Nação Real e Nação Mitológica

 
Uma coisa é defender a cultura real que constitui a identidade, não metafísica e estática, mas histórica e em transformação, de uma Nação, cada vez mais ameaçada por um cosmopolitismo burguês arrogante e pela diferença abissal de desenvolvimento das nações, exploradas uma pelas outras através das grandes companhias e das entidades  financeiras internacionais credoras do trabalho dos outros, com apoio das forças armadas imperialistas. 
Outra coisa é sustentar a ideia da origem cultural e étnica, absolutamente distinta e superior, de uma Nação, origem na qual radicaria a sua verdade e cujas mudanças, tal como a diferença entre o ser e o nada de Parménides, a falsificariam e antagonizariam. Haveria que voltar à origem. 
O mito da origem remonta aos mitos da Antiguidade e mesmo de tribos pré-históricas. Nada tem de verdade e foi tragicamente retomada nos tempos modernos pelo Fascismo. 
Este representou uma formação social capitalista que surgiu de circunstâncias específicas, simultaneamente interconcorrenciais e anticomunistas. 

 

 
O Fascismo, através do suporte ideológico da ideia de uma unidade do povo, montou um projecto pelo qual conseguiu mobilizar grandes massas humanas e de capital, industrial e financeiro, em torno de uma ideia fictícia de pátria. Conseguiu assim opor-se ao comunismo, como movimento que procura realizar efectivamente a unidade do povo, sem patrões nem assalariados. Estabeleceu uma ditadura na qual o capitalismo monopolista nacional apoiado pelo poder do Estado tentou, através da política económica proteccionista daquele, prevalecer-se  sobre o capital exterior às suas áreas de influência político-militares, internas e coloniais, embora aceitando cooperações aparente contraditórias com tal projecto (caso, por exemplo, dos investimentos de grandes empresas estadunidenses na economia nazi-fascista), pois o capitalismo é, por essência, não só concorrencial como apátrida.
 
O Fascismo é sempre uma ameaça, mais ou menos velada, quando a ideologia liberal (assente em Locke e Montesquieu) se vê relegada de instrumento ideológico de libertação de formas pré-capitalistas de opressão, de implementador moral do progresso tecnológico e de legitimador das relações de produção e das oposições de classe, quando deixa de poder nem minimizar nem esconder as contradições imanentes ao capitalismo e quando se vê diante do perigo da decadência do sistema a que pertence.
 
Actualmente, dois perigos ameaçam as Nações: o cosmopolitismo burguês, que não respeita as forças produtivas nacionais nem os seus valores e culturas, com a sua unidade de tradição e projectos autónomos de futuro; o fascismo, que resulta do medo das consequências sociais e económicas internas do cosmopolitismo burguês, apresentando como solução o etnocentrismo e a repressão de toda a luta de classes como antipatriótica. 
O Fascismo actual não possui a força que tinha quando, legitimando-o no seu entender, se enfrentava com o seu poderoso adversário: o comunismo. Mesmo assim, as contradições nacionais económicas e étnicas, internas e externas, enraizadas numa História que renasce em momentos que propiciam o seu acerbo, conduzem ainda à ascensão de forças fascistas e pró-fascistas. O poder na Ucrânia de Kiev resultou de uma combinação de interesses geoestratégicos energéticos,  oligarcas, estadunidenses e saudosistas do nazi-fascismo, nascido em grande parte do ódio à colectivização soviética da terra. 
 
Resta dizer que os Estados Unidos, não sendo um Estado fascista, com a sua ideologia da predestinação para expandir os seus valores e a sua política pelo mundo inteiro, da superioridade da sua cultura, da sua ordem política e económica capitalista e do intervencionismo militar global, aproximam-se, na prática, do Fascismo. É pena, porque aprecio deveras a sua melhor arte, a sua energia criadora, as suas inovações tecnológicas, a sua alegria de viver.
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