O que é a Filosofia – Uma Resposta Simples

 
Quando te perguntam se conheces a cidade de Lisboa, tu respondes que sim. Vives lá, sabes onde ficam as coisas que te interessam e és capaz de te orientar nela.
Porém, há pessoas que sabem um pouco mais do que isso. São os estudiosos de Lisboa: os olissipógrafos ou olissipólogos. Estes esclarecer-te-ão que não conheces realmente a cidade onde vives: nunca prestaste atenção à estrutura urbana, aos estilo dos edifícios, não conheces a história da cidade nem te preocupas muito com os seus problemas e o futuro que ela pode ou deve seguir. Um olissipólogo dir-te-á que para teres um conhecimento autêntico da cidade de Lisboa precisarás de descobrir os factos que preenchem a História e o presente da urbe e de estudar História, Geografia, Urbanismo, Arquitectura, Economia, Política, etc., para poderes explicá-los.
Perguntamos agora: um olissipólogo é um filósofo, faz Filosofia? Respondemos que não.  Um estudioso de Lisboa tem por objectivo descobrir factos acerca da cidade e organizá-los na forma de uma narrativa ou de uma explicação. Um filósofo não tem por papel acrescentar ao conhecimento factos empíricos novos e encontrar uma explicação para eles mas procura interrogar, por exemplo, por mais estranho que pareça, em que consiste precisamente um facto, deve questionar se os factos são objectivos ou se estão necessariamente constituídos ou contaminados com a nossa maneira de organizar os dados sensíveis, com a projecção dos nossos valores, com os nossos objectivos, com as nossas interpretações pragmáticas, éticas, políticas, metodológicas, científicas. O filósofo quer saber, portanto, se estamos equivocados ou não quando julgamos conhecer determinada coisa.
Um filósofo, quando faz Filosofia, é claro, é o estudioso do que há de mais geral e de fundamental. O que é que isto quer dizer? Simplesmente o seguinte: Ele pensa sobre a eventual base comum das coisas e procura saber se é preciso compreendê-las num todo que as liga e sem o qual não existem. Haverá quem ache que sim, outros acham que não.
Este é o que se chama de problema ontológico ou de como é o ser das coisa, da substância de que elas são em geral feitas. O filósofo quer saber o que há de originário, primordial e o que tem a primazia, o papel dominante na constituição do Universo. Há quem afirme (são os que acreditam na existência de um ser criador) que tudo provém de uma origem espiritual, que tudo é o resultado de um poder espiritual de criação. São os idealistas. Outros dir-te-ão que só houve e há Natureza e que, portanto, as coisas têm origem material e são feitas de matéria. São os materialistas. Há ainda outros que declaram ser impossível tomar posição sobre isso, que jamais haveremos de saber qual é a origem, o que há de primordial e o que tem a primazia em tudo isto que existe, em tudo o que nos rodeia e naquilo que somos. São os agnósticos. É a questão fundamental da Filosofia.
A última resposta possível a esta questão faz-nos ter a ideia de que para podermos responder à questão fundamental da Filosofia é preciso ter também resposta para a segunda questão fundamental da Filosofia: O que é o conhecimento?
Esta questão divide-se, por sua vez, noutras que remetem para aquela: a) Qual a natureza ou essência do conhecimento relativamente ao sujeito: espiritual ou material?; b) Qual a origem do conhecimento relativamente ao objecto: inato ou adquirido? c) Qual o alcance do conhecimento: podemos conhecer as coisas como são (há uma verdade universal sobre a maneira de ser das coisas, naturais e humanas, que podemos alcançar), podemos conhecer apenas a maneira como somos afectados na forma de impressões sensíveis que simplesmente associamos umas às outras, sem nada poder conhecer de uma suposta realidade que esteja para lá dessas meras sensações, ou fazemo-lo através de um modelo inato ou a priori de conhecimento, ou seja, de uma forma de conhecer que organiza ou estrutura à maneira humana, subjectivamente, os dados sensíveis para lhes conferir uma ordem, cognitiva, ética, estética, na qual, por se adaptar às nossas necessidades e ilusões, nos podemos orientar de uma maneira mais ou menos adequada (“o Homem é medida de todas as coisas, das que são e das que não são”, dizia Protágoras; “sem um plano de conhecimento que está a priori no nosso entendimento seríamos cegos, nada poderíamos saber”, afirmava Kant)?
A verdade é que a resposta à segunda questão (Conhecemos e como?) depende da resposta à primeira (O que é a realidade?). Se afirmo conhecer de maneira inata, como ser espiritual e que, por isso, conheço ou não posso conhecer a realidade; ou se afirmo conhecer ou julgar conhecer através das funções materiais do meu organismo e, eventualmente, das relações sociais nas quais estou envolvido – tive primeiro que decidir o que sou (ser material ou espiritual) e qual é a substância primordial e que tem a primazia, o papel dominante, no Universo (Espírito ou Matéria).

 

E, então, partindo destas questões gerais, o filósofo também poderá contribuir para esclarecer questões como “o que somos, de onde viemos, o que devemos esperar”, que Kant tinha considerado serem aquelas cuja resposta se espera da Filosofia, falar da cidade de Lisboa, por exemplo, procurar saber o que é uma cidade e qual o seu papel na nossa vida espiritual e material, qual será o seu futuro e como podemos viver melhor nela, que papel deve ter na construção de uma “vida boa”, que era para Aristóteles o fim último da política, o urbanismo, a habitação, os transportes, os jardins, a relação do povo com o poder, a justiça, os planos directores, etc., no caso concreto da nossa bela mas tão maltratada urbe.
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