A gente da cultura: Trump e Obama.

A intelligentsia norte-americana está em guerra aberta com Trump. Na Europa, alguns classificam essa intelligentsia, escritores, artistas das artes visuais, teatro e cinema, músicos, como de esquerda, sabendo bem de mais que a grande maioria são liberais com muito pouco de esquerda. Fazem bem em invectivarem Trump um reacionário proto-fascista, com tiques de caudilho […]

via A Intelligentsia nos seus labirintos — Praça do Bocage

Apocalipse: RTP ou Apocalipse Estaline – António Santos

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Recentemente, explodiu nas televisões americanas um novo tipo de «documentário» a que chamam docufiction. Ficção apresentada como se abordasse uma realidade factual. É o caso da série da RTP dedicada a Stáline. Uma fraude documental com um objectivo ideológico preciso, no ano em que se celebra o centenário da Revolução de Outubro. A RTP, paga por todos nós, dá tempo de antena a propaganda que os nazis não desdenhariam.

Acabo de assistir a «O Demónio», o primeiro episódio da mini-série «Apocalipse: Estaline». Durante uma hora, Isabelle Clarke dedica o seu «documentário» a convencer-nos de que Estaline foi o que o título diz: um demónio. Veja-se: «Lénine e um punhado de homens lançaram a Rússia no caos. (…) Como os cavaleiros do Apocalipse, os bolcheviques semeiam morte e destruição para se manterem no poder. Continuarão durante 20 anos, até os alemães chegarem às portas de Moscovo». Estaline surge como um «louco», «sexualmente insaciável» e com uma «mentalidade próxima dos tiranos do Médio Oriente» [sic] que só Hitler pode parar. Num frenesim anacrónico, o espectador é levado de «facto» em «facto» sem direito a perguntas nem a explicações. Para trás e para a frente, dos anos quarenta para o final do século XIX, de 10 milhões de mortos na guerra civil russa para 5 milhões de mortos no «holodomor: a fome organizada por Estaline», o puzzle está feito para ser impossível de montar. Ao narrador basta descrever o que, a julgar pelas imagens de arquivo, é aparentemente indesmentível: «os camponeses ucranianos, vítimas das fomes estalinistas abençoam os invasores alemães. Mais tarde serão enforcados pelos estalinistas. A conjugação das imagens de arquivo colorizadas é tão brutal e convincente que somos tentados a concordar com as palavras do narrador: «Estaline declarou guerra ao seu próprio povo». São os «factos alternativos» de Trump aplicados à História.

Só há dois problemas. Primeiro: Isabelle Clarke, a autora, admite que «Apocalipse: Estaline» não é História nem tem pretensões de querer sê-lo. Vou repetir, a autora admite que aquilo que fez não tem nada a ver com História. Podia terminar aqui. Mas, em segundo lugar, será que a RTP, canal público pago por todos nós para cumprir a missão de educar e informar, sabia que estava a comprar ficção em vez de História?

Claramente a História, enquanto ciência social, passe a inelutável normatividade a que estamos presos, é incompatível com a calúnia e a propaganda ou, numa palavra, a demonização. «Apocalipse: Estaline – O Demónio» não disfarça a demonização, disfarça a ficção.

Então, o que é «Apocalipse, Estaline»? Recentemente, explodiu nas televisões americanas um novo tipo de «documentário» a que chamam docufiction. Exemplos recentes são «Sereias: o cadáver encontrado» ou «Megalodon, o tubarão monstro vive». Em ambos, o documentário da Discovery Channel dá a palavra a cientistas, investigadores, professores e biólogos que explicam a descoberta científica de sereias, no primeiro caso e de um tubarão jurássico, no segundo. Durante uma hora, o espectador assiste a filmagens convincentes dos míticos criptídos e ouve especialistas, identificados como tal, debater as possíveis explicações para as descobertas serôdias. No final, em letra de efeitos secundários de bula de medicamento, admite-se, para quem ainda estiver a ver, que era tudo a fingir: os especialistas eram actores, as imagens eram fabricadas. «Apocalipse, Estaline» faz algo parecido: no final ficamos a saber a que «historiadores» foi beber inspiração: a romancista Svetlana Alexievitch, uma versão actualizada de Alexander Soljenitsyne; Robert Service, o mais proselitista e criticado dos historiadores-pop contemporâneos ou Pierre Rigoulot, um ex-trotskista transformado em neocon apoiante de Bush e fã confesso da guerra do Iraque. Trata-se contudo de menções honrosas e agradecimentos. Mas de onde vêm as citações? Onde foi buscar os números? Quais são as fontes? Raquel Varela coraria de vergonha alheia.

Não se trata de admirar ou condenar Estaline, trata-se de não sermos tomados por parvos. «Apocalipse: Estaline» não é ficção nem História: é uma falsificação estupidificante e tóxica para o público. Como os novos «documentários» sobre sereias e tubarões jurássicos, que confundem ciência com ficção, a RTP acabou de confundir História com propaganda nazi.

Este texto encontra-se em:

http://manifesto74.blogspot.pt/2017/01/apocalipse-rtp.html#more

Convido-os a comparar este documentário com estudos sérios como, por exemplo, de Dominico Losurdo, Estaline Uma Lenda Negra ou de Jean Elenstein, História da União Soviética.

O derrube do muro de Berlim (09/Nov/89) por Daniel Vaz de Carvalho

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A queda da RDA atingiu-me duramente, mas, tal como muitos outros companheiros de luta, não perdi a convicção de que o socialismo é a única alternativa para uma sociedade mais humana e mais justa. Desde a existência do capitalismo que os comunistas pertencem aos perseguidos neste mundo, mas não pertencem aos sem futuro.
Hoje é considerado moderno etiquetar comunistas íntegros de estalinistas.
Erich Honecker, Memórias da Prisão [1]
Erich Honecker. 1 – Uma idiótica euforia

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Em 30 de setembro de 1938, o primeiro-ministro francês Daladier regressa a Paris, vindo de Munique, após ter celebrado o acordo que entregava aos nazis uma parte da Checoslováquia. Ao sair do avião uma multidão espera-o com cartazes que festejavam o acordo: “a paz tinha sido salva”. Daladier olha-os espantado, esperava ser vaiado, e murmura: “Idiotas…se eles soubessem.”

Esta cena faz evocar a euforia, com raias de histerismo, que percorreu as hostes anti-marxistas desde a extrema-direita a uma dita extrema-esquerda (do anarquismo ao trotsquismo) juntando-os num triunfalismo inconsequente. Na realidade, tal como em Munique se preparou a entrega aos nazis do domínio sobre a Europa, o derrube do Muro de Berlim preparou a entrega aos EUA, como líder do grande capital transnacional, do domínio mundial.

Se a direita exultava com a derrota do seu arqui-inimigo, a social-democracia acompanhava-a fantasiando o enterro definitivo do “comunismo” propagandeando “um socialismo de rosto humano”. Na sua cegueira acreditavam que afastado o “espectro do comunismo” (Marx) que os afligia: as massas populares pertenciam-lhe política e sindicalmente. Era o “fim da História” e a “paz social” através da colaboração de classes.

Sem o mínimo de contraditório as massas foram submersas pela propaganda que prometia a “economia social de mercado” ou a “economia de mercado com justiça social”.

Contudo, o derrube do Muro de Berlim e o fim da URSS vieram exaustivamente confirmar as teses marxistas-leninistas: o capitalismo humanista não existe. Os avanços sociais e civilizacionais conquistados pelos povos foram somente obtidos à custa de duras lutas e sacrifícios, contra capitalismo.

O que se passou a seguir demonstra, por um lado a incapacidade de a social-democracia, presa nos seus preconceitos e calúnias, e incapaz de avaliar as consequências das suas orientações para os povos, os Estados, para a própria democracia. Por outro lado, mostra como a sua degradação ideológica levou a cedências quase inimagináveis e compromissos com a exploração mais desbragada, a corrupção, a agressão imperialista, até com ditaduras fascizantes.

