Anticomunista, obrigada! – Clara Ferreira Alves

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Só há uma uma coisa de louvar neste texto: a frontalidade da declaração. O conteúdo, pelo contrário, é uma sequência de banalidades superficiais e e de factos descontextualizados da luta política por uma sociedade de justiça efectiva, real e não apenas formal, a que se pode e deve chamar socialismo, mesmo que nos nossos dias tenha sofrido derrota atrás de derrota pelo novo impulso que o capitalismo se deu a si mesmo através da criação de novas tecnologias, do imperialismo neocolonialista económico e político e da guerra. Nada disso interessa à autora, que só vê no capitalismo a expressão da liberdade política e individual, sem dar pelo facto de que a liberdade política é a liberdade política das pessoas das classes favorecidas verdadeiramente representadas pelos partidos majoritários e que a liberdade individual é a liberdade dela poder escrever o que bem entender, pois o que ela bem entende é o que agrada aos detentores dos grandes meios de comunicação e consolo de massas, é a liberdade de ter a profissão de que gosta, do dinheiro que ganha com ela e das viagens que lhe paga. A sua ideia de
liberdade é um paradoxo bem difícil de justificar.
Entre parêntesis rectos, no corpo do texto da autora, vão os meus comentários.
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Ou António Costa é um génio político e submete os parceiros à sua imponderável vontade ou caminhamos para a mais grave crise de regime depois do 25 de Abr
Não estava à espera neste ponto da minha vida e neste ponto do século XXI, dobrado o século XX há uns aninhos, de ver aparecer a acusação. Anticomunismo. Parece que qualquer pessoa que não confie na bondade intrínseca de um acordo de governo com o Partido Comunista Português é anticomunista. [A autora desconfia da bondade intrínseca do acordo do PS, BE e sobretudo PCP. Deve haver para ela uma intenção escondida por detrás do projecto confessado de lutar por mais soberania nacional e popular, pelo desenvolvimento da economia e da cultura portuguesas, pela redução do esbulho do país e dos trabalhadores por parte dos agiotas nacionais e internacionais, nos quais se incluem Estados como o alemão. Talvez a intenção escondida seja, já não comer criancinhas ao pequeno-almoço mas de acabar com o programa “Eixo do Mal” da rede Balsemão do Grupo Bilderberg onde ela realiza a sua liberdade de expressão e onde a minha liberdade de expressão jamais aspirará a realizar-se?] Confesso ter nostalgia de muitas coisas, mas não desta. A de repensar o anticomunismo privado. Sou ou não anticomunista? E se for? [Não há problema: ninguém pode ser obrigado a ser comunista. Não se preocupe.] A questão não é meramente ideológica, é existencial. É, por assim dizer, teológica. [Uma confissão?! A revelação divina de que o comunismo é o Anti-Cristo?] Cheguei à conclusão, depois de muito matutar, de que sou anticomunista. Acredito na economia de mercado, no capitalismo regulado e na iniciativa privada. [“Capitalismo regulado”. Pois bem, esse “capitalismo regulado” existe pelo menos desde o século XIX através das Constituições políticas, dos Códigos jurídicos, das leis estatais, da polícia e das forças armadas, que defendem a propriedade, a liberdade contratual, regulam as finanças, impõem regras de produção, de cotas de mercado e acordos internacionais de acesso às matérias-primas e à mão-de-obra. Com isso tudo, não tivemos justiça social mas exploração quase ilimitada, não tivemos paz mas as duas guerras mais mortíferas que a História já viu, não tivemos partilha de bens mais a mais feroz apropriação da riqueza e do trabalho das nações mais fracas, não tivemos respeito pela democracia mas manipulação sofisticada e, quando esta não resultava, promoção de golpes de Estado e de guerras civis com os seus milhões de mortos sacrificados ao deus mercado, ao pluripartidarismo do capital e à liberdade da imprensa magnata.]