Arte Filosofia Ciência – Digressões (3)

 

 
Mas a ciência, enquanto tal, não pode ser criticada do exterior, se a entendermos como obra aberta, pelos seus próprios princípios e métodos, que incluem a consideração ponderada das interpretações especulativas e o uso das mais extravagantes hipóteses, sujeitas ao escrutínio da experiência, apoiada nos recursos técnicos e teóricos disponíveis, ou, no limite, à espera do aperfeiçoamento dialéctico dos meios.

Com certeza – já o dissemos – que não devemos desqualificar por completo a especulação, como o faz o positivismo radical, pois esta pode ser estimulante e levar mesmo a investigação a reorientar-se por vias fecundas até então insuspeitas e à exigência de criar novos métodos e instrumentos de prova. Não existem critérios ‘a priori’ que definam se um problema é científico ou não.[1] Todavia, é a ciência, enquanto processo de racionalização dos problemas da existência humana e das possibilidades da sua solução – sempre imperfeita e insatisfeita consigo mesma –, que tem a última e provisória palavra no âmbito do conhecimento.
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[1] À excepção, talvez, das tautologias e dos seus opostos, os paradoxos, das questões que implicam a sua própria resposta, afirmativa ou negativa. Karl Popper (Cf. Logik der Forschung, 1934) invoca a regra da “falsificabilidade” (a probabilidade prática duma teoria ser desmentida por um facto) contra a clássica “corroboração das hipóteses”. Mas o facto é que nem todos os conhecimentos foram ou podem ser presentemente demonstrados como falsificáveis. Deixarão por isso de serem verosímeis? O “facto” não poderá ser uma “anomalia real”? Para muitas das teorias foi apenas o caso de terem sido corrigidas, aperfeiçoadas, restringidas no seu alcance, como a mecânica de Newton. Além de que nenhuma observação ou experimentação, que nos dão os “factos”, é, ‘a priori’, isenta de erros, de teorias, de limites técnicos. Uma “falsificação” pode estar viciada. Esta regra aplica-se apenas a enunciados que desde logo já se sabe não terem solução teórica, por serem falsos problemas. Por exemplo: “Deus existe ou não?” é um falso problema porque quem o enuncia define à partida Deus como uma entidade que não é passível de observação directa ou material, instrumentalmente controlada. “Deus” só pode ser caracterizado pela sua própria definição, como aliás mostram as supostas “provas da existência de Deus”, desmontadas por Kant com justeza, mas usando doutro critério, lógico, por exemplo, de que a “existência” não é atributo “real” do sujeito dum juízo. Ou seja, não se pode tirar, à maneira escolástica, a existência da essência, o ‘definiens’ (a definição, de que a “existência” faria parte) do ‘definiendum’ (o definido), pois os nossos juízos não se fundam num conhecimento verdadeiro da essência, dado que não temos acesso racional, nem intuitivo, à coisa-em-si: o que “é por definição” “não é necessariamente pela sua realidade”. Cf. KANT, I., Kritik der Reinen Vernunft, B 622. Só por curiosidade, é de notar que a Escolástica medieval esteve longe de ser monolítica, tanto que, enquanto Anselmo, no seguimento da definição de Boécio, defende o argumento ontológico, ou o acesso do entendimento à realidade, Gaunilo contra-argumenta com a possibilidade dele autorizar a elevação de toda a imaginação à realidade e Tomás de Aquino identifica, em Deus (“acto puro”) essência e existência, sem que todavia possamos definir a sua essência, o que ele é em-si mas, desqualificando o pensamento humano, apenas temos a oportunidade de conhecer o que ele próprio, por analogias, dá a ver de si. É “quase” como a assunção tácita do não-ser de Deus, ou, talvez melhor, da pura intencionalidade de Deus, tendo o mundo e os acontecimentos como seus ob-jectos, cuidando assim da “criação”. A dita prova de Anselmo foi, entretanto, ressuscitada por Descartes, tão atacado, pelo seu dualismo e substancialismo racionalista, por Merleau-Ponty, este mesmo devedor, via Brentano e Husserl, da noção escolástica de intencionalidade, na qual, doravante segundo o Existencialismo, invertendo os valores ontológicos, essência e existência se refundem na existência, no acto mental sensível, na múltipla ecceidade das coisas, que é essencialmente “visão”.
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