Nos países ex-socialistas toda uma série de oportunistas, de especialistas neoliberais, ONGs ao serviço do imperialismo, de indivíduos educados nos EUA, alguns obtendo dupla nacionalidade, apossarem-se desses países, tal como o crime organizado. Foi então imposta a democracia oligárquica que se traduziu numa inaudita regressão civilizacional.

A devastação em termos de direitos humanos foi silenciada pela incessante propaganda de calúnias contra a realidade socialista. Milhões de desempregados foram deixados sem apoio, jovens desesperados abandonaram os seus países para irem trabalhar no estrangeiro em condições muitas vezes humilhantes e de exploração brutal, quando não à mercê das máfias. Os indicadores de saúde e esperança de vida da URSS caíram quase de imediato para valores do chamado terceiro mundo.

O neoliberalismo devastou instituições culturais e artísticas, escolas e universidades, submetidas aos critérios da mercantilização neoliberal. Vários dos países ex-socialistas, são hoje dominados por demagogos da extrema-direita e neofascistas que, com a cumplicidade e apoio da UE e dos EUA, se aproveitam da miséria criada pela instauração do capitalismo.

Por detrás do derrube do Muro de Berlim, está patente a atitude de traição de Gorbatchov, citando Lenine para melhor destruir o seu partido, assumindo-se depois como social-democrata e confessando serem aquelas citações uma estratégia. No seu discurso do 70º aniversário da Revolução de Outubro, Gorbatchov caracterizou a industrialização socialista, a colectivização da agricultura e a revolução cultural como acontecimentos de dimensão histórica para o reforço da potência soviética. Mais tarde denegriu e renegou o que dizia defender. [1]

Gorbatchov, desprezado no seu país, publicou recentemente, um livro “New Russia”, fazendo coro com o “ocidente” (leia-se NATO) contra Putin. Aí cita Lenine: “não se pode ultrapassar o povo”. Foi o que ele e outros como ele fizeram.

Quando a URSS foi dissolvida e o socialismo liquidado, de 70% a mais de 80% da população (conforme as Repúblicas) desejavam a manutenção da URSS; 85% o socialismo. Também o povo da RDA não foi consultado sobre a anexação da sua pátria pela RFA, que Gorbatchov acordou nas costas do povo e dos órgãos soberanos da RDA.

Quando se entra na via da traição não se para… A “perestroika” acabou rendida ao neoliberalismo e ao imperialismo. Exemplo, foi a figura patética de Chevarnadze (último ministro dos Negócios Estrangeiros da URSS) que acabou afundando-se numa guerra civil na Geórgia de que se tornara presidente, alimentada pelos seus amigos da NATO.

Vivemos hoje as consequências do que aconteceu então. A social-democracia está morta rendida ao neoliberalismo fascizante e ao imperialismo. O mundo enfrenta intermináveis guerras de agressão, crises económicas, tragédias sociais e humanitárias. O perigo de uma confrontação global é uma realidade eminente.

O imperialismo impôs um intolerável totalitarismo pretendendo aplicar a todos os povos o mesmo modelo económico, social e político ao serviço dos interesses oligárquicos, a globalização capitalista, sem qualquer consideração pela vontade e interesses dos povos. Um modelo imposto pelo poder militar (agressões, invasões), político (conspirações, ingerências) e económico (sanções).

Na fronteira de Berlim foram mortas 74 pessoas, cidadãos aliciados nas redes organizadas pelos serviços secretos ocidentais para fugirem, por razões políticas ou por delitos comuns. E. Honecker lamentou-o até ao fim. Porém quantos trabalhadores, estudantes, etc, foram mortos pelas polícias em manifestações na Europa Ocidental? Nos EUA foram mortas 500 pessoas só em 2015, alegadamente por não acatarem ordens da polícia. ( US Police Killed Over 500 People This Year ). Quantos foram e são mortos ao tentar passar a fronteira entre os EUA e o México? Isto, sem contar com os milhões de vítimas do colonialismo, das guerras de agressão, ditaduras, para impor o capitalismo.

O socialismo não é uma sociedade perfeita, nunca o marxismo o afirmou, representa a natural evolução e progresso da sociedade humana. É construído por homens imperfeitos em circunstâncias muitas vezes dramáticas. De facto, em parte alguma é possível uma democracia perfeita enquanto houver imperialismo.

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2 – As “Memórias da Prisão” de Erich Honecker

Após o fim da RDA Honecker, foi preso, simbolicamente regressando à mesma prisão, Berlim-Moabit, onde em 1935 os nazis o tinham encarcerado.

A felonia do imperialismo manifestou-se desde logo na criminalização da RDA, e de militantes íntegros. Isto apesar de em 1987 Honecker, a convite do chanceler Kohl, ter visitado a RFA, tendo sido tocado o hino da RDA e rendida homenagem à sua bandeira. De seguida, Kohl fez uma vista não oficial à RDA.

Doente, com cancro, em Moscovo, o traidor Ieltsin revelou mais um traço da baixeza do seu carácter ao extradita-lo para a Alemanha. Pretendia-se apresenta-lo, debilitado e vergado ao infortúnio, perante o capitalismo triunfante.

Tal não aconteceu, Honecker em 1993 perante o tribunal que o julgava, fiel aos ideais pelos quais lutou desde a juventude, assumiu todas as responsabilidades pela defesa da RDA como Estado soberano, demonstrou a superioridade do socialismo e denunciou o julgamento como mais um episódio nos “quase 190 anos de perseguições da burguesia alemã aos comunistas, a todos os lutadores pela paz e pelo socialismo”; transformou os acusadores em réus.

Os objetivos da direita e da social-democracia falhavam, optaram por silencia-lo e o julgamento terminou com a alegação do seu estado de saúde, como se tal não estivesse evidenciado desde o início. Faleceu em 1994 no Chile (pátria do seu genro) na companhia deste, da mulher e da filha.

Face aos conspiradores e traidores, Honecker fica como um exemplo do revanchismo e da perseguição aos comunistas que se seguiu e prossegue nos países ex-socialistas. Os textos seguintes são baseados nas “Memórias da Prisão”, de Erich Honecker. [1]

Acerca do socialismo

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A RDA não pode ser apagada da História. As realizações da RDA ficarão na memória do povo e influenciarão no futuro. A comparação com a democracia burguesa também devia ser abertamente discutida a partir dos exemplos da RDA e da RFA. Na RDA não havia desemprego em massa, mas sim pleno emprego, não havia sopa dos pobres, mas sim comida para todos, não havia falta de vagas na formação profissional ou na educação.

Na RDA havia 9,5 milhões de postos de trabalho. A desindustrialização destruiu metade. Foram vítimas do lucro que encheu abundantemente os bolsos do grande capital. Muitas pessoas encontraram-se na pobreza e em situação de necessidade em consequência desta barbaridade. Depois da anexação pela RFA, desapareceu o que era querido aos trabalhadores da RDA: a segurança em matéria social garantida pelo socialismo.

A RDA era um país com uma indústria e uma agricultura modernas, dispondo de uma ampla rede de proteção social. A agricultura da RDA conseguia assegurar o abastecimento alimentar interno e exportar alimentos.

Não há nenhuma razão nem ninguém tem o direito de denegrir as realizações dos trabalhadores, por muitos erros e insuficiências que tenham afectado o socialismo e que foram objecto de debates. Como os desequilíbrios no desenvolvimento económico, os problemas quanto a produtos de consumo, a escassez de matérias-primas, a incapacidade da indústria ligeira dar resposta às necessidades, os problemas de abastecimento de bens de consumo, a política de preços, a qualidade dos produtos.

Foi um erro não se ter dado rápido seguimento às propostas apresentadas no Plenário realizado em 1988, no sentido de uma maior participação das pessoas na gestão direta da sociedade, das empresas, dos bairros. Contudo, pretender que não havia democracia no socialismo ou até mesmo afirmar que a democracia burguesa é superior à democracia socialista não corresponde nem à verdade nem às realidades da sociedade capitalista, que estão à vista de todos.

