e tu, Galileo Galilei ante-dito, réu aqui presente, inquirido, processado e confesso como acima, da outra parte:
“Dizemos, pronunciamos, sentenciamos e declaramos que tu, Galileo supra-dito, pelas coisas deduzidas no processo e por ti confessadas como acima, te tornaste veementemente suspeito de heresia, a saber, por teres sustentado e crido doutrina falsa e contrária às Sagradas e Divinas Escrituras, que o Sol seja centro da Terra e que não se mova de oriente para ocidente e que a Terra se mova e não seja centro do mundo, e que se possa ter e defender por provável uma opinião depois de ter sido declarada e definida por contrária à Sagrada Escritura;
“E consequentemente estás incurso em todas as censuras e penas dos sagrados cânones e outras constituições gerais e particulares contra semelhantes delinquentes impostas e promulgadas.
“Das quais nos apraz absolver-te desde que primeiro, com coração sincero e fé não fingida, diante de nós, abjures, maldigas e detestes os supra-ditos erros e heresias e qualquer outro erro e heresia contrária à Igreja Católica e Apostólica, pelo modo e forma que por nós te será dada.
“E, a fim que este teu grave e pernicioso erro e transgressão não fique de todo impune, e sejas mais cauto para o futuro e exemplo a outros para que se abstenham de semelhantes delitos, ordenamos que, por público édito, seja proibido o livro dos “Diálogos de Galileo Galilei”.
“Te condenamos ao cárcere formal neste Santo Ofício ao nosso arbítrio; e por penitência salutar te impomos que pelos três próximos anos digas uma vez por semana os sete salmos penitenciais, reservando para nós a faculdade de moderar, mudar ou levantar, no todo ou em parte, as supra-ditas penas e penitencias.
“E assim dizemos, pronunciamos, sentenciamos, declaramos, ordenamos e reservamos, nisto e em tudo o mais, do melhor modo e forma que de razão podemos e devemos.” (Seguem as assinaturas de sete dos dez cardeais).
Seguidamente o acusado ajoelhou e, com as mãos sobre os Evangelhos, leu em voz alta este outro documento, para esse fim expressamente confeccionado por mão alheia:
“Eu, Galileo Galilei, filho do falecido Vincenzo Galilei, de Florença, de minha idade setenta anos, constituído pessoalmente em juízo e ajoelhado diante de vós Eminentíssimos e Reverendíssimos Cardeais, inquisidores gerais em toda a República Cristã contra a maldade herética;
“Tendo diante dos meus olhos os sacrossantos Evangelhos, os quais toco com as minhas próprias mãos, juro que sempre cri, creio agora, e com a ajuda de Deus crerei para o futuro, tudo aquilo que afirma, prega e ensina a Santa Igreja Católica Apostólica.
“Mas visto que, por este Santo Oficio, por haver eu (depois de me ter intimado juridicamente pelo mesmo que abandonasse totalmente a falsa opinião que o Sol seja centro do mundo e que não se mova e que a Terra não seja centro do mundo e que se mova, e que não pudesse afirmar, defender nem ensinar de qualquer modo, pela voz ou pelo escrito, a dita falsa doutrina, e depois de me ter sido notificado que a dita doutrina é contrária à Sagrada Escritura) escrito e dado à estampa um livro no qual trato a mesma doutrina já condenada e empregado argumentos com muita eficácia a favor dela, sem dar nenhuma solução, fui julgado veementemente suspeito de heresia, por haver dito e crido que o Sol seja centro do mundo e imóvel, e a Terra não seja centro e se mova;
“Portanto, querendo eu afastar da mente das Eminências Veneráveis e de todo o fiel cristão esta veemente suspeição, justamente de mim concebida, com coração sincero e fé não fingida, abjuro, amaldiçoo e detesto os supraditos erros e heresias, e geralmente qualquer outro erro, heresia e seita contrária à Santa Igreja; e juro que para o futuro não mais direi nem afirmarei, pela voz ou pelo escrito, coisas tais que por elas se possa haver de mim semelhante suspeição; mas, se conhecer algum herético, ou que seja suspeito de heresia, o denunciarei a este Santo Oficio, ou ao Inquisidor ou Ordinário do lugar onde me encontrar.
“Juro ainda e prometo cumprir e observar inteiramente todas as penitências que me foram impostas, ou vierem a ser, por este Santo Oficio;
“E, no caso de transgredir algumas das ditas promessas ou juramentos, o que Deus não queira, submeto-me a todas as penas e castigos pelos sagrados cânones e outras constituições gerais e particulares contra semelhantes delinquentes impostas e promulgadas.
“Assim Deus me ajude e estes seus santos Evangelhos, que toco com as minhas próprias mãos.
“Eu, Galileo Galilei, abjurei, jurei, prometi e me obriguei como acima; e, em fé do verdadeiro, pela minha própria mão subscrevi a presente cédula da minha abjuração e a recitei de palavra em palavra, em Roma, no convento de Minerva, neste dia 22 de Junho de 1633.”
Quando terminou a leitura deste acto de abjuração, acabara de viver-se um dos momentos mais dramáticos da história da ciência e da história do homem no mundo ocidental.
O choque violento entre duas ideias exigira, na sua fase culminante, o esmagamento, o rebaixamento aviltante, muito para além das fronteiras do humano, de um homem de ciência, um gigante cuja obra se levanta, aos nossos olhos de homens do século XX, como um monumento luminoso na linha incerta que separa duas épocas.
O que é que produzira uma tão grande brutalidade na luta, e porque razão encontramos uma congregação, órgão da Igreja Católica, obrigando um homem a tão desumana humilhação.
Vamos procurar responder a estas perguntas, pondo em evidência a verdadeira significação, do duplo ponto de vista moral e científico, dos factos que acabamos de recordar.
Frans Masereel, o poderoso artista criador de imagens, condensou, numa sucessão emocionante de gravuras, a história da Ideia. História comovente, que começa com a criação duma divindade nua, saída bruscamente da cabeça do homem, num lampejo inspiração, e a acompanha nas várias fases da sua vida entre outros homens, desde o momento em que ela, desembaraçando-se das vestes com que a multidão quer encobrir as suas formas, se lança numa correria louca pelo mundo, até àquele outro momento em que, voltando para junto do homem que a criou, o encontra exaltado na criação de nova divindade. Momento trágico esse, vida das Ideias, momento que decide do seu destino. Umas morrem enquanto se realiza triunfalmente a criação de outras – e é esse o desfecho pessimista que nos apresenta Masereel; outras porém resistem a essa prova suprema e continuam a sua carreira no mundo. De que lutas é cheia essa carreira! Quantos obstáculos há que vencer, de quantas ciladas que fugir, quantas tentativas de assassinato que evitar!
São essas ideias imortais que fazem o progresso da humanidade, e é na força com que se batem por elas que reside o valor moral dos homens e das gerações.
Mas há ainda outra categoria de ideias – aquelas que, não tendo poder de vitalidade que Ihes permita viver após a criação de outras, conseguem no entanto sobreviver-se a si próprias, transformando-se em fantasmas do que eram. Esse grupo das ideias fantasmas é ,aquele em cujo nome se fere a luta contra as ideias criadoras. A sua fronte está virada para o passado, e é para o seu passado que querem levar as sociedades, esperando assim reencontrar o ambiente que Ihes restitua a vida que perderam.
Que homem há que não tenha notado à sua volta o efeito paralisador das ideias fantasmas e as não tenha sentido a batalhar mesmo dentro de si próprio, procurando subjugá-lo, arrasta-lo para aquelas regiões sombrias onde não chega a luz fulgente das ideias imortais?
Que homem há, mesmo entre os de espírito mais aberto e mais livre, que não tenha sentido essa luta, mormente neste atormentado começo do século XX, em que um monstro na agonia, para se dar a ilusão de que ainda tem direito a viver, faz apelo a um imenso cortejo de espectros, de ideias fantasmas, para que elas Ihe propiciem e justifiquem todos os arrancos senis, todas as vilanias?
E quantas vezes, na luta cruenta e desleal que esse cortejo promove, julgam as ideias fantasmas certa a vitória, porque conseguiram espetar as adversárias nas pontas das baionetas, ou amarra-las ao potro da tortura!
Pretensão falaz! Para as proscritas. abrem-se de par em par as Portas das consciências, e daí, reconfortadas por um calor vivificante, surgem depois, mais belas no esplendor da sua nudez, mais no seu poder criador.
É a história, duma dessas ideias imortais – a ideia do heliocentrismo – que desejo traçar aqui, procurando acompanhá-la, e de caminho a alguma outras, a cuja sorte ela esteve ligada, nas fases mais significativas da sua vida.”
* BENTO DE JESUS CARAÇA 1901-1948
(Extracto da Conferência realizada na Universidade Popular Portuguesa em 22 de Junho de 1933)