. Não acredito na coletivização da propriedade e da economia, na eliminação da competição nem na taxação intensiva do capital. [É verdade que  a iniciativa privada foi mal compreendida pelo movimento comunista que esteve no poder, mas também é mal compreendida pelo capitalismo. A iniciativa privada é a iniciativa de pessoas detentoras de propriedade privada dos meios de produção. Mas a iniciativa individual não se reduz ao empreendedorismo dessa classe de pessoas. Reconheço que esta é a cruz do comunismo, ou muito melhor, uma contradição que existiu e que precisa de ser resolvida, não de ser exacerbada. É preciso conciliar dialecticamente a planificação em traços gerais nos domínios básicos da economia com a inventiva pessoal e de grupo a respeito da ciência, da tecnologia, do urbanismo, da arquitectura, da gestão produtiva, do património, das artes, etc. Em vez de decretar ad eternum a impossibilidade da sinergia das partes e do todo num caminho de resolução progressiva das sucessivas contradições que um processo real necessariamente apresenta, deve ter-se por meta a concretização de tal caminho, da qual uma etapa imperativa será o fim da fonte mais essencial de contradições (sem que desapareçam nunca outras menos graves): a propriedade privada dos meios de produção, para dar lugar a organizações produtivas de iniciativa própria criativa colaborativa e a actividades particulares e de grupos restritos dedicados à produção de bens mais específicos e menos massificados à partida ou à experimentação em múltiplas áreas. Estou em crer que o fracasso do socialismo real na implementação desta dialéctica concreta não se deveu tanto a resistências administrativas e a políticas centralizadoras e autoritárias mas ao facto da luta contra as ameaças do capitalismo internacional e da reacção interna ter criado precisamente as condições de possibilidade, e mesmo a necessidade, dessa centralização e desse autoritarismo. Quanto  à competição, para já não falar da desportiva, em ambiente socialista recebe o nome, um tanto patusco, de emulação. Em teoria, o socialismo não elimina a competição: pela melhoria da produção, face à exigência da população, da qualidade dos bens produzidos, face à mesma exigência, onde – e foi um facto, embora bastante limitado – diversas unidades produtivas (em todas as esferas) disputavam as preferências do público. Em todo o caso, o socialismo só é obrigado a limitar a competição pelo controlo do excesso de produção e da empregabilidade – problemas, na verdade, complexos mas não impossíveis de solucionar. Não vou falar aqui do pecado da “taxação intensidade capital”.] O atual Partido Comunista não partilha estas minhas convicções. É coletivista, e foi sempre, ao contrário do que nos querem convencer, pragmático. O PCP foi sempre pragmático e anti-idealista por natureza. Nunca foi um partido romântico e só teve um panfleto literário romântico, os “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes. Tirando isto, o PCP é um bloco realista e de realismo social, no sentido que a palavra tinha no século XIX. [É verdade! Mas idealismo em que acepção? O que acreditar que são as ideias que determinam a Historia? O de fantasiar com metas miraculosas? O de ter um ideal de Homem e de Humanidade? Ou simplesmente o de querer um mundo sem exploração? E que romantismo? O da nostalgia do passado mítico de um povo ou de uma cultura? O da crença no espírito imaterial e místico de um povo? O do desprezo pela razão em detrimento da vontade? Ou simplesmente o que rejeita o rasteiro utilitarismo da política pragmatista?] Para o PCP, a marcha da História é marxista, o sentido da História é o da extinção do capitalismo (e não a sua regulação) [Quanto a isto já estamos falados.] e o da criação de uma nova consciência social, cívica e política nas mãos do proletariado e das suas vanguardas, organizadas em comités, ou no que lhes quiserem chamar, que controlem os meios de produção e os seus instrumentos financeiros. [Se se substituir a palavra “proletariado” por “trabalhadores” ou por “homens e mulheres que desenvolvem o seu trabalho a partir de meios cujo uso é assegurado pelo Estado contra a sua apropriação privada sem usarem o trabalho dos outros para acumularem a mais-valia do produto da actividade destes para fins privados”, ficará menos chocada? Com certeza que não. A autora, como muito outros, fez a sua vida, adquiriu os seus hábitos, interiorizou os seus valores na formação social capitalista. Não só foi convencida da bondade final do capitalismo por não ter nascido de outra coisa como ganhou e bem com ele, em dinheiro e, no seu caso, sobretudo em prestígio. Outra atitude não seria de esperar dela.] O PCP era isto. E é isto. Por razões históricas, fui sempre anticomunista. E por razões ideológicas, também. Sou uma anticomunista que não tem vergonha de ser anticomunista e que tem e teve amigos comunistas (mais teve do que tem, porque tudo o que se relaciona com esta doutrina é, irremediavelmente, passado). Claro que podem ler nesta frase — “tenho amigos comunistas” — a mesma desconfiança que leem