Os que olham e não vêem: Cuba e o “capitalismo de Estado” por Nelson P Valdés – Ou a Ignorância e o Caos no Pensamento de Mais um Anti-Socialista Dissimulado

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Os que olham e não vêem: Cuba e o “capitalismo de Estado”

Nelson P Valdés 24.Nov.16 Outros autores
“Os que apelam à introdução de medidas capitalistas em Cuba e sonham com o mercado estão fora da realidade. Esses elementos existem já, mas essa não é toda a realidade. É tudo mais complexo e complicado. Existe um sector capitalista de Estado. Distingue-se do capitalismo de Estado existente em países capitalistas pela forma como distribui o que produz ou gera de produtos e rendimentos”.

Já não é a primeira vez que odiario.info dá apalavra a estes “amigos do socialismo” cubanos. É preciso defender a diversidade de opiniões, o que não significa dar a palavra a intenções dissimuladas e a argumentos falaciosos sem que se veja réplica, ou, pelo menos, demarcação, de quem os publica.

Para não me estender muito, porque o meu tempo é escasso e precioso, embora seja um assunto de gravidade extrema, que deverá ser denunciado mais detalhadamente por quem concentra a sua investigação nas questões políticas, limitar-me-ei a dizer – no dia do falecimento de um dos maiores dirigentes progressistas da História, Fidel Castro Ruz – que este senhor (cubano, suponho) parece ignorar, ou confundir deliberadamente, o que é ética e politicamente pior, ou ainda dissimular, identificando-as – menos num certo “pormenor”, todavia essencial -, a diferença entre emulação ou competição socialista e competição ou concorrência capitalista. Esta consiste na luta pelo mercado entre as empresas dos bens por elas criados, procurando, segundo a lei da livre concorrência e eventualmente sob a vigilância das regras anti-monopólio, que acabam por ser regras de repartição do mercado entre grandes empresas, sobretudo de sectores estratégicos, à volta das quais gira uma pléiade de outras mais pequenas, ocupar o máximo que pode desse mesmo mercado e no princípio segundo o qual de uma certa quantidade de capital líquido criado (a mais-valia) uma parte será o lucro do patrão e dos accionistas. O lucro líquido será mais privado do que socializado. Ora, o “pormenor” pelo qual Nelson P Valdés distingue um elemento essencial do modo de produção capitalista do socialista, é precisamente o princípio de que neste o lucro é mais socializado, redistribuído para satisfazer as necessidades do povo em geral, e de que no capitalismo o lucro, tirados os impostos (acerca dos quais haveria muito a dizer), é privado. Para surpresa, Valdés comete a mais estranha das falácias: fora este “pormenor”, insignificante, afinal socialismo (de Estado) e capitalismo (de Estado), isto é, sob a regulação das leis do Estado, são muito parecidos – como se a forma da redistribuição das riquezas fosse um detalhe despiciendo e como se o Estado não fosse igualmente o poder institucional de uma classe. A conclusão sub-reptícia de Valdés é a de que mal por mal, ou bem por bem, mais vale um capitalismo “às claras” do que andar a brincar com a palavra socialismo. Mas é ele quem brinca com ela.

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