Jorge Resende (Matemático) – Divulgar a Matemática (ou as Ciências) Dando-lhe ou Tirando-lhe a Dignidade

 

Roger Godement.

 

 

 

Matemática aprisionada

 

por Jorge Rezende [*]
“Isto é Matemática” é um programa promovido pela Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), exibido na SIC desde Outubro de 2012, com o apoio do COMPETE, da Agência Ciência Viva, do QREN e do FEDER. Além destes financiamentos, tem tido outro tipo de patrocínios, sendo constante, desde o início, o da “Lacoste”. O apresentador tem aparecido, de uma forma ostensiva, com roupa e, segundo creio, outros “adereços” desta marca. É muito estranho que, além dos apoios públicos que recebe, o programa precise de ir buscar patrocínios que implicam uma intrusão de interesses privados no domínio da ciência.

O programa foi nomeado pela SPA para um dos Prémios Autores 2013, mas não chegou a ser contemplado. A “Mostra Internacional de Ciência na TV” VerCiência 2013, que decorreu no Brasil entre 21 de Outubro e 3 de Novembro de 2013, atribuiu-lhe um prémio. Em 24 de Novembro de 2013, a “Agência Ciência Viva” atribuiu-lhe o “Prémio Ciência Viva Montepio nos Media”.

Em Maio de 2014, a série começou a ser traduzida e dobrada em inglês com o patrocínio da “Munich RE”.

Alguns episódios significativos 

O episódio “O Raio da Terra”, de Março 2013, pode ser visto no YouTube, tal como todos os outros. Começa com um trocadilho verbal sem graça e o apresentador viaja de bicicleta da Praça do Império, em Lisboa, até à ponta de Sagres para repetir a experiência de Eratóstenes. A viagem é de utilidade duvidosa e quase tudo o resto é falso. Em Lisboa, fica uma espécie de “menino Tonecas” que espeta um pau na relva do jardim. Os números são inventados a ponto de Sagres ser colocada a sul de Agadir, em Marrocos. Curiosamente, o resultado final é certíssimo. Deixo ao leitor a reflexão do que tudo isto significa dos pontos de vista pedagógico e cientifico. O pouco que tem de bom pode ser lido com melhor proveito em qualquer wikipédia e o resto é publicidade a uma marca que vende tudo para ciclistas. No Brasil, na Mostra VerCiência 2013, este foi um dos sete episódios exibidos (“uma amostra da qualidade da série premiada”, segundo os organizadores). Como é possível que nos sete meses que mediaram entre as exibições em Portugal e no Brasil, ninguém tivesse dado conta de todos os erros que continha?

Talvez o leitor perceba melhor o que se passa se eu o informar que a parte científica é feita por uma só pessoa, o resto do guião é da responsabilidade de outra e é verificado por uma terceira, sempre as mesmas, sendo que a segunda é de uma empresa, a SIGMA 3, e não tem formação matemática. Por que razão o guião não é elaborado por uma boa equipa da SPM, limitando-se a empresa ao trabalho técnico? Por que razão um programa que é de uma Sociedade (a SPM), que tem que responder perante os seus sócios, tem um processo de arbitragem tão frouxo?

.No episódio com o estapafúrdio título “A Angústia dos Percentis” , de Setembro de 2013, o apresentador exibe, bem visível na roupa, o logótipo da “Lacoste”. Logo na parte inicial pretende-se ridicularizar a visita de um pai com o seu bebé ao pediatra em 1974, a seguir ao 25 de Abril. Diz o pai “Camarada doutor, pá, diga-me lá como está o camarada puto?”, e a conversa segue sempre no mesmo tom povoada das palavras “camarada” e “pá”, ao som da “Carvalhesa”, música que tem sido usada, desde 1985, nas campanhas eleitorais em que participa o PCP. Auscultando o “puto”, o “doutor” ouve um “coro soviético” a interpretar “a internacional”. São usadas as palavras “mariossoarite” e “vodka” e frases como “bigodinho tipo Mário Nogueira” e “o puto tá com um peso burguês, pá!” A determinado ponto, o “doutor” atira com o “puto” (um boneco de plástico) para cima de uma balança e eu deixo ao leitor a avaliação das virtualidades pedagógicas de tal gesto. Finalmente, o apresentador remata esta provocação política com a exclamação, no mínimo, ambígua: “Felizmente que, hoje em dia, é um bocadinho nada diferente!” Para cúmulo, isto foi para o ar durante uma campanha eleitoral. Por motivos que ficarão claros mais adiante, estou certo que a “Lacoste”, ao ver este episódio, não deixou de aprovar o trabalho dos seus patrocinados.

