A Previsível Capitulação do SIRZA – Chamando carne ao peixe Secção de Relações Internacionais do CC do KKE

 

Os “radicais” (extrema-esquerda, esquerdistas, bloquistas, etc.) voltam a cumprir o seu papel histórico: renovar a social-democracia caída em descrédito ou enfraquecida momentaneamente e impedir o crescimento eleitoral dos partidos comunistas. A sua motivação é a de melhorar o capitalismo, não de substituí-lo.

 

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21.Fev.15 :: Outros autores
“Na noite das recentes eleições gerais na Grécia, odiario.info colocou a interrogação: estaria um governo com o Syriza como base em condições de dar expressão à rejeição popular da política das troikas, então tão claramente afirmada? Os recuos e cedências verificados desde então, culminando na capitulação de ontem, confirmam a resposta negativa.

 

 

 

Chegou até aos nossos dias a imagem dos monges na Idade Média que chamavam peixe à carne para superar as dificuldades dos longos períodos de jejum. Esta imagem ilustra os desenvolvimentos destes últimos dias na Grécia por parte do governo SYRIZA-ANEL. Eis alguns dados sobre a questão: 
O SYRIZA, como partido de oposição, prometera “romper” com os memorandos que os governos anteriores tinham assinado com os credores estrangeiros (a União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional) e que continham as medidas anti-trabalhadores e anti-operárias. O SYRIZA, como partido governante, revelou que concorda com 70% das “reformas” previstas nos memorandos e discorda de 30% delas, que descreve como “tóxicas”.
Para além disso, declara que não tomará medidas unilaterais mas que procura um novo acordo com os credores que desta vez não se chamará “memorando”, mas “programa”, “acordo” ou “ponte”. 
O SYRIZA, como partido da oposição, declarava guerra à troika dos credores estrangeiros e dizia que acabaria com ela. O SYRIZA, como partido governante, declara que mantém contactos e que responderá às “instituições”. Quais instituições? A UE, o BCE e o FMI. Efectivamente, nas conversações que decorrem em Bruxelas participam, em nome das “instituições”, exactamente as mesmas pessoas que constituíam a troika. 
O SYRIZA, como partido da oposição, criticava o governo ND-PASOK que apoiou e participou nas sanções da UE contra a Rússia e acusou-o de ser servil ao assumir esta posição. O SYRIZA, como partido governante, apoiou as mesmas sanções da EU bem como a sua escalada, caracterizando a posição do seu governo como um “êxito significativo”. 
O SYRIZA, como partido da oposição, era contra as privatizações. Agora, como governo, e segundo a declaração do ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, diz que “Queremos passar da da lógica de vendas a preços rebaixados para a lógica do seu desenvolvimento, em cooperação com o sector privado e investidores estrangeiros”. Deste modo adopta, por um lado, as privatizações para reforçar o sector privado e, por outro lado, tenta apresentar como vantajosas outras formas de privatização, como é o caso das chamadas parcerias público-privadas ou das concessões a grupos de empresariais, etc. 
O SYRIZA, como partido da oposição, caracterizava a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) como o “livro negro do neoliberalismo”. Agora que o SYRIZA está no governo recebeu em Atenas, logo nos primeiros dias do seu mandato, Ángel Gurria, presidente da OCDE, que teve uma reunião com o primeiro-ministro Alexis Tsipras. A OCDE, segundo o governo de coligação SYRIZA-ANEL, é a organização que ajudará a formular uma lista de medidas a fim de salvaguardar o desenvolvimento (capitalista) na Grécia. Trata-se das medidas que substituirão a parte “tóxica” do Memorando, os famosos 30%. 
O SYRIZA, como partido da oposição, denunciou a decisão do governo anterior de pagar “dezenas de milhões de Euros a empresas que prestam serviços jurídicos e de assessoria financeira”. O governo SYRIZA-ANEL contratou como consultora sobre questões de dívida pública e gestão fiscal a companhia “Lazard”, valorizando a “experiência” com que contribuiu para os governos anteriores do PASOK sob Giorgios Papandreou. Isto não sucede por acaso. O novo ministro das Finanças, Varoufakis (que foi anteriormente assessor de G. Papandreou) recorreu aos serviços dos antigos assessores de G. Papandreou, J. Galbraith e Elena Panariti, antiga deputada do PASOK. O primeiro é um economista norte-americano, professor na Universidade do Texas, figura destacada do Levy Institute, bem conhecido apologista do capitalismo e partidário de uma fórmula de gestão mais expansionista. A última trabalhou para o Banco Mundial. Por outras palavras, trata-se de pessoas que servem o sistema e os seus mecanismos. 
Poderíamos acrescentar mais à lista dos recuos do SYRIZA e do seu governo “de esquerda”, como por exemplo o facto de que uma série de promessas pré-eleitorais, como o aumento do salário mínimo, ter sido adiada para um futuro distante. Poderíamos ainda apontar outros exemplos mais visíveis de funcionários e assessores do social-democrata PASOK que agora estão ao serviço do novo governo “de esquerda”. Contudo, a questão mais importante neste momento é clarificar que espécie de negociações está o actual governo grego a conduzir com a UE e os demais credores. 
As negociações têm um conteúdo concreto: não estão relacionadas com o suposto “fim da austeridade” na Grécia e na Europa, como afirmam o SYRIZA e os outros partidos que participam do Partido da Esquerda Europeia. De facto, Varoufakis declarou claramente que nos próximos anos, sob o governo do SYRIZA, os trabalhadores “terão de viver “frugalmente”. As negociações estão relacionadas com as necessidades dos grupos empresariais, que decorrem das consequências da crise capitalista profunda bem como da rumo da incerta recuperação capitalista na Grécia e na Eurozona no seu conjunto.
Estas negociações decorrem em terreno hostil ao povo. Isso fica demonstrado pela identificação do governo grego com países como a França, a Itália e acima de tudo os EUA, com todas as implicações negativas que daí decorrem. Estes países podem exercer pressão sobre a Alemanha em defesa dos seus próprios interesses, mas todos aplicam a mesma dura política contra os povos. 
Deste modo, e apesar da sua ruidosa propaganda acerca das negociações com a UE e os credores, o SYRIZA afirma ao mesmo tempo que concorda com eles em vários pontos e que dará continuidade aos compromissos antipopulares do país com a UE e a NATO. 
Assim, o povo grego e os demais povos devem evitar cair na armadilha de se dividirem em “merkelistas” e “obamistas” e lutar sob bandeiras “alheias”. Devem organizar a sua luta e exigir a recuperação das perdas nos seus rendimentos e nos seus direitos. Devem colocar objectivos de luta no sentido da solução dos problemas dos trabalhadores e do povo de acordo com as suas necessidades contemporâneas. Devem lutar pelo caminho que conduz à esperança: a socialização dos monopólios, romper as amarras com as uniões imperialistas da UE e da NATO, com o povo no poder. Isto abrirá o caminho actual e realista para a verdadeira emancipação do povo: a construção de uma nova sociedade, socialista”.
18 de Fevereiro de 2015
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