Eco e Narciso – Poema (Pedro Mota, A Matéria Humana)

 
 
XVIII
onde está o sentido das raízes senão
no sentido das folhas
O sol empunha uma língua de fogo
que cresta a enrugada pele da vaca
do mundo
ressacando os veios de água
lamentando-se a pesada terra
em cavas tosses nas grutas
Os lagartos bebem um relento seco
longamente
como pássaros caídos no pó que o ar fora
Há uma morte exterior
que engana o dia deitado nas rochas
e o homem que se perdeu na senda
bifurcada
senta-se à sombra do seu pensamento
e murmura
mas não ouve a sua voz não
Ouve arrancada às pedras cavernosas
um distante eco de ossos brancos
limpos pelo tempo inerte ali sentado
Desses ossos fala então uma nova musculatura
e em breve a pele hidratada por fonte obscura
dá feição a uma matéria humana
Os seus cabelos enchem-se de folhas verdes
viçosas trepadeiras que se enleiam
na cabeça incendiada do homem na sombra
O sol vermelho é uma sua imagem
mergulhando no horizonte da fractura
Ela abre-se e fala
ele ouve e adentra-se
descobriu o veio de água
escavou numa concha
um vórtice de mãos
e nas ondas delas viu
uma ondina dentro
Eco Eco
disse ela
Deixa-me ver se és
se não és e és
imagem disse ele
e viu por sua vez
crescer os seus pés
nesses ossos dela


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