É frequente os episódios terem graçolas semelhantes em qualidade a estas. É o caso do episódio sobre o “Sudoku” no qual não encontraram melhor local para falar do assunto do que uma prisão! Não é preciso ter lido “Estação Carandiru” ou “A estrela de seis pontas”, para encarar a vida dos reclusos com o maior respeito. Mas “Isto é Matemática” resolveu ir para o Forte de Peniche, uma sinistra e histórica prisão política, com uns “actores” a fazer umas cenas grotescas vestidos com umas fardas de prisioneiros às riscas! Para além desta enorme manifestação de insensibilidade social (para não dizer pior), é preciso ir a Peniche para falar do “Sudoku”?

No episódio “Erros de Cálculo”, o apresentador aparece a falar à frente de “graffitis”. Com Merkel, Passos Coelho e Paulo Portas como fundo, diz que vai “deixar de fora o erro de cálculo que nos trouxe a austeridade”. Noutra parede está o apelo “pray for Portugal” (“rezem por Portugal”). Mais adiante, outro “graffiti” exibe a frase “a porca da política”. Trata-se quer de mistificações quer de convites ao conformismo. Tudo o que um cientista não deve ser: nem um mistificador, nem um conformista. De William Shanks, que calculou, à mão, centenas de casas decimais do “pi” diz que a sua vida “não devia ser muito divertida dado o tipo de “hobby” a que se dedicava”. Eu não sei se a vida de Shanks era divertida ou não mas ele conseguiu a maior expansão de “pi” só ultrapassada quando, um século depois!, foi inventado o primeiro calculador digital. Se levarmos a sério os critérios do “Isto é Matemática”, também, actualmente, a vida de muitos investigadores é pouco divertida, mas quem trabalha merece o nosso respeito e eu temo o impacto negativo de tais afirmações. Não terá sido por isso que aquando do episódio sobre a experiência de Eratóstenes nem se deram ao trabalho de, pelo menos, fazer os cálculos? Porque era “pouco divertido”?

O episódio “O Teorema de Pitágoras” é introduzido assim pelo apresentador: “vou falar, obviamente, de Pitágoras, catetos, hipotenusas, mas também, canteiros, hortaliça e queijo mozarela”. É bom esclarecer que hortaliça e queijo mozarela nada têm a ver com o teorema (aliás, de queijo mozarela nem se volta a falar no filme). Isso o leitor, seguramente, já suspeitava. O programa envolve meios que não se percebe bem para que servem; talvez queiram fazer passar a ideia de que a matemática é “muito divertida”. É verdade que a matemática pode ter momentos exaltantes, mas a hortaliça e o queijo mozarela neles não desempenham qualquer papel. Aqui, nem se esboça uma demonstração do teorema, e é sabido que as há e que vão muito bem com os meios visuais.

O programa também tem afloramentos de machismo. Por exemplo, no episódio “Nós Mágicos”, onde o logótipo da “Lacoste” se mete pelos nossos olhos dentro, aparecem como “partenaires” três lindas piratas e uma sereia espanhola como se costuma ver em certos espectáculos de características “pimba”! Já anteriormente, noutro episódio, logo no início, saindo de um todo-o-terreno (de uma marca patrocinadora, obviamente), o apresentador informa-nos: “partirei o serviço de jantar da minha mulher”. Na cena seguinte atira um prato do sétimo andar do hotel Sheraton (outro patrocinador), enquanto exclama: “a minha mulher não vai gostar disto!”. Em seguida, atira um segundo prato do décimo quarto andar. Sabe o leitor para que é tudo isto, enfeitado com uma linguagem que já tinha caído em desuso nos finais do século passado? Para falar da “parábola”, a curva matemática! Além de tudo o resto, o leitor acha que andar a atirar pratos das janelas é uma atitude pedagogicamente aceitável?

Numa entrevista, o apresentador afirma que o co-autor do guião, aquele que não tem “formação em matemática”, “tem uma imaginação infinita”. Não é verdade. Na minha opinião, o que o programa revela é falta de imaginação e uma fuga para a frente para “territórios” que nada têm a ver com a Matemática. Perguntará o leitor: mas nenhum dos episódios tem graça? Eu respondo que, por exemplo, o episódio “Equilibrismo”, que se passa na “Escola de Fuzileiros”, tem momentos de muita graça, que nada têm a ver com a Matemática, devido, sobretudo à actuação de um cabo fuzileiro grandalhão, que ficará na nossa memória. E a Matemática? – essa esfuma-se quase completamente num segundo plano…

O humor não tem lugar na Matemática? Claro que tem. O matemático francês Roger Godement , por exemplo, é uma pessoa que tem utilizado a ironia tanto na Matemática (por exemplo, no seu livro “Curso de Álgebra”) como no combate político. A ficha da Wikipédia (em francês) de Godement conta que ele frequentemente começava a parte de álgebra geral com a frase “comecemos por rever a adição” e mostrava uma tabela estatística com o número de mortos durante a guerra do Vietnam. Godement tem, desde 2011, uma página na internet oferecida pelos seus ex-estudantes: godement.eu . Aí pode-se ver toda a sua militância contra a indústria do armamento e o envolvimento de matemáticos ao seu serviço. No “Prefácio a Análise I” escreve a seguinte nota, a propósito deste tema: “Um dos mais brilhantes estudantes que eu conheci em trinta e cinco anos está agora à cabeça de uma sociedade financeira que controla cadeias de supermercados. Vende “camemberts”, carne embalada em celofane, “tampaxes”, sumo de laranja, esparguete, mostarda, etc. É uma maneira menos perigosa de gastar a matéria cinzenta.” Como o leitor já deverá ter percebido, o programa “Isto é Matemática” enquadra-se completamente num projecto de infantilização dos adultos. É comum ver programas de televisão em que, pessoas já na casa dos 30-40 anos, se comportam como adolescentes. Diz Godement, no “Curso de Álgebra”: “mesmo ensinando Matemática, pode-se ao menos dar às pessoas o gosto da liberdade e da crítica, e habituá-las a ver-se tratadas como seres humanos dotados da faculdade de compreender.” Pois bem, é isto que o programa não faz. Outro traço do programa é o facto de a Matemática ser utilizada como um veículo que impinge matéria publicitária a uma população sobrecarregada de austeridade. O apresentador veste-se de roupa de marca (“Lacoste”), anda em automóveis, frequenta hotéis e ginásios, num apelo ao consumismo quando há gente que mal tem dinheiro para comer e a quem dizem que é preciso fazer mais sacrifícios. O episódio “O Problema das Três Casas” é filmado no “The Oitavos Hotel”, um hotel de luxo de 5 estrelas, na Quinta da Marinha!