quando os homofóbicos dizem que têm amigos gays. E, já que falamos disso, o PCP sempre foi ferozmente antigas. [A autora desconhece que um dos secretários gerais do PCP durante a ditadura fascista era homossexual. É verdade que foi destituído, mas o motivo invocado foi o de que o seu modo de  vida o expunha e expunha em perigo. Houve mesmo cenas de homossexualidade entre comunistas detidos em prisões fascistas. Um número significativo de intelectuais e artistas comunistas era homossexual. Contudo, entre os comunistas há homens e mulheres e esses homens e mulheres não são apenas comunistas. Como disse uma vez Bertold Brecht num dos seus poemas, a única qualidade de um comunista é ser comunista.] Só se mudaram. Já lá iremos.
Sou anticomunista por razões históricas e profundamente temperamentais. Como boa individualista que sou, tenho horror a coletivismos impostos, e uma boa parte da minha adolescência e entrada na idade adulta foi passada a assistir e a resistir a isto. Posso mesmo dizer que, doutrinariamente, o que me definiu foi ser anticomunista. O fascismo tinha terminado no 25 de Abril. O fascismo foi outro regime totalitário que não percebeu a História. Comecemos pelo princípio. [Comecemos pelo princípio, que é o que a autora não faz. A luta de classes, na qual a autora parece não acreditar, não é um jogo entre amigos. Quem é proprietário de meios de produção raramente decide abdicar deles. Um dos meios de os conservar é através do Direito. Nessa luta que a autora abomina e que chama de colectivismo há que coarctar as manobras e o poder dos que querem manter o Direito como instrumento do capital. Tratava-se, pois, de uma luta. Não se poderia agir com bons modos e ir a banhos juntos. É pena que assim seja – mas não pode ser de outra maneira. É uma etapa necessária para se transformar radicalmente a estrutura de classes da sociedade. A autora decidiu ser amiga dos agentes jurídicos do capital. E é tudo. O resto não vale a pena comentar, a não ser o seguinte. Não há dúvida que um dos grandes problemas do comunismo, enquanto movimento político, foi sempre a sua relação com a diversidade de correntes artísticas. Sabemos que o comissário da Cultura do governo de Lenine, Anatoly Lunatcharski era um místico religioso, mas isso não o impediu de dirigir a política cultural do poder dos sovietes. Acontece que a arte, como a ciência e a tecnologia não medram por ditames superiores e mesmo quando em séculos passados os empregadores dos artistas eram altos dignatários da Igreja e do Estado e as  encomendas que lhes faziam tinham explícita ou implícita a obrigação de celebrarem o seu poder, os seus feitos e os seus valores, tais encomendas só resultavam em boas obras de arte se a liberdade criativa da individualidade do artista tivesse a possibilidade de se manifestar nelas. Por isso, também nessas épocas havia bons e maus artistas. Ora, a ideologia proletária e popular do comunismo impediu a necessária individualidade do artista criador porque o comunismo pôs, e talvez tenha sempre de pôr, acima de tudo, na esfera ideológica, a divulgação das suas ideias relativas à essência da luta e classes e à criação de uma moral muito específica, a do igualitarismo, embora não uniformizador em princípio. Mas a arte não tem imperativamente de propagar valores individualistas e egoístas, facilmente manipuláveis pela reacção interna. A  arte pode e deve ser livre na exploração de novas maneiras de ser e de fazer, na representação ou expressão de problemas sociais e individuais, que nunca deixarão de existir, mesmo na melhor das sociedades. A dificuldade para o comunismo em aceitar a liberdade na arte resultou, todavia, da consciência de um facto muito real: a da manipulação da inventiva difícil e da crítica artísticas no sentido da desmoralização e da subversão anticomunistas. Mas, ó surpresa! Mas, ó contradição real! Tomem conhecimento das mais acessíveis das actividades artísticas – cinema e artes-plásticas – e verifiquem um outro facto também muito real: a grande criatividade nessas áreas em diversos países socialistas (União Soviética, Polónia, Hungria, Jugoslávia), que superou não só em génio formal muito do que se fazia nas sociedades capitalistas avançadas mas também na complexidade, profundidade e liberdade de conteúdo. Eis mais uma das contradições de que é feita a vida e a História no seu todo e, neste caso, a do movimento comunista. Vamos desistir? É mais uma entre as contradições ditas insolúveis ou a realidade desse mesmo movimento deve consistir em superá-las?]
