Sophia de Mello Breyner Andresen Vai para o Panteão



Não gosto mais da poesia da Sophia do que de outros poetas menos laureados e que não poderiam, por motivos evidentes, receber honras de Estado. Parece-me, em certos poemas, que ela faz uma elegia a um mundo de harmonia, perdida ou que nunca existiu sem ameaça, noutros uma ode de cordialidade com a Natureza e de realização da essência fundamental do Homem, de paz, amizade e beleza. Noutros poemas ainda, ela canta a concórdia humana na conjunção das suas vontades através dos valores supremos da verdade, do belo e do bem, essa tríade helénica muito cara a Sophia, que são mais ideias do que conceitos definidos e mais ideais do que realizações possíveis. Os sentimentos humanos pacíficos são favorecidos pela experiência que o Homem tem dos frutos do campo, dos horizontes abertos da paisagem onde o Homem cresce, e, para o mostrar, faz-se valer de um específico efeito de personificação dos versos. 
Noutros poemas ainda, há a censura a um mundo cujo caos ela não compreende. Há também o valor dos altos ideais da liberdade, da autonomia. Há o amor por uma Grécia mítica, pelos encantos da Natureza que nos exprimem e pela empatia que nos acorda as cordas delicadas da nossa humanidade. Há igualmente vagas ideias da pátria, que parece ser mais um ideal do que uma realidade sustentável face aos egoismos que a minam. Há também nos seus versos a energia vital dos factos simples. 
Mas onde está o sangue, a dor, a intensidade telúrica, áspera ou doce, extasiante ou fatalmente ferida das experiências vitais? Onde estão os opróbrios, as denuncias ácidas, a violência dos juízos e dos argumentos exactos e penetrados da verdade mais concreta e essencial? Onde está tudo isto na sua arte? O que apenas leio nela são ideais muito belos e de bom tom compartilhados por algozes e vítimas numa democracia de injustiças mascaradas de equidade. O que apenas leio são essas mesmas injustiças ditas num estilo de corte francesa com que todos concordamos porque não são dirigidos aos agentes, às classes e às razões que as tornam reais. O que apenas leio não é nada que me ensine donde vem o que devemos acusar, para onde vamos efectivamente se não agirmos, que nos ensine a agir para fazermos algo mais do que soletrar o bem dizer auto-satisfeito e meramente ético dos privilegiados, para criarmos um mundo novo e melhor.
Sophia não cedeu ao sentimentalismo subjectivista nem a um simbolismo requentado de misticismos. Sem hipérboles nem frases rebuscadas e inúteis, a sua pena tem um desenho essencial, o despojamento da verdade complicadamente simples na qual ela acredita. É esta a sua modernidade.
Contudo, quanto a mim, as suas palavras líricas não têm a força de uma sabedoria que se pudesse tornar poder material de mudança. Há nelas a nostalgia da Arcádia e de uma certa realidade pastoral ou, antes, sonhadora, a expressão pessoal, ainda que partilhada e que se quer comum, de um complexo de meros desejos não enraizados nos movimentos sociais que os tornariam possíveis. Por isso mesmo, não é uma poesia empenhada no vigor de uma palavra militante na realidade em transformação. Ainda que ela tivesse tido uma actividade política, primeiro em oposição ao fascismo e depois como deputada, o seu compromisso foi sempre com o liberalismo político e, a fortiori, com o estado de coisas existente, na medida em que, ja ºem democracia burguesa, fazia parte de um partido do poder capitalista. E, contudo, é bem certo que nem toda a poesia necessária para o desenvolvimento humano deve ser politicamente empenhada.
A sua poesia tem um excesso de tradição clássica,  mas as suas metáforas não são demasiado fáceis e não estão gastas. Compõem mesmo figuras muito belas de um lirismo arrebatador. Têm profundidade espiritual quando repudiam implicitamente o produivismo, o militarismo, a inveja, o pragmatismo, o utilitarismo e o consumismo que mirram as qualidades superiores do indivíduo, mas o seu estilo não traz nada de essencialmente novo à arte poética nem sequer se insere no movimento de uma modernidade que exigiu um discurso menos contemplativo, menos reflexivo e mais empenhado na criação plástica e política de um mundo novo, 
O modernismo não quiz apenas mudar as ideias privadas das pessoas mas, reconhecendo decerto os seus meios pacíficos e pouco operativos, combater a realidade irracional do estado de coisas existente e levar à prática a efectuação de um mundo novo, na política, na economia, na arquitectura, nos costumes, embora por vezes de forma voluntariosa, elitista e, reconheça-se, nem sempre para melhor. Pelos menos, os seus actores tinham a força da denúncia, as propostas de um outro modo de vida e os conhecimentos para participarem, no plano estético e artístico, no projecto de um novo mundo. Os casos mais emblemáticos são o da Bauhaus na Alemanha, que se espalhou pelo mundo, e o do modernismo comunista das duas primeiras décadas de Revolução de Outubro, antes de surgir a ameaça nazi e de o medo da desagregação do Estado proletário ter levado à intolerância face à imaginação criativa e à formulação de uma estética encomiástica, centralizada e dogmática. Sabe-se que o chamado pós-modernismo, cínico, rejeitou esse vanguardismo.
Se o neo-realismo foi essencialmente progressista, houve um surrealismo desmistificador e outro mistificador. O imagismo acabou por se tornar num snobismo conservador e houve mesmo casos, junto com algum futurismo, de adesão à ideologia fascista 
Sophia foi todavia uma aristocrata num território rude e muitas vezes desumano na sua humanidade violenta, revoltada, revolucionária a espaços, e cujas possibilidades e exigências não compreendeu. 
Como ela escreveu:

“De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira.
Eu – coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto”.