A Matemática, ciência-deusa, que devia servir para estimular a cultura, o rigor e o raciocínio, para unir as pessoas, para promover a paz, é usada neste programa para provocar a cizânia e incentivar as diferenças sociais.

Tudo bons rapazes 

A Sociedade Alemã de Matemática (DMV) lançou no ano 2000 o portal www.mathematik.de destinado ao grande público. Inicialmente apoiado pelo Ministério para a Educação e Investigação da Alemanha (BMBF), foi financiado sucessivamente pelas seguradoras “Munich RE” (2001-2009), “ERGO” (2009-2012) e “Allianz” (desde 2012). A partir desta iniciativa alemã, nasceu a ideia de a alargar a toda a Europa, sendo criado o portalwww.mathematics-in-europe.eu . O patrocínio ficou a cargo da “Munich RE”, tarefa facilitada por um dos seus executivos ser um membro influente da DMV. A empresa adiantou, para o efeito, “um montante considerável de dinheiro” segundo se pode ler no livro “Raising Public Awareness of Mathematics”. Veremos, mais adiante, de onde esse dinheiro pode ter vindo, já que em 2011 a “Munich RE” estava em dificuldades financeiras. É neste quadro que aparece, por tabela, o apoio da seguradora à tradução do “Isto é Matemática”.

Se o leitor tentar investigar grandes multinacionais como a “Lacoste” ou a “Munich RE” deparar-se-á com uma grande opacidade. A produção que está hoje num país, poderá ter sido deslocalizada amanhã para outro e uma empresa que hoje é assim, amanhã poderá ser assado. Convido o leitor a dar uma pequena volta comigo por alguns caminhos destas multinacionais. Em seguida, quem quiser, fará os seus próprios percursos e descobrirá, sem dúvida, mais informações.

Comecemos pela “Lacoste”. Se o leitor for a uma loja desta marca em Portugal poderá verificar que os seus produtos são fabricados em países como a China, Tailândia ou Marrocos. À medida que se procura saber mais, as dificuldades aumentam. Onde são exactamente as fábricas? Quem trabalha nelas? Quais os salários? Há crianças a trabalhar? Quais as proveniências das matérias-primas? As multinacionais têxteis são de uma falta de transparência quase total. Para que o leitor faça uma ideia respiguei algumas informações, pedindo-lhe que, em seguida, as confirme, as corrija e as complete.

O jornal The Guardian, de 13 de Julho de 2011, publicava a denúncia de que fábricas fornecedoras de várias marcas ocidentais, entre as quais a “Lacoste”, poluíam gravemente os rios chineses com [produtos] químicos tóxicos tendo como consequência severos prejuízos para a saúde das pessoas. Nada que nos surpreenda, visto que isso deve suceder um pouco por todo o lado onde as multinacionais vão violar os recursos humanos e naturais.

Na sua edição de 19 de Agosto de 2013, sob o expressivo título “Trabalho infantil no guarda-roupa”, o Sydney Morning Herald afirma que 90% das roupas de marca (aqui, inclui a “Lacoste”), utilizam alguma forma de trabalho infantil. Mais adiante refere que, no Uzbequistão, o quarto maior produtor mundial de algodão, crianças com 10 anos são retiradas da escola e obrigadas a trabalhar 70 horas por semana nos campos de algodão. Estas e outras informações do mesmo género que o artigo avança são de uma veracidade difícil de duvidar. Todos os dias vemos, ouvimos e lemos notícias semelhantes.

O colapso do edifício Rana Plaza, no Bangladesh, em Abril de 2013, matou mais de 1100 trabalhadores têxteis e feriu mais de 2000. Ao que parece nenhum deles trabalhava para a “Lacoste”, mas a verdade é que acontecimentos como este dizem bem das condições de trabalho na indústria têxtil naquele e outros países. Uns meses depois, em Outubro, em Gazipur, nos arredores de Dhaka, o fogo consumiu parte das “Aswad Composite Mills”, devido ao deficiente funcionamento das bocas-de-incêndio. Pelo menos, nove trabalhadores morreram e dezenas ficaram feridos (BBC, 9 de Outubro de 2013). Trabalhavam para a “Lacoste”, entre outras marcas. “Acidentes” como estes são frequentes no Bangladesh.

A “Lacoste” era produzida no Brasil há 26 anos pela Paramount na sua fábrica em Esteio, no Rio Grande do Sul, quando, em 2007, decidiu transferir toda a produção para o Peru. Em Janeiro de 2009 o jornal argentino La Voz, noticiava que a “Lacoste” decidira acabar o contrato com as “Indústrias Têxteis Zucos”, que trabalhavam exclusivamente para a marca, e transferir a produção para o Brasil e o Peru, países “confiáveis e com mão-de-obra consequente” (palavras do patrão da “Zucos”). O leitor fará o favor de imaginar o que estas expressões significam mas, fica desde já informado que, segundo se diz, no Peru, a mão-de-obra é várias vezes mais barata… Para o Brasil, parece que a produção não foi, talvez porque, desde 2007, não era assim tão “confiável” e “consequente”. Em 2011, com toda a pompa, a “Lacoste” abriu uma nova fábrica, a “Vesuvio”, em San Juan, Argentina, tendo em vista os mercados do Brasil, Chile, Paraguai, Uruguai e Nova Iorque. Já em 2014, toda uma linha de produção foi aí encerrada e, segundo consta, dezenas de pessoas foram despedidas porque a produção foi deslocalizada – e sabe o leitor para onde? Para o Peru, obviamente.

