Para Que Serve o Museu do Neo-Realismo de Vila Franca de Xira?


Em Vila Franca de Xira há um Museu do Neo-Realismo, o único do mundo dedicado sobretudo à literatura. Na Itália há um museu do cinema neo-realista. 


É uma interessante, leve, moderna, funcional obra de arquitectura à entrada da zona mais antiga da pequena e agradável cidade, com mais grandeza histórica do que tamanho. Por lá passaram nomes grandes das artes portuguesas de um dos mais importantes movimentos estéticos nacionais. Lembro-me de Alves Redol, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira e muitos outros.


Os funcionários são prestáveis e conhecedores. O mesmo não poderei dizer do director e de outros personagens que gizam o plano das actividades do Museu, assim como o sentido ideológico subjacente à montagem da exposição mais ou menos permanente, de cujos nomes agora peço desculpa mas não me lembro.


Pergunto-me para que serve um museu sobre uma corrente artística? Pode servir para homenagear e guardar a memória dos personagens que deram corpo e obra a um projecto. Pode servir para propagandear as ideias dessa corrente como um bem dos homens ou para denunciar e evitar a repetição dos seus erros e mesmo dos seus crimes. 


O Museu do Neo-Realismo, todavia, pretende servir dois senhores incompatíveis. 
Primeiro, presta homenagem a um movimento inovador de artes e letras e às suas ideias de emancipação de todas as formas de opressão, económica, política, cultural, individual. 


Depois, põe par-a-par as ideias e práticas defendidas pelos seus representantes mais persistentes e consequentes (as do socialismo, pelo qual lutaram os comunistas) com as ideias e práticas dos nazi-fascistas. Junta lado-a-lado, para efeitos de analogia, filmes como o Couraçado Potemkin e marchas militares das forças armadas nazis, a repressão soviética de uma revolta pró-nazi apoiada pela CIA na Hungria e imagens do campo de concentração de Auschwitz, completamente descontextualizadas em relação às causas históricas e sem o sentido da desproporção na grandeza e no crime. 


Quem sai dali fica com a ideia formada de que comunismo é igual a fascismo, de que capitalismo liberal é que é bom, apesar dos seus defeitos. Os dirigentes do museu terão conseguido a sua meta: distorcer a História e enganar as pessoas.


Não se trata, porém, de ocultar mas de dar a compreender. Seria o papel de um museu.
Neste, confundiram as musas e deixaram entrar as prostitutas. É pena.
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