Na Faculdade de Direito de Lisboa, os estudantes comunistas tinham o estranho hábito de decretar greves gerais sem consultarem todos os alunos nessa votação. Um aluno chegava à faculdade e diziam-lhe: hoje não entras, há greve. Há greve? Quem votou? Nós. Nós quem? Numa reunião secreta. Se foi secreta, como é que votámos? Nós votámos. Por causa desta discussão insana que despertava em mim instintos libertários e anarquistas, cheguei a furar uma ou duas greves com mais uns dementes como eu que não gostavam de ser paus-mandados. De um lado tínhamos os gorilas e do outro lado tínhamos as greves obrigatórias dos comunistas, que se arrogavam o monopólio da contestação. A UEC era formidável nisto, no monopólio da contestação, e quando o MRPP tentou furar este monopólio teve o apoio de boa parte dos estudantes, que estavam fartos da UEC e dos seus esbirros da MJT. A MJT era o braço armado dos comunistas e chegou a encerrar alunos dentro das aulas para bater nos maoistas à vontade depois de deixar sair os outros, os “cobardes”. Uma das vezes, escapuli-me por uma janela antes que a MJT entrasse armada de matracas e correntes de bicicleta. A MJT era o operariado da UEC para a porrada. O Movimento da Juventude Trabalhadora. Quando o COPCON entrou pela faculdade, dando cabo de tudo à passagem, esgueirei-me para Coimbra em “transferência secreta” (não podíamos fugir da revolução em curso) e implorei ao professor Rui Alarcão que me aceitasse na vetusta instituição. Em Coimbra, vigorava um comunismo soft. Os comunistas controlavam tudo muito civilizadamente. Sem pressões e mantendo o currículo académico. Restava o problema dos sovkhozes e dos kolkhozes. Sobrando em Direito professores comunistas que não abdicavam da coletivização dos bens e dos meios de produção, fomos obrigados a estudar marxismo coagidos pela frase: quem vier para as minhas provas escritas e orais defender a propriedade privada pode contar com um chumbo. Andei em guerra até ao fim do curso com um professor chamado Orlando de Carvalho, que jurou que me chumbaria em qualquer circunstância (deu-me 14 depois de eu ter encornado a sebenta toda, incluindo as cedilhas e os pontos e vírgulas e, salvo erro, a célebre nota 64). O Orlando era um comunista católico envergonhado. Era um coletivista desavergonhado e um misógino desembestado. Sem dinheiro para ir estudar para fora e fugir desta gente, achei que mais valia submeter-me e engolir a teoria, engolir os kolkhozes e os sovkhozes (que eram de outro professor comunista) e despachar-me daquilo. Foi o que fiz.