No vídeo de promoção do programa “Isto é Matemática” para a “Mostra VerCiência 2013”, no Brasil, o apresentador aparece numa praia, com o mar ao fundo, vestido com roupa “Lacoste”, sem se perceber se o que está promover é a Matemática, a marca do crocodilo ou um programa de anedotas. Duvido é que haja muitos trabalhadores têxteis de todo o mundo (crianças, mulheres e homens) que lhe achem graça.

Viajamos agora até à Alemanha. A “Munich RE”, a maior resseguradora mundial, que patrocina a tradução de “Isto é Matemática”, foi fundada em 1880. A “ERGO”, sua empresa-filha, concentra a maior parte das operações primárias da “Munich RE”, que a detém quase a 100%. A “ERGO” é a segunda seguradora primária alemã, logo a seguir à “Allianz AG”, que é, aliás, a primeira a nível mundial. É escusado dizer que estas empresas têm fortes interesses na banca e ligações em todo o sistema financeiro mundial.

A “Allianz AG” foi co-fundada em 1890 por Carl von Thieme, igualmente fundador da “Munich RE”, tendo ambas as empresas atravessado, incólumes, todo o século XX. A “Allianz” colaborou de tal forma com o nazismo, desde os anos 30 até ao seu colapso, que bem se pode dizer que era parte dele. Foi a seguradora de campos de concentração (“Auschwitz, Buchenwald, Dachau, Stutthof, Neuengamme e Ravensbrück”, Der Spiegel,23/1997) com o que fez bons lucros. Aqueles que padeceram nos campos de concentração e que tinham seguros da “Allianz” nunca obtiveram qualquer compensação; nem eles nem as famílias. Pelo contrário, o dinheiro que lhes era devido ia directamente para os cofres nazis. Pela sua ligação estreita ao nazismo, causou escândalo em 2008 que a “Allianz” quisesse comprar o nome de um estádio de futebol nos EUA, negócio que acabou por abortar. Por outro lado, a Alemanha e a Austrália não viram qualquer impedimento a que existissem uma “Allianz Arena” em Munique (onde joga o “Bayern”) e um “Allianz Stadium” em Sydney. Outro aspecto da vida da “Allianz” é que tem sido acusada de fraude, por diversas vezes, como ainda recentemente na Florida.

A “ERGO”, empresa-filha da “Munich RE”, tem estado envolvida recentemente em diversos escândalos. Os mais conhecidos, revelados por diversos jornais alemães como o Handelsblatt, relacionam-se com o facto de os seus altos funcionários serem recompensados com viagens que envolvem orgias sexuais em vários pontos do globo. A que deu maior escândalo ocorreu em 2007 numas termas em Budapeste. Segundo informa a BBC (20 de Maio de 2011), 100 vendedores de sucesso foram recompensados com 20 prostitutas que usavam pulseiras de diferentes cores, segundo as suas “disponibilidades”, e os seus braços eram carimbados após cada “serviço”. Tudo isto faz lembrar velhos métodos; os escravos e os prisioneiros dos campos de concentração não eram também “carimbados”? Outras “festas” foram organizadas: na Jamaica, num clube em Maiorca, noutro de “striptease” na Estónia e sabe-se lá que mais. Da “festa” de Maiorca foram publicadas fotografias onde, entre outras coisas, se viam os funcionários a snifar um pó branco (Reuters, 24 de Maio de 2011); diz a empresa que era sal… Segundo conta o Hamburger Abendblatt de 1 de Setembro de 2012, a “festa” de Budapeste custou 83 mil euros e o chefe da “ERGO” diz que vai continuar a premiar com viagens os bons trabalhadores.

Já em 2014 a “ERGO” viu-se envolvida no processo de insolvência da “Infinus”, uma empresa de serviços financeiros de Dresden, cujos administradores de nada prescindiam: carros velozes, relógios caros, barras de ouro, etc.

Ainda quanto à “Munich RE”: a maior resseguradora mundial, quem a segura? Fique o leitor a saber que, relativamente a 2011, teve um perdão fiscal de 500 milhões de euros; isto é, foi salva por nós – os seguradores somos nós. Foi assim, dizem, por causa dos terramotos na Nova Zelândia e no Japão. Agora vamos ver se não seremos nós a pagar o desaparecimento do avião da Malásia.

Tudo isto me faz lembrar algumas cenas do bem conhecido filme “O Padrinho, II”. Passam-se no Nevada e envolvem um senador corrupto e a família Corleone. Na primeira cena, no meio de uma festa, o senador anuncia ostensivamente que tem na sua posse um cheque, dado pelos Corleone, para a a universidade local. Na cena seguinte, em ambiente privado, o senador exige uma exorbitância para as licenças de jogo nos casinos de que os Corleone pretendem apoderar-se. O chefe da família nega e diz que nada pagará. Finalmente, uns tempos depois, o senador é apanhado pela teia mafiosa ao acordar num dos hotéis dos Corleone ao lado de uma prostituta morta… Conto isto para formular a seguinte pergunta: O leitor gostaria de estudar, trabalhar ou, de alguma forma, fazer parte de uma instituição científica que recebesse financiamentos da máfia?

Nota final 

Muitas pessoas, inclusivamente nos meios científicos, dirão, encolhendo os ombros, que tudo isto é “normal”, no sentido em que é prática generalizada nestes “novos” tempos, e que não há nada a fazer. Poderá ser “normal”, mas é imoral e se não pusermos um travão definitivo a estas práticas, se abdicarmos do direito de dizer “não”, as novas gerações nunca perdoarão a nossa inacção.”

Do mesmo autor: 

[*] Do Grupo de Física-Matemática (GFMUL) e Departamento de Matemática (DMFCUL) da Universidade de Lisboa. Este artigo é a reprodução, com ligeiras alterações, de “Matemática aprisionada” que saíu no jornal Avante! , nº 2123, páginas 24-27.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

Bento de Jesus Caraça (1901-1948) – Matemático, Ensaísta, Humanista e Comunista

 
“A Ciência pode ser encarada sob dois aspectos diferentes. Ou se olha para ela tal como vem exposta nos livros de ensino, como coisa criada, e o aspecto é o de um todo harmonioso, onde os capítulos se encadeiam em ordem, sem contradições. Ou se procura acompanhá-la no seu desenvolvimento progressivo, assistir à maneira como foi sendo elaborada, e o aspecto é totalmente diferente – descobrem-se hesitações, dúvidas, contradições, que só um longo trabalho de reflexão e apuramento consegue eliminar, para que logo surjam outras hesitações, outras dúvidas, outras contradições.”


