Platão e Marx – O Pseudo-Marxismo

Por vezes, os marxistas, mesmo os intelectuais, deixam de se exigir o respeito pelos princípios e métodos do materialismo histórico-dialéctico, tendendo a esquematizar a realidade por força da preguiça intelectual e sobretudo pelas contradições de classes (agora cada vez mais inconscientes por força das circunstâncias políticas) que incentiva uma visão maniqueísta do mundo. Ficam com o nome de marxistas, apesar de nesse momento deixarem de o ser. Tal fraqueza é aproveitada pelos adversários, que censuram o marxismo tomando o falso pelo verdadeiro. Em todos os domínios do conhecimento e da práxis política e produtiva tal acontece. Não admira que ainda por vezes isso passe para a própria interpretação dos factos históricos e da sua relação com o desenvolvimento do pensamento filosófico, e que até se transfira para a visão geral que as pessoas, e outros intelectuais não marxistas, têm da sua História, política, social, económica e filosófica.

 

Dou aqui um simples exemplo, o da interpretação mecânica da relação entre pensamento e ser, entre a consciência socialmente constituída sob a forma de doutrinas e teorias e a sociedade que se organiza e produz, no importantíssimo estudo da sociedade helénica para a compreensão da nossa História, exemplo que deve chamar a atenção para a necessidade de, se os marxistas querem ser levados a sério na actividade teórica, têm que ser fiéis a si próprios na exigência dos seus métodos e princípios.

 

Não é evidente que os gregos tivessem um pensamento monolítico quanto a quaisquer dos domínios e níveis da realidade com que lidavam na teoria e na prática, da natureza, da sociedade, do ser humano. Um pensamento monolítico seria sinal duma civilização harmoniosa, não contraditória, na qual tudo seria bom para todos e a verdade, em consequência, única e evidente.

 

 

Quando se diz que havia um preconceito universalmente arreigado quanto ao trabalho e que só as actividades intelectuais e políticas eram consideradas autênticamente humanas, está-se a esquecer o que a esse propósito escreveram os próprios intelectuais helénicos, que seriam os que maior desprezo deveriam ter para com a praxis material.

 

 

Platão, o epítome do filósofo idealista, que passa por ser o mais intelectualista e preconceituoso contra o trabalho (físico, ou seja, explorador de minas, agrícola, construtor, artesanal e mercantil) e o amor (eros) sexual, escreve, nomeadamente em Politeia (por tradição renascentista traduzido impropriamente por A República), Livro VII, pela fala de Sócrates, numa passagem do diálogo situado em casa do rico e idoso Gláucon, dono de manufacturas militares, com um dos irmão de Platão, Gláucon, que as mais elevadas actividades intelectuais, como a matemática e a filosofia, devem, para além do seu supremo viso que é o conhecimento do Ser, servir os militares, os mercadores, os artesãos, e que a elevação ao conhecimento do Ser começa por procedimentos indutivos a partir das contradições da experiência sensorial, tanto na esfera da observação como na prática sexual, e finalmente que esse saber deve ser posto ao serviço da comunidade sob a forma de aperfeiçoamentos técnicos e políticos:

 

 

« – Ora bem. E vamos pôr a astronomia em terceiro lugar? Ou não te parece?
– Parece-me, sem dúvida, porquanto convém não só à agricultura e à navegação, mas não menos à arte militar, uma perfeita compreensão das estações, meses e anos.
– Divertes-me, por pareceres receoso da maioria, não vá afigurar-se-lhes que estás a prescrever estudos inúteis.» (República, 572 d-e)
É claro que há em Platão um desvalorizar do trabalho , desvalorizar sintomaticamente aliado do seu desprezo pela democracia directa ou representativa, mas é também claro que pela palavra de Gláucon ecoam as vozes dos mestres artesãos, dos donos de minas, dos mercadores e navegadores, assim como dos aristocratas que divisam o lucro na aplicação física, sobretudo militar mas também produtiva, do conhecimento, pois até estes não vivem do ar e o trabalho escravo ao seu serviço, por pouca inventiva técnica que incentivasse, mesmo assim não deixaria de ver com bons olhos algumas inovações mecânicas. O grande mito de Prometeu, que roubou o fogo aos deuses e ofereceu a tecnologia aos homens, é disso um reflexo ideológico.
Tal como todas as sociedades históricas, a Grécia é portanto, como o atestam as disputas filosóficas e ideológicas entre representantes pertencentes ou porta-vozes das classes sociais em conflito de interesses, uma unidade contraditória. É que a sociedade helénica (o marxismo não a poderia conceber doutro modo) não se apresenta (exemplificando um esquema básico que o vulgo gosta de fixar para ter a ilusão de que sabe) como uma dicotomia entre escravos e homens livres, mas, antes, como um mundo de interesses à vez comuns e de conflitos irredutíveis postos em acção pela aristocracia territorial, ociosa, militarista e exploradora, pelos agricultores, artesãos, comerciantes, pelos cidadãos pobres e dependentes, pelos metecos e escravos, e ainda pela fragmentação da Hélade numa multiplicidade de cidades-estado com regimes políticos muito diversos, frequentemente em guerra e que, de vez em quando, tinham que se unir para sobreviverem contra a investida de inimigos externos.
Numa sociedade tão conflituosa a todos os níveis, o monolitismo intelectual seria impossível.
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