O Fim da Europa

Porque sou contra a imigração em massa para a Europa de pessoas de culturas e sobretudo de religiões diferentes? Por chauvinismo? Por racismo? Por xenofobia? Alvos errados! Alvos imaginários. Alvos sofistas. Falácias do boneco de palha, do espantalho. Não sou corvo mas tenho alma de corvo: prognostico a desgraça – ou pelo menos o fim da minha Europa, o que, pelo menos para mim, mas também para aqueles criados numa certa cultura, não é coisa de somenos. Nem só de pão vive o homem, mas também de boas e civilizadas tradições, de uma paisagem e de rostos reconhecidos, de um sentido ou, no mínimo de um projecto possível de projectar a mudança, de uma autêntica liberdade de criação do futuro. As minhas raízes alimentaram-se de uma paisagem cultural cujo humos é imprescindível à minha identidade. Mas, na verdade, quem sou eu para almejar um terreno à medida? Mas, na verdade, quem sou eu para exigir a minha liberdade?
A Europa construíu-se numa História de luta, de contradições de classe, de nações com aspirações de independência ou imperialistas, e de poderes fácticos, sejam mundanos, sejam religiosos. Mas também, e através de tudo isso, progrediu, desde a Grécia Antiga, em conquistas contra a superstição, o fanatismo religioso, a confusão entre os territórios do sagrado e do profano, as discriminações de ordem hereditária, de privilégios, desprezos e explorações de classe, desigualdades de género, e combateu pelo direito à livre expressão, à educação laica, à igualdade de oportunidades. O carácter potencialmente revolucionário do Novo Testamento, pelo menos em certas exegeses legítimas, e mesmo a sua ambiguidade expressa na fórmula cristã «A Deus o que é de Deus, a César o que é de César», possibilitaram e criaram, à diferença das outras profissões de fé, as condições culturais que, face ao desenvolvimento dos modos de produção e às injustiças concomitantes, fizeram nascer a mais avançada, a mais humanista e racionalista das civilizações – sem esquecer evidentemente que o seu proselitismo, outrora cristão e agora humanista, a sua cobiça, as suas figuras de estilo mais luminosas projectaram também as sombras da guerra intestina e do imperialismo, como muito bem expressou Thomas Mann na sua Montanha Mágica.
Afirmando a responsabilidade imensa da Europa (e dos Estados Unidos da América) na miséria dos outros continentes, com a cumplicidade política, militar e económica dos testas-de-ferro e beneficiários locais, reclamo que ninguém se deveria servir das dimensões ética e sentimental da retórica cristã, nomeadamente com a atitude personalista – seu calcanhar-de-Aquiles -, para, ao centrar-se em exclusivo na salvação do indivíduo, fazer esquecer que o bem de cada um implica o bem comum e que os direitos humanos dos outros jamais se fazem à custa do sacrifício de quem não é responsável directo pela miséria lançada sobre o resto do mundo.
A invasão de costumes bárbaros, de superstições e preconceitos há muito derrotados, ou submetidos (grave eurocentrismo!), numa Europa já repleta de problemas sócio-económicos e de excesso de população em nada contribui para a solução das graves dificuldades em que se encontram os outros continentes. Cada nação e zona do mundo deve emancipar-se na medida das suas possibilidades e com a ajuda solidária dos países e instituições internacionais, através de uma política de transferência de tecnologia, do favorecimento do comércio justo e da proposição não forçada das melhores práticas de justiça. Todas as nações, europeias e as outras, deveriam ter o direito de seguir o seu caminho, não nos termos impossíveis de uma autarcia que impede assimilar o melhor da indústria estrangeira, o melhor dos processos, artes e valores, que devem circular sem muros que não sejam os da vontade de cada país, mas, com efeito, nos termos da liberdade de cada povo, enquanto resultado da sua dialéctica imanente, ao deliberar e decidir, de acordo com as relações de força internas, o que lhe aproveita.
