Armas de Destruição em Massa e a Segunda Guerra do Golfo (Iraque)

 
 
 

Republico aqui alguns interessantes textos sobre o problema que a Euro-América tem com o Iraque. O texto do blogue Cão Uivador é um excelente resumo da História que nos levou até aqui. Republico também uma entrevista a um ex-analista da CIA, que acusa os EUA de manipularem  a história do ataque químico. 
Devemos ter sempre em atenção que a primeira vítima da guerra é a verdade.

Uma arma de destruição em massa ou arma de destruição maciça(ADM) é uma arma capaz de causar um número elevado de mortos numa única utilização. Esta designação é atribuída a armas nucleares, a armas químicas, e a armas biológicas.
(publico.online):
“David Kay, que dirigia o grupo de peritos encarregado de procurar armas de destruição maciça (ADM) em território iraquiano, considera que o regime de Saddam Hussein não tinha na sua posse aquele tipo de armamento antes da ofensiva militar pelas forças da coligação.
“Conduzimos essas investigações para encontrar a verdade. (…) o facto é que, até ao momento, essas armas não existem e devemos procurar saber as razões para tal”, afirmou Kay em entrevista à rádio pública norte-americana NPR.
 
Questionado sobre se concorda que o Presidente norte-americano, George W. Bush, se explique ao país por ter lançado uma guerra no Iraque com base em informações falsas quanto à posse de ADM pelo regime de Saddam, Kay afirmou que “na realidade são os serviços secretos que devem dar uma explicação ao Presidente”.
 
“Não se trata de uma questão política, mas da capacidade das agências de serviços secretos em reunir informações credíveis”, continuou o antigo responsável, sublinhando que o Iraque era já considerado pela Administração democrata de Bill Clinton como um perigo.
 
Kay realçou ainda que desde a derrota do Iraque na Guerra do Golfo, em 1991, o país não possui nenhum programa entendido como sendo de produção de ADM nem “stock” importante que possa ser utilizado “imediatamente”.”
 

 

Blogue “Cão Uivador”:

 

Quem é o maior “perigo mundial”?

 

“Até 1979, o Irã era uma monarquia pró-Ocidente. Com a Revolução Islâmica, “o jogo virou”, e o país passou a ser visto como “ameaça” pelos antigos aliados.
Então entrou em cena Saddam Hussein, ditador do Iraque. Armado pelos Estados Unidos, invadiu o Irã e deu início a uma longa guerra (1980-1988), que deixou mais de um milhão de vítimas e acabou “empatada”. Saddam usou armas químicas e biológicas contra iranianos e curdos.
Com a economia debilitada após o conflito, o Iraque, rico em petróleo, desejava que o valor do barril fosse aumentado, o que obviamente não era desejado pelo Ocidente. Em agosto de 1990, Saddam Hussein ordenou a invasão e anexação do Kuwait, riquíssimo em petróleo, que assim como a Arábia Saudita era aliado dos países ocidentais e não aumentava o preço do barril. Foi o que motivou a Guerra do Golfo de 1991, após a qual o Iraque sofreu sérias sanções econômicas, e Saddam foi acusado de possuir “armas de destruição em massa” – pelos países que mais as possuem e, pasmem, que o armaram e o apoiavam quando as utilizou.
Ao longo da década de 1990, as acusações ao Iraque quanto à posse de “armas de destruição em massa” continuaram. O país seria novamente bombardeado em 1996 e 1998, quando o presidente estadunidense Bill Clinton precisava “agradar à opinião pública” nos Estados Unidos: na primeira oportunidade, Clinton concorria à reeleição; na segunda, corria risco de impeachment por conta de um escândalo sexual.
Após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, o presidente George W. Bush incluiu o Iraque no “eixo do mal”, lista dos países contrários aos interesses dos Estados Unidos, sob o pretexto de “apoiar o terrorismo”. Ao longo de 2002 procurou, sem sucesso, convencer o mundo inteiro de que Saddam Hussein era uma ameaça igual ou maior que Osama Bin Laden, que o mundo inteiro corria perigo.
Saddam decidiu permitir a visita de inspetores da ONU, em busca das tais “armas de destruição em massa” que supostamente o Iraque teria. Nada foi encontrado. Já Bush e sua claque juravam de pés juntos que Saddam possuia sim as tais armas, para justificarem a guerra. Ignoraram a ONU e os protestos em todos os cantos do mundo, e em 20 de março de 2003 iniciaram a invasão do Iraque.
Seis anos depois, nenhuma “arma de destruição em massa” foi utilizada contra o invasor, nem sequer encontrada. Sinal de que Saddam não tinha mais nenhuma. O país foi loteado entre empresas privadas que auxiliariam na “reconstrução”: a “liberdade” de Bush destruiu o Iraque, para permitir a entrada das grandes corporações “de bem” lá.
Saddam Hussein foi capturado no final de 2003, julgado e condenado à morte, sendo executado em 30 de dezembro de 2006. Foi um julgamento muito longe de ser justo: embora Saddam tenha sido um ditador cruel, deveria ter sido submetido a um tribunal neutro, fora do Iraque ocupado por forças estrangeiras.
————
Por que lembrei tudo isso? Para alertar do perigo que são esses coros de “fulano é um perigo regional/mundial”. Afinal, eles partem de onde está o verdadeiro perigo.”

