Conhecimento, Práxis e Liberdade

1.1. Conhecimento e Representação. O conhecimento é uma função da vida psíquica e da actividade social consciente, que se manifesta por fenómenos de carácter representativo e objectivo.
1.2. Representação. Em termos gerais e psicológicos ou subjectivos é a apresentação no “espírito” dos objectos exteriores e mentais. Devemos distinguir entre
a) representação sensível: imagem memorizada de um objecto ou acontecimento, cuja definição e intensidade varia das silhuetas vagas e fugidias à imaginação eidética ou presença nítida e intensa duma figura perceptiva correspondente à recordação do facto (capacidade rara entre os adultos pela sua tendência para o pensamento abstracto), e
b) representação simbólica por substituição do objecto percebido ou real mediante marcas visuais ou sonoras articuladas que o significa. Em termos cognitivos ou objectivos consiste na expressão simbólica duma determinada relação característica entre as propriedades ou factores de um objecto fixado no pensamento, que para tal organiza metodologias (procedimentos gerais de investigação), estruturando-se em conexões lógicas (consistência dedutiva e demonstrativa) e formulações epistemológicas (enunciados objectivos).
1.3. A representação do objecto no sujeito cognitivo não se confunde com o objecto enquanto exterior ao sujeito, mesmo que seja interior a este quando é o caso de ocorrer sob a forma de experiência sentimental, moral ou estética. A representação é uma construção ideal do sujeito realizada segundo as propriedades observadas e relacionadas no objecto do conhecimento por esse mesmo sujeito.
1.4. Logo, o conhecimento não é passivo e directo mas inclui a reflexão sobre as próprias formas de representação.
Há que distinguir no acto do conhecimento: a) o sujeito, com as suas capacidades cognitivas adquiridas na práxis social; b) o objecto exterior ao reflexo consciente, ao pensamento; c) a representação do objecto pelo sujeito, determinada pela práxis social que conduz à produção ideal do conhecimento.
1.5. É a acção ou práxis material e social que leva o sujeito, ou melhor, os sujeitos na sua colaboração social, a distinguir o que é posto por si (a cor que muda com a luz, com a interferência das outras cores, com as paixões emocionais, com as preferências culturais, com a capacidade educada de discriminação e que desaparece com o ocaso; as ilusões visuais decepcionantes relativas ao reconhecimento da imperfeição da percepção do movimento, ao tamanho relativo dos objectos em função da distância e da interferência mútua; o paladar que muda com as flutuações constantes dos humores pessoais, com a mistura de outros condimentos, com o hábito e com a valorização ou rejeição cultural dos sabores e alimentos; as falsas inferências na comparação entre volumes e pesos, entre quantidades e alturas; os equívocos provocados pela centração perceptiva no corpo próprio quando por exemplo nos sentimos recuar quando um objecto paralelo avança ou quando julgamos que as coisas giram à nossa volta; a perplexidade e confusão animista diante da atracção magnética entre dois corpos inanimados, etc., etc.), o que, por seu lado, é posto pelas representações de origem social (a estranheza do dinheiro como realidade ao mesmo tempo física e poder supra sensível, assim como o aparecimento do dinheiro não-físico, carregado duma vitalidade ainda mais invisível e mágica; o conflito entre a razão e a fé, entre as ideias e a acção, entre a teoria e a prática, entre a natureza e a sociedade; a sobrevalorização da fantasia contra o enfrentamento dos factos; a oposição entre os impulsos básicos e as normas sociais, entre os valores e as relações humanas efectivas, entre o ideal e o real) e o que é objectivamente irredutível à ideologia, aos desejos, às mistificações.
Quando é frustrado o nosso poder sobre o real, quando somos levados ao fracasso ou à desilusão, pomos em causa as nossas ideias e práticas, questionamos a racionalidade do real, ou refugiamo-nos num plano mental da pura imaginação do espírito, inversão confortante mas quase sempre incomportável face às relações reais.
1.6. É em suma a acção prática que transforma o nosso conhecimento do mundo, é a práxis (Marx) que substitui o antropocentrismo, o sociocentrismo e o ideologismo pelo polimorfismo (Bachelard), pelo reconhecimento da multiplicidade de formas do real e das possibilidades da sua transfiguração em benefício ou prejuízo do homem.
O conhecimento é, em grande parte, a fixação mental provisória dos esquemas e conteúdos gerais e particulares da acção prática eficaz (Piaget). É o reflexo, altamente complexo, metódico e culturalmente mediado, desta.
1.7. Devemos, pois, entender, que o conhecimento não é um reflexo passivo da realidade. O sujeito para conhecer age sobre o real e o conhecimento é, então, o reflexo simbólico, lógico, epistemológico e prático das acções eficazes do sujeito (colectivo), isto é, que antecipam, reproduzem e criam em função das necessidades consciencializadas e das possibilidades objectivas para as satisfazer.
A prática como unidade da teoria e da acção constitui a realização efectiva do homem, a sua liberdade.
Anúncios