Città del Vaticano – Uma Peça de Teatro e uma Boa Definição de Cosmopolitismo.

Estamos em pontos opostos ou não pensamos de maneira assim tão diferente? Passei um ano de trabalho no conselho de Almada, na freguesia do Laranjeiro, onde a fealdade humana e urbanística dominam. É em Portugal: nunca me senti tão estrangeiro como lá, bem mais do que quando vivi uma temporada em Berlim e muito mais do que quanto estudei em Évora ou fiz férias em Vila Viçosa, Mértola, Ponte de Lima, Porto, Guimarães e até em Florença, Bolonha, Veneza, Weimar. É chocante, porque para mim o meu país é aonde me sinto bem, aonde me vejo rodeado por uma cultura que compreendo, na qual me realizei, com a qual me enriqueci e, sobretudo, em que acredito. Não sou, pois, nem cosmopolita, no sentido de prescindir de uma raiz, ou de uma identificação, cultural, adaptando-me a qualquer ambiente como se me pudesse dar com tudo sem valores que me diferenciem, nem sou um nacionalista que tenha uma ideia abstracta, geral e mitológica de uma pátria (à maneira do romantismo nostálgico ou do oportunismo hipócrita fascista), como se esta fosse homogénea e não tivesse sido constituída pelas melhores (as catedrais góticas de Sutter, a grande arte em geral, as boas práticas agrícolas, os equipamentos tecnológicos indispensáveis para uma vida melhor) e piores influências dos outros (a exploração e especulação capitalistas, de onde surgiu a desordem urbanística). Onde vivo, mesmo onde nasci, pode não ser o meu país. Há partes do meu país que abomino. Aquelas onde o caos, a degradação, a anomia, o desenraizamento, a agressividade, o desrespeito, a exploração desavergonhada do homem-pelo-homem, a opressão laboral e moral, a fealdade campeiam. Há partes de outros países que adoro. Sou um homem do mundo, mas não de todo o mundo, embora não sinta ter o direito de ocupar tudo o que gosto – de dizer: aqui vou ficar, para bem ou mal dos outros -, mas o que amo é a paisagem (natural e cultural) dos meus valores, onde as minhas convicções, e até desgostos, ganham corpo, paisagem que não quero ver alterada na sua essência, ainda que se possa tirar mais dela, sem a tirar a si mesma, para enriquecimento cultural de cada um de nós que a ama com os traços que gostaríamos que fossem intemporais, mesmo que discretamente pontuados, em zonas apropriadas, de novos  e positivos bens de consumo e de produção. É essa paisagem que é a minha pátria. É isso que sinto quando vou ao Alentejo, à Beira-Alta, a Trás-os-Montes, ou ao Alto Douro.
in publico.pt:
“A temática de Città del Vaticano começou por ser abordada em The Complexity of Belonging, texto levado à cena no Festival de Melbourne. Nesse espectáculo, estreado em 2014, Falk Richter, em parceria com Anouk van Dijk, começou por se perguntar o que unia a população de uma antiga colónia europeia (a Austrália), o que fazia com que grupos e culturas, dos aborígenes aos descendentes dos criminosos ingleses para ali deportados e a toda a sorte de refugiados (os europeus em fuga da II Guerra Mundial, os asiáticos procurando colocar-se a salvo de vários cenários de guerra civil) constituíssem um país. Todas estas diferentes origens levaram Richter a questionar “o que significa ser australiano, como se encontram e quão importantes são as culturas de origem, venham do Vietname ou da Grécia.”
Ao regressar para a Europa, ele que é um dos encenadores da histórica sala berlinense Schaubühne, quis retomar a interrogação em relação à Europa. Retirado do texto final de Città del Vaticano, conta ao Ípsilon a actriz belga Tatjana Pessoa, sobrinha-bisneta de Fernando Pessoa (nasceu em Bruxelas, filha de mãe portuguesa e pai suíço), ficou por usar um excerto em que a Bélgica era também apresentada na sua improvável construção, puzzle francófono, flamengo e germanófono. “Isto, de alguma maneira”, diz Tatjana, “acaba por formar um país.” Esse conceito de nação, para alguém que fala cinco idiomas (Città alterna entre alemão, inglês e português) e viveu em vários países, é algo impreciso e de escassa utilidade. “Quando oiço alguém dizer ‘Vai-te embora para o teu país’ não percebo o que isso quer dizer. Espero nunca ter de escolher um país. Claro que posso escolher o sítio onde vivo e fazer parte da rede social e política desse lugar, mas isso é onde vivo, não é o sítio a que sinto que pertenço.””
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