É necessário romper o véu da conversa sobre uma democracia acima das classes. Só pode haver uma verdadeira democratização se as pessoas que criam riqueza forem as proprietárias dos principais meios de produção e da terra. A democracia burguesa, onde funciona, reduz-se a espaços de liberdade conquistados ao capital pela luta dos trabalhadores. Quando o poder está nas mãos do capital, o povo é tutelado.

Foi subestimada a influência de inúmeras estações de televisão e rádio sobre o comportamento das pessoas, bem como os perigos resultantes da ação da RFA no seio da NATO.

A RDA sempre defendeu uma política de paz e coexistência pacífica, deu um grande contributo para afastar o perigo guerra na Europa. Com a sua liquidação, Honecker perguntava então de forma premonitória: quanto tempo durará esta paz? Será que a França se deixará esmagar pelo abraço da Alemanha?

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A anexação da RDA pela RFA

Apesar dos bem pagos hinos entoados ao capitalismo, ninguém pode negar seriamente a situação extremamente difícil em que se encontram milhões de operários e empregados, cientistas e artistas, sejam eles defensores ou adversários da “economia de mercado”.

A Treuhand, organismo criado “para a boa administração das empresas” estatais não foi senão uma instituição para desbaratar o património do povo, entregando as empresas do Estado a preços de saldo aos trusts capitalistas ou destrui-las para eliminar concorrentes. A liquidação das empresas públicas da RDA foi um polpudo negócio para os capitalistas

O desemprego é uma tragédia para todos. Ninguém o conhecia na RDA. Imagine-se qual teria sido o resultado se então o chanceler Kohl tivesse declarado abertamente aos eleitores que haveria quatro a cinco milhões de desempregados, as rendas de casa aumentariam de três a dez vezes e que grande parte das prestações sociais seria eliminada.

Não estava em causa derrotar um “poder pessoal”, derrotar “a dominação do Politburo”, mas sim expropriar as empresas pertencentes ao povo, liquidar as cooperativas agrícolas, restituir as terras aos grandes proprietários, eliminar a propriedade socialista. Tratou-se da liquidação da RDA, das suas instituições científicas, dos equipamentos de saúde, de tudo o que estava relacionado com o Estado da RDA.

O poder do capital foi pura e simplesmente restaurado. Era isso que estava em causa. Ninguém pode negar que o guião seguido em todos os países socialistas consumado na contra-revolução foi dirigido a nível internacional. O mesmo guião levou à destruição dos partidos marxistas nestes países.

As traições

Como qualificar de outro modo aqueles que trabalharam para a restauração do sistema político e económico do capitalismo sob a capa da democracia burguesa? Dê-se a volta que se der, tratou-se da reconquista do poder da burguesia perdido 40 anos antes.

Sob a bandeira da luta contra o “estalinismo” conduziu-se a luta contra o socialismo. Todos os “reformadores” renunciaram ao socialismo, dando ouvidos ao “grande reformador” que, em seis anos, conseguiu desarmar o seu partido, o PCUS, de que era secretário-geral, e conduzir a URSS à sua aniquilação.

A RDA foi sacrificada no altar da “casa comum europeia”, pela qual Gorbatchov lutava com tanto afinco. Isto só foi possível porque houve elementos dirigentes da RDA que objectivamente contribuíram para a eliminação do socialismo. Entre estes havia traidores conscientes, que se vangloriaram de terem aberto o caminho à anexação da RDA, utilizando os seus contactos com a RFA em concertação com o círculo de Gorbatchov. A “renovação” da RDA traduziu-se apenas na sua anexação pela RFA capitalista.

Uma desmesurada campanha de calúnias contra as principais personalidades dirigentes, uma criminalização vinda das próprias fileiras conduziu a uma ampla dessolidarização, facilitou às forças reacionárias da RFA a condução da sua ampla campanha de vingança contra os comunistas e outros elementos de esquerda.

Porque se organizou uma caça às bruxas contra todos os colaboradores do partido e do aparelho do Estado, contra a segurança de Estado, contra os soldados e oficiais do Exército Nacional Popular, contra as tropas fronteiriças, contra professores, médicos, cientistas, jornalistas e artistas? Tudo isto agravou ainda mais a miséria na RDA. Centenas de milhares de famílias com as suas crianças foram lançadas numa situação de desespero.

Aqueles que desfiguraram a história do socialismo, acentuando erros e deficiências, reclamando-se eles próprios de comunistas sem defeitos, tendo embora virado costas ao partido, contribuíram para a desagregação, dificultaram o trabalho ideológico junto da juventude. Foi assim que muitas pessoas perderam as suas convicções nos ideais socialistas.

Porém, continua sem se saber o que seria o tão invocado “socialismo democrático”. O afastamento decisivo do comunismo significa não só a negação dos ideais comunistas, mas a negação das necessárias transformações das relações de propriedade.

O futuro pertence ao socialismo

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Com a destruição do socialismo na Europa, o mundo tornou-se completamente caótico e desorientado. Os EUA, autoproclamados polícias do mundo, atuam a seu bel-prazer e impõem a “nova ordem mundial” a golpes de bombas e mísseis.

A tão glorificada nova liberdade priva o indivíduo da mínima segurança. A “livre” economia de mercado penetra em todos os domínios. As conquistas sociais foram condenadas a desaparecer.

Numa nova sociedade tem de haver um lugar para cada um dos seus membros, não obstante todas as evoluções tecnológicas e outros condicionalismos. Antes de mais isso significa um posto de trabalho para cada um. O capitalismo é incapaz de o garantir, isso é hoje mais evidente do que nunca. A corrida aos lucros fixa os limites à sociedade capitalista. Quer se queira quer não, no mundo capitalista atuam as leis que Marx e Engels revelaram e provaram cientificamente em toda a sua obra.

Com a fé infantil de que “o mercado tudo soluciona” não se resolve nenhum dos problemas da Humanidade. Por isso inevitavelmente novas forças sociais, alcançarão e organizarão novas relações sociais.

“Ou a humanidade é conduzida ao abismo pelo capitalismo ou vencê-lo-á. A última hipótese é a mais plausível, porque os povos querem viver. Apesar de todas as dificuldades e perigos, apesar da situação sombria, estou e estarei confiante. O futuro pertence ao socialismo”.

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09/Novembro/2016
[1] Erich Honecker (1912-1993) operário e filho de operários, membro da Juventude Comunista alemã em 1926. Estudou em Moscovo no Colégio Internacional Lenine, em 1930 e 1931, regressando à Alemanha em 1931. Foi preso pelos nazis em 1935 sedo libertado no fim da guerra em 1945. Eleito secretário-geral do Partido Socialista Unificado da Alemanha (PSUA) em 1971; eleito Presidente do Conselho de Estado em 1979. Textos completos em:
Notas da prisão (I)
Notas da prisão (II)
Notas da prisão (III)
Notas da prisão (IV)
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Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Hillary admits creation of Mujahedin plague – The Greanville Post — Proletarian Center for Research, Education and Culture

Estudantes em Kabul, Afeganistão (1978), durante o regime socialista apoiado pela URSS.

