Filme Matrix: Ontologia da Ilusão e Ilusão da Ilusão, Maniqueísmo Invertido e Terrorismo Salvífico (Adriano Oliveira)

 

Terrorismo Salvífico
“Durante o período de doutrinação de Neo, Morpheus lhe havia oferecido a justificação para actos como este, afirmando que qualquer ser humano ainda não libertado da Matriz é um inimigo potencial: MORPHEUS: “A Matriz é um sistema, Neo. Esse sistema é nosso inimigo. Mas quando você está dentro, você olha em volta, o que você vê? Homens de negócio, professores, advogados, carpinteiros. As próprias mentes das pessoas que estamos tentando salvar. Mas até que o façamos, essas pessoas são ainda uma parte do sistema e isso as torna nossas inimigas. Você precisa entender que a maioria dessas pessoas não está pronta para ser desconectada. E muitas delas estão tão acostumadas, tão irremediavelmente dependentes do sistema, que lutarão para protegê-lo”.Dentro da lógica ficcional, trata-se de uma fala que anuncia a dimensão dramática da fábula, amplifica o desafio tremendo dos personagens e expõe a dimensão altruística do sacrifício do herói por alguém incapaz de reconhecer o porquê de estar sendo “salvo” de sua própria vida — além de poder ser vista como mais uma referência à caverna platônica. Sob outro ângulo, todavia, o texto de Morpheus bem poderia servir a um panfleto de divulgação da Al-Qaeda. Na lógica do mundo possível de Matrix, os seres humanos ora são vítimas indefesas à espera da salvação, ora são potenciais obstáculos à consecução de um fim que se justifica por si mesmo. Crenças como estas assemelham Neo e seus companheiros muito mais a terroristas fundamentalistas que a salvadores iluminados. Curiosamente, haja vista a repercussão em geral positiva sobre o filme, é notável que este aspecto não seja percebido pelo espectador ocidental comum (leitor-modelo de primeiro nível), que consegue estabelecer uma relação empática com Neo, sua causa e seus métodos, e ao mesmo tempo perguntar-se, perplexo, sobre as misteriosas motivações de terroristas islâmicos suicidas. Neo não chega a atirar um avião-bomba sobre um prédio civil, mas, durante o curso de seu socorro a Morpheus, um helicóptero explode contra a fachada de vidro de um edifício para depois espatifar-se em chamas contra o solo. Nenhuma preocupação é demonstrada pelos heróis quanto à possibilidade de haver inocentes entre as vítimas de tamanha destruição. Não há tempo para isso: o espetáculo deve continuar. Mesmo a ideia de que o grupo de Morpheus respeita o livre arbítrio dos seres humanos, oferecendo àqueles que estão prestes a ser libertados o ritual iniciático das pílulas coloridas, revela-se paradoxal. O que temos ali está mais ao nível de uma “escolha forçada”, uma falsa oferta de liberdade, pois qualquer escolha conduz a uma perda irremediável sobre a qual, durante todo o filme, apenas Cypher parece querer dar testemunho 
 
 
Configurações do irreal em Matrix
De forma similar a outras obras que representam a irrealidade, encontramos em Matrix um modo espacial de captura do leitor. A sequência de eventos que culmina com a saída de Neo para o “deserto do real” não é surpreendente apenas para o personagem, mas também para o espectador identificado ao leitor-modelo que o texto fílmico vinha ajudando a construir. Trata-se de uma reviravolta em um enredo que até então conduzia o leitor-modelo a supor estar diante de uma fábula de gênero misto entre policial, espionagem e suspense. A trama já vinha sendo permeada por constantes irrupções de elementos que afetavam a verossimilhança realística do texto (como os superpoderes de Trinity na sequência inicial e Neo perdendo a boca durante o interrogatório e tendo uma sonda robótica vermiforme implantada em sua barriga[12]), porém a narrativa nunca prosseguia nessa linha e retomava sempre o seu curso “normal”. Por motivos de economia semiótica, o leitor ingênuo ignora estes elementos estranhos, privilegiando as linhas temáticas mais evidentes em prol de uma leitura global. Mas a partir do momento em que Neo encontra Morpheus e toma a pílula, tudo o que havia sido narrado até então é redefinido — de uma trama policial atual, passamos abruptamente para a ficção científica radical. Essa reviravolta vertiginosa no enredo é certamente um dos trunfos narrativos de Matrix. Possivelmente, a falta de um artifício similar contribuiu para que Reloaded e Revolutions, mesmo repetindo outros motivos do original, sejam filmes menos instigantes.Como já havíamos discutido no capítulo anterior, essa captura do leitor corresponde em Matrix a uma estratégia narrativa voltada para a potencialização de uma experiência lúdica do tipo montanha-russa, típica do cinema de ação norte-americano. Entretanto, diferentemente do que ocorre em Cidade dos Sonhos, este artifício não apresenta maiores consequências para a representação da irrealidade pelo filme.