 

 
Ex-analista da CIA acusa os EUA de manipularem história do ataque químico
Por Stephen Pelletière 


The New York Times 

 

2 de fevereiro de 2003 

 

 

 

“MECHANICSBURG, Pensilvânia – Não foi surpresa o fato de o presidente Bush, em falta de uma evidência contundente do programa de armas do Iraque, ter usado seu discurso de Estado da União para enfatizar a justificativa moral para uma invasão: “O ditador que está montando as armas mais perigosas do mundo já as usou sobre vilarejos inteiros, cegando, desfigurando ou matando milhares dos próprios cidadãos.” 

 

 

 

 

A acusação de que o Iraque usou armas químicas contra seus cidadãos é uma parte conhecida do debate, e a prova concreta repetidamente levantada é a morte por envenenamento de gás de curdos iraquianos na cidadezinha de Halabja, em março de 1988, quando se aproximava o fim da guerra entre Irã e Iraque, que durou oito anos. O próprio Bush citou “o envenenamento por gás do próprio povo”, especificamente em Halabja, como uma razão para derrubar Saddam Hussein. 

 

 

 

 

Mas a verdade é que tudo o que sabemos com certeza é que os curdos foram bombardeados com gás venenoso naquele dia em Halabja. Muitos fatos que circundam o evento foram ignorados ou grosseiramente distorcidos. Estou em condições de saber isso porque, na qualidade de analista político sênior da CIA no Iraque durante a guerra entre Irã e Iraque e professor da Escola Superior de Guerra do Exército no período de 1988 a 2000, tive acesso a muitos materiais confidenciais que circularam em Washington relacionados com a Guerra do Golfo. Além disso, chefiei uma investigação do Exército em 1991 sobre como os iraquianos lutariam numa guerra contra os Estados Unidos, e a versão confidencial do relatório detalhou bastante o caso Halabja. 

 

 

 

 

Indubitavelmente, sabemos o seguinte sobre o envenenamento por gás em Halabja: aconteceu no decorrer de uma batalha entre iraquianos e iranianos. 

 

 

 

 

O Iraque usou armas químicas para tentar matar os iranianos que tinham tomado a cidadezinha, que fica ao norte do Iraque, não muito longe da fronteira com o Irã. Os civis curdos que morreram tiveram a má sorte de serem pegos nessa escaramuça. Mas não eram o alvo principal do Iraque. 

 

 

 

 

E a história fica mais tenebrosa: imediatamente após a batalha, a Agência de Informações da Defesa investigou e produziu um relatório confidencial que circulou dentro da comunidade de inteligência. Esse estudo concluiu que foi o gás iraniano que matou os curdos e não o iraquiano. 

 

 

 

 

A agência descobriu que Iraque e Irã usaram gás um contra o outro na batalha de Halabja. Porém, o estado dos corpos dos curdos mortos indicou que tinham sido mortos por um agente que tem efeito na corrente sangüínea, isto é, um gás baseado em cianeto – que o Irã é conhecido por usar. Os iraquianos, tidos como terem usado gás mostarda na batalha, não eram conhecidos por terem agentes com efeito na corrente sangüínea na época. 

 

 

 

 

Há muito que esses fatos são de domínio público, porém, estranhamente, apesar da freqüëncia com que o caso Halabja é citado, raramente são mencionados. Um muito discutido artigo publicado na The New Yorker em março último não faz referência ao relatório da Agência de Informações da Defesa, nem considera que o gás iraniano pode ter matado os curdos. 