Source: Hillary admits creation of Mujahedin plague – The Greanville Post

via Hillary admits creation of Mujahedin plague – The Greanville Post — Proletarian Center for Research, Education and Culture

O Liberalismo Semi-Fascista das Escolas Portuguesas

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Basta esta comparação para nos pôr a pensar:
– Os factos observam-se, explicam-se e experimentam-se (é o domínio e a actividade das ciências particulares);
– as ideias compreendem-se, debatem-se e praticam-se (é o domínio e a actividade da Filosofia).
Por conseguinte, a Filosofia e as ciências não se podem equiparar em termos didácticos.
Galileu escrevia que a Filosofia não deveria servir para formar “doutores” em memória. Kant afirmava que o ensino da Filosofia deveria servir para ensinar a pensar. Juntando as duas ideias, podemos encontrar o caminho correcto para a didáctica da Filosofia.
A imagem que vou apresentar de seguida não respeita a uma escola determinada mas a muitas das escolas deste país e reflecte o que tenho ouvido dizer acerca do que se passa nelas. Fica assim ressalvada a identificação oportunista e malévola com qualquer estabelecimento de ensino em concreto.
É evidente que não se ensina Filosofia obrigando os professores a seguir métodos semelhantes, a usar matrizes de testes iguais e a um teste de aferição (necessariamente igual na matriz e nas perguntas, no final do ano lectivo) para todas as turmas. Como se não se desse o caso de haver filosofias mas a Filosofia e como se não se desse o caso de haver alunos mas o Aluno. Não se normaliza a Filosofia como se uniformizam os parafusos.
Também não se ensina Filosofia incentivando a delação, a denúncia por parte dos alunos à direcção da escola quando um professor se desvia, mesmo que só um pouco, do modelo de ensino imposto, impelido pela urgência da sua própria personalidade.

Ainda que certas escolas a que me refiro, como aliás quase todas as outras (sem identificar nenhuma em particular), sigam a ideologia dominante que incentivam – a do liberalismo, concepção burguesa do mundo -, o método que usam para a promover entre os alunos é de estilo fascista: à semelhança deste regime político, realizam-se cerimoniais (actividades) de endoutrinação político-ideológica, que são incentivados de cima, pela direcção e pelo conselho pedagógico, sendo muito mal vistas quaisquer críticas a essas cerimónias e quaisquer outras actividades díspares da ideologia dominante; à semelhança do fascismo, vê-se com bons olhos a existência de informadores.

É a continuação do poder oculto da sombra negra do ensino em Portugal, da senhora Maria de Lurdes Rodrigues. Ela não é a Ministra encartada (creio que é ainda a presidente da Fundação Luso-Americana) mas a sua influência manifesta-se na resistência activa das direcções (e não só) das escolas à mudança de pedagogia que o actual Ministro tem, pelo menos, como programa.

