Estamos a Dar a Literatura Que Convém aos Adolescentes?

 
Um comentário em amazon.fr sobre uma edição de Madame Bovary de Gustave Flaubert, comentário interessante, que explica por que os adolescentes não podem apreciar as maiores obras-primas da literatura. Segundo ele, foram escritas para adultos e não para eles, que ainda não podem compreender, à falta de experiência de vida e de conhecimentos, os seus enredos e os seus comentários. Para muitos, essa experiência literária incipiente e demasiado precoce mata-lhes definitivamente o gosto pela leitura séria, que ficará para sempre associada ao sofrimento escolar. Talvez fosse preferível fazer uma escolha de obras entusiastas, mas que possuam sentido crítico e reflexivo, além de qualidade formal artística. Mais tarde, talvez sentissem a necessidade de leituras mais sérias para reflectirem sobre as questões que a vida lhes irá pôr. Transpondo para Portugal, temos poesia de Fernando Pessoa que qualquer adolescente desperto para a vida poderá apreciar, poemas de José Régio, de José Gomes Ferreira, como temos contos de Jorge de Sena e de José Cardoso Pires, entre outros que associam a reflexão à fantasia, à aventura, às questões a respeito das dúvidas típicas do processo de crescimento; obras que exprimem também aquele entusiasmo pelo presente e pelo futuro, assim como o sentido crítico do passado recente de que os adolescentes tanto precisam. Camões, Padre António Vieira, Almeida Garrett, Eça de Queirós, quase todo o Aquilino Ribeiro podem esperar – se a política cultural do Estado e os ‘media’ não lhes fecharem para sempre as janelas da fruição e da compreensão da grande arte, que é o que infelizmente acontece no nosso tempo.
 
 
 

 

“J’ai relu Madame Bovary. Je me suis fait violence car j’en ai un désastreux souvenir. Ou l’école, comment dégoûter de la littérature. Ainsi, les Balzac, Stendhal et autre Proust, dont la lecture imposée à l’adolescence, m’ont presque définitivement dégoûtée de la lecture. C’est le paradoxe de l’école, on veut faire découvrir aux jeunes esprits les perles de la littérature française, mais ces romans n’ont aucune résonnance pour un adolescent, ça reste un pensum. Ce sont des oeuvres adultes, écrites par des adultes avec leur préoccupation d’adultes, et adulés par d’autres adultes. C’est un univers qui laisse totalement indifférent l’adolescent, n’oublions pas que le « jeune vit dans un monde qu’il ne comprend pas et qui ne le comprend pas (cf une excellente pub pour la Poste). Ecrire sur les relations sociales, l’ennui, les mauvais choix que l’on peut faire dans une vie, c’est tout à fait à l’opposé de ce qu’attend le jeune : il veut qu’on le fasse rêver d’une vie pleine, enthousiaste et réussie.

 

Pourtant, je le reconnais aujourd’hui, c’est une oeuvre majeure de notre patrimoine culturel. Une leçon de littérature, sublime et habitée”   Une oeuvre magistrale (Par étoile le 5 février 2010).
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