Porém, o cosmopolitismo capitalista imperialista nada reconhece como sagrado. Tudo nele está à venda, não só as mães como as culturas e as pátrias. Pouco importa tudo isto aos interesses da circulação de bens e de capitais num sistema de propriedade privada que não cabe em fronteiras, pois a fase consumista do capitalismo internacional, precisa da livre circulação de pessoas e bens e sai favorecida com a uniformização das culturas pela transversalidade de um denominador comum, que é o do gosto dominante, aquele que se propaga pelos grandes meios de comunicação e que constitui a imagem da maior nação imperialista: os Estados Unidos da América.
Desde logo, a pulverização das comunidades nacionais e locais em grupos heteróclitos, em seitas e cultos de imagem e gostos particulares é a reacção contrapartida do desenraizamento e isolamento provocado por essa homogeneidade induzida pelo comércio internacional das modas, na qual as pessoas comunicam apenas segundo um código pré-estabelecido e quase irreal, tornando impossível fazer passar através dele a individualidade de cada um, ou se torna mesmo um obstáculo não só à sua expressão como ao seu desenvolvimento pleno, embora faça surgir laços aparentes de pertença diferenciados. Estes são de novo apostas falhadas porque baseadas apenas no estilo e não na substância, que é sempre e sobretudo a das relações de produção dominantes, mais as subordinadas, as deixadas subsistir subsidiariamente ou as que ocupam resquícios pouco lucrativos, quando não se sedimentam em conteúdos reais de vida adoptados por minorias nomeadamente sexuais, sendo que estas também não escapam aos fundamentos materiais da sociedade burguesa. A atomização ou isolamento dos indivíduos na cultura dominante, junto com a uniformização dessa perspectiva individualista no fundo de aparências diferenciadoras, é o facto maior do emburguesamento cosmopolita ao nível da vivência e do desencontro de vontades no encontro do egoísmo partilhado, por mais que as pessoas afectadas por ela, e sem meios intelectuais de lhe resistir, se tentem associar através de códigos de gosto comuns.
A somar a isto, as chamadas comunidades estrangeiras, agora cada vez menos minoritárias, começam por manter muito das suas tradições e preconceitos, o que acaba por levar ao isolamento e à fragmentação cultural, cujos conflitos potenciais apenas são apaziguados pelos negócios e pelo emprego. A única possibilidade de convívio será a abdicação das tradições, a estetização das crenças e dos costumes e mesmo a confusão das raízes, por exemplo à maneira artificiosa das músicas do mundo, enfim a adopção da metamórfica, assimiladora, estética, fantasiosa e narcisista cultura anglo-americana. Isto porque a alta cultura europeia, de vocação universalista, é um privilégio das elites, ciosamente ocultada às massas, ou dispensada com doses mínimas e marginais, pela divulgação omnipresente da subcultura popular.
Em suma, universalização e individualização abstractas junto à fragmentação das nações em culturas exógenas diversas, são aquilo com que contam os apóstolos cosmopolitas do capitalismo internacional e a que chamam, apelativamente, de multiculturalismo.
Conversa fiada para os profetas dos Estados Unidos da Europa ou para quem tem interesse na submissão aos ditames do Tratado Atlântico de Livre Comércio. Conversa fiada para o Imperialismo Norte Americano, que confunde a mundialização com os seus propósitos inconfessos de controlo do planeta para benefício próprio. E, como já dizia Engels, tudo o que nasce merece morrer. A paisagem cultural não é estática e é invadida e mudada de tempos a tempos. Será esse o nosso destino, inscrito na História e no processo lei do capital. O certo é que cada um de nós, se tem personalidade e se essa personalidade é a interiorização consciente de uma cultura própria, se esta não é assumida como circunstancial e pragmática, se é vivida convictamente, passa com o fim de um mais ou menos certo modo de ser das coisas que estão na nossa paisagem intencional.

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