Anticomunista, obrigada! – Clara Ferreira Alves

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Só há uma uma coisa de louvar neste texto: a frontalidade da declaração. O conteúdo, pelo contrário, é uma sequência de banalidades superficiais e e de factos descontextualizados da luta política por uma sociedade de justiça efectiva, real e não apenas formal, a que se pode e deve chamar socialismo, mesmo que nos nossos dias tenha sofrido derrota atrás de derrota pelo novo impulso que o capitalismo se deu a si mesmo através da criação de novas tecnologias, do imperialismo neocolonialista económico e político e da guerra. Nada disso interessa à autora, que só vê no capitalismo a expressão da liberdade política e individual, sem dar pelo facto de que a liberdade política é a liberdade política das pessoas das classes favorecidas verdadeiramente representadas pelos partidos majoritários e que a liberdade individual é a liberdade dela poder escrever o que bem entender, pois o que ela bem entende é o que agrada aos detentores dos grandes meios de comunicação e consolo de massas, é a liberdade de ter a profissão de que gosta, do dinheiro que ganha com ela e das viagens que lhe paga. A sua ideia de
liberdade é um paradoxo bem difícil de justificar.
Entre parêntesis rectos, no corpo do texto da autora, vão os meus comentários.
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Ou António Costa é um génio político e submete os parceiros à sua imponderável vontade ou caminhamos para a mais grave crise de regime depois do 25 de Abr
Não estava à espera neste ponto da minha vida e neste ponto do século XXI, dobrado o século XX há uns aninhos, de ver aparecer a acusação. Anticomunismo. Parece que qualquer pessoa que não confie na bondade intrínseca de um acordo de governo com o Partido Comunista Português é anticomunista. [A autora desconfia da bondade intrínseca do acordo do PS, BE e sobretudo PCP. Deve haver para ela uma intenção escondida por detrás do projecto confessado de lutar por mais soberania nacional e popular, pelo desenvolvimento da economia e da cultura portuguesas, pela redução do esbulho do país e dos trabalhadores por parte dos agiotas nacionais e internacionais, nos quais se incluem Estados como o alemão. Talvez a intenção escondida seja, já não comer criancinhas ao pequeno-almoço mas de acabar com o programa “Eixo do Mal” da rede Balsemão do Grupo Bilderberg onde ela realiza a sua liberdade de expressão e onde a minha liberdade de expressão jamais aspirará a realizar-se?] Confesso ter nostalgia de muitas coisas, mas não desta. A de repensar o anticomunismo privado. Sou ou não anticomunista? E se for? [Não há problema: ninguém pode ser obrigado a ser comunista. Não se preocupe.] A questão não é meramente ideológica, é existencial. É, por assim dizer, teológica. [Uma confissão?! A revelação divina de que o comunismo é o Anti-Cristo?] Cheguei à conclusão, depois de muito matutar, de que sou anticomunista. Acredito na economia de mercado, no capitalismo regulado e na iniciativa privada. [“Capitalismo regulado”. Pois bem, esse “capitalismo regulado” existe pelo menos desde o século XIX através das Constituições políticas, dos Códigos jurídicos, das leis estatais, da polícia e das forças armadas, que defendem a propriedade, a liberdade contratual, regulam as finanças, impõem regras de produção, de cotas de mercado e acordos internacionais de acesso às matérias-primas e à mão-de-obra. Com isso tudo, não tivemos justiça social mas exploração quase ilimitada, não tivemos paz mas as duas guerras mais mortíferas que a História já viu, não tivemos partilha de bens mais a mais feroz apropriação da riqueza e do trabalho das nações mais fracas, não tivemos respeito pela democracia mas manipulação sofisticada e, quando esta não resultava, promoção de golpes de Estado e de guerras civis com os seus milhões de mortos sacrificados ao deus mercado, ao pluripartidarismo do capital e à liberdade da imprensa magnata.]. Não acredito na coletivização da propriedade e da economia, na eliminação da competição nem na taxação intensiva do capital. [É verdade que  a iniciativa privada foi mal compreendida pelo movimento comunista que esteve no poder, mas também é mal compreendida pelo capitalismo. A iniciativa privada é a iniciativa de pessoas detentoras de propriedade privada dos meios de produção. Mas a iniciativa individual não se reduz ao empreendedorismo dessa classe de pessoas. Reconheço que esta é a cruz do comunismo, ou muito melhor, uma contradição que existiu e que precisa de ser resolvida, não de ser exacerbada. É preciso conciliar dialecticamente a planificação em traços gerais nos domínios básicos da economia com a inventiva pessoal e de grupo a respeito da ciência, da tecnologia, do urbanismo, da arquitectura, da gestão produtiva, do património, das artes, etc. Em vez de decretar ad eternum a impossibilidade da sinergia das partes e do todo num caminho de resolução progressiva das sucessivas contradições que um processo real necessariamente apresenta, deve ter-se por meta a concretização de tal caminho, da qual uma etapa imperativa será o fim da fonte mais essencial de contradições (sem que desapareçam nunca outras menos graves): a propriedade privada dos meios de produção, para dar lugar a organizações produtivas de iniciativa própria criativa colaborativa e a actividades particulares e de grupos restritos dedicados à produção de bens mais específicos e menos massificados à partida ou à experimentação em múltiplas áreas. Estou em crer que o fracasso do socialismo real na implementação desta dialéctica concreta não se deveu tanto a resistências administrativas e a políticas centralizadoras e autoritárias mas ao facto da luta contra as ameaças do capitalismo internacional e da reacção interna ter criado precisamente as condições de possibilidade, e mesmo a necessidade, dessa centralização e desse autoritarismo. Quanto  à competição, para já não falar da desportiva, em ambiente socialista recebe o nome, um tanto patusco, de emulação. Em teoria, o socialismo não elimina a competição: pela melhoria da produção, face à exigência da população, da qualidade dos bens produzidos, face à mesma exigência, onde – e foi um facto, embora bastante limitado – diversas unidades produtivas (em todas as esferas) disputavam as preferências do público. Em todo o caso, o socialismo só é obrigado a limitar a competição pelo controlo do excesso de produção e da empregabilidade – problemas, na verdade, complexos mas não impossíveis de solucionar. Não vou falar aqui do pecado da “taxação intensidade capital”.] O atual Partido Comunista não partilha estas minhas convicções. É coletivista, e foi sempre, ao contrário do que nos querem convencer, pragmático. O PCP foi sempre pragmático e anti-idealista por natureza. Nunca foi um partido romântico e só teve um panfleto literário romântico, os “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes. Tirando isto, o PCP é um bloco realista e de realismo social, no sentido que a palavra tinha no século XIX. [É verdade! Mas idealismo em que acepção? O que acreditar que são as ideias que determinam a Historia? O de fantasiar com metas miraculosas? O de ter um ideal de Homem e de Humanidade? Ou simplesmente o de querer um mundo sem exploração? E que romantismo? O da nostalgia do passado mítico de um povo ou de uma cultura? O da crença no espírito imaterial e místico de um povo? O do desprezo pela razão em detrimento da vontade? Ou simplesmente o que rejeita o rasteiro utilitarismo da política pragmatista?] Para o PCP, a marcha da História é marxista, o sentido da História é o da extinção do capitalismo (e não a sua regulação) [Quanto a isto já estamos falados.] e o da criação de uma nova consciência social, cívica e política nas mãos do proletariado e das suas vanguardas, organizadas em comités, ou no que lhes quiserem chamar, que controlem os meios de produção e os seus instrumentos financeiros. [Se se substituir a palavra “proletariado” por “trabalhadores” ou por “homens e mulheres que desenvolvem o seu trabalho a partir de meios cujo uso é assegurado pelo Estado contra a sua apropriação privada sem usarem o trabalho dos outros para acumularem a mais-valia do produto da actividade destes para fins privados”, ficará menos chocada? Com certeza que não. A autora, como muito outros, fez a sua vida, adquiriu os seus hábitos, interiorizou os seus valores na formação social capitalista. Não só foi convencida da bondade final do capitalismo por não ter nascido de outra coisa como ganhou e bem com ele, em dinheiro e, no seu caso, sobretudo em prestígio. Outra atitude não seria de esperar dela.] O PCP era isto. E é isto. Por razões históricas, fui sempre anticomunista. E por razões ideológicas, também. Sou uma anticomunista que não tem vergonha de ser anticomunista e que tem e teve amigos comunistas (mais teve do que tem, porque tudo o que se relaciona com esta doutrina é, irremediavelmente, passado). Claro que podem ler nesta frase — “tenho amigos comunistas” — a mesma desconfiança que leem quando os homofóbicos dizem que têm amigos gays. E, já que falamos disso, o PCP sempre foi ferozmente antigas. [A autora desconhece que um dos secretários gerais do PCP durante a ditadura fascista era homossexual. É verdade que foi destituído, mas o motivo invocado foi o de que o seu modo de  vida o expunha e expunha em perigo. Houve mesmo cenas de homossexualidade entre comunistas detidos em prisões fascistas. Um número significativo de intelectuais e artistas comunistas era homossexual. Contudo, entre os comunistas há homens e mulheres e esses homens e mulheres não são apenas comunistas. Como disse uma vez Bertold Brecht num dos seus poemas, a única qualidade de um comunista é ser comunista.] Só se mudaram. Já lá iremos.
