Idealismo (Hegel) Versus Materialismo (Marx) – O Problema Fundamental da Filosofia





Textos:



HEGEL, Lições Sobre a Filosofia da História, Introdução de 1830-1831: 
“pode dizer-se que a História mundial é a apresentação do Espírito: [a apresentação] da forma como chega a elaborar o saber do que é em si [inconsciente, ainda não reconhecido]. Os Orientais [na Antiguidade] não sabiam que o Espírito, ou o homem como tal, é livre em si [na sua essência, no seu fundamento, no início ainda inconsciente]. Porque eles não o sabem, não são livres. Eles sabem somente que só Um é livre, mas precisamente por essa razão uma tal liberdade é apenas arbitrária, selvagem, paixão surda, ou ainda uma paixão de uma tal doçura, de uma tal docilidade, que ela não passa de um acaso da natureza ou do arbítrio; – este Um é apenas um déspota, não um homem livre. Foi em primeiro lugar nos Gregos que se levantou a consciência da liberdade e, portanto, eles foram livres. Mas os Gregos, eles próprios, como de resto os Romanos, sabiam que somente Alguns são livres, não que o homem como tal o é. Isto Platão não o soube, nem Aristóteles. Foi por isso que os Gregos não só tiveram escravos – dos quais dependiam a sua vida e a substância da sua bela liberdade – como a sua própria liberdade não passou, por um lado, de uma flor contingente, passageira, não trabalhada e limitada e, ao mesmo tempo, por outro lado, não passou de uma dura servidão do homem, de tudo o que é humano. – Apenas as nações germânicas [Alemanha, Grã-Bretanha, etc.] conseguiram adquirir, no cristianismo, a consciência de que o homem é livre, que a liberdade do espírito constitui a sua natureza mais própria. Foi na religião, a região mais íntima do espírito, que esta consciência despertou primeiro. Mas é uma outra tarefa ainda, aquela de incorporar este princípio na realidade deste mundo – uma tarefa que, para ser resolvida e realizada, exige um longo e duro trabalho de formação cultural. Assim, quando a religião cristã foi adoptada, a escravatura não desapareceu de imediato e vê-se ainda menos, nos Estados, a liberdade impor-se imediatamente, ou ainda os governos e as constituições serem organizadas de maneira racional [de acordo com a verdade, a justiça universais e a melhor forma de organização social] e fundadas no princípio da liberdade. Esta aplicação do princípio à realidade efectiva [à vida concreta dos homens e aos Estados existentes], a penetração, a formação aprofundada do estado do mundo por esse mesmo princípio – é nisso que consiste o longo curso da própria História”.
 
 


MARX, Contribuição à Crítica da Economia Política, Prefácio (1858): 


“As minhas pesquisas chegaram ao resultado de que as relações jurídicas – assim como as formas do Estado – não podem ser compreendidas nem por si mesmas nem pela pretensa evolução geral do espírito humano, mas que têm, pelo contrário, as sua raízes nas condições materiais de existência, cujo conjunto Hegel, a exemplo dos Ingleses e dos Franceses do século XVIII, compreendia sob o nome de ‘sociedade civil’, e que a anatomia da sociedade civil deve ser procurada, por sua vez, na economia política [ciência das relações de produção, distribuição da riqueza produzida e consumo de bens, a começar pelos bens necessários à subsistência física]. Comecei o estudo desta em Paris e continuei-o em Bruxelas, de onde emigrei na sequência do mandato de expulsão do Senhor Guizot. O resultado geral ao qual cheguei e que, uma vez adquirido, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode formular-se brevemente assim: na produção social da sua existência [criação, organizada socialmente, dos bens necessários à vida], os homens entram em relações determinadas [objectivamente definidas], necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção [organização do trabalho] que correspondem a um grau de desenvolvimento determinado das suas forças produtivas materiais [máquinas e aptidões técnicas aplicadas dos trabalhadores]. O conjunto destas relações de produção constitui a estrutura económica da sociedade, a base concreta [real] sobre a qual se eleva uma superstrutura jurídica e política e à qual correspondem as formas de consciência social determinada [ideias dominantes na sociedade e na cabeça das pessoas]. O modo de produção da vida material [técnicas e relações entre os homens na produção] condiciona o processo de vida social, político e intelectual em geral. Não é a consciência dos homens [as suas ideias] que determina o seu ser [aquilo que são]; é inversamente o seu ser social [a sua existência determinada pelas suas relações com os outros homens] que determina a sua consciência [as ideias que tem da sua existência]. Num certo estádio do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais [instrumentos, maquinaria de produção, em qualidade e em quantidade] da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes [escravos-senhores, servos-nobres, assalariados-capitalistas, falando em termos simples] ou, o que é apenas a sua expressão jurídica, com as relações  de propriedade no seio das quais se moveram até então. De formas de desenvolvimento das forças produtivas que eram, essas relações tornam-se entraves. Então, abre-se uma época de revolução social. A mudança na base económica subverte mais ou menos rapidamente toda a enorme superstrutura. Quando se considera tais subversões, é preciso sempre distinguir entre a subversão material, ou seja, das condições de produção económicas – que se pode constatar de uma maneira cientificamente rigorosa –, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em suma, as formas ideológicas sob as quais os homens tomam consciência deste conflito e o levam até ao fim. Tanto quanto não se julga um indivíduo pela ideia que ele faz de si mesmo, não se poderá julgar uma tal época de subversão pela consciência de si [expressão tomada de Hegel]; é preciso, pelo contrário, explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito que existe entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. Uma formação [estrutura] social [com a sua infraestrutura económica e a sua superstrutura político-jurídica] nunca desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas [maquinaria e trabalhadores] de que é suficientemente capaz de conter, jamais as relações de produção novas e superiores substituem as antigas antes que as condições de existência materiais de tais relações irrompam no próprio seio da velha sociedade”.
 
 
 
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