Judaísmo Versus Sionismo

 
 
“Alguém escveu num comentário a uma notícia sobre os conflitos em Gaza em O Público em linha: Tenho sérias dúvidas que o lápis azul ( para os que não sabem, era a cor do lápis da censura fascista e dos censores ao serviço da ditadura antes de 25/abril/74, na imprensa escrita, entre outra), não deixe a cruz sobre o que aqui vou dizer.Há por aqui muitos opinadores,sentados, que do médio oriente ou mundo árabe,o mais longe que conseguiram ir e conhecer, foi a Marrocos, dar uma voltinha nos cansados camelos, com a fotos no facebook da praxe a fazer inveja á vizinha do 5º esq, e ao colega do escritório,ou fazer umas compritas no Souk mais próximo.Da realidade de Gaza ou Haifa,sabem o que os telejornais manipulados servem.Trabalhei, vivi, estive por lá vários anos. Sou europeu ,por isso pergunto:Ainda há gente do Hamas de pé? se sim,bombardeiem-nos! O mundo civilizado agradece!”
 
 


 
Eu respondi:


1. Não aticem as religiões umas contra as outras. A Bíblia e o Alcorão são livros que, se respeitados à letra, e apesar da sua inconsistência interna (em particular, a Bíblia foi escrita durante mais de seiscentos anos e representa mentalidades e circunstâncias muito variadas), seriam manuais de assassinatos em massa em nome de Deus, para descanso das almas. Há aqui uma diferença, todavia, e que é fundamental. No Novo Testamento, há passagens que vão no sentido da separação entre Igreja (povo de Deus) e o Estado: “A Deus o que é de Deus, a César o que é de César”. Mas só com o Liberalismo é que esta separação se começou a realizar, por vezes de forma incompleta. Mas o livro do Islão exige que a lei civil se submeta à religiosa. A leitura fundamentalista da Bíblia e do Alcorão é perniciosa.
 
 
2. Não acredito em verdades religiosas. Temos que pensar que a religião é uma arma de dois gumes: serve para alienar os povos e como instrumento de união, à falta de consciência política, dos povos contra a opressão. O fanatismo, o fundamentalismo exacerbam-se face à opressão interna e à agressão, económica, política e militar, externa. Se há fundamentalismo islâmico, muita da responsabilidade, embora nem toda, cabe aos ocidentais, pelo menos desde a 1ª Grande Guerra, senão desde as cruzadas. É por isso que existe o Hamas, grupo fundamentalista que ocupou o espaço deixado por quem, de entre os árabes, abandonou os palestinos. E Israel, como quase todas as civilizações até agora, manifesta o seu lado bárbaro ao apropriar-se do território dos mais fracos.
 
 
 

3. É verdade, pelo que leio e vejo, que o Hamas é um movimento fundamentalista, fanático, podendo ser verdade que promove casamentos de homens adultos com meninas ainda impúberes, ou que mal chegaram à puberdade, o que no Ocidente pode ser considerado pedofilia, que enforca homossexuais em espectáculos públicos, que os seus membros estão entre a população e que talvez a transformem em escudos humanos. Mas isso não pode justificar o massacre por parte de Israel dos palestinos por causa da sua resistência à opressão, à expulsão das suas terras, à marginalizarão social e cívica, à negação de uma pátria e porque os governos árabes e os seus próprios representantes máximos, da Autoridade Palestiniana, os abandonaram, por interesse egoísta ou por impotência, tendo apenas o Hamas a assisti-los. Há que saber também que nem todos os palestinos são muçulmanos; há também fiéis da religião cristã.
Um comentador de notícias na rede chamou de acéfalos os muçulmanos por acreditarem em Alá e na palavra do Alcorão, citando, contra eles, Voltaire, Schopenhauer, Nietzsche e Proust. É verdade que dois eram ateus e um deles, Voltaire, não era teísta, apenas deísta, e todos consideravam absurdas as superstições religiosas mas nenhum deles chamou acéfalos aos crentes (chamaram-lhes outros nomes, é verdade, mas não esse), seja da nossa religião matricial seja das outras. 
Não é com ofensas à inteligência das pessoas (quantas grandes mentes não foram também crentes?) que se debate e se propaga a razão. É pelo respeito, e esse respeito implica a liberdade religiosa, a autonomia política e o desenvolvimento económico. Se estes dois últimos são roubados, o fanatismo religioso prospera como compensação da miséria terrestre.

 

 

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