O Partido Socialista parecia-me, com Mário Soares e a doutrina do socialismo democrático, a única oposição responsável ao totalitarismo de Cunhal e dos militares que não queriam regressar aos quartéis. Estive na Fonte Luminosa, claro, e assisti ao lento e duríssimo processo da democratização de Portugal. Os comunistas eram o que tinham sido sempre, intratáveis e muito pragmáticos. Quem não era por eles era contra eles. Nunca entrevistei Cunhal até ao fim da vida dele porque sempre recusei mostrar-lhe a entrevista para ele editar à vontade. Não iria à Soeiro Pereira Gomes. Um dia, consegui negociar. Iria à Soeiro Pereira Gomes, mas editaríamos o texto juntos. No que eu não concordasse, não passaria a emenda. Cunhal aceitou, e a conversa resvalou para Shakespeare e o “Rei Lear”, que ele queria traduzir (acabar de traduzir). Não emendou nada da entrevista. Álvaro Cunhal, com perto de 80 anos, tinha adoçado e era uma figura intelectual respeitável que eu respeitava muito. Já não era o inimigo. Havia uma diferença entre conversarmos sobre Shakespeare — o “Rei Lear” é a minha peça favorita e era a dele, um tratado sobre o poder e a partilha do poder — e ter o doutor Cunhal a mandar na minha vida. Na verdade, anos antes, o doutor Cunhal quisera fazer de Portugal a jangada de pedra do estalinismo europeu. Uma espécie de little Bulgária. Do PCP tinham entretanto saído muitos dissidentes, enquistados com a ausência de democracia intrapartidária. Muitos desses dissidentes eram ou tinham sido comunistas ortodoxos, dos que aplaudiram de pé a entrada dos tanques do Pacto de Varsóvia em Praga. Eu estava, sempre estive e estarei com os dissidentes checos, com Václav Havel e com a democracia.
Em Portugal, o PCP sufocou todos os desvios à sua norma ou absorveu toda a contestação não emanada das suas instâncias representativas da massa. Da massa, sim, não da cultura de massas. Por um lado, o PCP tinha a tradição da clandestinidade e da coragem na clandestinidade e não admitia dissidências desta tradição. Julgava-se o único detentor da verdade contestatária (como se tinha julgado na Faculdade de Direito o único autor das greves estudantis). Por outro lado, a cultura de massas assente no individualismo era-lhe profundamente estranha. No meio literário português dominava largamente, não apenas através das instituições que controlava (da APE à SPA) como através dos compagnons de route sem filiação na extrema-esquerda radical e sem movimentos adequados à sua representação. O papão da direita e um esquerdismo social unia esta gente. Mais um certo aggiornamento chique que, pensavam erradamente, o PCP lhes conferia. A Festa do “Avante!” era um dos altares desta missa. O PCP pode ter muitos defeitos, mas nunca foi um partido estúpido, embora tenha sido apanhado desprevenido com a queda do Muro de Berlim. Quem não foi? O PCP olhou para Gorbachev primeiro com ódio e depois com incredulidade. O império soviético desmoronava-se. Os que acreditaram numa mudança de mentalidades dentro do PCP depressa foram expelidos ou condenados pela inquisição do partido. O PCP não mudara. O mundo mudara sem ele.
A atitude intelectual totalitária que caracteriza o PCP deixou como legado a anemia intelectual portuguesa. O neorrealismo deixou de ser dominante, mas não chegou a ser substituído por movimentos herdeiros da modernidade e do modernismo. Nem por um esboço de pós-modernismo importado de Paris. Esta é a nossa tradição. Os grandes intelectuais portugueses sentiram-se sempre exilados dentro do seu país, como Fernando Pessoa e Alexandre O’Neill, ou exilados reais, como Jorge de Sena. Ou como Eduardo Lourenço, que sofreu a ansiedade da separação. E havia os açorianos, uma casta especial de solipsistas, de Vitorino Nemésio a Natália Correia. São, todos, navegadores solitários. Pessoa teve a sorte de ter tido a geração de Orpheu a fazer-lhe companhia.
