Aristóteles: A Função Educativa da Arte e a Catarse

 
ARISTÓTELES
A FUNÇÃO EDUCATIVA DA ARTE 
E A CATARSE
  
 
 
Texto A: Do DVD que acompanha o manual Filosofia 10, da Plátano Editora. Texto B: Pedro Mota.
 
 
 
Texto A:
 
“1 – Há quem defenda que a arte tem valor em si. Para esta perspectiva, a única finalidade que o artista deve ter é produzir e criar uma obra genuína e realmente artística. A arte não deve promover princípios éticos e políticos. Deve ser alheia a propósitos pedagógicos e moralizadores. 
 
2 – Em Aristóteles, a arte está ao serviço da moralidade. A arte tem como principal função a melhoria moral dos seres humanos. Para o filósofo grego, as tragédias com valor artístico são as que ensinam aos espectadores que não há uma correspondência necessária entre as qualidades morais de um ser humano e as suas circunstâncias, isto é, entre virtude e felicidade.  A riqueza e a cultura são muitas vezes insuficientes para tornar um ser humano virtuoso. A boa tragédia ensina que para sermos felizes é necessário, embora não suficiente, por causa das circunstâncias, exercitar as virtudes morais.
 
 3 – Quem defende a função evasiva da arte afirma que esta é uma forma de escapar à rotina quotidiana e de iludir momentaneamente os aspectos dolorosos quer da nossa existência pessoal quer da vida e da condição humanas”.
 
 
 
 
Texto B:
 
Poderei acrescentar o seguinte quanto ao papel educativo da arte para Aristóteles, elaborado em Poética, o livro mais importante e influente jamais escrito sobre arte: 
A célebre função catártica, purificadora, dos homens através da arte é definida por Aristóteles como a superação do temor e da piedade, dois sentimentos que impedem uma relação racional com o mundo. 
Basicamente, há duas concepções da catarse, dado que Aristoteles não definiu com rigor nem desenvolveu este conceito. A catarse, numa interpretação possível, seria conseguida mediante o conhecimento das causas ou motivos que conduzem a acção do herói. A tragédia teria, pois, a função de fortalecer o ânimo e de levar a uma condução da vida mais racional. Talvez mais de acordo com as escassas palavras do autor sobre o assunto, a catarse seria o resultado do esgotamento do espectador e subsequente libertação da tensão afectiva face ao choque emocional provocado pela obra-de-arte. 
Aristóteles refere-se nomeadamente aos efeitos terapêutico, moral e cognitivo provocados pela peça teatral de género trágico, de libertação do temor diante do destino que espera o herói e do sentimento de compaixão ou sofrimento que nos suscita a situação desse protagonista por nos identificarmos com a sua virtude. 
Aristóteles faz corresponder a catarse a um certo género de teatro: “A tragédia é a imitação de uma acção elevada e completa, dotada de extensão, numa linguagem embelezada por formas diferentes em cada uma das suas partes, que se serve da acção e não da narração e que, por meio da compaixão (eleos) e do temor (phobos), provoca a purificação (katharsis) de tais paixões” (Poética, 1449b 24-28). 
Subentende-se que, tratando-se de uma purificação, que em Política, Livro VIII, Aristóteles esclarece tratar-se de uma descarga emocional (de origens rituais e médico-terapêuticas, ela resultaria de um esquema de acção no qual o herói passa da dita para a desdita, não por acaso mas por uma desmedida, ou seja, por uma sua escolha errada, da qual todavia não tem inteira culpa), a arte dispõe a pessoa para pensar de maneira oposta, portanto menos afectiva e muito mais dotada de racionalidade, sobre a existência humana. Na Retórica, Livro II, Aristóteles trata também deste tema. Diga-se de passagem que esta teoria vai ser a base da Psicanálise de Freud.
 
 
 