Sou anticomunista por razões históricas e profundamente temperamentais. Como boa individualista que sou, tenho horror a coletivismos impostos, e uma boa parte da minha adolescência e entrada na idade adulta foi passada a assistir e a resistir a isto. Posso mesmo dizer que, doutrinariamente, o que me definiu foi ser anticomunista. O fascismo tinha terminado no 25 de Abril. O fascismo foi outro regime totalitário que não percebeu a História. Comecemos pelo princípio. [Comecemos pelo princípio, que é o que a autora não faz. A luta de classes, na qual a autora parece não acreditar, não é um jogo entre amigos. Quem é proprietário de meios de produção raramente decide abdicar deles. Um dos meios de os conservar é através do Direito. Nessa luta que a autora abomina e que chama de colectivismo há que coarctar as manobras e o poder dos que querem manter o Direito como instrumento do capital. Tratava-se, pois, de uma luta. Não se poderia agir com bons modos e ir a banhos juntos. É pena que assim seja – mas não pode ser de outra maneira. É uma etapa necessária para se transformar radicalmente a estrutura de classes da sociedade. A autora decidiu ser amiga dos agentes jurídicos do capital. E é tudo. O resto não vale a pena comentar, a não ser o seguinte. Não há dúvida que um dos grandes problemas do comunismo, enquanto movimento político, foi sempre a sua relação com a diversidade de correntes artísticas. Sabemos que o comissário da Cultura do governo de Lenine, Anatoly Lunatcharski era um místico religioso, mas isso não o impediu de dirigir a política cultural do poder dos sovietes. Acontece que a arte, como a ciência e a tecnologia não medram por ditames superiores e mesmo quando em séculos passados os empregadores dos artistas eram altos dignatários da Igreja e do Estado e as  encomendas que lhes faziam tinham explícita ou implícita a obrigação de celebrarem o seu poder, os seus feitos e os seus valores, tais encomendas só resultavam em boas obras de arte se a liberdade criativa da individualidade do artista tivesse a possibilidade de se manifestar nelas. Por isso, também nessas épocas havia bons e maus artistas. Ora, a ideologia proletária e popular do comunismo impediu a necessária individualidade do artista criador porque o comunismo pôs, e talvez tenha sempre de pôr, acima de tudo, na esfera ideológica, a divulgação das suas ideias relativas à essência da luta e classes e à criação de uma moral muito específica, a do igualitarismo, embora não uniformizador em princípio. Mas a arte não tem imperativamente de propagar valores individualistas e egoístas, facilmente manipuláveis pela reacção interna. A  arte pode e deve ser livre na exploração de novas maneiras de ser e de fazer, na representação ou expressão de problemas sociais e individuais, que nunca deixarão de existir, mesmo na melhor das sociedades. A dificuldade para o comunismo em aceitar a liberdade na arte resultou, todavia, da consciência de um facto muito real: a da manipulação da inventiva difícil e da crítica artísticas no sentido da desmoralização e da subversão anticomunistas. Mas, ó surpresa! Mas, ó contradição real! Tomem conhecimento das mais acessíveis das actividades artísticas – cinema e artes-plásticas – e verifiquem um outro facto também muito real: a grande criatividade nessas áreas em diversos países socialistas (União Soviética, Polónia, Hungria, Jugoslávia), que superou não só em génio formal muito do que se fazia nas sociedades capitalistas avançadas mas também na complexidade, profundidade e liberdade de conteúdo. Eis mais uma das contradições de que é feita a vida e a História no seu todo e, neste caso, a do movimento comunista. Vamos desistir? É mais uma entre as contradições ditas insolúveis ou a realidade desse mesmo movimento deve consistir em superá-las?]
Na Faculdade de Direito de Lisboa, os estudantes comunistas tinham o estranho hábito de decretar greves gerais sem consultarem todos os alunos nessa votação. Um aluno chegava à faculdade e diziam-lhe: hoje não entras, há greve. Há greve? Quem votou? Nós. Nós quem? Numa reunião secreta. Se foi secreta, como é que votámos? Nós votámos. Por causa desta discussão insana que despertava em mim instintos libertários e anarquistas, cheguei a furar uma ou duas greves com mais uns dementes como eu que não gostavam de ser paus-mandados. De um lado tínhamos os gorilas e do outro lado tínhamos as greves obrigatórias dos comunistas, que se arrogavam o monopólio da contestação. A UEC era formidável nisto, no monopólio da contestação, e quando o MRPP tentou furar este monopólio teve o apoio de boa parte dos estudantes, que estavam fartos da UEC e dos seus esbirros da MJT. A MJT era o braço armado dos comunistas e chegou a encerrar alunos dentro das aulas para bater nos maoistas à vontade depois de deixar sair os outros, os “cobardes”. Uma das vezes, escapuli-me por uma janela antes que a MJT entrasse armada de matracas e correntes de bicicleta. A MJT era o operariado da UEC para a porrada. O Movimento da Juventude Trabalhadora. Quando o COPCON entrou pela faculdade, dando cabo de tudo à passagem, esgueirei-me para Coimbra em “transferência secreta” (não podíamos fugir da revolução em curso) e implorei ao professor Rui Alarcão que me aceitasse na vetusta instituição. Em Coimbra, vigorava um comunismo soft. Os comunistas controlavam tudo muito civilizadamente. Sem pressões e mantendo o currículo académico. Restava o problema dos sovkhozes e dos kolkhozes. Sobrando em Direito professores comunistas que não abdicavam da coletivização dos bens e dos meios de produção, fomos obrigados a estudar marxismo coagidos pela frase: quem vier para as minhas provas escritas e orais defender a propriedade privada pode contar com um chumbo. Andei em guerra até ao fim do curso com um professor chamado Orlando de Carvalho, que jurou que me chumbaria em qualquer circunstância (deu-me 14 depois de eu ter encornado a sebenta toda, incluindo as cedilhas e os pontos e vírgulas e, salvo erro, a célebre nota 64). O Orlando era um comunista católico envergonhado. Era um coletivista desavergonhado e um misógino desembestado. Sem dinheiro para ir estudar para fora e fugir desta gente, achei que mais valia submeter-me e engolir a teoria, engolir os kolkhozes e os sovkhozes (que eram de outro professor comunista) e despachar-me daquilo. Foi o que fiz.
O Partido Socialista parecia-me, com Mário Soares e a doutrina do socialismo democrático, a única oposição responsável ao totalitarismo de Cunhal e dos militares que não queriam regressar aos quartéis. Estive na Fonte Luminosa, claro, e assisti ao lento e duríssimo processo da democratização de Portugal. Os comunistas eram o que tinham sido sempre, intratáveis e muito pragmáticos. Quem não era por eles era contra eles. Nunca entrevistei Cunhal até ao fim da vida dele porque sempre recusei mostrar-lhe a entrevista para ele editar à vontade. Não iria à Soeiro Pereira Gomes. Um dia, consegui negociar. Iria à Soeiro Pereira Gomes, mas editaríamos o texto juntos. No que eu não concordasse, não passaria a emenda. Cunhal aceitou, e a conversa resvalou para Shakespeare e o “Rei Lear”, que ele queria traduzir (acabar de traduzir). Não emendou nada da entrevista. Álvaro Cunhal, com perto de 80 anos, tinha adoçado e era uma figura intelectual respeitável que eu respeitava muito. Já não era o inimigo. Havia uma diferença entre conversarmos sobre Shakespeare — o “Rei Lear” é a minha peça favorita e era a dele, um tratado sobre o poder e a partilha do poder — e ter o doutor Cunhal a mandar na minha vida. Na verdade, anos antes, o doutor Cunhal quisera fazer de Portugal a jangada de pedra do estalinismo europeu. Uma espécie de little Bulgária. Do PCP tinham entretanto saído muitos dissidentes, enquistados com a ausência de democracia intrapartidária. Muitos desses dissidentes eram ou tinham sido comunistas ortodoxos, dos que aplaudiram de pé a entrada dos tanques do Pacto de Varsóvia em Praga. Eu estava, sempre estive e estarei com os dissidentes checos, com Václav Havel e com a democracia.
Em Portugal, o PCP sufocou todos os desvios à sua norma ou absorveu toda a contestação não emanada das suas instâncias representativas da massa. Da massa, sim, não da cultura de massas. Por um lado, o PCP tinha a tradição da clandestinidade e da coragem na clandestinidade e não admitia dissidências desta tradição. Julgava-se o único detentor da verdade contestatária (como se tinha julgado na Faculdade de Direito o único autor das greves estudantis). Por outro lado, a cultura de massas assente no individualismo era-lhe profundamente estranha. No meio literário português dominava largamente, não apenas através das instituições que controlava (da APE à SPA) como através dos compagnons de route sem filiação na extrema-esquerda radical e sem movimentos adequados à sua representação. O papão da direita e um esquerdismo social unia esta gente. Mais um certo aggiornamento chique que, pensavam erradamente, o PCP lhes conferia. A Festa do “Avante!” era um dos altares desta missa. O PCP pode ter muitos defeitos, mas nunca foi um partido estúpido, embora tenha sido apanhado desprevenido com a queda do Muro de Berlim. Quem não foi? O PCP olhou para Gorbachev primeiro com ódio e depois com incredulidade. O império soviético desmoronava-se. Os que acreditaram numa mudança de mentalidades dentro do PCP depressa foram expelidos ou condenados pela inquisição do partido. O PCP não mudara. O mundo mudara sem ele.
