O MAAT e a Obra-de-Arte “Utopia e Distopia”

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A obra de arte inaugural do MAAT (edifício interessante, inacabado e a precisar que se olhe para alguns defeitos visíveis e desagradáveis nos acabamentos) é uma obra mestra dos nossos tempos: a representação indirecta e algo enigmática ou metafórica e alegórica de uma situação paradoxal ou até crítica através de objectos abstraídos do quotidiano, anódinos e circunspectos ou então de todo disfuncionais. Alguns mostram-se distanciados e lacónicos, por não haver neles uma relação evidente de semelhança ou de analogia lógica entre os mesmos e o sentido ou a realidade representada. A obra como se afasta e afasta o espectador que, ou se sente ultrajado ou, para ficar de bem com a sua vaidade, a admira pela sua capacidade de fugir a qualquer definição, como compete a qualquer expressão simbólica da liberdade verdadeiramente livre e de um estatuto social e intelectual superior. Outros objectos, como é o caso desta exposição, são construídos para serem meio de festa na qual os espectadores deixam de o ser e passam ao papel de participantes, de elementos vivos da obra-de-arte. Nada de novo na moda artística e nada de mal na forma e na ideia geral. Há décadas que tal é realizado. Há um jardim infantil que é visto de cima e que pode ser usado pelas crianças, estando separado do meio exterior como se fosse uma jaula gigante. A ideia é pôr os espectadores exteriores a contemplar seres humanos, que todavia nos são estranhos e estão isolados de nós, como eles do mundo que nos pertence e que não estão habilitados a frequentar. A imagem remete em simultâneo, numa multissignificância interligada, para a arbitrariedade das fronteiras políticas, para o problema dos refugiados e para o absurdo da categorização fragmentadora da Humanidade, para o contrário do universalismo. O cosmopolitismo e a mundialização, assim como o capitalismo – realizações e metas da mais alta humanidade -, estão subentendidos como valores positivos sem sombras ocultas. A palavra da moda, distopia, significa, em oposição à utopia, mas como verso preconceituosamente verdadeiro dela, uma sociedade opressiva, de desespero e privação dos valores que caracterizam uma existência realizada (regime comunista, por suposto, e ainda ameaçador para o dito modo de vida ocidental, de que as forças armadas americanas são as guardiãs).

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O problema artístico começa agora. Mas não é um problema real: trata-se antes de pôr em prática uma distensão propositada. É tudo, para aquele que vem de um mundo já morto, demasiado agradável e recreativo. A festa e o divertimento tomam conta do espaço e do ânimo, as cores e o movimento são o de uma festa de anos de crianças, na qual os pais participam. Não há sinal de qualquer tipo de perturbação moral. Todos de lá saem satisfeitos e até se interrogam se aquilo é uma obra de arte ou um jardim infantil. A obra-de-arte garante a sua elevação pelo tema sério que aborda, cujo fito é o de contribuir para um episódio ritualizado e farisaico de boa consciência, e de se integrar no sistema de comércio institucional de arte ao também, neste caso, diluir qualquer eventual exaltação crítica ou meditação concentrada, mesmo que hipócrita, consistente com o tema, no aspecto lúdico do evento.

É boa uma arte assim.

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