De acordo com uma interpretação possível, consistente com a teoria de Aristóteles, embora não desenvolvida por ele, mas que ignora a questão do carácter terapêutico de descarga emocional (abreacção) da catarse, e que está próxima, por exemplo, da de André Bonnard (proveniente, até certo ponto, das exegeses de Milton e Lessing), a catarse, ou purificação, consiste, não em nos tornarmos indiferentes ao problema do destino que está por detrás das circunstâncias e ao sofrimento desse homem (ou mulher) mas em superarmos o medo e o básico e superficial sentimento de compaixão, fortalecendo-nos com a compreensão da complexidade da vida humana, que nunca consegue solucionar as contradições entre a virtude e as circunstâncias. O herói é aquele que enfrenta essas contradições corajosamente, oferecendo assim ao espectador uma lição de vida. 
A arte, nomeadamente o teatro, tem, para isso, que destacar o essencial da vida, os seus princípios, fundamentos e razões, através da representação de uma acção trágica, eliminando tudo o que não contribui para a sequência da mesma, para a expressão dos motivos que a levam a acontecer, fazendo-o através da representação dela. Deve pôr de lado os elementos que não só são inúteis mas que desviam do principal ao acrescentarem coisas desnecessárias. 
A este propósito escreveu Aristóteles: “Homero […] ao compor a Odisseia, não narrou tudo o que aconteceu a Ulisses, como, por exemplo, que ele foi ferido no Parnaso [nisto Aristóteles parece estar equivocado] e que fingiu estar louco na assembleia, acontecimentos entre os quais não existia qualquer ligação necessária ou aparente [o que é verdade]. Pelo contrário, compôs a Odisseia e igualmente a Ilíada centradas numa acção una, como nós a entendemos.” (Poética, 1451a). 
 
 
Deve dizer-se que Aristóteles, desenvolvendo e modificando a noção de mimesis ou imitação exposta por Platão, não considera a arte como mera cópia das coisas que acontecem ou aconteceram. A imitação de que Aristóteles fala é outra coisa. Imitar pela arte é pôr em arte, nomeadamente literária (narrativa ou teatral), “o que é possível de acontecer de acordo com os princípios da verosimilhança e da necessidade” (Poética, 1451a). 
A imitação é, no caso da literatura, pôr em arte as acções humanas possíveis evidenciando a necessidade ou as «leis» que comandam a vida humana e a sociedade. A arte é imitação ou representação numa acção particular do possível, quer dizer, do que deve acontecer segundo as leis da vida humana e da sociedade. Estas leis têm que aparecer à inteligência do espectador através da acção representada como sendo comandada por elas.
A arte não é imitação daquilo que aconteceu ou acontece por acaso ou que tem a ver apenas com um certo acontecimento ou uma qualquer circunstância singular da vida de uma pessoa. 
Por exemplo,  o que aconteceu em Austerlitz quando Napoleão venceu a batalha, expondo a sequência de actos do combate entre o exército francês e o austríaco, sem mostrar ao mesmo tempo nada que, através da sua transformação em obra-de-arte, ponha em evidência uma característica universal e necessária da acção humana. Se a peça descrever apenas como os franceses gizaram uma táctica militar e a sequência de acções que levaram à derrota dos austríacos, tal peça não tem grande valor artístico. A batalha não teria de decorrer obrigatoriamente assim: os franceses poderiam ter elaborado uma táctica diferente, os austríacos poderiam ter-se defendido melhor. Nada, nenhuma necessidade obrigava a que a preparação da batalha e o decurso da mesma tivessem que ser dessa maneira. 
Uma obra-de-arte deve apresentar uma acção tal que seja comandada pela necessidade, pelas leis universais da vida humana. A arte é pôr em história particular os princípios da vida e da sociedade. Não é contar o que aconteceu a alguém ou a um grupo de pessoas, se isso não for a representação concreta, particular, de uma necessidade, daquilo que sucede por lei na vida humana. 
Por exemplo, mostrar como a acção está condicionada ou determinada pela ignorância da realidade. Esta ignorância é apresentada como princípio, lei ou necessidade, condição limitativa da vida humana em geral, a qual foi exibida mediante uma história particular, verosímil ou possível, na peça Rei Édipo de Sófocles, mostrando as consequências necessárias da ignorância, que é por sua vez uma condição universal, comum, da existência dos homens. 
 
 
 
Ora, a ignorância das leis da realidade não é uma coisa que se veja pelos sentidos mas implica a inteligência ou o conhecimento das causas do que acontece. 
Num outro exemplo, a protagonista da peça homónima Antígona, também de Sófocles, é sacrificada pela necessidade ou consequência do conflito universal, necessário e permanente – no mundo grego -, entre a lei do Estado ou pública e a lei da família ou privada. 
 
 
 
A peça representa, num caso particular possível – Antígona faz um funeral ao irmão morto por rebeldia contra o poder político – a existência na sociedade de duas leis ou princípios universais, às quais nenhum homem escapa, que acabaram por entrar necessariamente em conflito, no meio do qual a heroína é apanhada, com as consequências necessárias que daí resultam. 
 