Basta ir a Londres e à Tate Modern, e visitar a exposição “The World Goes Pop”, para ver como Portugal não consta desta revolução. É a única ditadura ocidental dos anos 60 e 70 que não teve representantes e cultores pop. Não teve movimento pop. Não teve a anarquia pop. O protesto pop. A arte pop. O Brasil teve, a Argentina teve, o México teve, a Espanha teve, o Chile teve. Portugal não teve. Devemos isto ao PCP e à hegemonia do PCP num país pequeno e sem mercado de ideias, vinculado ao Estado e aos ditames e subsídios e cargos do Estado. A única escritora portuguesa que verdadeiramente escapou a esta hegemonia foi Agustina Bessa-Luís, e por isso ela permanece o ícone intelectual da direita (da nova direita) e por ela é exaltada e venerada. Agustina era o triunfo do individualismo desde que decidira escrever “A Sibila”. Agustina detestava os comunistas, não por serem comunistas mas por não serem livres. Tive com ela esta discussão e sei que as palavras de Agustina eram diferentes das palavras de todos os outros escritores, incluindo os liberais cosmopolitas que estavam próximos do PS, como Sophia de Mello Breyner ou David Mourão-Ferreira. Agustina não é, não era, nunca foi de esquerda. Nunca precisou de uma moral de esquerda, tal como esse lúcido libertário chamado Mário Cesariny de Vasconcelos.
Para a nomenclatura do PCP, ser de esquerda era mais benéfico do que ser comunista, quando se tratava de escritores. Controlando as instituições, o PCP resistia a dar prémios literários a José Saramago. Porquê? Dava-os aos outros e não a ele. Deu a José Cardoso Pires e a Paulo Castilho ou Mário Cláudio. Nunca deu a “Memorial do Convento” e a “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. Porquê?
Assente-se que Álvaro Cunhal não gostava de Saramago. Nem pessoalmente nem literariamente. Cunhal era um esteta, um romancista falhado, e nem no estilo nem na receção crítica do estilo, relacionados com a pureza do neorrealismo, podia identificar-se com a retórica do escritor-estrela dos comunistas. Saramago era um maneirista inspirado pelo padre António Vieira e o Século de Ouro espanhol, e mais depressa apanhariam Cunhal a aplaudir a subversão existencialista de um Albert Camus do que um missionário jesuíta do século XVII. Saramago era um escolástico, e Cunhal abominava a escolástica. Ninguém reparou nisto. Foram mais rivais do que Eça e Camilo foram. E o PCP nunca gostou de estrelas.
E a direita? A direita portuguesa foi sempre preguiçosa e tendencialmente analfabeta. Quando digo a direita, digo o capital, os capitalistas portugueses. Simbolicamente gordos e anafados como nas caricaturas de Vilhena, nutriam pelos socialismos e pela social-democracia um ódio rancoroso e viviam no passado. Sá Carneiro foi tolerado por eles, não foi amado. Até nascer o novo capital, o das novas empresas e grupos e dos novos assalariados de luxo do novo capitalismo português, a direita era uma caricatura sem ideologia com uma ou duas figuras excecionais na indústria, como António Champalimaud. Ficara presa à nostalgia do antigo regime, sem particular engrandecimento da memória imperial, às vezes por ignorância, e a uma postura cívica sem mestre intelectual. Os raros ativistas letrados e revolucionários desta direita sentiam-se órfãos. Como dizia um deles, a direita portuguesa era do género: vão andando que depois vou lá ter. Os outros converteram-se e decidiram trabalhar com quem estivesse no poder. Nascia gente na banca e nas empresas, produto da democracia e da pequena burguesia dos partidos, que não se revia na direita mumificada. Esta ficou à espera de D. Sebastião e chegou a ver nos traços endurecidos de Aníbal Cavaco Silva, um membro do povo que tinha tudo para lhes ser estranho, a face do salvador. Como vira em Salazar.
Neste ambiente, PCP e PS dominaram tudo. Dominaram a literatura, dominaram a música, o teatro, o cinema, a fotografia, as artes, o jornalismo, a crítica, tudo. Foi preciso esperar pela agonia do século XX para esta dominação se atenuar. A revolução tecnológica capitalista pôs-lhe cobro de vez.
