O Capitalismo ou Os Limites da Vida

Nasce. Aprende a defender-te do egoísmo dos outros, a seduzir o pensamento e o desejo alheios. Estuda matemática, línguas, ciências naturais, engenharia, medicina e economia.
Torna-te empreendedor, criando com um capital inicial do teu pai ou herdando-o, e com um eventual crédito do Estado, uma empresa de bens tangíveis (batatas, televisores, mísseis de curto e longo alcance, medicamentos, auto-estradas, arranha-céus que rivalizam uns com os outros), ou então uma companha de serviços, por exemplo, de seguros, de ideias criativas, de solução de conflitos jurídicos, ou mesmo uma sociedade de capitais como as de especulação financeira, de compra e venda de dinheiro pelo valor de mercado do trabalho humano abstracto convertido em moeda intangível.
Enriquece, paga o teus impostos para que os menos abastados usufruam dos bens essenciais e não se revoltem contra ti – até porque tens bom coração -, cria uma fundação destinada à luta contra a fome, as doenças ou o analfabetismo, para que elas não se abatam também sobre ti.
Defende a lei do sistema democrático, que garante a propriedade privada dos meios de produção e o voto do suposto livre-arbítrio do cidadão, educado no respeito pelo auto-referendo do sistema. Vota para elegeres os políticos que defendem os teus interesses produtivos, mercantis e morais. Faze-te sócio do Clube de Bilderberg e de um clube de futebol.
Torna tua a moral que jura a igualdade de todos perante a lei e o direito de jogarem na lota social.
Faz pelo menos dois filhos para prosseguirem a tua obra.
Tens a vida cumprida. Podes morrer.
 
E quem te pode contestar neste tempo em que parece não haver valores sociais superiores ao da inviolabilidade da propriedade privada dos meios de produção, quando outros interesses político-económicos não forem ainda mais relevantes, pois nem parece possível haver relações económicas racionais senão as da compra e venda de força de trabalho e de bens na lota do mercado?
E é assim a vida, quase toda ela, menos o nascimento, o amor e a morte, alguns copos no bar e umas viagens de férias na superfície aparente das paisagens cada vez mais raras.
O resto são utopias que não levam em conta o necessário incremento tecnológico da produção, do consumo, da competição que ao mesmo tempo é estimulado por eles e os promove, gerando também o egoísmo – motor psicológico do progresso.
O resto são utopias que ignoram as precisões de protecção contra os elementos, de divertimento, de saúde; e, na verdade, é só deste pão e dessa luta que vive o homem.
Parafraseando Leibniz, o capitalismo é o melhor dos mundos possíveis, porque a realidade, porque é realidade, só pode ser racional. E portanto é, por isso mesmo, natural que haja homens que tenham muito e outros quase nada, uns que trabalhem para a riqueza de outros e outros que vivam do trabalho daqueles,  e é também natural que existam os que procuram uma aparência de verdade que será usada pelos empresários e seus ideólogos assalariados para a promoção da mentira em reforço do seu poder político e económico.

 


Bebam só mais um copo.
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