 
 
 
O conhecimento desse conflito é uma questão de inteligência do que se passa numa certa sociedade; não se chega lá olhando apenas para o que se vê acontecer. 
Aristóteles escreve: «Portanto, a poesia é mais filosófica e tem um carácter mais elevado do que a História [No seu tempo, esta disciplina ainda não era científica]. É que a poesia expressa o universal, a História o particular. O universal é aquilo que certa pessoa dirá ou fará, de acordo com a verosimilhança ou a necessidade, e é isso que a poesia procura representar, atribuindo, depois, nomes às personagens. O particular é, por exemplo, o que fez Alcibíades [general e político ateniense] ou o que lhe aconteceu». (Poética, 1451b). 
Para Aristóteles a arte só tem valor se atingir o universal e o necessário, quando for capaz de ir além do que se vê, da descrição deste ou daquele facto, e ir à essência, às leis, aos princípios necessários que comandam a realidade humana. 
Que interesse tem uma acção cujo resultado é ficarmos a saber que Beatriz gosta mais do João do que do Manuel porque ela prefere homens ricos e que compram roupas caras a homens pobres, se nos der a mera constatação dessa preferência, ou o motivo evidente de que “é por isso ser melhor» (coisa de telenovelas, filmes e romances rascas)  em vez de fazer comandar a acção pelas causas mais profundas e verdadeiras estudadas que a conduziram, em virtude de tal necessidade, a essa escolha, e levar através do enredo os espectadores a entender isso? 
É claro que, com esta teoria, Aristóteles parece rejeitar a representação de acções que consistam inteiramente no maravilhoso e no absurdo. Parece também não conceber a eventualidade da arte abstracta ou o surrealismo. Mas não recusa o uso do fantástico quando servir para intensificar o efeito estético na representação do possível, se o fantástico for exterior à acção, isto é, se for apenas um acessório.
Aliás, contradizendo os lugares-comuns sobre a estética de Aristóteles, lê-se na Poética: “No que respeita à poesia, mais vale o impossível convincente do que o possível que não convence […] O irracional deve ser justificado por aquilo que as pessoas dizem e ainda porque, às vezes, não é irracional. Com efeito, é verosímil acontecer alguma coisa contra a verosimilhança” (Poética 1461b). 
 
 
 
Como Aristóteles não desenvolveu estas ideias, o seu comentário será sempre conjectural. Fica contudo a noção de que ele tem uma imagem muito mais ampla da forma artística do que é costume atribuir-se-lhe.
A regra de ouro da arte será: uma obra-de-arte atinge a perfeição, é verdadeiramente bela, quando, ao representar um caso radical, significativo, verdadeiro, mesmo que seja através de uma alegoria ou de um símbolo, que tem de expressar com rigor e intensidade a condição humana, o faz numa economia absoluta de meios, isto é, apresenta só e somente o necessário na exposição da acção. 
Uma obra-de-arte é, pois, um todo, uma unidade, quer dizer, é uma criação cujo todo resulta da conjugação das partes e cujas partes resultam das necessidades de composição do todo. Aquilo que não é preciso para o desenvolvimento de uma acção não pode fazer parte dela e a acção, como um todo, com princípio ou premissas, meio ou desenvolvimento e fim ou desfecho, só pode ser construída com os elementos que lhe são necessários para não ficar incompleta ou com elementos em falta para se compreender a sequência dos seus motivos e consequências. 
Rei Édipo, de Sófocles, é a peça que, segundo Aristóteles, atinge o mais alto grau de perfeição ou beleza artística.
 
 
 
Nas palavras de Aristóteles: “Portanto, assim como nas outras artes imitativas a um só objecto corresponde uma só imitação, também o enredo, como imitação que é de uma acção, deve ser a imitação de uma acção una, que seja um todo, e que as partes dos acontecimentos se estruturem de tal modo que, ao deslocar-se ou suprimir-se uma parte, o todo fique alterado e desordenado. Realmente, aquilo cuja presença ou ausência passa despercebida não é parte de um todo.” (Poética, 1451 a). 
Note-se, pois, que, em virtude da própria exigência de uma certa estruturação lógica da acção, o conceito de imitação em Aristóteles não é o de cópia dos factos, dos acontecimentos, como se fosse uma mera reprodução de figuras, gestos e palavras ditas, pela ordem em que as vemos suceder na vida quotidiana, numa sequência de acontecimentos não relacionados por um nexo de causalidade (a chuva que cai, o encontro causal com uma pessoa conhecida, com a qual fala de futebol, a despedida porque vai ter de ir almoçar, o cozido à portuguesa do almoço que se tem a seguir, o zangar-se com a cozinheira porque confeccionou mal o prato, a paixão repentina pela mulher da mesa ao lado, o saírem a namorar do restaurante e depois dizerem adeus até amanhã), mas é a imitação do que há de essencial neles através do evidenciar estético, nomeadamente através da acção, dos problemas, causas ou motivos fundamentais que a desencadeiam. 
 
