Já Não se Cantam Odes a Pátrias (Pedro Mota, A Matéria Humana)

 
XXXIV
já não se cantam odes a pátrias
depois do acordo geral de comércio
 
o que fica é um caldo de culturas
em que arrivistas sem passaporte engordam
de trabalho infantil
de tráfico de droga
de escravatura branca
e escravatura negra
em que auto-estradas de informação
misturam numa salada de mundos
as mil e uma crenças num ruído de feira
em que forças de trabalho e capitais
e empresas são deslocadas pela lógica
da economia universal
 
a própria “esquerda” cosmopolitou-se
 
misture-se tudo salde-se tudo em fim
de estação das identidades
em função da relatividade
dos valores
 
O que sairá depois para além de uma moeda
única e da fruta normalizada
é o respeito internacional pelas vacas
a construção de um monumento ao índio
que enterrou vivo o seu pai velho A glória ao chefe guarani
por ter violado uma loura
a barra que acusou de crimes ciganos os próprios ciganos
 
Vai mesmo tirar-se da constituição a palavra povo
 
Somos pessoas
afinal de contas
e as contas que contam são as bancárias
que têm nomes e sigilos
e todos os segredos de almas negociadas
 
e se é certo que tudo isto é verdade
para quê nos indignarmos
se essa coisa de valores de destinos nacionais
de identidades culturais
já de nada serve a quem pode e a quem manda
se nunca na verdade se soube bem o que tudo
isso era
 
se foi alguma coisa
se foi essência
se nasceu de suposta
precisão ou vontade
de dar sentido
de uma certeza
que é esculpida
na diferença
 
ou se foi apenas ilusão
que bem pudéramos
passar e melhor sem ela


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