No século XXI, amigos meus que tinham sido comunistas desde crianças, como Miguel Portas, confessavam a sua desilusão com o comunismo e a crença numa nova esquerda. O que Miguel Portas fez, e só fez, foi tentar experiências de esquerda que escapassem à ditadura intelectual comunista. Revistas, jornais, intervenções, plataformas e, finalmente, a criação do Bloco de Esquerda. Pressagiei que as alianças entre estes esquerdistas ilustrados e estrangeirados e os radicais da extrema-esquerda e de partidos como a UDP não seria um casamento feliz. Não foi. As tensões dentro do Bloco desaguaram nas dissidências do Bloco. Assisti a isto mais ou menos por dentro e discuti isto muitas vezes. O Bloco era importante para as causas ditas fraturantes, porque o PCP era um partido ferozmente conservador e antirrevolucionário nos costumes. Tendo criado a sua moral, a sua igreja e a sua liturgia, o PCP nunca transigia. Era nisso simétrico da direita reacionária. A aliança tática entre PS e Bloco permitiu “desbloquear” certa legislação que andava pendurada há anos na boa consciência de católicos e de direitistas.
O contributo de forças como o PCP e o Bloco para a democracia portuguesa é importante, apesar destes desníveis. Mas só é importante por ter sido enquadrado e travado pelo socialismo democrático dos socialistas e a social-democracia dos sociais-democratas.
Tal como o PSD, o PS tem sofrido um desgaste e uma desvalorização intelectual preocupantes. O PS de homens como António Arnaut ou Mário Soares já não existe. Nem sequer existe o PS de António Guterres. O PS de hoje divide-se entre os socratistas, com tudo o que de nefasto essa denominação representa, os oportunistas e os apoiantes de qualquer chefe que conduza ao poder um grupo de gente que sabe que o partido precisa de lançar mão do aparelho de Estado para sobreviver politicamente. Junte-se ao caldo meia dúzia de jovens idealistas sem maturidade. À direita, o “ideologismo” (chamar-lhe ideologia seria um manifesto exagero) pseudoneoliberal de Passos Coelho e dos videirinhos amestrados, de que Relvas é a caricatura apurada, forneceu a uma gente desavinda pela História o último pretexto para a união.
Uma união que nunca se consumaria. O PS não é coletivista. Não foi. Não será. É um velho partido de católicos e de maçons que se sente ameaçado e está a jogar póquer fechado com altas paradas. E a direita de Passos perdeu esta jogada, num espanto emudecido que não provocou um texto, um pretexto, um protesto. A direita portuguesa continua a dizer: vai andando que já lá vou ter. Deixou a contestação aos jornalistas e articulistas que julga protetores do statu quo. Esta nova aliança das esquerdas descambará em novas direitas, seguramente.
A destruição do centro, à esquerda, e a insensatez de quem nos tem governado, à direita, tornaram o combate ideológico um combate tribal, como o futebol. Um combate onde não vingam a inteligência e a ilustração. Muito menos a memória. Não é preciso invocar a Europa e a sua putativa falência, ou o diktat de Bruxelas, para concluir que o PS abriu a boceta de Pandora. Convencidos de que os comunistas mudaram, os socialistas serão, como recusaram historicamente ser, chantageados por um partido que joga aqui a sua derradeira cartada da História. O comunismo acabou em toda a parte, mas não aqui, não aqui. E não acabou aqui porque a desigualdade e a pobreza que a direita exalta em Portugal como regra de vida comum, como modo operativo de um capitalismo egoísta, autodidata e desmembrado, são a bandeira do PCP. São o seu eleitorado. Juntem-lhe os funcionários públicos num país envelhecido onde todos dependem do Estado, da banca aos artistas, e temos a explicação do anacronismo chamado Partido Comunista Português. Tal como o capital, o trabalho sabe defender-se.
O Partido Socialista meteu-se nesta querela sem ter trunfos na manga. Perdeu as eleições, e isso faz toda a diferença na potestade. O PS não tem sobre o PCP e o BE um direito potestativo. São eles que o têm, e exigirão a submissão. Não sei como sairá disto. Sei que das duas uma. Ou António Costa é um génio político e submete os parceiros à sua imponderável vontade ou caminhamos para a mais grave crise de regime depois do 25 de Abril. E, talvez, para o fim do regime saído do 25 de Abril.
Quanto a mim, sou o que sempre fui. Portuguesa e anticomunista, obrigada. Nisso, não mudei.
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