 
Por exemplo, em Antígona, de Sófocles, o desfecho fatal de vida da protagonista homónima é o efeito necessário, inevitável e explicável, da sua acção contra o poder do Estado, ao realizar cerimónias fúnebres ao seu irmão sedicioso, a peça expressando com este enredo a importante contradição entre a lei pública e os princípios da existência privada, porque as duas exigem necessariamente, pela sua natureza, ao mesmo indivíduo condutas opostas. 
A arte também não é, como para Platão, a imitação de uma imitação, a imagem imprecisa e até falsa da natureza e da existência humana, que já é imitação de um modelo ideal, de uma forma ou ideia perfeita, que transcenderia a vida concreta. 
A arte é, para Aristóteles, a criação humana de uma imitação das leis da vida concreta através da sua concretização num caso e não de um ideal. Fica claro também que esta imitação é estilizada e construída para ter a forma de um todo coerente e completo capaz de expressar de uma maneira imaginativa, portanto indirecta, através da acção, as causas ou motivos subjacentes à vida humana. Neste sentido, ao contrário do que Platão pensava, a arte é mais perfeita do que a vida.
 
 
A arte, em especial a literária, deve, pois, pôr em evidência, pela mediação da imagem, plástica ou sobretudo literária, numa certa composição que articula factos através de motivos e razões implícitos, mas sem os expor teoricamente – pois isso está fora do propósito e da especificidade da arte: comunicar por imagens e não por conceitos, articulados dedutivamente num sistema explicativo -, os problemas humanos representados numa acção imaginada e não se deve limitar a reproduzir factos, a registar observações. Se o fizesse, apenas descreveria mas não compreenderia, não nos ajudaria a conhecer. 
A arte, em suma, para reforçar o que já foi dito, não deve ser uma mera narrativa do que sucede ou sucedeu mas a composição de uma forma ou de uma acção que pode ter acontecido, poderá ou poderia ter acontecido de acordo com as leis que comandam a acção. Para isso, a arte deve apresentar formas ou acções que representem concretamente as leis, as razões universais, a necessidade a que se submete a acção humana. É uma demonstração particular, concreta, do universal, da necessidade, da lei. 
Ela deve ilustrar o que é possível, ou o que vai acontecer dada a conjugação na prática de certos elementos ou factores, de acordo com as leis necessárias da acção humana, num contexto social e político. A arte está, por conseguinte, mais próxima da ciência e da filosofia do que da História entendida da maneira mais básica, a narrativa.
Aristóteles afirma: “Pelo exposto se torna óbvio que a função do poeta não é contar o que aconteceu mas aquilo que poderia acontecer, o que é possível, de acordo com o princípio da verosimilhança e da necessidade. O historiador e o poeta não diferem pelo facto de um escrever em prosa e o outro em verso (se tivéssemos posto em verso a obra de Heródoto, com verso ou sem verso ela não perderia absolutamente nada o seu carácter de História). Diferem é pelo facto de um relatar o que aconteceu e o outro o que poderia acontecer. Portanto, a poesia é mais filosófica e tem um carácter mais elevado do que a História. É que a poesia expressa o universal, a História o particular. O universal é aquilo que certa pessoa dirá ou fará, de acordo com a verosimilhança ou a necessidade, e é isso que a poesia procura representar, atribuindo, depois, nomes às personagens.” (Poética, 1451a – 1451b).
 
 
 
A arte – menos a decorativa, que tem a função de suscitar mero prazer estético – não deve fugir, iludir ou tornar agradável a vida mas deve mostrá-la, através de casos concretos, tal como é na sua essência, nas leis que a comandam, na sua realidade e contradições fundamentais. É só através desse choque afectivo, fazendo tremer todo o nosso ser, que a arte cumpre a sua função cognitiva e moral, portanto educativa.
 
 
É o contrário do que fazem os romances de entretenimento, as telenovelas e a maioria das pinturas, dos filmes e das séries televisivas.
Publicado 3 weeks ago por Pedro Mota
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