Bloco de Esquerda e Extrema Esquerda

Lili trotskista

(Não entender este artigo como uma vingança retardada sobre a política ambígua, embora muito bem mascarada, dos dirigentes do BE e do seu passado anti-comunista. Nem me passa pela cabeça invectivar o seu apoio à constituição de um governo do PS, legitimado pela maioria parlamentar, da qual faz parte o PCP. O papel do BE teve também aspectos positivos, em especial na mudança de costumes e valores discriminatórios. É de lembrar todavia que o papel do PCP nesse processo não foi menor, ainda que por vezes mais discreto e cauteloso, para não melindrar os preconceitos de parte da sua base de apoio, pois a luta de classes, onde o BE se mete mal, é a essência do PCP. Republico-o apenas para relembrar a natureza desse grupo político que é o BE e que, para quem esteve desatento no passado, tem dado sinais, nestes últimos dias, de não ser tão diferente de partidos tão tonitruantes (cão que ladra não morde) quanto o Podemos em Espanha e o Syriza na Grécia, que apenas querem um capitalismo de «rosto humano» e que, por isso, ficaram rapidamente rendidos à pressão do capital e dos seus representantes institucionais na UE e no FMI.)

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O Bloco de Esquerda é constituído maioritariamente por jovens técnicos que trabalham por conta própria, jovens assalariados contratados a prazo, sem valores de classe por serem filhos da ambígua pequena-burguesia e por terem de lutar isoladamente pelo seu emprego em regime de instabilidade, de competição permanente e sem existência e sentido de pertença ou de dependência recíproca e projecto comum, professores preconceituosos e pseudo-intelectuais zangados com ministras e estudantes sem vivência real das contradições fundamentais.
Na verdade, são estas condições objectivas que determinam, em grande parte, que a maioria dos jovens e dos menos jovens votem à direita ou em partidos de direita com desfalecidas tonalidades de esquerda, embora todos esses partidos possuam um projecto de classe mais ou menos definido em prol do capital, tendo todavia que lhe juntar um certo grau de mobilidade social, a possibilidade de entrada a novos agentes da iniciativa privada e de funções sociais para que a sociedade capitalista se renove com uma camada jovem de empresários, para que não caia no caos e, sobretudo, na revolução.
No Bloco de Esquerda militam pessoas com boas intenções. Contudo, têm mais de revolta pessoal do que sólida consciência social, não têm experiência de lutas colectivas nos locais de trabalho, nos sindicatos, na organização política coordenada e na rua em defesa dos interesses, não deles, mas dos assalariados em geral e, em particular, dos operários. A situação objectiva destes é a única que pode ser de oposição consistente ao capital. Só com eles se pode combater pela supressão final da propriedade privada dos meios de produção. Mas os dos Bloco de Esquerda são incapazes, por todas as razões invocadas, de se empenhar numa luta a médio e a longo prazo dentro de uma organização política anticapitalista na qual possam apresentar as suas ideias mas a cujo colectivo devem submetê-las.
São impacientes e individualistas, põem sempre o eu acima do nós, a vontade individual acima da vontade colectiva. Qualquer discordância em objectivos de curto prazo é motivo para debandada ou para a fragmentação.
É um partido de revoltados e não de classe. É um partido de pessoas que, à menor oportunidade de se juntarem à burguesia pelo enriquecimento através da exploração de assalariados, passam politicamente para o lado do capital. Na verdade, a sua formação e a sua situação social produzem essa expectativa e essa possibilidade.

f8961-trotskismo e Quanto aos seus dirigentes e intelectuais, ou suposto serem-no, o seu processo de vida burguês aliado ao seu carácter independente de pendor individualista e à sua inegável inteligência forma neles um conhecimento crítico próximo de ideias marxistas, mescladas ecleticamente com psicanálise, estruturalismo, humanismo e pós-estruturalismo pelo qual querem ser admirados e reconhecidos. Mas esse conhecimento é mais crítico do que revolucionário e a sua inclinação contestatária nunca vai ao ponto de quererem honestamente mudar radicalmente o mundo. A sua crítica é autodestrutiva, vai até à conclusão de que qualquer mudança revolucionária leva a resultados bem piores do que aqueles aos quais o sistema capitalista nos trouxe até agora. O trotskismo – corrente da extrema-esquerda modelar neste atitude – apresenta-se a si mesmo, e à sociedade, em especial aos jovens rebeldes, como a contra-prova e o contra-argumento do comunismo: é um belo ideal mas, vejam só, conduziu apenas a desastres; o que devemos fazer é apenas aperfeiçoar esta realidade capitalista em que vivemos, empenhando-nos em causas sectoriais e não sistémicas.
É por isso que a referência de um partido político marxista terá que ser sempre a classe operária. É ela que determina a forma geral e estratégica da luta política comunista e não os interesses particulares deste ou daquele grupo social, a ter em conta subordinadamente, mesmo que aliado da classe operária. Uma sociedade sem uma classe operária forte e objectivamente oposta à burguesia, na medida em que é um referencial para as reivindicações laborais e para um projecto político socialista nunca poderá sustentar um movimento comunista capaz de criar um sistema socialista sólido e com futuro. O produzir em conjunto os meios de vida e o não possuir propriedade privada pela qual os proprietários produzem e reproduzem a sua existência seu ser é uma antecipação básica da forma de existência comunista. Pela sua oposição aos interesses objectivos da burguesia, só eles podem materializar, concretizar a força de transformação radical do estado de coisas. Só eles se opõem económica e socialmente à burguesia proprietária, objectivamente interessada na manutenção do seu mundo, com uma ou outra reforma necessária para o conservar, e subjectivamente condicionada pelos valores do individualismo e da competição. Caso contrário, sem essa classe operária, esse partido deixa de ser marxista e social-democratiza-se. Ou então, como sucede com o Bloco de Esquerda, torna-se num instrumento de formação de quadros políticos em vias de ingressarem em partidos sociais-democratas ou de andarem por aí, cada vez mais sectários, a adejar a sua vaidade intelectual, o seu individualismo burguês, ou, ainda, a servirem como válvula de escape do mal-estar que assola de vez em quando parte da juventude inquieta e impaciente pelo bocado do seu bolo.