 

Os mundos paralelos de Alice Dorothy e Baudrillard

Verificamos que Matrix atualiza estruturas narrativas míticas tradicionais e elementos da cultura contemporânea que compartilham uma abordagem particular do irreal. Essa é certamente uma das estratégias narrativas fundamentais da obra, e atende ao objetivo de “amplificar” o motivo fundamental da trama. Em todas as citações filosóficas atribuídas ao filme, encontramos um denominador comum fundamental para nossa análise: a referência a uma demarcação clara entre os espaços do real e do irreal. Em Baudrillard, temos a imagem do mapa e do território como metáfora para um real distinto do simulacro. Na caverna, encontramos referência à bipartição platônica entre mundo físico e mundo das ideias. Com o gênio maligno cartesiano, vemos um ser capaz de manter o homem numa realidade baseada no engano, longe da verdade.Da mesma maneira, as referências aos dois livros de Lewis Carrol sobre Alice e ao filme O Mágico de Oz repercutem uma lógica equivalente. Em Alice no País das Maravilhas e Alice através dos espelhos e o que ela encontrou por lá temos um País das Maravilhas [Wonderland] que existe paralelo à realidade onde a menina vive com sua família. Trata-se de um mundo possível constituído de paradoxos que subvertem as características do mundo possível que a menina reconhece como real. Em O Mágico de Oz temos uma lógica ficcional semelhante, porém menos radical que a de Lewis Carrol. O país de Oz é uma versão fantástica do Kansas para onde a menina é levada pelos ventos de uma tempestade. A maioria de seus personagens são versões fantásticas de amigos e familiares de Dorothy, pois a história joga com a possibilidade de que a viagem àquele mundo não tenha passado de um sonho da menina, mesmo que tenha sido vivido por ela como uma experiência real. Em ambas as fábulas, temos a representação de uma realidade “verdadeira” à qual se precisa retornar, e a presença de espaços de transposição bem delineados entre os mundos: buracos, espelhos, ciclones etc.A identificação desses denominadores comuns permite-nos sustentar que, em termos de estratégia narrativa, as referências à filosofia, à literatura fantástica e a certos elementos da cultura de massas presentes em Matrix existem basicamente para reforçar o núcleo “ontológico” da fábula: a representação do real e do irreal como universos paralelos distintos, onde o segundo é uma variação opressiva do primeiro e, por isso mesmo, um espaço a ser abandonado.Estamos agora em condição de propor uma síntese daquilo que identificamos como o discurso de Matrix acerca da representação da irrealidade. Diante de tudo que foi levantado e analisado é possível identificar as principais premissas ideológicas sobre as quais se sustenta a fábula de Neo e seus amigos: Em Matrix, o irreal é uma representação verossímil do real, a ponto de personagens e espectadores não se darem conta de estar diante de um simulacro. Como os personagens usam conectores e telefones para entrarem e saírem da Matriz quando bem entendem, o filme propõe que o limiar entre o real e o irreal é uma fronteira tangível e transponível. O filme também sustenta que o irreal é falso e o real é verdadeiro. Essa oposição equivale à outra: apesar de atualmente devastado, o real é intrinsecamente bom, pois é o espaço “natural” dos seres humanos, e o irreal é intrinsecamente mau, pois é o espaço da ilusão opressiva. Como o real é um bem e o irreal é um mal, todos os meios se justificam em relação ao fim de retornar ao real. O irreal é um erro de percepção imposto por uma instância inumana autônoma; portanto, os seres humanos não são responsáveis por