Amor, Linguagem e Metafísica

 

Já Francis Bacon, no Novum Organum (1620) denunciava, como “Ídolos do Foro”, o atractivo mágico da linguagem, não só para o metafísico como para o comum dos mortais:
«as palavras podem virar e reflectir o seu poder contra o entendimento, efeito esse que tornou sofísticas e inactivas as ciências e a filosofia. É que as palavras são frequentemente impostas a partir da apreensão do homem comum e dissecam as coisas segundo as linhas mais perceptíveis ao entendimento comum. O que acontece é que quando um entendimento mais penetrante, uma observação mais atenta pretende deslocar essas linhas, a fim de as tornar mais conformes à natureza, as palavras [quais “primeiro-motor”, “destino”, “elementos substanciais”, “pesado” ou “leve”] opõem-se a esse intento com grande alarido.»
O sábio, Procurador Geral, Ministro da Justiça, Chanceler do rei Jaime I, põe-nos igualmente de sobreaviso, talvez por experiência própria, contra os enredos teóricos e as falácias pseudo-demonstrativas, que, ambos, ligando as palavras umas às outras, concluem pelo ponto donde a vontade humana partiu. Juiz em causa própria, nada pode provar, mas satisfaz a auto-estima e convence quem aceita tais regras do jogo sem saber de que se trata dum jogo viciado.
Advertindo de tais ilusões, denominadas por ele de “Ídolos do Teatro”, escreve:

 

«As fábulas deste tipo de teatro têm isso em comum com aquilo que é usual no teatro dos poetas: as narrações imaginadas para a cena são mais harmoniosas, mais elegantes e mais conformes àquilo que pretendemos que elas sejam do que as narrações verídicas extraídas da História.»
Em suma, Francis Bacon afirmava no século XVII, muito antes do aparecimento dos Ideólogos (séc. XIX), que as ilusões não são só fábulas inventadas mas expressão da própria natureza humana, tornando possível conhecê-la melhor:
«Os Ídolos da Tribo têm o seu fundamento na própria natureza humana, na raça, na espécie humana. […] O entendimento humano assemelha-se a um espelho imperfeito que, exposto aos raios das coisas, mistura a sua própria natureza com a natureza das coisas, falseando-as e distorcendo-as.»
O reconhecimento desta inversão do sentido ser-pensar permite compreender a filosofia, já não como elucidação do ser, mas como sintoma de um estado de coisas no universo humano, revalorizando-a enquanto facto resultante do desenvolvimento dos processos objectivos de existência, que leva ao surgir do trabalho espiritual abstracto, o qual contribui para determinar cada estádio social como uma específica, rica e contraditória actividade retroactiva entre as forças e relações produtivas, a organização política, as formas espirituais objectivas e hipostasiadas da moral, do direito e da religião, reguladoras do comportamento, estádio cuja cúpula, nas sociedades democráticas, além da ciência e da arte, é constituída pela filosofia, a qual, reificação das reificações, tende a inverter todo o processo social.
Se ela julga a dor como causa da doença, o sofrimento espiritual como patologia do espírito puro, cabe ao cientista verificar que distúrbios objectivos estão na base dos padecimentos metafísicos.
Exemplifiquemos. Marx, em A Sagrada Família, comenta jocosamente a crítica indignada do neo-hegeliano Edgar Bauer a um livro do comissário da polícia Béraud em Paris sobre a prostituição tratada como um problema de ordem pública. Embora as “mulheres da rua”, assim como os bordéis e as(os) amantes, sejam um efeito das necessidades humanas insatisfeitas pela estrutura da família numa dada ordem social, Bauer julga a prostituição como resultado do “sofrimento do Amor”, mostrando apenas com isso a importância e o facto, não explicado, da perversão, numa certa sociedade, do amor enquanto necessidade humana, demasiado humana para ele, além do facto subjectivo de auto-repressão por sublimação filosófica.
Primeiro Marx cita um estrato patético do texto de Edgar Bauer:

 

«O amor… é um deus cruel que, como todas as divindades, quer possuir o homem inteiro e só tem descanso quando o homem lhe tiver sacrificado não só a alma mas ainda o seu Eu físico. O culto do amor é o sofrimento, e o apogeu deste culto é o sacrifício de si mesmo, o suicídio.»
Depois, mostra o processo pelo qual o amor é sublimado por Bauer, mas não à maneira kantiana, que dessa maneira poderia ter evitado as variadas desilusões da paixão, entre as quais elegeu o sacrifício, em vez de outras estratégias possíveis, designadamente a pseudo desmistificação mitológica dos encantos do sexo, satirizada por Jonathan Swift na descoberta do personagem Cassino de que as belas formas femininas também evacuam:
«O Sr. Edgar faz do amor “um deus”, e ainda por cima “um deus cruel”, substituindo ao homem que ama, ao amor do homem, o homem do amor, destacando do homem o “Amor”, do qual faz um ser particular e a quem confere uma existência independente. Por este simples processo, por esta metamorfose do atributo em sujeito, pode-se criticamente transformar todas as determinações essenciais do homem em monstros e alienações do ser.»
Portanto, ao exprimir através das palavras as questões da subsistência, da vontade de persistir, da realização humana, da infelicidade, da auto-estima, da convivência e da natureza das coisas, interpretando o mundo à medida das suas frustrações, contentamento ou conformismo, o filósofo, zangado o mais das vezes com a resistência da objectividade, numa linguagem cujo esoterismo constitui uma riqueza que é sua propriedade (por suposto vedada às forças sociais, acessível apenas aos bons livros) e também a porta de acesso à “verdade”, faz corresponder, de forma mediata, por não se distinguir real mas apenas idealmente do mundo real, as provações dos mais elevados ou mais considerados valores humanos às próprias condições de vida.
Hipótese a reconsiderar será a de que é a própria realidade social a inverter-se objectivamente: ao alienar o homem, ou no facto do homem se alienar a si mesmo na criação da sociedade, a sociedade converte o “amor” num poder estranho diante do homem, que o eleva a um estatuto mitológico ou metafísico, a um deus ou a uma ideia.
O “amor” torna-se num ideal dificilmente alcançável e uma entidade abstracta que “é” por si, fazendo do homem um seu predicado e de si próprio uma essência humana situada acima do homem. Portanto, o homem pode, a partir de então, viver para o “amor”, assim como para a “natureza”, para a “liberdade”, para a “economia”, para “Deus”, produzindo e alcandorando as categorias metafísicas a fim terminal da existência humana.

 

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