“Se não receio o erro, é porque estou sempre disposto a corrigi-lo”
“O homem desiludido e pessimista é um ser inerte, sujeito a todas as renúncias, a todas as derrotas – e derrotas só existem aquelas que se aceitam.”


“A cultura tem que reivindicar-se para a colectividade inteira, porque só com ela pode a humanidade tomar consciência de si própria.”


“Conseguirá a Humanidade, num grande estremecimento de todo o seu imenso corpo, tomar finalmente consciência de si mesma, revelar a si própria a sua alma colectiva, feita do desenvolvimento ao máximo, pela cultura, da personalidade de todos os seus membros?”


“A obra de Newton, contemporâneo de Bach, tem, na física, o mesmo carácter de majestade, de segurança, de universalidade da obra de Bach em música.”



“As ilusões nunca são perdidas. Elas significam o que há de melhor na vida dos homens e dos povos. Perdidos são os cépticos que escondem sob uma ironia fácil a sua impotência para compreender e agir; perdidos são aqueles períodos da história em que os melhores, gastos e cansados, se retiram da luta, sem enxergarem no horizonte nada a que se entreguem, caída uma sombra uniforme sobre o pânatano estéril da vida sem formas.Benditas as ilusões, a adesão firme e total a qualquer coisa de grande, que nos ultrapassa e nos requer. Sem ilusão, nada de sublime teria sido realizado, nem a catedral de Estrasburgo, nem as sinfonias de Beethoven. Nem a obra imortal de Galileo”.

 «O que é o homem culto? É aquele que:

1.º Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
2.º Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
3.º Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida.

Ser-se culto não implica ser-se sábio; há sábios que não são homens cultos e homens cultos que não são sábios; mas o que o ser culto implica, é um certo grau de saber, aquele que precisamente que fornece uma base mínima para a satisfação das três condições enunciadas.»

Bento de Jesus Caraça, no seu texto «A cultura integral do indivíduo» (conferência proferida na União Cultural « Mocidade Livre», em 25 de Maio de 1933)
 

Bento Jesus Caraça – GALILEO GALILEI

GALILEO GALILEI
 
VALOR CIENTÍFICO E VALOR MORAL DA SUA OBRA!(*)
 
(por Bento Jesus Caraça)
 
MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES:
No dia 22 de Junho de 1633, faz hoje trezentos anos, quem pudesse ter penetrado numa certa sala do convento de Minerva, em Roma, teria assistido a uma cena singular.
Um velho de setenta anos ouvia, perante um tribunal constituído por dez cardeais, a leitura deste documento estranho:
“Nós (seguem os nomes e os títulos dos cardeais) pela misericórdia de Deus, Cardeais da Santa Igreja Romana, delegados especialmente como Inquisidores gerais da Santa Sé Apostólica, contra a maldade herética, da República Cristã.
“Sendo certo que tu, Galileo, filho de Vincenzo Galilei, florentino, de setenta anos de idade, foste denunciado em 1615 a este Santo Ofício por teres como verdadeira a falsa doutrina, ensinada por alguns, que o Sol seja centro do mundo e imóvel, e que a Terra se mova, ainda de movimento diurno; por, acerca da mesma, teres correspondência com alguns matemáticos da Germânia; por teres dado à estampa cartas intituladas “Das manchas Solares”, nas quais explicavas a mesma doutrina como verdadeira; por, às objecções que às vezes te faziam tiradas da Sagrada Escritura, responderes interpretando a dita Escritura, conforme o teu sentido;
“E tendo sucessivamente sido apresentada cópia dum manuscrito, sob a forma de carta, a qual se dizia ter sido escrita por ti, a um tal teu discípulo, e nessa, seguindo a posição de Copérnico, se conterem várias proposições contra o verdadeiro sentido e autoridade da Sagrada Escritura;
“Querendo por isto este Sacro Tribunal dar providências contra a desordem e o dano que de aqui provinha e andava crescendo com prejuízo da Santa Fé;
“Por ordem de Nosso Senhor e dos Eminentíssimos e Reverendíssimos Senhores Cardeais desta Suprema e Universal Inquisição, foram, pelos Qualificadores Teólogos, qualificadas as duas proposições da estabilidade do Sol e do movimento da Terra do seguinte modo:
“Que o Sol seja centro do mundo e imóvel de movimento local, é proposição absurda e falsa em filosofia, e formalmente herética, por ser expressamente contrária à Sagrada Escritura;
“Que a Terra não seja centro do mundo nem imóvel, mas que se mova, ainda de movimento diurno, é igualmente proposição absurda e falsa em filosofia, e considerada em teologia ad minis errónea em Fé.
“Mas querendo-se naquele tempo proceder para contigo com benignidade, foi decretado na Sacra Congregação reunida diante de Nosso Senhor a 25 de Fevereiro de 1616, que o Eminentíssimo Cardeal Bellarmino te ordenasse que tu devesses totalmente abandonar a dita opinião falsa e que, recusando tu tal fazeres, te fosse pelo Comissário do Santo Ofício intimado que deixasses a dita doutrina e que não pudesses ensiná-la a outros, nem defendê-la, nem tratar dela, e que, se não te conformasses com a intimação, fosses encarcerado;
“Em execução do mesmo decreto, no dia seguinte, no mesmo palácio e na presença do acima dito Eminentíssimo Senhor Cardeal Bellarminio, depois de teres sido pelo mesmo Senhor Cardeal benignamente avisado e admoestado, te foi pelo Comissário do Santo Oficio daquele tempo intimado, com notário e testemunhas, que totalmente devesses abandonar a dita falsa opinião e que no futuro a não pudesses sustentar, nem defender, nem ensinar de qualquer maneira, nem pela voz nem pelo escrito, e tendo tu prometido obedecer, foste mandado em paz.
“E a fim de que tolhesse inteiramente tão perniciosa doutrina e não andasse caminhando mais, com grave prejuízo da verdade católica, saiu um decreto da Sacra Congregação do Índice, por meio do qual foram proibidos os livros que tratam de tal doutrina e foi esta declarada falsa e totalmente contrária à Sagrada e Divina Escritura.
“E tendo ultimamente aparecido aqui um livro, estampado em Florença no ano passado, cuja inscrição mostrava que fosses tu o seu autor, dizendo o título: “Diálogos de Galileo Galilei acerca dos dois Máximos Sistemas do Mundo, Ptolomaico e Copernicano”; e informada depois a Sacra Congregação de que, com a impressão do dito livro, cada vez mais tomava pé e se disseminava a falsa opinião do movimento da Terra e da estabilidade do Sol; foi o dito livro diligentemente considerado e nele achada expressamente a transgressão do preceito que te foi intimado, tendo tu no mesmo defendido a opinião já condenada e na tua face por tal declarada, acontecendo que tu, no dito livro, procuras persuadir que a deixas como indecisa e expressamente provável, o que também é erro gravíssimo, não podendo de nenhum modo ser provável uma opinião declarada e definida por contrário à Escritura Divina.
“Por isso, por nossa ordem foste chamado a este Santo Ofício, no qual, com o teu juramento, examinado, reconheceste o livro como por ti composto e dado à estampa. Confessaste que, cerca de dez ou doze anos depois de te ter sido feita a intimação como acima, começaste a escrever o dito livro; que pediste autorização para o estampar sem porém significares àqueles que te deram semelhante faculdade que te tinha sido ordenado não sustentar, defender, nem ensinar de qualquer modo tal doutrina.
“E parecendo a nós que tu não tinhas dito inteiramente a verdade acerca da tua intenção, julgamos ser necessário proceder a um rigoroso exame de ti; no qual sem porém prejuízo algum das coisas por ti confessadas e contra ti deduzidas como acima acerca da tua intenção, respondeste catolicamente.
“Portanto, vistos e maduramente considerados os méritos desta tua causa, com as supraditas tuas confissões e escusas e quanto de razão se devia ver e considerar, chegámos contra ti à infra-escrita sentença:
“Invocando o Santíssimo Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e da gloriosíssima Mãe sempre virgem Maria;
“Por esta nossa definitiva sentença, a qual, pro tribunali, de conselho e parecer dos Reverendíssimos Mestres de Sacra Teologia e Doutores unius utriusque iuris, nossos consultores, proferimos nestes escritos, na causa e causas pendentes ante nós entre o Magnífico Carlo Sinceri, doutor unius utriusque iuris, Procurador Fiscal deste Santo Ofício, duma parte e tu, Galileo Galilei ante-dito, réu aqui presente, inquirido, processado e confesso como acima, da outra parte:
“Dizemos, pronunciamos, sentenciamos e declaramos que tu, Galileo supra-dito, pelas coisas deduzidas no processo e por ti confessadas como acima, te tornaste veementemente suspeito de heresia, a saber, por teres sustentado e crido doutrina falsa e contrária às Sagradas e Divinas Escrituras, que o Sol seja centro da Terra e que não se mova de oriente para ocidente e que a Terra se mova e não seja centro do mundo, e que se possa ter e defender por provável uma opinião depois de ter sido declarada e definida por contrária à Sagrada Escritura;
“E consequentemente estás incurso em todas as censuras e penas dos sagrados cânones e outras constituições gerais e particulares contra semelhantes delinquentes impostas e promulgadas.
“Das quais nos apraz absolver-te desde que primeiro, com coração sincero e fé não fingida, diante de nós, abjures, maldigas e detestes os supra-ditos erros e heresias e qualquer outro erro e heresia contrária à Igreja Católica e Apostólica, pelo modo e forma que por nós te será dada.
“E, a fim que este teu grave e pernicioso erro e transgressão não fique de todo impune, e sejas mais cauto para o futuro e exemplo a outros para que se abstenham de semelhantes delitos, ordenamos que, por público édito, seja proibido o livro dos “Diálogos de Galileo Galilei”.
“Te condenamos ao cárcere formal neste Santo Ofício ao nosso arbítrio; e por penitência salutar te impomos que pelos três próximos anos digas uma vez por semana os sete salmos penitenciais, reservando para nós a faculdade de moderar, mudar ou levantar, no todo ou em parte, as supra-ditas penas e penitencias.
“E assim dizemos, pronunciamos, sentenciamos, declaramos, ordenamos e reservamos, nisto e em tudo o mais, do melhor modo e forma que de razão podemos e devemos.” (Seguem as assinaturas de sete dos dez cardeais).
Seguidamente o acusado ajoelhou e, com as mãos sobre os Evangelhos, leu em voz alta este outro documento, para esse fim expressamente confeccionado por mão alheia:
“Eu, Galileo Galilei, filho do falecido Vincenzo Galilei, de Florença, de minha idade setenta anos, constituído pessoalmente em juízo e ajoelhado diante de vós Eminentíssimos e Reverendíssimos Cardeais, inquisidores gerais em toda a República Cristã contra a maldade herética;
“Tendo diante dos meus olhos os sacrossantos Evangelhos, os quais toco com as minhas próprias mãos, juro que sempre cri, creio agora, e com a ajuda de Deus crerei para o futuro, tudo aquilo que afirma, prega e ensina a Santa Igreja Católica Apostólica.
“Mas visto que, por este Santo Oficio, por haver eu (depois de me ter intimado juridicamente pelo mesmo que abandonasse totalmente a falsa opinião que o Sol seja centro do mundo e que não se mova e que a Terra não seja centro do mundo e que se mova, e que não pudesse afirmar, defender nem ensinar de qualquer modo, pela voz ou pelo escrito, a dita falsa doutrina, e depois de me ter sido notificado que a dita doutrina é contrária à Sagrada Escritura) escrito e dado à estampa um livro no qual trato a mesma doutrina já condenada e empregado argumentos com muita eficácia a favor dela, sem dar nenhuma solução, fui julgado veementemente suspeito de heresia, por haver dito e crido que o Sol seja centro do mundo e imóvel, e a Terra não seja centro e se mova;
“Portanto, querendo eu afastar da mente das Eminências Veneráveis e de todo o fiel cristão esta veemente suspeição, justamente de mim concebida, com coração sincero e fé não fingida, abjuro, amaldiçoo e detesto os supraditos erros e heresias, e geralmente qualquer outro erro, heresia e seita contrária à Santa Igreja; e juro que para o futuro não mais direi nem afirmarei, pela voz ou pelo escrito, coisas tais que por elas se possa haver de mim semelhante suspeição; mas, se conhecer algum herético, ou que seja suspeito de heresia, o denunciarei a este Santo Oficio, ou ao Inquisidor ou Ordinário do lugar onde me encontrar.
“Juro ainda e prometo cumprir e observar inteiramente todas as penitências que me foram impostas, ou vierem a ser, por este Santo Oficio;
“E, no caso de transgredir algumas das ditas promessas ou juramentos, o que Deus não queira, submeto-me a todas as penas e castigos pelos sagrados cânones e outras constituições gerais e particulares contra semelhantes delinquentes impostas e promulgadas.
“Assim Deus me ajude e estes seus santos Evangelhos, que toco com as minhas próprias mãos.
“Eu, Galileo Galilei, abjurei, jurei, prometi e me obriguei como acima; e, em fé do verdadeiro, pela minha própria mão subscrevi a presente cédula da minha abjuração e a recitei de palavra em palavra, em Roma, no convento de Minerva, neste dia 22 de Junho de 1633.”
Quando terminou a leitura deste acto de abjuração, acabara de viver-se um dos momentos mais dramáticos da história da ciência e da história do homem no mundo ocidental.
O choque violento entre duas ideias exigira, na sua fase culminante, o esmagamento, o rebaixamento aviltante, muito para além das fronteiras do humano, de um homem de ciência, um gigante cuja obra se levanta, aos nossos olhos de homens do século XX, como um monumento luminoso na linha incerta que separa duas épocas.
O que é que produzira uma tão grande brutalidade na luta, e porque razão encontramos uma congregação, órgão da Igreja Católica, obrigando um homem a tão desumana humilhação.
Vamos procurar responder a estas perguntas, pondo em evidência a verdadeira significação, do duplo ponto de vista moral e científico, dos factos que acabamos de recordar.
Frans Masereel, o poderoso artista criador de imagens, condensou, numa sucessão emocionante de gravuras, a história da Ideia. História comovente, que começa com a criação duma divindade nua, saída bruscamente da cabeça do homem, num lampejo inspiração, e a acompanha nas várias fases da sua vida entre outros homens, desde o momento em que ela, desembaraçando-se das vestes com que a multidão quer encobrir as suas formas, se lança numa correria louca pelo mundo, até àquele outro momento em que, voltando para junto do homem que a criou, o encontra exaltado na criação de nova divindade. Momento trágico esse, vida das Ideias, momento que decide do seu destino. Umas morrem enquanto se realiza triunfalmente a criação de outras – e é esse o desfecho pessimista que nos apresenta Masereel; outras porém resistem a essa prova suprema e continuam a sua carreira no mundo. De que lutas é cheia essa carreira! Quantos obstáculos há que vencer, de quantas ciladas que fugir, quantas tentativas de assassinato que evitar!
São essas ideias imortais que fazem o progresso da humanidade, e é na força com que se batem por elas que reside o valor moral dos homens e das gerações.
Mas há ainda outra categoria de ideias – aquelas que, não tendo poder de vitalidade que Ihes permita viver após a criação de outras, conseguem no entanto sobreviver-se a si próprias, transformando-se em fantasmas do que eram. Esse grupo das ideias fantasmas é ,aquele em cujo nome se fere a luta contra as ideias criadoras. A sua fronte está virada para o passado, e é para o seu passado que querem levar as sociedades, esperando assim reencontrar o ambiente que Ihes restitua a vida que perderam.
Que homem há que não tenha notado à sua volta o efeito paralisador das ideias fantasmas e as não tenha sentido a batalhar mesmo dentro de si próprio, procurando subjugá-lo, arrasta-lo para aquelas regiões sombrias onde não chega a luz fulgente das ideias imortais?
Que homem há, mesmo entre os de espírito mais aberto e mais livre, que não tenha sentido essa luta, mormente neste atormentado começo do século XX, em que um monstro na agonia, para se dar a ilusão de que ainda tem direito a viver, faz apelo a um imenso cortejo de espectros, de ideias fantasmas, para que elas Ihe propiciem e justifiquem todos os arrancos senis, todas as vilanias?
E quantas vezes, na luta cruenta e desleal que esse cortejo promove, julgam as ideias fantasmas certa a vitória, porque conseguiram espetar as adversárias nas pontas das baionetas, ou amarra-las ao potro da tortura!
Pretensão falaz! Para as proscritas. abrem-se de par em par as Portas das consciências, e daí, reconfortadas por um calor vivificante, surgem depois, mais belas no esplendor da sua nudez, mais no seu poder criador.
É a história, duma dessas ideias imortais – a ideia do heliocentrismo – que desejo traçar aqui, procurando acompanhá-la, e de caminho a alguma outras, a cuja sorte ela esteve ligada, nas fases mais significativas da sua vida.”
* BENTO DE JESUS CARAÇA 1901-1948
(Extracto da Conferência realizada na Universidade Popular Portuguesa em 22 de Junho de 1933)

