Acordo Ortográfico – "Jornal de Angola" (Editorial)

 

 
 
Reproduzo aqui excertos de um belo editorial do Jornal de Angola:
 
“Escrevemos à nossa maneira, falamos com o nosso sotaque, desintegramos as regras à medida das nossas vivências, introduzimos no discurso as palavras que bebemos no leite das nossas Línguas Nacionais”, escreve o editorial, lembrando que “do ‘português tabeliónico’ aos nossos dias, milhões de seres humanos moldaram a língua em África, na Ásia, nas Américas”.
“Ninguém mais do que os jornalistas gostava que a Língua Portuguesa não tivesse acentos ou consoantes mudas. O nosso trabalho ficava muito facilitado se pudéssemos construir a mensagem informativa com base no português falado ou pronunciado. Mas se alguma vez isso acontecer, estamos a destruir essa preciosidade que herdámos inteira e sem mácula. Nestas coisas não pode haver facilidades e muito menos negócios. E também não podemos demagogicamente descer ao nível dos que não dominam correctamente o português”, escreve o jornal, sem papas na língua nem sem consoantes mudas, insistindo para que os mais sábios ensinem os que menos sabem. Para o “Jornal de Angola”, o português falado neste país, como nos outros que o falam, tem características específicas, “uma beleza única e uma riqueza inestimável”, que devem ser mantidas e acarinhadas, assim como tem o português do Alentejo ou o português da Bahia, que contribuem com a sua diversidade para o enriquecimento da língua através das suas variantes, no respeito pela matriz gramatical construída e aperfeiçoada por cada povo ao longo de séculos. “Todos devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP.” “Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras.”
 

 

Aliás, como nos podemos entender com o Acordo Ortográfico quando: Diz a al. c) do n.º 1 da Base IV do AO que o c, com valor de oclusiva velar [interrompidas momentaneamente pelo contacto da língua com o palato mole], das sequências interiores cc (segundo c com valor de sibilante), cç e ct, e o p das sequências interiores pc (c com valor de sibilante), pç e pt, se conservam ou eliminam “facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor; ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção.”? É que, numa pronúncia culta, tem sido até agora correcto pronunciar-se “sector” e “setor”, “ceptro” e “cetro”, “concepção” e “conceção”. Teremos então de adoptar doravante, não a ordem de eliminar tais consoantes mas de aceitar uma dupla ortografia. É o problema de se subordinar a grafia à fonética.
 
Para terminar, insto a que se informem, a fim de compreenderem melhor a origem deste Acordo inconsistente e incompetente, o conflito havido na Faculdade de Letras entre uns dos promotores do Acordo, Malaca Casteleiro, que tirou o doutoramento a ferros, e os já falecidos professores notáveis da mesma instituição, como Lindley Cintra, autor, com o brasileiro Celso Cunha, da gramática de referência para a língua portuguesa, e Lúcia Lepecki, brasileira também esta, sábios da língua portuguesa.
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