Refugiados Versus Pobres

 


“Ajudar refugiados que fogem da guerra é bem diferente de ajudar problemas económicos, sabia?”, escreveu um comentador de O Público, indignado com um lamento sobre a existência dessa diferença de percepção entre os homens. Tocou no alvo. Ninguém mete em casa um pobre mas mete um refugiado de guerra. Um pobre é um fracassado e define a fasquia do nosso sucesso, assim como exprime a hierarquia da sociedade com que nos identificamos. Um refugiado é um mártir de uma sociedade estranha. Conviver com um pobre não é só dar-lhe um sustento caritativo: é meter a pobreza na sua vida e fazer-se sentir cristianamente culpado. Que os religiosos, as associações de beneficência, o Estado, tratem deles, mas não demasiado – para não ficarmos com inveja, que não nos queremos aproximar deles em termos de rendimento. Caridade sim, alguns bairros sociais também – mas nunca a redistribuição equitativa da riqueza gerada, mesmo que na proporção da quantidade e qualidade do trabalho. Os pobres são, na realidade, sempre um incómodo. Quanta dificuldade há em dar uma esmola, sobretudo quando estamos a ser olhados? Um pobre é porco e vicioso, além de ser muitas vezes velho. Senão, por que seria pobre? Salvo se for de um país longínquo. Ser visto a ajudar um refugiado é, pelo contrário, um elevador do ego: torna-nos facilmente heróis. Um refugiado não é um pobre, é alguém que foge do mal e nós somos os seus anjos redentores. De resto, não se trata de salvar indiferentemente da morte, mas apenas aqueles que nos aparecem com uma figura reconhecível, pois continuamos a estar-nos nas tintas para os mortos das guerras em nome da liberdade e da democracia. O que mostra como somos feitos de contradições obscuras e demoníacas.

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