Eça de Queirós e Jerusalém

“Esta jornada à terra do Egipto e à Palestina permanecerá sempre como a glória da minha carreira […]
“De resto, esse país do Evangelho, que tanto fascina a humanidade sensível, é bem menos interessante que o meu seco e paterno Alentejo; nem me parece que as terras favorecidas por uma presença messiânica ganhem jamais em graça e esplendor. […] Mas, desde as figueiras de Betânia até às águas caladas de Galileia, conheço bem os sítios onde habitou esse outro Intermediário divino, cheio de enternecimento e de sonhos, a quem chamamos Jesus Nosso Senhor – e só neles achei bruteza, secura, sordidez, soledade e entulho.
“Jerusalém é uma vila turca, com vielas andrajosas, acaçapada entre muralhas cor de lodo, e fedendo ao sol sob o badalar dos sinos tristes.
“O Jordão, fio de água barrento e peco que se arrasta entre areais, nem pode ser comparado a esse claro e suave Lima que lá baixo, ao fundo do Mosteiro, banha as raízes dos meus amieiros: e todavia, vede!, estas meigas águas portuguesas não correram jamais entre os joelhos de um Messias, nem jamais roçaram as asas dos anjos, armados e rutilantes, trazendo do Céu à Terra as ameaças do Altíssimo” (Eça de Queirós, Prefácio a A Relíquia).
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