Primavera de Praga – Ludo Martens: A Revolução de Veludo de 1968 em Praga, Trotskistas Aliados do Capitalismo e Pseudo-Comunistas Cansados do Socialismo

Cito uma passagem interessante do livro de Ludo Martens A URSS e a Contra-Revolução de Veludo, onde critica tanto os dirigentes comunistas, que deixaram infiltrar o seu partido por burocratas e oportunistas, e os promotores da Primavera, igualmente oportunistas mas mais ambiciosos e impacientes do que os outros. Exemplifica-se com a capitulação alegre da Checoslováquia ao capitalismo como se foi capaz de matar um regime social com futuro, apesar de todos os seus defeitos presentes, para além daqueles a que foram forçados pela pressão capitalista, ao qual se poderia chamar verdadeiramente de pátria. Exemplifica-se também a estratégia trotskista de destruir qualquer luta pela construção de uma sociedade socialista.
“No Ocidente, forças que iam da extrema-direita ao trotskismo, passando pela social-democracia, saudaram «o povo que tomou nas mãos o seu destino» e aclamaram «a revolução de veludo».
Para os marxistas era evidente que esse povo, completamente desorientado pela chuva de propaganda de direita e pela capitulação vergonhosa de todos os que se mascaravam de comunistas, marchava de olhos fechados na esteira das bandeiras da Restauração e do Antigo Regime. Ninguém dirá que os dirigentes da contra-revolução checa não tinham anunciado o que aí vinha. Já em 15 de Outubro de 1988, todas as grandes figuras da Carta 77 e de outros grupos de oposição – Rudolf BattekJiri DienstbierVaclav HavelJaroslav SabataLudvik Vaculik e uma centena de outros — haviam assinado um Manifesto do Movimento pela Liberdade cívica.
Eis as teses essenciais.
«O pluralismo económico é impossível sem pluralismo político. Só uma transformação do sistema político pode abrir o caminho a uma reforma económica verdadeiramente radical que libertaria as empresas do jugo da burocracia centralizada.» «Somos pelo pluralismo de diversas formas de propriedade e de decisão.»
E, após haver assinalado as formas autogestionárias e cooperativas, o Manifesto afirma:
«O pleno restabelecimento da empresa privada é inelutável nos domínios do comércio, do artesanato, das pequenas e médias empresas». «A economia checoslovaca deverá integrar-se, de maneira natural, na economia mundial, baseada na divisão internacional do trabalho(43)
A reacção do trotskista Petr Uhl a este Manifesto da contra-revolução de veludo foi muito significativa: enquanto se declarava solidário com as intenções fundamentais, julgou oportuno não assinar um texto tão comprometedor. Uhl reafirmou o seu acordo com os signatários, por «uma discussão de todos os problemas políticos no respeito do pluralismo».(44) O pluralismo de Uhlengloba, portanto, toda a gama das forças pró-capitalistas e pró-imperialistas. Trata-se, disse Uhl,
«de unir todos os adversários do centralismo burocrático e do stalinismo», a fim de «nos libertarmos do isolamento dogmático e da hegemonia burocrática»,
em suma, libertar- se do que ele chama o «socialismo real».
Entretanto, o Manifesto é tão francamente de direita que não deixa praticamente lugar aos pequenos truques de demagogia que constituem o contributo específico de Petr Uhl para a contra-revolução. É assim que é obrigado a constatar:
«Trata-se de uma plataforma liberal-democrata próxima do Partido Liberal alemão e dos liberais ingleses.» «A pretensão do Movimento para a Liberdade Cívica de coordenar todas as actividades políticas democráticas independentes tem um carácter totalitário.»
Mas esta acutilante análise não impede o trotskista de continuar a fazer olhos bonitos aos seus amigos do pluralismo anticomunista.
Ele lembra que muitos dos signatários têm
«um passado socialista no melhor sentido da palavra» e saúda no Manifesto «a reivindicação da autogestão nas grandes empresas»,
que não ultrapassa o quadro do accionariado operário da senhora Thatcher.(45)
Assim, a direita checa proclama alto e bom som a sua vontade de restauração, mas passeia com ostentação um pequeno apêndice cor-de-rosa que oferece à admiração de uma certa «esquerda». Um punhado de trotskistas, sem a menor preponderância sobre as massas, esforçar-se-á para manter a ficção de que a direita, massiva e agressiva, age segundo a linha da «revolução política antiburocrática» de Trótski!”
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