O que a Media Omite da Família Al-Assad: Uma Visão Alternativa da História Síria


Por Babel Hajjar.

Existem muitas versões na mídia [media], e a enorme maioria não resiste à verdade, de quem vive ou tem contato com pessoas da Síria hoje. É verdade que a família Al Assad está no poder desde o fim da década de 60. Hafez, pai do Bashar, governou até a morte, e seu governo deu representatividade a cerca de 30% da população não islâmica sunita da Síria, dentre eles os Alauitas (grupo étnico-religioso originalmente “pagão” que foi convertido ao islamismo), Drusos, Xiitas, e Cristãos Ortodoxos, Maronitas, Assiríacos, Melquitas entro outros. Hafez fez um governo duro que, se não era baseado nos princípios democráticos tão difundidos no Ocidente, visava primeiramente proteger as minorias – 30% da população, então nada insignificantes – de revoltas sectárias. Não sei se sabe, mas Síria, Iraque e Armênia viram, até o final do domínio turco na região (durante 500 anos, até início do séc XX) a intolerância do império otomano, de maioria sunita, dizimar cerca de 1,5 milhão de cristãos armênios e cerca de 600 mil cristãos assírios e babilônios, uma catástrofe humanitária só comparável ao Holocausto Judeu, e ambas só perdem para o extermínio das populações indígenas americanas no século XIV a XVIII, estimado em cerca de 20 milhões de vidas.
Portanto, a mão de ferro do governo visava a pacificação. Questionável? Talvez, se a política implementada no Oriente Médio após os turcos não fosse o colonialismo francês e inglês, que dividiu a nação árabe em protetorados que posteriormente instigaram a disputa por poder na região. Apesar desse histórico, Bashar é muito diferente do pai. Ele assume em 2001 como um reformista. Está a 13 anos no poder e muita coisa mudou. É mito que se diga que a maioria sunita não participa do governo. Os sunitas são a maioria do exército de Bashar. Se quisessem, por motivos sectários, se rebelar, engrandecendo a oposição síria, teriam tido a oportunidade ideal nesses quase 3 anos de luta contra a oposição. Porém, eles não são sunitas apenas, eles são sírios. E, como sírios, seu dever foi o de combater os invasores e defender os civis sírios, o que fizeram e ainda fazem de modo destemido. Os sunitas são comerciantes renomados nas principais cidades da Síria, e ministros da confiança de Bashar. A própria primeira-Dama é de origem sunita. Apesar do que a mídia prega, não há uma revolução sectária na Síria, há uma invasão.


Bashar também, à diferença do pai, promoveu uma abertura política. Partidos antes proibidos na Síria, hoje fazem parte do governo, em posição de ministério. Há um governo de coalizão [coligação]. Óbvio que isso não significa que tudo é um mar de rosas. Existem reivindicações e existiram manifestações pacíficas. Existe uma truculência herdada da era Hafez, uma máquina de informações, e a liberdade de imprensa é uma luta diária de quem quer se expor [exprimir]. Mas isso é decorrência de uma cultura militar arraigada, onde o inimigo está a poucos quilômetros de distância e é armado até os dentes pela maior potência do mundo, me refiro obviamente a Israel e EUA. E a resposta síria tem que ser rápida. Mas o caminho da reforma não tem mais volta. Há na síria desde o ano passado uma nova constituição, e a expectativa de eleições diretas para presidente em 2014. Vale lembrar que a eleição direta para o parlamento já é uma realidade, de forma análoga ao que ocorre nos EUA.
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Assma Faouwaz Al-Akhrass Al-Assad – 1ª dama da Síria
Existe porém, uma diferença fundamental na Síria. A Síria é um país laico. Sua população é nacionalista, se considera Síria. Até mesmo os Curdos, que são um povo que deseja a independência tanto no Iraque quanto na Turquia, na Síria eles reivindicam seus direitos preservados, sua terra e querem ser vistos como cidadãos sírios.
A Síria combate hoje uma invasão estrangeira. Embora haja pessoas sírias que pegaram em armas contra o governo, são minoria. Muitos dessa minoria se arrependeram de terem aberto suas casas e vilas para jihadistas estupradores, assassinos de mulheres crianças e velhos. O “Exército Sírio Livre” não passa de um nome atribuído a grupos de mercenários financiados externamente com o objetivo de depor o governo atual, Laico, e subir um governo sectário como o da Arábia Saudita, do Catar [Qatar] e outros.
Espero ter esclarecido.
Babel Hajjar é brasileiro filho (com muito orgulho) de Sírios e membro do GT Árabe.
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