Europa Capitalista e Suspensão do Sentido da Vida


PEDRO MOTA
 

Sem dúvida que algo não está bem por sob esta licença de consumo, de vandalismo inestético e de poluição do ambiente, da natureza e das cidades, encovada nesta falta pós-modernista de sinceridade e de gosto, onde os grafites, a improvisação e a fantasia tecnológica e calculada são elevados, pela comunicação de massas, ao plano das artes mais significativas do nosso tempo.
Com efeito, assoma com frequência, a consciências mais melindrosas, esse sentimento de contingência da vida, das relações humanas e do sistema da sociedade capitalista em que existimos. Mas esta realidade é, em certa medida, precisamente sustentada nesse próprio sentimento, que é um produto, mais do que do conhecimento da realidade objectiva do capitalismo, do egoísmo pós-moderno de indivíduos que vivem a farsa da autodeterminação (o seu mais recente faro é o anarquista pseudo-nietzschiano Michel Onfray, a que se seguirão outros, porque o capricho da moda é inerente a esta fase do capitalismo).
Trata-se de uma vontade de autodeterminação alucinada justamente pela voracidade do instante, pela voracidade incitada do consumo, pela volatilidade dos projectos, estes condicionados pela abstracção ubíqua sem valores chamada de capital. Apertados entre o sentimento de contingência e o narcisismo, os jovens podem revoltar-se de vez em quando mas sem consequência, bloqueados pelo seu individualismo pequeno-burguês e pelo fracasso da experiência socialista – ninguém sabe bem porquê –, sem vislumbrarem outra possibilidade que não, para além da festa da revolta, a de se adaptarem.
Este nome de “capital”parece possuir, por vezes, o poder inefável de um espírito divino grego mas agora caprichoso, desprovido de qualquer ideia de destino, outras vezes parece resultar simplesmente do acaso dos encontros e desencontros de múltiplos interesses de poder sem sentido que não o de apenas poder garantir uma certa ordem contra o caos completo e de criar e acautelar prazeres factícios e evanescentes, sem substância espiritual, social e ética.
Duvida-se, com efeito, seriamente da divindade. Ao comunismo, por causa do lastro ideológico perverso que se pegou à História contada pelos adversários e por causa do cerco capitalista mundial, também por causa de contradições internas e externas, colou-se a imagem de Império do Mal. Tornou-se o moderno substituto das guerras de religião.
O capitalismo, que trouxe a universalidade formal dos direitos humanos, teve de afiançar, embora de maneira condicional, direitos materiais, ainda que desiguais (veja-se a ideologia social-democrata da equidade de John Rawls), para sobreviver e crescer. Porém, medrou à custa da cupidez, da manipulação das consciências através da identificação mediática da razão com as situações de facto da experiência envolvente (Maquiavel dizia em O Príncipe que as pessoas são enganadas pelo que vêm, já que uma imagem, pois que se “palpa”,pesa mais do que mil palavras, flatus vocis). Medrou igualmente à custa de uma espécie de seriedade que é a do trabalho dedicado ao lucro e à produção de objectos de consumo para o conforto e a frivolidade, o que não satisfaz plenamente o que o homem espera quando se questiona sobre o sentido da vida, quando se questiona.
Tanto o luxo consumista, prazer sempre insatisfeito pelo seu carácter silencioso e tantas vezes efémero, quanto a pobreza, que também não deixa descansar, desviam o homem dessa pergunta sem a qual ele perde significação e valor.
Ainda experimentamos emergir o sentimento de viver naquilo que Hegel apelidou de “reino animal do espírito” (Fenomenologia do Espírito, 1807), tecno-economicamente pensado por Adam Smith em A Riqueza das Nações (1776) com os dezoito operários necessários para se fabricar um alfinete, e que tem o seu paralelo intangível no mundo essencialmente egocêntrico da burguesia, da sociedade civil de livre concorrência e de valores morais tradicionais repressivos, ainda úteis no presente, mas facilmente trocados e comutados (liberalmente) o mais das vezes quando se tornam obstáculos à exponenciação da mais-valia económica. 
Na passagem na qual Fernando Guerreiro, no seu Prefácio às Parábolas e Fragmentos de Franz Kafka, escreve que «A “suspensão do sentido” resulta, na parábola kafkiana, da parca existência de indícios narrativos explícitos (apesar do alto nível de concreticidade e da aparente familiaridade dos ingredientes narrativos) e da presença de muitas zonas de vazio ou indeterminação semântica»,[1]está implicitamente a dizer que a obra de Kafka é uma parábola do sem sentido essencial da sociedade burguesa, que não seja o projecto de desenvolver uma sociedade tecnológica, mais abundante e redistributiva, sob o princípio da justiça republicana na igualdade de direitos à integridade física e à relatividade moral, dentro das restrições da manutenção da ordem capitalista, ao gozo do seu corpo, à aprendizagem, à saúde e à propriedade (esta, como as outras mas mais do que essas, não de fatomas de jure, além do mais submetidas, seja ao princípio supremo da dignidade definida pelos poderes, que decide os limites de usufruto do corpo próprio, seja à sua relativização devida às contingências económico-político-militares, que pode tornar a conquista do direito ao voto, à escolha dos representantes políticos, superior ao direito à vida).