ele. Entretanto, querer permanecer no irreal é um desejo ilegítimo, como demonstram as vicissitudes de Cypher. Além disso, Matrix sustenta que a saída definitiva do irreal só é possível através de uma intervenção supra-humana.Percebemos como o filme se sustenta em uma dualidade irreconciliável, que contrasta com os ideais de dissolução das fronteiras da era pós-moderna, a qual o filme é frequentemente referido. Diante disso, poderíamos até questionar autores que classificam a obra como pós-moderna, mas não é esse o nosso objetivo. O que se mostra importante aqui é verificarmos que Matrix, em momento algum, sinaliza para um questionamento de qualquer das premissas identificadas acima. Ao contrário, todas são reforçadas do início do filme até o momento culminante onde Neo ascende aos céus. Juntas, essas premissas dão densidade dramática aos mundos possíveis de um filme de ficção científica, mas oferecem problemas insolúveis para uma aplicação direta dessas ideias na crítica da cultura e da ideologia, como querem alguns. De qualquer modo, independentemente do desejo de seus autores e leitores empíricos, o filme enquanto mecanismo textual voltado para o prazer direto não demonstra desejar tal futuro.Recortado em partes, Matrixoferece analogias para argumentações teóricas. Visto globalmente, prevalece no filme a vertente blockbuster. Como afirma Andrew Gordon, embora Matrix divirta e nos dê muito no que pensar, seria possível classificá-lo como “uma tentativa fracassada de ser um ‘filme de ação intelectualizado’, no qual o espetáculo às vezes atropela ou contradiz as ideias que propõe” (GORDON, 2003, p. 113).Em grande parte das argumentações favoráveis a reconhecer em Matrix a presença de um discurso filosófico coeso, parece-nos fazer falta uma clara distinção entre “uso” e “interpretação” textual, nos moldes do que levantamos no capítulo anterior. Seria importante que algumas posições críticas fossem revistas em termos do limite entre o que se pode atribuir a Matrix como discurso e aquilo que o filme efetivamente permite dizer através da análise da sua manifestação textual e suas relações intertextuais. Nesse sentido, verificamos que muitos autores atribuem à obra uma “vontade” crítica dificilmente verificável, ali onde se vê prevalecer o convite à fruição mais imediata. Convite legítimo e bem realizado, em todo caso.Como vimos, as possíveis citações intertextuais eruditas em Matrix nunca vão muito além da superfície imagética das narrativas empregadas nos textos filosóficos como parábolas para discussões mais amplas. Matrix talvez cite o real devastado de Baudrillard, a opressão dos humanos prisioneiros da ilusão no mito platônico e mesmo promova uma encarnação cibernética para o génio maligno cartesiano, mas não encontramos no filme uma verdadeira reverberação das ideias às quais as narrativas míticas serviram de apoio nos textos de origem. As discussões filosóficas em Matrix dão um ar solene e douto aos diálogos, conferem estofo para a trama, mas, desprovidas de cunho crítico, não passam de flatus você. Desse modo, somos levados a concordar com a leitura de Baudrillard: Matrix, ao não pôr em questão os seus pressupostos narrativos, propõe uma representação simplista, maniqueísta e ingênua das fronteiras entre realidade e irrealidade, sem qualquer aplicação crítica que não em termos de negação e oposição».
 
Adriano Oliveira é Professor do Colegiado em “Cinema & Audiovisual” da UFRB. Este texto foi extraído do seu livro A Irrealidade no Cinema Contemporâneo: Matrix e Cidade dos Sonhos (2011). (Com alguma adaptação ao português de Portugal)
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