A Má Foda dos Três Efes do Fascismo Português Voltou em Grande


Futebol: jogo bonito (embora prefira o ténis e o rugby) mas amaldiçoado pelo negócio, pelo fanatismo e pelo falso patriotismo, com heróis que não merecem a sua grandeza falsa).

Fátima: pois era preciso ao Fascismo alienar as pessoas e fazê-las esquecer as indignidades da pobreza e da falta de liberdade com a fantasia de uma deusa com uma preferência especial pelo povo português, ainda por cima portadora de três segredos ou mensagens, o último deles confiado a João Paulo II: a previsão da derrota do comunismo infiel.

Fado: apesar do fado popular e profundo da voz autêntica de um Alfredo Marceneiro e do optimismo humanista do inovador Carlos do Carmo, que lhe trouxe uma dimensão moderna e progressista, melodias fortes e de bom gosto, foi o modelo das canções da fatalidade – ó tempo volta para trás!

Agora eles os três estão de volta, e com mais aplicação, nesta época em que a fatalidade já não é a morte que não tarda ou a traição de amor imperdoável, nem os excessos dos heróis que a desafiam engrandecendo o Homem, mas a mão invisível dos mercados financeiros e da acumulação industriosa de capital; nesta época em que uma virgem ainda faz arrastar pelo chão portadores de uma culpa inexistente que mascara a raiz do mal social e familiar que outros infelizes ou felizes oportunistas bem sucedidos lhes provocaram; nesta época em que a complexidade incompreensível da realidade humana e os riscos  profissionais de uma escolha política torna atractiva a simplicidade das tabelas da bola, cujos génios são as crianças crescidas que nós fomos, e as pequenas e grandes maldades são personificadas e identificáveis neles e na puerilidade dos seus dirigentes, porque não passa de um jogo e um jogo, com os seus rituais e espírito de bando, não tem consequências fora do campo.
Correia da Fonseca escreveu a propósito de uma das tácticas da alienação mental a que as televisões nacionais se dedicam nos nossos dias e que não tem rival nos tempos do Fascismo: é que então só havia futebol uma vez por semana, e já era um exagero; agora é todos os dias, de manhã à noite e pela madrugada, não vá alguma ideia iluminar a noite e dissipar os fantasmas políticos:

Serão após serão, quando não também ao longo do dia, os canais ditos informativos da televisão portuguesa derramam em nossas casas, para suposto proveito dos nossos olhos e ouvidos, para ocupação quase total da atenção e do interesse dos telespectadores, horas e horas de debates entre especialistas em futebol, entrevistas, polémicas, algumas intrigas. É uma estratégia de informação televisiva que de facto sugere que «o que nós queremos é futebol», isto é, que prossegue a operação de convencimento que o fascismo tentara praticar em 45 com débil meio. Que tende a convencer-nos disso. É a versão aperfeiçoada do 
«clorofórmio a domicílio» de que falou o poeta.
*Este artigo foi publicado no “Avante! Nº 2111, 15.05.2014
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