Ainda Vivemos na Caverna da Alegoria de Platão

 

Um célebre texto de Platão, conhecido por Alegoria da Caverna, dá-nos uma ideia não só do que é a atitude filosófica como também de alguns problemas que ocupam a reflexão dos filósofos.
 “Depois disto – prossegui eu – imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos “robertos” colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
– Estou a ver – disse ele.
– Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objectos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.
– Semelhantes a nós – continuei. – Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projectadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
– Como não – respondeu ele – se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?
– E os objectos transportados? Não se passa o mesmo com eles?
– Sem dúvida.
– Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objectos reais, quando designavam o que viam?
– É forçoso.
– E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
– Por Zeus, que sim!
– De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objectos.
– É absolutamente forçoso – disse ele.
– Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via outrora. O que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objectos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objectos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que se veria em dificuldades e suporia que os objectos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?
– Muito mais – afirmou.
– Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objectos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
– Seria assim – disse ele.
– E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objectos?
– Não poderia, de facto, pelo menos de repente.
– Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objectos, reflectidas na água, e, por último, para os próprios objectos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
– Pois não!
– Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
– Necessariamente.
– Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.
– É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
– E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
– Com certeza.
– E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com mais agudeza os objectos que passavam e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo “servir junto de um homem pobre, como servo da gleba”, e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?
– Suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela maneira.
– Imagina ainda o seguinte – prossegui eu. – Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
– Com certeza.
– E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?
– Matariam, sem dúvida – confirmou ele.
– Meu caro Gláucon, este quadro – prossegui eu – deve agora aplicar-se a tudo quanto dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la. O Deus sabe se ela é verdadeira. Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública.”