Enfim, o capitalismo é, neste aspecto, a unidade contraditória entre o dever nos direitos não universalizáveis de facto (os direitos são deveres porque não universalizáveis) e a realidade de facto que os usa pela garantia que dá aos estatutos e condições sociais e económicos não universalizáveis. Aparenta ser, pois, o fim das grandes narrativas.
Porém, sejamos honestos,e apesar das guerras endémicas, da reprodução das desigualdades matérias e da quase associação da medida dos valores às escolhas contingentes, por isso tomadas como absolutas, que conduzem ao sucesso no amor, no trabalho e na riqueza, faz do capitalismo a civilização mais avançada de sempre pela sua capacidade de auto-reforma.
O capitalismo da criatividade industrial sem fantasia deu lugar, desde a data histórica e simbólica de Maio de 68, à imaginação tecnológica festiva e multiplicadora de instâncias de realidade, mais ou menos virtuais. Uma classe operária, fundamental mas reduzida e moralmente desqualificada pelo aperfeiçoamento e generalização da robótica, apenas dominável em termos de invenção e de atualização pelos engenheiros mais especializados, esmagada pela rotina e pela baixa formação científica, política, económica e estética, em relação ao desenvolvimento que tiveram, personifica o sacrifício aos deuses vigilantes duma ambígua felicidade global.
A própria pequena burguesia, agora com acesso à formação superior, cujos filhos sofrem altas taxas de desemprego mas que são sustentados pela segurança social e sobretudo pelos pais, superou a anomia consciente das primeiras fases do capitalismo. A pequena e média burguesia reinventou, reconvertendo-os no modelo de verdade da vida, os valores privados da família, da responsabilidade no trabalho, da caridade pelos desprovidos, do conforto no lar e da felicidade medida pelo consumo de entretenimento e pelas viagens lúdicas, assim como a paixão pelas ciências da Natureza e pela tecnologia, aos quais o mundo humano parece confortavelmente resumir-se. As guerras, as crises económico-financeiras, a fome, a repressão do voto e o condicionamento manifesto da informação, quase sempre em geografias ultramarinas, surgem como desvios extra-europeus e extra-americanos, como actos de mau comportamento para com a substância plácida da vida por parte de gente incivilizada. A sociedade burguesa é glorificada como a finalidade e o fim da História.
Restam, com efeito, os grandes continentes, onde a miséria, física e moral, é incomensurável, fonte de matérias-primas e de mão-de-obra baratas, assim como de um consequente e fomentado primitivismo religioso. A divisão social do trabalho em regime capitalista mundializou-se.
Portanto, Kafka já não pertence ao nosso mundo, o da segunda metade do Século XX e dos princípios do Século XXI, que é o melhor dos mundo possíveis, o mundo das maravilhas tecnológicas, da liberdade de imprensa e da luta pelos direitos humanos, apenas assombrado pelo medo ambientalista.
Com efeito, João Barrento nota nesse Prefácio que «O universo de Kafka, de uma obra cujo destinatário é a “pequena burguesia planetária” do século XX, é o da pura contingência. Nele não há lugar, nem para o sentido da necessidade, nem para a grandeza da culpa trágica, […] Quando muito, o universo de Kafka será o do agonismo terminal da decadência europeia até à Segunda Grande Guerra, bem diferente do sentimento dominante no pós-guerra. Num dos seus ensaios sobre Kafka, em Os Testamentos Traídos, Milan Kundera distingue o mundo de Kafka, onde as personagens eram culpabilizadas pela autoridade do pai, do “mundo do rock”, o dos anos cinquenta, em que os pais foram carregados com um tal peso de culpabilidade que… permitem tudo. Então, conclui Kundera, [com algum alívio pelo desaparecimento das grandes exigências épicas dos regimes comunistas] “os inculpabilizáveis dançam” (e anuncia-se o anything goes da era pós-moderna).»[2]
E, no entanto, algo resta neste nosso mundo dessa atitude existencialista: as suas raízes na disposição anómica, reflectidas e cultivadas pelos filósofos e romancistas que as procuraram remediar, sem contudo escaparem ao individualismo socialmente indiferente, sem valores que o transcendam na realidade mundana, que está na sua origem, assim como ao seu contraponto na festividade vazia e comercial dos nossos dias, apenas pontuado por alguma revoltas da subjectividade e do sentimento de injustiça da sociedade para comigo.


[1] BARRENTO, J, “Prefácio” a KAFKA, Franz, Parábolas e Fragmentos (2004), trad. João Barrento, Assírio & Alvim, Lisboa, p. 13.
[2] Ibidem, pp. 17-18.

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