A atitude intelectual totalitária que caracteriza o PCP deixou como legado a anemia intelectual portuguesa. O neorrealismo deixou de ser dominante, mas não chegou a ser substituído por movimentos herdeiros da modernidade e do modernismo. Nem por um esboço de pós-modernismo importado de Paris. Esta é a nossa tradição. Os grandes intelectuais portugueses sentiram-se sempre exilados dentro do seu país, como Fernando Pessoa e Alexandre O’Neill, ou exilados reais, como Jorge de Sena. Ou como Eduardo Lourenço, que sofreu a ansiedade da separação. E havia os açorianos, uma casta especial de solipsistas, de Vitorino Nemésio a Natália Correia. São, todos, navegadores solitários. Pessoa teve a sorte de ter tido a geração de Orpheu a fazer-lhe companhia.
Basta ir a Londres e à Tate Modern, e visitar a exposição “The World Goes Pop”, para ver como Portugal não consta desta revolução. É a única ditadura ocidental dos anos 60 e 70 que não teve representantes e cultores pop. Não teve movimento pop. Não teve a anarquia pop. O protesto pop. A arte pop. O Brasil teve, a Argentina teve, o México teve, a Espanha teve, o Chile teve. Portugal não teve. Devemos isto ao PCP e à hegemonia do PCP num país pequeno e sem mercado de ideias, vinculado ao Estado e aos ditames e subsídios e cargos do Estado. A única escritora portuguesa que verdadeiramente escapou a esta hegemonia foi Agustina Bessa-Luís, e por isso ela permanece o ícone intelectual da direita (da nova direita) e por ela é exaltada e venerada. Agustina era o triunfo do individualismo desde que decidira escrever “A Sibila”. Agustina detestava os comunistas, não por serem comunistas mas por não serem livres. Tive com ela esta discussão e sei que as palavras de Agustina eram diferentes das palavras de todos os outros escritores, incluindo os liberais cosmopolitas que estavam próximos do PS, como Sophia de Mello Breyner ou David Mourão-Ferreira. Agustina não é, não era, nunca foi de esquerda. Nunca precisou de uma moral de esquerda, tal como esse lúcido libertário chamado Mário Cesariny de Vasconcelos.
Para a nomenclatura do PCP, ser de esquerda era mais benéfico do que ser comunista, quando se tratava de escritores. Controlando as instituições, o PCP resistia a dar prémios literários a José Saramago. Porquê? Dava-os aos outros e não a ele. Deu a José Cardoso Pires e a Paulo Castilho ou Mário Cláudio. Nunca deu a “Memorial do Convento” e a “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. Porquê?
Assente-se que Álvaro Cunhal não gostava de Saramago. Nem pessoalmente nem literariamente. Cunhal era um esteta, um romancista falhado, e nem no estilo nem na receção crítica do estilo, relacionados com a pureza do neorrealismo, podia identificar-se com a retórica do escritor-estrela dos comunistas. Saramago era um maneirista inspirado pelo padre António Vieira e o Século de Ouro espanhol, e mais depressa apanhariam Cunhal a aplaudir a subversão existencialista de um Albert Camus do que um missionário jesuíta do século XVII. Saramago era um escolástico, e Cunhal abominava a escolástica. Ninguém reparou nisto. Foram mais rivais do que Eça e Camilo foram. E o PCP nunca gostou de estrelas.
E a direita? A direita portuguesa foi sempre preguiçosa e tendencialmente analfabeta. Quando digo a direita, digo o capital, os capitalistas portugueses. Simbolicamente gordos e anafados como nas caricaturas de Vilhena, nutriam pelos socialismos e pela social-democracia um ódio rancoroso e viviam no passado. Sá Carneiro foi tolerado por eles, não foi amado. Até nascer o novo capital, o das novas empresas e grupos e dos novos assalariados de luxo do novo capitalismo português, a direita era uma caricatura sem ideologia com uma ou duas figuras excecionais na indústria, como António Champalimaud. Ficara presa à nostalgia do antigo regime, sem particular engrandecimento da memória imperial, às vezes por ignorância, e a uma postura cívica sem mestre intelectual. Os raros ativistas letrados e revolucionários desta direita sentiam-se órfãos. Como dizia um deles, a direita portuguesa era do género: vão andando que depois vou lá ter. Os outros converteram-se e decidiram trabalhar com quem estivesse no poder. Nascia gente na banca e nas empresas, produto da democracia e da pequena burguesia dos partidos, que não se revia na direita mumificada. Esta ficou à espera de D. Sebastião e chegou a ver nos traços endurecidos de Aníbal Cavaco Silva, um membro do povo que tinha tudo para lhes ser estranho, a face do salvador. Como vira em Salazar.
Neste ambiente, PCP e PS dominaram tudo. Dominaram a literatura, dominaram a música, o teatro, o cinema, a fotografia, as artes, o jornalismo, a crítica, tudo. Foi preciso esperar pela agonia do século XX para esta dominação se atenuar. A revolução tecnológica capitalista pôs-lhe cobro de vez.
No século XXI, amigos meus que tinham sido comunistas desde crianças, como Miguel Portas, confessavam a sua desilusão com o comunismo e a crença numa nova esquerda. O que Miguel Portas fez, e só fez, foi tentar experiências de esquerda que escapassem à ditadura intelectual comunista. Revistas, jornais, intervenções, plataformas e, finalmente, a criação do Bloco de Esquerda. Pressagiei que as alianças entre estes esquerdistas ilustrados e estrangeirados e os radicais da extrema-esquerda e de partidos como a UDP não seria um casamento feliz. Não foi. As tensões dentro do Bloco desaguaram nas dissidências do Bloco. Assisti a isto mais ou menos por dentro e discuti isto muitas vezes. O Bloco era importante para as causas ditas fraturantes, porque o PCP era um partido ferozmente conservador e antirrevolucionário nos costumes. Tendo criado a sua moral, a sua igreja e a sua liturgia, o PCP nunca transigia. Era nisso simétrico da direita reacionária. A aliança tática entre PS e Bloco permitiu “desbloquear” certa legislação que andava pendurada há anos na boa consciência de católicos e de direitistas.
O contributo de forças como o PCP e o Bloco para a democracia portuguesa é importante, apesar destes desníveis. Mas só é importante por ter sido enquadrado e travado pelo socialismo democrático dos socialistas e a social-democracia dos sociais-democratas.
Tal como o PSD, o PS tem sofrido um desgaste e uma desvalorização intelectual preocupantes. O PS de homens como António Arnaut ou Mário Soares já não existe. Nem sequer existe o PS de António Guterres. O PS de hoje divide-se entre os socratistas, com tudo o que de nefasto essa denominação representa, os oportunistas e os apoiantes de qualquer chefe que conduza ao poder um grupo de gente que sabe que o partido precisa de lançar mão do aparelho de Estado para sobreviver politicamente. Junte-se ao caldo meia dúzia de jovens idealistas sem maturidade. À direita, o “ideologismo” (chamar-lhe ideologia seria um manifesto exagero) pseudoneoliberal de Passos Coelho e dos videirinhos amestrados, de que Relvas é a caricatura apurada, forneceu a uma gente desavinda pela História o último pretexto para a união.
Uma união que nunca se consumaria. O PS não é coletivista. Não foi. Não será. É um velho partido de católicos e de maçons que se sente ameaçado e está a jogar póquer fechado com altas paradas. E a direita de Passos perdeu esta jogada, num espanto emudecido que não provocou um texto, um pretexto, um protesto. A direita portuguesa continua a dizer: vai andando que já lá vou ter. Deixou a contestação aos jornalistas e articulistas que julga protetores do statu quo. Esta nova aliança das esquerdas descambará em novas direitas, seguramente.
A destruição do centro, à esquerda, e a insensatez de quem nos tem governado, à direita, tornaram o combate ideológico um combate tribal, como o futebol. Um combate onde não vingam a inteligência e a ilustração. Muito menos a memória. Não é preciso invocar a Europa e a sua putativa falência, ou o diktat de Bruxelas, para concluir que o PS abriu a boceta de Pandora. Convencidos de que os comunistas mudaram, os socialistas serão, como recusaram historicamente ser, chantageados por um partido que joga aqui a sua derradeira cartada da História. O comunismo acabou em toda a parte, mas não aqui, não aqui. E não acabou aqui porque a desigualdade e a pobreza que a direita exalta em Portugal como regra de vida comum, como modo operativo de um capitalismo egoísta, autodidata e desmembrado, são a bandeira do PCP. São o seu eleitorado. Juntem-lhe os funcionários públicos num país envelhecido onde todos dependem do Estado, da banca aos artistas, e temos a explicação do anacronismo chamado Partido Comunista Português. Tal como o capital, o trabalho sabe defender-se.
O Partido Socialista meteu-se nesta querela sem ter trunfos na manga. Perdeu as eleições, e isso faz toda a diferença na potestade. O PS não tem sobre o PCP e o BE um direito potestativo. São eles que o têm, e exigirão a submissão. Não sei como sairá disto. Sei que das duas uma. Ou António Costa é um génio político e submete os parceiros à sua imponderável vontade ou caminhamos para a mais grave crise de regime depois do 25 de Abril. E, talvez, para o fim do regime saído do 25 de Abril.
Quanto a mim, sou o que sempre fui. Portuguesa e anticomunista, obrigada. Nisso, não mudei.

