A Época da Pós-Verdade ou O Óbito da Verdade

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Na verdade, a única diferença, se a há, é usar de maneira manupuladora e cínica a falsidade, invertendo os valores: o verdadeiro passa, para os governos e para os media dominantes, a ser o falso, na perspectiva deles, e o falso converte-se em verdade indiscutível, uma vez etiquetado de falso tudo o que lhes não convém. A época da pós-verdade é, em suma, a época na qual os grandes poderes decidem o que deve ser, e não deve ser, dito à população. É uma forma de censura, barroca, ou pós-moderna, mas tão antiga como a sofística da Antiguidade.

É fácil, portanto, encontrar exemplos da pós-verdade, que, ao contrário do que diz o Oxford Dictionary, não consiste apenas em substituir os factos pelas emoções (melhor, sentimentos) mas sobretudo na capacidade dos que têm a palavra de convencer que a verdadeira verdade é falsa e que a sua é que é a verdadeira, distorcendo ou ocultado os factos, aproveitando-se do cinismo generalizado que desconfia mais da honestidade do que dos próprios cínicos, dado que ficam todos em família, postulando  não haver verdade, postulado que, enquanto enunciado, é  igualmente falso, recorrendo também ao provérbio antiquíssimo segundo o qual a mentira para ser eficaz tem de trazer à mistura um pouco de verdade. Mas ilustremos a pós-verdade com uma banda-desenhada, que a representa literalmente e muito bem:

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Reproduzo aqui um excelente comentário a esta palavra da novo-língua:

Manuel Augusto Araujo
Praça do Bocage

O Óbito da Verdade

“Os Oxford Dictionaries, um canone dos dicionários, elege todos os anos uma palavra da língua inglesa. A de 2016 é “pós-verdade”. Definiram-na como o “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais factos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

Explicam os doutores de Oxford que “pós-verdade deixou de ser um termo periférico para se tornar central no comentário político (…) tornou-se uma das palavras definidoras dos nossos tempos.”

A verdade deixou de interessar, é um acessório no debate político. Quando Colin Powell vai às Nações Unidas, com mapas falsificados localizando fábricas de armas de destruição maciça no Iraque que não existiam, não mentia descaradamente, estava a desdobrar uma pós-verdade utilizada para justificar a invasão. Bush, Blair, Aznar e Durão Barroso na cimeira dos Açores não mentiram, estavam a fazer um exercício de pós-verdade.

As grandes plataformas de difusão da pós-verdade são as redes sociais bem sustentadas por uma comunicação social estipendiada ao serviço do imperialismo para justificar as suas acções agressivas. O que já está na forja é instituir censura nas redes sociais limitando a acção de quem, sem acesso aos media, denuncia as pós-verdades. Um exemplo recente: Kerry em entrevista ao New York Times diz, preto no branco, que os EUA sustentaram com armas e bagagens o Estado Islâmico. O NYT fez o seu trabalho editorial de desinformação. Expurgou essa passagem, deixou-a pairar nas entrelinhas. Construiram uma pós-verdade, desmentida pela gravação na integra da entrevista. Quem fizer circular essa gravação poderá agora ficar sujeito à censura. Com a vulgarização da pós-verdade tudo se torna possível, mesmo que se verifique que as afirmações feitas sejam mentira. Nada de inesperado se houver memória que teóricos da pós-modernidade defendem a tese que “a ideia moderna da racionalidade global da vida social e pessoal acabou por se desintegrar em mini-racionalidades ao serviço de uma global inabarcável e incontrolável irracionalidade”.

Os tempos em que Lenine proclamava que só a verdade é revolucionária, são sepultados pela pós-verdade, um triunfo da ideologia de dominante de direita que contamina boa parte da esquerda”.

( publicado no Jornal a Voz do Operário, Fevereiro 2017 http://www.avozdooperario.pt/images/Jornal/Fevereiro2017/VO3041_web.pdf)

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