As Pseudo Teoria da Conspiração e o Dano que Fazem ao Progresso


Há quem acredite nas historietas dos Protocolos dos Sábios de Sião e do Governo Mundial, na cooperação entre Judeus, Comunistas e a Rainha de Inglaterra (não estou a brincar) para instaurar uma Nova Ordem Mundial controlada por eles. Há quem acredite que os governos e poderosos (políticos, banqueiros, mações, ideólogos) dos Estados Unidos da América causam todos os acontecimentos relevantes no mundo, de uma forma predeterminada e encadeada para dominarem e controlarem o planeta e o submeterem através de um sistema financeiro único. Os conflitos no mundo seriam pelos menos o resultado da luta entre vilões globais, como a luta entre Apolo e Vénus na Guerra de Tróia. 
Os conflitos económicos e políticos seriam os meios pelos quais uma ideia gerada por espíritos maléficos se realizaria. Tratar-se-ia de uma ideia original e premeditada de domínio do mundo – uma ideia financeira, pela qual o mal espiritual se estaria a impor materialmente. Esta ideia seria, na verdade, a visão de Satanás, contra o bom espírito de Deus, onde os homens poderiam viver uma bem aventurada existência livre das necessidades materiais, de opor-lhe um império de matéria, não só constituído pela bruta necessidade física como pelos laços, não da amizade e da bondade, mas do dinheiro. Vê-se claramente de onde provém esta história: do ancestral ódio aos judeus e do recente ódio aos comunistas.
A pseudo teoria da conspiração mais famosa é também a mais ridícula e absurda mas uma das que mais prejuízos provoca nas causas do progresso social, do socialismo, na medida em que, entre outras pseudo teorias, influencia as mentes de pessoas genuinamente empenhadas nessas causas.
Ela é também perigosa porque, em vez de deduzir as contradições sociais de forma objectiva e científica, como o produto do desenvolvimento material e espiritual da Humanidade, explicável pela evolução da Natureza, da consciência e das ideias como reflexo complexo e dialéctico dos processos materiais, assaca a sua responsabilidade a uma vontade incompreensível (ou sobrenatural) de poder, incarnada em certos grupos aparentemente obscuros (reis, mações, comunistas), afastados da vida comum dos homens vulgares, e na elite de certas etnias (judeus, arianos) que procura mandar materialmente na Terra. 
Superstição, espiritualismo religioso, etnicismo, moral de ressentimento, ódio ao outro, ignorância das leis históricas objectivas da sociedade, incapacidade de definir objectivos concretizáveis e meios de acção política eficazes – são estes os efeitos nefastos e reaccionários de tal crença. Trata-se de um retrocesso a uma mentalidade primitiva, que satisfaz os verdadeiros poderosos deste mundo e afasta do conhecimento os mecanismos que fazem com que estes poderosos o sejam.
Basicamente, reza assim: O homem, orientado por Satanás, continuou ao longo dos milénios a tarefa da mundialização ou globalização. A Nova Ordem Mundial (o Anti-Cristo) começou há muito a ser construída através da entrega da missão a duas seitas ocultistas: os Iluminati e os Bahais. A sua principal missão é criar um sistema financeiro totalmente controlado por pulsos electrónicos. É a mulher sentada em cima da Besta de cor escarlate representada no Apocalipse. Mas a história tem ainda um aspecto retorcido. A Ordem Mundial Iluminati tem como base manter os EUA e os seus aliados no poder. Contudo, vai ao mesmo tempo constituindo-se um novo sistema através da conspiração dos Baha’u’llah, que vão transmitindo as suas ordem aos chefes poderosos, mentalizados pela sua religião e que estão descontentes com os EUA. A Ordem Mundial de Baha’u’llah acabará por criar um executivo mundial, com nove mestres eleitos por si, a Rússia e  China, que irão substituir no poder os EUA. O Anti-Cristo, incarnado por aquela religião, pela Rússia e pela China, mandará na Terra.
Percebe-se agora que esta mistificação expressa o medo dos ocidentais deixarem de ser o centro do mundo e a necessidade arcaica de personificar as forças universais, compreensíveis pela razão mas invisíveis às mentes pouco cultivadas, que, algo misteriosamente, comandam as nossas vidas. As pessoas ainda gostam de ver a História como uma história.
Outras pseudo teorias da conspiração, menos totalizadoras, invadem também muitas cabeças que, noutros usos, até são muito racionais. Deixo à inteligência de cada um o inventário das mesmas. 
A História está cheia de conspirações mas não é uma conspiração. A História não é o resultado de uma coordenação de vontades, pois essas vontades são o produto das condições ou relações objectivas, sobretudo económicas, reflectindo-se em lutas políticas, conflitos militares, relações de produção, etc. 
Esquecer isto é desarmar a esquerda, que vê nas relações de produção e na luta de classes delas resultantes a teoria para reivindicar a justiça concreta para os trabalhadores. É dar razão à direita, que vê na força de vontade, na peleja das ideias, no mérito mental o motor do progresso e a causa das diferenças sociais. Deixem-se de palermices, por favor, porque o progresso social não ganha nada com essas pseudo-teorias.
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