L’Euro-fédéralisme, ou le lit de Procuste Par Bruno Guigue le 07 juillet 2016

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L’Euro-fédéralisme, ou le lit de Procuste *
Après la stupeur provoquée par la fronde populacière du 23 juin, les dirigeants de l’UE s’emploient à faire comme si de rien n’était, l’essentiel étant de perpétuer l’ordre des choses tout en tentant de limiter les dommages collatéraux. Faisant de nécessité vertu, ils appliquent alors un raisonnement qui est celui de la branche pourrie. Pour conjurer le risque de contagion qui menace l’édifice branlant échafaudé depuis trente ans, ils ne veulent voir dans l’amputation du membre félon qu’un inconvénient passager. L’important, c’est que les affaires reprennent et que rien ne change, à 27 comme à 28.
Tentation du statu quo
Pour la Commission, solder les comptes du Brexit permettra bientôt de le réduire au statut inoffensif de mauvais souvenir. Au prix d’une mutilation dont le préjudice est jugé surmontable, on entend bien perpétuer ad libitum l’espace mirifique du grand marché et en maintenir les règles, comme si rien de substantiel ne devait l’affecter. A ceux qui ne l’auraient pas compris, Jean-Claude Juncker a d’ailleurs adressé une formidable leçon de choses en annonçant, dès le lendemain du vote britannique, la poursuite des négociations sur l’instauration du libre-échange avec le Canada.
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Les dirigeants de l’UE, ont énoncé mercredi à Bruxelles leurs lignes rouges vis à vis de Londres. | EPA / MAXPPP
De leur côté, les partisans du fédéralisme se réjouissent secrètement de la défection d’un Etat qui constituait une pièce rapportée de la construction européenne. Et s’imaginant sans doute que l’UE y gagnera en cohésion, ils font la promotion d’un projet éminemment progressiste consistant à pousser les feux de l’intégration au moment même où un peuple d’Europe vient de la rejeter. Ce projet repose, il est vrai, sur un mythe tenace qui refait surface à chaque crise comme un serpent de mer, et qui se présente comme la solution rêvée aux déraillements récurrents de la machinerie communautaire. Ce mythe tenace, on le sait, c’est la transformation progressive de l’UE en un véritable Etat fédéral, au nom d’une communauté de destin supposée entre les peuples du Vieux Continent.
Haro sur l’Etat-nation
Perspective radieuse sur le papier, mais au prix d’une sérieuse prise de distance avec le monde réel. Ignorant toute profondeur historique, ses partisans font comme si la fabrication d’une entité supranationale pouvait damer le pion à des nations millénaires. Biffant d’un trait de plume technocratique l’histoire et la géographie, ils voient dans l’Etat-nation, au mieux, la butte-témoin d’un âge révolu. Ils y discernent avec dédain une sorte de survivance archaïque promise à l’étiolement, voire un simple catalogue d’us et coutumes révocable à loisir sur injonction bruxelloise.
C’est pourquoi ils espèrent l’avoir à l’usure. Avec le rouleau compresseur de l’intégration, ils veulent le faire disparaître, cet Etat-nation qui sent le moisi. Pour prémunir le capital de ses foucades démocratiques, ils lui substituent patiemment, depuis trente ans, un artefact dont l’obéissance aux marchés est garantie sur facture. L’Etat-nation est déjà privé de sa monnaie ; sa politique budgétaire est corsetée par des règles absurdes ; on lui interdit toute politique industrielle ; il est assujetti à des directives soustraites à la délibération populaire, mais ce n’est pas suffisant ! Par de nouveaux transferts de souveraineté que l’on justifiera en agitant l’épouvantail du populisme ou en brandissant l’étendard de la modernité, le fédéralisme n’aura de cesse de le mettre complètement à poil.
Le lit de Procuste
Prokrustes
Peu importe que la réalité historique des Etats-nations, attestée par la permanence des référents symboliques qui définissent le génie national, passe par pertes et profits du grand projet unificateur. Les langues nationales seront remplacées par l’anglais, et la culture originale dont témoignent ces idiomes ancestraux sera bientôt diluée dans les prétendues valeurs communes d’une Europe adonnée au Veau d’or. Comme le lit de Procuste, l’euro-fédéralisme coupe tout ce qui dépasse ! Il rêve d’annihiler les différences nationales pour les fondre dans un magma insipide dont le résultat prévisible sera, au mieux, la condamnation des Européens à l’impuissance collective.
Voulue par les concepteurs de l’Union, cette impuissance n’est pas un raté du système, elle en est l’essence même. En flouant la souveraineté nationale, en déniant à l’Etat le pouvoir de mener sa politique, le fédéralisme anéantit la volonté populaire. Car si un Etat ne peut plus décider de sa politique, on ne voit pourquoi il faudrait demander au peuple d’en délibérer. Les euro-fédéralistes le savent mais ils n’en ont cure : tuer l’Etat-nation, c’est tuer la démocratie. La nation, en effet, est le cadre ordinaire dans lequel un peuple peut s’imposer les lois de son choix, en changer si bon lui semble, et élire les dirigeants à qui il confie le soin de les appliquer.
Par une supercherie dont l’UE est la caricature, les fédéralistes entendent substituer à des Etats-nations historiques dans lesquels les peuples se reconnaissant une supra-nation dont personne n’a la moindre idée. Dans cette construction idéologique, le projet chimérique de l’Etat fédéral européen sert de paravent à une démolition en règle des corps collectifs dont l’Etat-nation est la clé de voûte. Au nom d’un super-Etat imaginaire, on entend saper l’existence de ces formes d’organisation collective qui ont fait l’Europe moderne, malgré les attaques qu’elles subissent désormais de la part des commis du capital.

Le modèle américain
Que l’Europe politique ait eu pour promoteur Jean Monnet, homme d’affaires travaillant pour les Etats-Unis, rappelle que la construction européenne est un projet made in USA. Car elle avait et elle a toujours pour finalité essentielle l’assujettissement de l’Europe occidentale, formidable réservoir d’hommes et de marchés, à l’hégémonie américaine. Mieux encore, les fédéralistes européens prennent les USA comme modèle, comme si les deux continents avaient des histoires comparables. Ce faisant, ils s’aveuglent sur les vertus de cette comparaison. Car ils oublient que c’est le vide des grands espaces américains, purgés de leurs indigènes récalcitrants, qui donna aux Etats-Unis leur cohésion, leur permettant d’absorber les vagues d’immigration successives en provenance du Vieux Continent.
s’il y a une nation américaine, c’est parce qu’elle est dès l’origine la projection de l’Europe vers son propre occident et qu’elle s’est déployée depuis un centre, le Nord-Est des Pères fondateurs, vers une périphérie qui fut une terre de conquête. Ce qui a fait l’unité américaine, c’est cette vacuité de l’espace. Terre sans histoire (autre que l’histoire à venir), l’Amérique a offert la virginité de ses plaines fertiles au labeur acharné de ses pionniers. Il est plus aisé, pour une communauté humaine, de forger son unité dans une géographie sans histoire que dans une géographie qui en est pleine, dans un espace vierge que dans un lieu déjà saturé de sens. Moyennant la destruction cynique des sociétés indiennes, la nation américaine a saisi cette chance.
L’alibi fédéraliste
Entre les USA et l’Europe, comparaison n’est donc pas raison. Le terreau de la construction européenne est encombré d’histoire, tandis que celui de la nation américaine était déblayé avant usage. La mémoire européenne est pleine, celle de l’Amérique cherche désespérément à se remplir. L’Amérique a fait de l’un avec du vide, et elle s’est contentée de le remplacer. L’Europe veut faire de l’un avec un multiple saturé qui lui colle à la peau. L’Amérique s’est bâtie sur une géographie sans histoire (européenne), l’Europe entend bâtir son avenir, mais en composant avec son passé. C’est pourquoi l’idée européenne a bien un sens, mais ce n’est pas celui que veut lui imposer au forceps l’idéologie fédéraliste.
L’euro-fédéralisme, en réalité, n’est pas un projet, mais un alibi. C’est une machine de guerre visant au désarmement unilatéral des souverainetés populaires, une tentative obstinée d’évidement, sous des prétextes humanistes, de ce qui constitue le substrat de la démocratie moderne. Vêtu des oripeaux du pacifisme, de l’humanisme et du progressisme, sa logique infernale accoucherait immanquablement de leurs contraires. En ramenant au plus petit dénominateur commun des volontés populaires privées de leur cadre naturel, l’euro-fédéralisme, s’il parvenait à ses fins, porterait le germe des affrontements qu’il prétend empêcher. Rien de bon pour les peuples européens ne sortira jamais du lit de Procuste.
Bruno Guigue | 7 juillet 2016
* Faire un lit de Procuste, désigne la tentative de mettre tous les hommes dans le même moule, standardiser les opinions et les comportements. C’est uniformiser, quitte à déformer ou dégrader. C’est reconnaitre ne pas être capable de s’adapter aux cas particuliers.
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Bruno Guigue, ancien élève de l’École Normale Supérieure et de l’ENA, Haut fonctionnaire d’Etat français, essayiste et politologue, professeur de philosophie dans l’enseignement secondaire, chargé de cours en relations internationales à l’Université de La Réunion. Il est l’auteur de cinq ouvrages, dont « Aux origines du conflit israélo-arabe, L’invisible remords de l’Occident, L’Harmattan, 2002 », et de centaines d’articles.
Source: http://arretsurinfo.ch/leuro-federalisme-ou-le-lit-de-procuste/