Belíssimos são também estes versos:

“Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento,
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugidia”.

E ainda estes:

“Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não”.

Uma mulher muito bela, que se mostrava com a mesma elegância, delicadeza e verticalidade com que escrevia. 

 Lamento, talvez saiba pouco de poesia, e não nego beleza à sua arte.

Prefiro, de facto, Bocage, Camilo Pessanha, Gomes Leal Cesário Verde e, mais recentemente, António Gedeão, Eugénio de Andrade, Manuel da Fonseca, Mário Cesariny, António Ramos Rosa, Jorge de Sena, Alberto Pimenta, Maria Teresa Horta, Herberto Helder e alguns outros. 
Todos estes artistas, na sua imensa diversidade, cultivaram poéticas que exprimiram mais e melhor, e melhor e mais umas coisas do que outras (alguns só umas), a modernidade, com as suas problemáticas sociais, políticas, existenciais, éticas e ontológicas, denotaram um interesse especial e actualizado pelos valores básicos do quotidiano e pela sua crítica acerada. Tematizaram com frontalidade crua as imagens da realidade impiedosa e da existência concreta, nas suas paixões nuas e sofrimentos não idealizados, mas visceralmente vividos. Manifestaram também marcado interesse  pela substância da linguagem na sua relação essencial com a consciência humana, com os desejos mais autênticos e menos idealizáveis e com o ser em geral. Fizeram-no introduzindo formas de dizer o novo de maneiras novas. 
Há o abandono, a partir de Baudelaire, Whitman, T. S. Eliot, Ezra Poud e outros inventores da poética contemporânea, de um recurso sistemático e exclusivo a retóricas idealizadoras e antigas, de analogias e metáforas místicas ou mistificadas, antropomórficas, animistas, de prosopopeias, de sinédoques, de metonímias, de antíteses, de analogias vagas e de simbolos paradigmáticos mas já estereotipados. 
Os poetas que revolucionam a sua arte, pelo contrário, embora não abandonando de todo os recursos tradicionais (sobretudo em Portugal o preciosismo e o rebuscado continuaram a contaminar parte da literatura) assumiram imagens e expressões que remetem, indo além do naturalismo e do simbolismo, para a realidade efectiva, defrontando-se através das suas inovações com a frontalidade da existência. Recorrem à coloquialidade do quotidiano quando este o reclama, à enunciação literal da aspereza das coisas, à carnalidade recta da vida, à exposição da irracionalidade, à denúncia da mentira e ao desmascaramento da ideologia. Procuram as  formas adequadas ao conteúdo puro e duro que pede para ser expresso, da mesma maneira que tem que ser desmistificado. 
A ideia de “correlato objectivo” de T. S. Eliot como significado referencial da transposição poética desenvolve-se num programa de ir às coisas mesmas executado por uma das correntes fundadoras da modernidade: o imagismo. Só o expressionismo, o surrealismo e o neo-realismo, em sentido amplo, ombreiam com a primeira corrente e, através respectivamente do exagero cruel, da montagem absurda de elementos factuais e naturais e da análise cinzelada das contradições de classe, assentam a sua imaginação na referência constante à mundaneidade e à denúncia por meios hiperbólicos, paradoxais e sócio-analíticos dos problemas efectivos com que os homens se deparam, como a exploração, a alienação, a guerra.
Em suma, são introduzidas a objectividade e a experimentação nas frases poéticas próprias de um mundo tecnológico, científico e aberto pela luta humana a novos horizontes de vivências e de liberdade. A imagem, a associação absurda, a literalidade, os actos e objectos do quotidiano, a coloquialidade, o enunciado objectivo, são figuras e elementos que predominam e recebem direitos de cidadania na nova poética. 
Tentam assim ser superados o subjectivismo e o emocionalismo, a atracção romântica do sublime e do heroísmo das ideias aparentemente nobres e puras, o transcendentalismo semi-religioso ou metafísico e também a nostalgia de um mundo clássico de rectidão moral e estética mais sonhado do que verdadeiramente histórico.  
Como ilustração, eis um extracto de Mário Cesariny:

“Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!”

Tivémos sempre, desde o início da nacionalidade, pléiades de poetas entre as melhores do mundo. É pena que não se ensine a apreciar poesia, como tantas outras coisas.
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