É evidente que, sendo a ideologia dominante a ideologia da classe dominante, propagandeada pelos meios de comunicação e pelas escolas e universidades, disseminada pelas próprias condições burguesas de vida, uma vez também que muitos dos trabalhadores assalariados, entre os quais operários, são proprietários, ainda que, não possam subsistir dos seus bens, dado que não chegam nem são feitos para isso, pois consistem na maioria em meros bens de uso, visto igualmente que os salários de muitos bastam não só para o consumo básico mas lhes sobram para o lazer e aquisição de utensílios de divertimento, cuja tecnologia, ajudada pela publicidade, deslumbra – muitos dos próprios explorados pelo capitalismo se sentem bem com ele, não arriscam a sua existência pessoal e familiar e ficam, de ciclo em ciclo político, de promessas em promessas, de crise em crise económica, na expectativa de ascender socialmente. Mas não há nada a fazer para um comunista senão manter as suas convicções e lutar pelos interesses objectivos comuns, universais, de classe operária em particular e dos trabalhadores assalariados em geral, fazendo reflectir tais interesses objectivos na sua consciência e nos valores do grupo.

Quanto àqueles que dizem que a classe operária está a desaparecer, responde-se o seguinte. É verdade que a maioria das pessoas não são operárias, nem nunca aconteceu que o fossem. Mas é verdade também que estão na base da produção de riqueza, do fundamento da vida social e humana. É verdade também que houve deslocalização, mas a transformação revolucionária é mundial e não apenas nacional. E é verdade que, além da classe operária, dos trabalhadores fabris, da indústria de transformação e de produção em geral, há uma grande quantidade de trabalhadores de serviços, nas instituições, educação, investigação, engenharia, nas artes, saúde, na distribuição e no comércio. Junto com os trabalhadores por conta própria, que vivem dos seus expedientes criativos, constituem a esmagadora maioria dos cidadãos no activo. Todos estão em oposição objectiva aos mecanismos e interesses do capital, à apropriação privada e não social da mais-valia realizada por eles, ainda que a sua consciência os possas colocar politicamente do lado dos beneficiários do sistema, na medida em que recebem destes a parte que lhes cabe na redistribuição do capital, em espacial na forma do salário ou do pagamento em troca de encomendas.

A complexidade desta dialéctica económico-social é tanta que não é expectável um revolução a médio prazo. Mas não é motivo para desistir da meta, por mais longínqua que se perspective. Pois é a meta que define as linha gerais do caminho.

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Quando, há uns meses, alguns economistas do PC e de outras áreas políticas pediram um debate sobre o Euro, Louçã veio para a comunicação social clamar contra a hipótese de saída do Euro. O Louçã, como todos os dirigentes e militantes do BE são meninos e meninas bonitas que se sentem bem neste regime. Apenas querem brincar à rebeldia e dar nas vistas como inteligências supremas. Portanto, não se preocupem, essas sumidades conseguem elevar-se ao nível dos vossos conhecimentos, simpatizantes e militantes do P.S. Agora, não sei se os conhecimentos são bons. P.S. A Ana Drago, como já a outra beldade (é pena que a beleza não seja política), está aqui está no P.S.

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O BE é uma manta de retalhos feita de restos trotskistas, maoistas, sociais-democratas, idealistas políticos, todos unidos pelo ódio ao Partido Comunista.

Louçã, por exemplo, é, ou era, um trotskista. Conheci trotskistas e eles diziam-me que preferiam os Estados Unidos à União Soviética. O seu economicismo (o futuro do socialismo está nos EUA, a sociedade mais desenvolvida, e não vale a pena qualquer solidariedade com a URSS, malgrado os seus defeitos, que identificavam com o totalitarismo, muito parecido com o Império do Mal) mal colado a um voluntarismo falso é sobejamente conhecido.

Uma vez, durante uma greve na Universidade de Lisboa – ouvi da sua boca -, a sua principal preocupação era isolar os comunistas.
Gostos não se discutem, os defeitos da União soviética não são para ocultar. Mas há muito tempo que percebi de que lado eles sempre estiveram.

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