 

 

 

 

Nas raras ocasiões em que o relatório é citado, geralmente cogita-se, sem provas, que isso foi uma distorção decorrente do favoritismo político americano em relação ao Iraque na sua guerra contra o Irã. 

 

 

 

 

Não estou tentando reabilitar o caráter de Saddam Hussein. Ele tem muito a responder na área de violação dos direitos humanos, mas acusá-lo de envenenar o próprio povo em Halabja como um ato de genocídio não é correto porque, como consta nas informações que temos, todos os casos onde o gás foi usado envolveram batalhas. Essas são tragédias de guerra. Talvez haja muitas justificativas para invadir o Iraque, mas Halabja não é uma delas. 

 

 

 

 

Na realidade, quem realmente sentir que o desastre de Halabja tem relação com hoje talvez deva considerar uma outra pergunta: por que o Irã estava tão ávido para tomar a cidade? Uma análise mais precisa talvez lance uma luz sobre o ímpeto dos EUA de invadir o Iraque. 

 

 

 

 

Somos constantemente lembrados que o Iraque tem talvez as maiores reservas de petróleo do mundo. Mas, no aspecto regional e talvez até geopolítico, talvez seja mais importante o fato de o Iraque ter o mais extenso sistema fluvial do Oriente Médio. 

 

 

 

 

Além do Tigre e do Eufrates, há os rios Zab Maior e o Zab Menor, no Norte do país. O Iraque já era coberto por obras de irrigação no século 6.º d.C. e era um celeiro para a região. Antes da Guerra do Golfo, o Iraque já construíra um impressionante sistema de diques e obras de contenção do rio, a maior delas a represa Darbandikhan, na região curda. E era o controle dessa represa que os iranianos almejavam quando tomaram Halabja. 

 

 

 

 

Na década de 90, houve muita discussão sobre a construção do chamado Aquaduto da Paz, que levaria as águas do Tigre e dos Eufrates para os Estados secos do Golfo e, por extensão, a Israel. Esse projeto não avançou, em grande parte por causa da intransigência do Iraque. Com o Iraque em mãos americanas, é claro que tudo poderá mudar. 

 

 

 

 

Portanto, os Estados Unidos poderão alterar o destino do Oriente Médio de uma forma que provavelmente não poderá ser contestada por décadas – não apenas por controlar o petróleo do Iraque, mas por controlar a água. 

 

 

 

 

Mesmo que os americanos não ocupem o país, uma vez que o partido Baath de Saddam Hussein seja destituído do poder, muitas oportunidades de lucro poderão se abrir para empresas americanas. 

 

 

 

 

Tudo o que é preciso para nos levar para a guerra é uma razão clara para agir, uma razão convincente para todos. Entretanto, as tentativas de vincular os iraquianos diretamente a Osama bin Laden mostraram-se inconclusivas. 

 

 

 

 

As afirmações de que o Iraque ameaça seus vizinhos também não conseguiram gerar tal determinação, pois no seu presente estado debilitado – graças às sanções da ONU – as forças convencionais do Iraque não ameaçam ninguém. 

 

 

 

 

O argumento mais forte que restou para nos conduzir rapidamente para a guerra é que Saddam Hussein cometeu atrocidades contra seu próprio povo. E o exemplo mais dramático – a acusação do uso de armas não convencionais contra seus próprios cidadãos – são as acusações relacionadas aos acontecimentos em Halabja. 

 

 

 

 

Antes que entremos numa guerra por causa da Halabja, o governo deve ao povo americano os fatos completos. E se o governo tem outros exemplos de envenenamento dos curdos por Saddam, deve comprovar que não se tratavam de guerrilheiros curdos pró-iranianos que morreram lutando junto com os Guardas Revolucionários iranianos. 

 

 

 

 

Até que Washington nós apresente provas das supostas atrocidades de Saddam, por que estamos cutucando o Iraque por causa de violações de direitos humanos, quando Washington apóia tantos outros regimes repressores?” 

 

 

 

 

*Stephen C. Pelletiere é autor do livro Iraq and the International Oil System: Why America Went to War in the Persian Gulf (O Iraque e o Sistema Petrolífero Internacional: Por que os EUA Foram para a Guerra no Golfo Pérsico).
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