Major-General Carlos Branco: “Liderança do partido bósnio defendia a instauração de um Estado islâmico”

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DN, 25 Novembro 2016

O major-general Carlos Branco fala da experiência na antiga Jugoslávia que serve de base ao livro “A Guerra nos Balcãs”

O major-general Carlos Branco exerceu funções na NATO e na ONU e esteve também no Afeganistão, mas é a sua experiência na antiga Jugoslávia que serve de base ao livro A Guerra nos Balcãs – Jihadismo, Geopolítica e Desinformação, lançado quinta-feira às 18.00 na Comissão Portuguesa de História Militar

No seu livro sobre as guerras nos Balcãs fala várias vezes de casais mistos, por exemplo um sérvio e uma croata. Foram estes os jugoslavos que mais sofreram?

É difícil dizer quem sofreu mais com a guerra. Certamente que os casais mistos sofreram, mas não necessariamente mais do que os outros. Sofreram de outra maneira. Sofreram a perda da sua identidade, da identidade jugoslava, tendo agora de fazer escolhas dilacerantes. É impossível estabelecer uma métrica para o sofrimento. O sofrimento não está diretamente relacionado com etnicidade ou com o género. Eventualmente uns terão sofrido mais do que outros. A explicação prende-se mais com as especificidades locais dos sítios onde se encontravam. A intensidade da guerra variou de local para local e ao longo do tempo.

Conta o caso da alemã que recusou ser vista como nazi e até acabou agredida. A memória das alianças locais na Segunda Guerra Mundial estava bem presente nas guerras balcânicas de 1991-1995?

A memória dessas alianças estava bem presente, sobretudo para os sérvios da Krajina. Era frequente encontrar pessoas, sobretudo as mais idosas, com familiares próximos mortos pelas forças croatas Ustaše durante a Segunda Guerra Mundial. As feridas da Segunda Guerra Mundial tinham sido insuficientemente saradas. A subida de Tudjman ao poder e a narrativa fascizante e antissemita do novo regime croata vieram avivar essas memórias. As purgas e as perseguições feitas aos sérvios da Croácia, a não consagração na nova Constituição croata do estatuto de nação, passando a ser considerados cidadãos de segunda classe, a recuperação de símbolos do Estado fascista croata como a bandeira e a moeda fizeram o resto. Os intelectuais também deram o seu contributo. A disputa sobre o número de mortos no campo de concentração de Jasenovac e as tentativas revisionistas da história ajudaram ao desenlace fatal. Estava instalado o medo. Isso explica o levantamento sérvio na Croácia.

Considera que os sérvios foram diabolizados num conflito com vários culpados?

O major-general Carlos Branco foi observador da ONU na antiga Jugoslávia
Preferia utilizar a expressão responsabilidade em vez de culpa. Todos os grupos étnicos, ou antes, as elites, sobretudo as políticas, têm a sua quota-parte de responsabilidade no desenrolar dos acontecimentos. Naquele conflito, como em quase todos os conflitos desta natureza, não há santos de um lado e pecadores do outro. Em última análise, cada grupo via o oponente como uma ameaça à sua sobrevivência. A diabolização do oponente faz parte da guerra. Contudo, o que aconteceu nos Balcãs foi mais do que isso e envolveu a participação direta das grandes potências. A tarefa estava facilitada porque os interesses de certos grupos coincidiam com os interesses das grandes potências. Por isso, tanto os croatas como os muçulmanos da Bósnia tiveram empresas de relações públicas a trabalhar para si, pagas pelos seus mentores. O tratamento desigual dado aos diferentes grupos foi a consequência do discurso imposto pelos mais fortes na defesa dos seus patrocinados e, por conseguinte, dos próprios interesses. É nesta lógica que se deve entender a diabolização dos sérvios. A pouca clarividência das lideranças sérvias da Croácia e da Bósnia também ajudou.

Com a religião a definir nacionalidades era inevitável que os bósnios muçulmanos pedissem ajuda a extremistas estrangeiros?

Não necessariamente. Muçulmano não é sinónimo de extremismo. O problema é que a liderança do partido bósnio era extremista e defendia a instauração de um Estado islâmico teocrático. A esmagadora maioria dos elementos seculares foram expulsos do partido logo em 1992. É neste contexto e não noutro que se explica o recurso ao apoio da Al-Qaeda e dos países que defendiam o proselitismo religioso radical. É absolutamente indesculpável a complacência ou, se quisermos, a distração tida com o facto de a Bósnia se ter tornado durante a guerra uma frente da jihad global promovida pela Al-Qaeda.

Como classifica então a ação da comunidade internacional na ex-Jugoslávia?

É difícil falar da comunidade internacional como uma entidade homogénea. Poderia associar comunidade internacional com as Nações Unidas ou com o Conselho de Segurança. Fazê-lo seria, no entanto, redutor. Diferentes atores, nomeadamente as grandes potências, apoiaram os seus patrocinados. Os países islâmicos, por exemplo, apoiaram um dos grupos em presença. Na realidade, o que estava em jogo tinha implicações de natureza geopolítica traduzida no controlo dos Balcãs. Foi com base nesta premissa que se comportaram e atuaram os grandes atores da cena internacional.

As tropas portuguesas tiveram uma missão eficaz e pacificadora?

Enquanto estive na Jugoslávia não havia contingentes militares nacionais nas forças da ONU. Esse tipo de participação ocorre após a assinatura do acordo de Dayton e no âmbito da operação da NATO. As forças nacionais participaram num esforço coletivo que envolveu muitos países. Revelaram ser um poderoso instrumento de política externa do Estado português; dos mais importantes, talvez mesmo o mais importante, no pós-guerra fria. Os militares portugueses prestigiaram o país, e foram considerados e estimados pelos seus pares.

Qual a memória mais forte de um episódio vivido na ex-Jugoslávia?

É difícil isolar um episódio e dizer que foi o mais marcante. Pelo menos três serão difíceis de esquecer: as patrulhas que fiz na Krajina a seguir à operação militar do Exército croata, em agosto de 1995. O cenário dantesco de corpos de civis mortos nas bermas das estradas, das habitações ainda a arder e a evidência da partida apressada ficará gravada na memória para sempre; o acionamento de uma mina na zona de confrontação, na Krajina Sul; e o “desconforto” de estar na zona de morte de uma barragem de artilharia, na região de Bihac, felizmente sem consequências físicas.

Porquê escrever este livro?

São vários os motivos que me levaram a escrever este livro. Com base naquilo que vivenciei percebi que havia outras leituras possíveis dos acontecimentos, nalguns casos dissonantes daquelas consideradas oficialmente. Julguei importante partilhá-las e desse modo contribuir para a sua melhor compreensão. O conflito na Bósnia é talvez um dos conflitos dos tempos modernos mais mal explicados. Por exemplo, poucos analistas ocidentais consideraram a Bósnia uma frente da jihad global promovida pela Al-Qaeda. Este livro é, de certo modo, um ajuste de contas com a minha consciência e com a verdade.

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